Acreditamos que em virtude de todo este processo de evolução e de racionalização do pensamento, o sagrado e o próprio Deus, enquanto dados a partir das instituições religiosas, começaram a fazer uma grande falta no cenário ético da civilização moderna. Com efeito, com o avanço dos tempos o homem e suas relações passaram a ser mais fragilizados, o que ocorreu por meio da fragmentação do pensamento e dos valores sagrados, como consequência dessa ação dessacralizante do mundo.
É importante não perder de vista a ligação estrita existente entre dessacralização e secularização, percebendo que uma é resultado da outra, pois na medida em que avança o processo de secularização, o “deixar de ser sagrado” das coisas cotidianas, acaba se intensificando mais visivelmente. Daí a necessidade de identificar como ocorre este processo de secularização e o modo como os seus efeitos vão se ampliando no que diz respeito à dessacralização do mundo.
Para compreender como Gianni Vattimo, usa do conceito de secularização para desenvolver sua ontologia debole, é de suma importância perceber como o fenômeno moderno da dessacralização vem crescendo e se fazendo presente ao longo dos tempos. Pois, como bem sabemos, ela se dá num processo de ruptura e negação da tradição e de fechamento do pensamento, não mais influenciado por uma sociedade cristã e fundamentado a partir de seus princípios, mas sim capaz de se refazer e de reinterpretar as suas motivações nestes tempos de fragmentação e pluralidade.
industrial”92. A falta do sentido de pertença ao todo e a perda do significado, são, em suma, as consequências funestas dessa evolução cultural.
Paralelamente, foi se desenvolvendo a preocupação, por parte de cientistas de todas as áreas, em denunciar a ação destrutiva da mentalidade mecanicista sobre a natureza, assim como os prejuízos ocasionados para a humanidade. O consenso era o de que a dessacralização gerara um mundo sem significado, uma cosmovisão dualista, materialista, mecanicista e altamente predatória. A noção do sagrado e do espiritual contém, em si mesma, um ethos, um sentido intrínseco de respeito e de compromisso emocional93.
Como efeito de um mundo “naturalmente” racional e mecanicista, o homem moderno renunciou ao discurso totalizante a fim de poder encarar tudo de maneira fragmentada.
Estabelece-se assim a dualidade entre razão e emoção, corpo e alma etc. É possível constatar que as especialidades e os especialistas da modernidade fomentaram uma visão fracionada das coisas e pessoas, tendo como ponto de partida a cisão entre a mente humana e a natureza. O homem moderno encontra-se num processo fragmentário que ainda atinge as verdades e credos.
Nisto se manifestam os reflexos da subjetividade pós-moderna e quanto o amparo da ciência contribuiu fortemente para o enaltecimento desta mentalidade fragmentada. É por isso que não se pode esquecer que com a opção de aderir a uma orientação mais racional o pensar científico passa a influenciar muito mais do que mesmo a religião ou o pensamento religioso.
Quando adentramos nas consequências desta visão fragmentada no Ocidente e percebemos os “danos” que esta postura traz em si, percebemos que, algumas doenças psíquicas que atualmente abalam nossa sociedade ou mesmo os nossos preconceitos e opiniões resistentes são resultados deste esquema de rupturas e dualismos. O Ocidente chegou ao ponto de se transformar numa sociedade esquizofrênica e esquizofrenizante, o que paradoxalmente se contrapõe ao modelo de vida do homem moderno, pois aquele que tem uma experiência social completamente pautada no racionalismo, por sua vez orienta sua vida de modo irracional. Um exemplo deste movimento é a ação dualista entre afeto e razão, entre material e espiritual. Existe uma perda de espontaneidade no comportamento, o que resulta num comportamento sinuoso entre a depressão e o desespero, entre uma privação exagerada do prazer e do gozo. Uma vez que nesta concepção de sociedade e indivíduo a ideia de ócio é proibida, instala-se na pessoa uma frustração generalizada e uma desarmonia consigo mesma, já que sua formação psíquica é totalmente regida por um dualismo incomunicável. “Além do mais, mesmo no interior do
92CAVALCANTI, 2000, p. 44.
93Idem, p. 39.
mundo ocidental cristão, o cristianismo não parece funcionar mais como elemento unificador94” ou mesmo apaziguante diante dessa angústia aparentemente generalizada do homem pós- moderno, que não encontra mais em si nem na religião um ponto de unidade ou mesmo de alento diante dos conflitos existenciais.
O pensiero debole é uma saída para se compreender a contemporaneidade. Ao mesmo tempo em que esta se vincula a uma tradição, se apropria desta, com a possibilidade da distorção, sem, contudo, cair na lógica moderna da superação para o novo e o melhor. Essa maneira de pensar, para além dos cânones da metafísica, é uma forma de pensar tolerante, aberta aos movimentos do tempo e disponível para se pensar as questões que o tempo presente coloca como pauta. Pensar enfraquecidamente representa, enquanto continuidade e ruptura com a modernidade, o fim desta, pois a lógica de um fundamento perene e forte é rompida e inaugura-se uma outra maneira de pensar, que permite colocar na pauta de discussões um mundo imerso em diversidades e colocar essas diversidades em diálogo, por meio de um fundamento hermenêutico, histórico e situado95.
Ao retomar, portanto, o conceito de Era do Espírito de Gioacchino da Fiori, podemos compreender que a perspectiva de Vattimo de uma Era da hermenêutica nos permite reconhecer o retorno do sagrado na pós-modernidade sob outro viés. Devemos deixar claro que com o processo de constatação da morte de Deus apontado por Nietzsche não se extingue a metafísica.
Muito pelo contrário, constata-se uma possibilidade de interpretação do mundo para além dos óculos das grandes estruturas ideológicas ou do pensamento forte. Primeiramente, vale ressaltar que o pensamento forte, fundado na metafísica, se dá num horizonte onde a pós-modernidade é tida como Era hermenêutica justamente porque nela é possível admitir o ser em devir, não somente como algo que é, conforme a rigidez metafísica. É essa possibilidade que pode ser denominada pensiero debole. De tal forma, é possível desconstruir as metanarrativas e os discursos de poder fundamentados na metafísica.
A ontologia hermenêutica proposta por Vattimo, levada a cabo como ontologia da atualidade, possibilita a compreensão das mudanças em curso e constitui grande esforço intelectivo de diagnóstico e análise da situação presente. Uma vez que a Filosofia tem hodiernamente passado à margem da problematização do papel da herança cristã a tecer e compor a cultura ocidental, o presente artigo objetiva resgatar a centralidade de tal tarefa para o fazer filosófico, a fim de iluminar a compreensão da paradoxal situação em
94CAVALCANTI, 2000, p. 44.
95ROTTERDAN; Sandson; SENRA, Flávio. O cristianismo não religioso de Gianni Vattimo:
considerações para o senso religioso contemