representatividade na escrita e se este aluno sofre algum tipo de preconceito, no qual gera a desvalorização do indivíduo, devido a sua origem rural e cultura.
2 Revisão Bibliográfica
Marcos Bagno (2008) descreve a frase “a língua voa, a mão se arrasta” para indicar como a linguagem falada é rápida e ágil em comparação com as normas de escrita, que busca nas adaptações elementos para estabelecer a comunicação com o uso da lógica na ação de flexionar, resgata suas referências arcaicas de suas origens, na capacidade de se adaptar ao meio e, ao mesmo tempo, aos seus usuários.
A língua é viva e está em constante transformação, porém, ao mesmo tempo, permite a seus usuários que, por uma questão geográfica, isto é, privadas do convívio, das novidades da cidade grande ou das grandes metrópoles, mantenha certos aspectos que remontam a língua original (latim) falada como era no início da colonização, fenômenoeste chamado de arcaísmo, é muito comum nas zonas rurais. (Bagno, 2008).
Muitos são os aspectos que permitem essa pluralidade dentro de uma mesma língua, fatores sociais e as inter-relações que afetam como os educandos irão estruturar a sua linguagem e sua relação com o mundo.
No reconhecimento e valorização do conteúdo que os educandos trazem de casa, ajudá-los a desenvolver e estruturar o conhecimento, a relação com o outro, o significado das palavras, Freitas (2003) estudou os trabalhos desenvolvidos por Vygotsky nos quais palavras sem significado são apenas sons vazios, cada palavra dita pertence a um conceito e são atos de pensamentos.
Freitas (2003) comenta que, para Bakhtin, o indivíduo desenvolve sua fala interna (discurso interior e monólogo), o dialogismo, no qual, numa esfera social, torna-se linguagem, unindo a fala (aspecto individual) e a língua (aspecto social), constituindo-se uma realidade dialógica.
(...) não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc.A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou um sentido ideológico ou vivencial. (BAKHTIN, 1988)(...) o centro de gravidade da língua não reside na conformidade à norma da forma utilizada, mas na nova significação que essa forma adquire no contexto. (BAKHTIN, 1988)(...) que qualquer palavra existe para o falante em seustrês aspectos: como palavra neutra da língua, (...) como palavras alheias, cheia de ecos, (...) que pertence a outras pessoas, (...) como minhas palavras, porque, posto que eu a uso em uma situação determinada e com uma intenção discursiva determinada. (BAKHTIN, 1985)
O valor de um povo se dá naquilo que ele pôde relatar de forma registrada na escrita e posteriormente ser lido numa junção de códigos, grafemas e fonemas. O valor social da escrita se dá no reconhecimento dos documentos, dos registros, por exemplo: um contrato só é válido, contestado, requerido, homologado, lido e reconhecido por seus pares, portanto a linguagem escrita é fundamental para a inclusão e ascensão do indivíduo na sociedade.
Para Soares (2012), (...) a língua escrita não é uma mera representação da língua oral, continua explicando que: (...) há uma especificidade morfológica, sintática e semântica da língua escrita, (...) mesmo quando se fala em situações formais; não se fala como se escreve (...).
Tais reflexões são aqui desenvolvidas com base nos estudos que serão direcionados a pesquisa de campo.
3 Metodologia
O procedimento de pesquisa adotado teve como ferramentas a coleta de dados e aplicação de um questionário com respostas de múltipla escolha e recolha de entrevistas a
docentes, coordenadores e diretores das unidades de ensino, que foram realizados no período de quinze dias.
A pesquisa de campo foi aplicada em duas escolas, sendo uma municipal de Nova Odessa e uma particular na cidade de Americana, ambas no interior do Estado de São Paulo.
Visou abordar variadas percepções apontadas pelo corpo docente, sobre a variação linguística e a fala caipira presentes na região, entendendo que essas unidades de ensino irão atender, em seu quadro de educando, um público diversificado.
A escolha destas instituições de ensino se deu devido à facilidade de acesso por meio de estágio e vínculo empregatício das pesquisadoras.
O roteiro com as dez questões foi elaborado com perguntas que permitiram refletir sobre a percepção do assunto abordando ‘a fala caipira’.
4 Resultados e Dimensões
O gráfico apresentado a seguir informa nos em valores as opiniões de vários especialistas e docentes que estão atuantes nas instituições de ensino.
Fizemos as interpretações e cometários na sequência da esquerda para a direita.
Figura 1:A fala caipira no âmbito escolar Fonte: Elaborado pela própria pesquisa.
Podemos afirmar, através da pesquisa realizada, que há um número excessivo de educandos com a fala caipira como exibe as primeiras colunas do gráfico. Trabalhamos este assunto no estudo apresentado à disciplina de letramento deste ano, do curso de Pedagogia realizado na Faculdade Network, no qual pudemos constatar que o povo brasileiro foi formado por vários povos, oriundos de toda parte do globo e, desta maneira, recebemos contribuições múltiplas para a formação da nossa fala. Na Novela linguística de Bagno (2006), este comenta que “no Brasil não se fala uma só língua. Existem mais de duzentas línguas ainda faladas em diversos pontos do país pelos sobreviventes das antigas nações indígenas (...)”.
Por outro lado, no segundo grupo de colunas, existe uma interferência visível da fala caipira na aprendizagem, confirmado pelos docentes que indicaram que as marcas presentes na linguagem poderão influenciar na aprendizagem se ela não for bem trabalhada em um contexto, no qual, os saberes são organizados e sistematizados, porém, as marcas na linguagem, não impede que os alunos estabeleçam a comunicação com os colegas e com os adultos envolvidos de forma direta e indireta no processo da alfabetização.
Os educadores são unânimes em reconhecer que a fala caipira representa uma cultura, pois, segundo os profissionais da área a linguagem caracteriza o homem do campo, este urbanizado que não perdera suas raízes, nem suas origens.
Voltamos a nosso tema no estudo para a disciplina de Letramento, em que comentamos o orgulho de sermos caipira. O jornalista Lucas Reis escreve para o jornal A Folha de São Paulo online “(...) Mas o sucesso da equipe que completa cem anos em 2013 está na ‘força caipira’. (...) A cidade está mobilizada pela volta do XV, (...) mas sem perder o jeito caipira. O "carpires", aliás, pode virar moda no Paulistão. (...) Nos jogos do XV, o paulistano terá de se acostumar com o famoso hino caipira, que fala em ‘cáxara de forfe e cúspere de grilo’(...)”.
Segundo consta no gráfico, em alguns casos, a fala caipira é representada na escrita. O conhecimento que as crianças se apropriam, quando percebem que a escrita é uma representação da fala, reproduz o seu repertório de palavras do modo que a verbaliza, utilizando os grafemas da escrita. Cabendo ao professor ajudá-las na construção dos seus saberes, tendo acesso a materiais como revistas, jornais, gibis, livros e historias com os gêneros linguísticos diversos. É através do contato contínuo que enriquecerão os seus glossários de palavras, promovendo assim, os seus saberes, através do letramento.
De acordo com Freire, que estudou o tema com base na Psicogênese da Língua Escrita informa que (...) para ensinar a ler e escrever faz-se necessário compreender que os/as alfabetizando/as terão que lidar com dois processos paralelos: as características do sistema de escrita e o uso funcional da linguagem. Segundo Ferreiro e Teberosky (1986), nos orientam:
(...) a criança procura ativamente compreender a natureza da linguagem que se fala à sua volta, e (...) tratando de compreendê-la, formula hipóteses, busca regularidades, coloca à prova suas antecipações e cria sua própria gramática. (...) ao tomar contato com os sistemas de escrita, a criança, através de processos mentais, praticamente reinventa esses sistemas, realizando um trabalho concomitante de compreensão da construção e de suas regras de produção/decodificação.
Na ocasião, a maioria dos docentes trabalhava uma atividade específica dos conteúdos que aparecem nas diversas falas regionalizadas em suas aulas, não só abordam a fala caipira, mas a mineira, a sertaneja, a sulista. Endossam-na com aspectos visuais, sendo estes: imagens, textos incluindo os suportes gibis e folhetos de literatura de cordel, vídeos e culinárias.
Apresentam os conteúdos, intercalando-os aos saberes na forma de interdisciplinaridades. São conceitos abordados por Angela Kleiman visandocontrapor a fragmentação e a linearidade do currículo.
A valorização da escola quanto à linguagem está presente reproduzindo as ideias, conhecimentos prévios, pois todos os seres que fazem uso da comunicação possuem vivências que não podem ser desprezadas, desse modo permite que construa novos conhecimentos, com conexões entre o que sabem e o que precisam saber. Vygotsky() defende que os processos psicológicos mais complexos também conhecidos como funções psicológicas superiores, que são as que diferenciam os humanos dos outros animais, formam-se e desenvolvem-se pelo aprendizado. Na interação, na troca com o outro é que estabelece a relação entre pensamento e linguagem.
Vygotsky (1987) orienta: “É através da mediação, da relação com o outro, que se dá linguagem e que se consolida a cultura à qual pertence o sujeito”.
Mario Ferrari (2008) explica que, segundo Vygotsky (1987), a intervenção pedagógica provoca avanços que não ocorreriam espontaneamente. É na mediação escolar e na interação entre os professores e alunos, que tornam o aprendizado mais ativo e determinante, facilitando, assim, o processo, que só pode ser conduzido pelo próprio aluno.
Vale ressaltar que a valorização do conhecimento e da cultura do homem do campo está sendo trabalhada na escola resgatando valores, desde aquele que produz os alimentos que são servidos à nossa mesa e que nos alimentam, à musicalidade, programas de rádio e televisivo.
Buscamos uma visão socialista da valorização do trabalho e uma apreciação do produto deste trabalho. Nesse sentido, o homem, fará mudança em uma massificação ideológica de que só há prestigio naquilo que é produzido na cidade ou fruto dela.
Ficou evidente, nas últimas colunas, que a luta contra o preconceito está sendo realizada de forma direta, de modo a se extinguir esta prática nas relações, que o nosso trabalho como educador deverá sempre ser de modo que construa nos indivíduos uma valorização das múltiplas culturas. Para que não haja critérios de valores, depreciação ou hipervalorização, principalmente da língua culta no Português Padrão. Bagno (2006) comenta que, devido a distância de certos vilarejos do interior, ainda preservam na fala, traços e marcas pertencente ao latim e também são reproduzidos no Espanhol, que não acompanhou as mudanças da língua e as suas variações de proximidade e troca com outros falantes. A língua se mostra assim, como produto vivo e em constante modificação, produtora de cultura se utilizada em um contexto social.
A interação da fala culta em relação à fala caipira do educando é feita de forma coletiva e individual. A questão aborda como ocorrem as interferências dos professores junto aos alunos, os docentes ficaram tranquilos em responder que a fazem com múltiplasformas na abordagem. Utilizam a orientação geral para os educandos, alertando para a forma padrão tanto da fala como da escrita. E só em momentos específicos é que interferem de forma particular e pessoal junto ao indivíduo.
A construção do saber basicamente é feita através das práticas que os docentes utilizam na construção dos conhecimentos, conceitos gerais e particulares, como veem este assunto, e como pensam as metodologias e a exposição dos temas. São unânimes em tratá-las com ações intencionais, apresentando-as de modo positiva e interativa, promovendo, através do letramento,acesso variado à linguagem escrita do português padrão e das formas regionalizadas da fala.
Percebemos que o nosso passado colonialteve como consequência, uma descriminação cultural, na qual os menos afortunados são marginalizados, desvalidos de estudos e sem ampliação dos seus conhecimentos, prevalecendo uma visão de inferioridade e que perdura até os dias de hoje, na qual os estudos e o acesso ao conhecimento seguem de forma elitizada, sobretudo, podemos compreender, através das pesquisas, que os professores foram unânimes em conduzir esta situação para novos caminhos, trazendo ferramentas de apoio, como uma boa leitura atuando na socialização dos conteúdos e sendo dirigida aos alunos, descobrindo, através de dicionários, palavras relativamente incomuns, levantando hipóteses de argumentação, prestigiando a música caipira e construindo saberes subjetivos.
Todos estes saberes foram evoluindo e são adquiridos hoje de certa forma muito mais acessível, estão acontecendo tanto na instituição particular como de escola municipal.
Promovem o acesso em ambientes virtuais, em que a aproximação de pessoas com culturas diferentes tornam-se cada vez mais comum, mostrando que é imprescindível que tratemos e sejamos tratados de forma respeitosa em relação à nossa cultura e valendo-se dos direitos que pela lei, é favorecido ao cidadão, facilitando, assim, a aproximação de diversas
regionalidades, destacando a importância de interagir com o diferente sem julgamentos ofensivos ou de preconceitos.
Constroem-se os nossos saberes não só pelas palavras verbalizadas em um determinado dialeto regional, mas sim, pela força das ideias, pelo poder que somente a comunicação verbal possui o de significar para quem fala e ter significado para quem ouve.
5 Considerações finais
A organização do crescimento intelectual resgata as essências e originalidades, prevalecendo o ato de manter-se a postura formal para ambientes que se exige tal desempenho e a informal para que se compreenda de forma recíproca a linguagem regional.
Com este estudo pudemos concluir o quanto os professores estão envolvidos com as problemáticas que surgem durante o processo de aprendizagem e de que forma ocorre a prática, embasadas nas teorias que são aplicadas em sala de aula.
Agradecimentos:
Agradecemos as instituições de ensino, aos especialistas e docentes que permitiram que realizássemos as pesquisas.Educação - SESI SP Local: Rua Professor Luiz Forini, 100 - Parque Universitário Americana/SP <www.sesisp.org.br>; EMEF “Prof.ª Alvina Maria Adamson”: Rua Aracaju, 215 - São Jorge Nova Odessa/SP
Referências
BAGNO, M. A língua de Eulália,novela Sociolinguística.São Paulo. Contexto, 2006.
FREITAS, M. T. de A.. Vygotsky e Bakhtin – Psicologia e Educação: um intertexto.São Paulo. Ática/ EDUFJF, 2003.
SOARES, M.Alfabetização e Letramento. São Paulo. Contexto, 2012.
SOUZA,A. E. de;PAUTZ,S.: A diversidade linguística no contexto
escolar.In:<http://jararaca.ufsm.br/websites/l&c/download/Artigos/07_L&C_1S/L&C1s07_A ntonio.pdf>. Acessado em 9 out 2013.
REIS,L.Força caipira move o XV para a elite. Jornal Folha de São Paulo Caderno Esporte.
online in:<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk1404201128.htm >. Acessado em 9 out 2013.
FREIRE, A.Contribuiçoes Teoricas de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. Manual da Prefeitura Municipal do Salvador. Disponível
In:<http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espaco-virtual/espaco- alfabetizar-letrar/lecto-escrita/artigos/referencial%20teorico%20%20-
%20Em%C3%ADlia%20Ferreiro.pdf>. Acessado em 9 out 2013.
FERRARI, M,Lev Vygotsky, o teórico do ensino como processo social. Reportagem para a revista Nova Escola, Especial Grandes Pensadores, outubro, 2008. Disponível
in:<http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/lev-vygotsky-teorico- 423354.shtml>.Acessado em: 9 out. 2013.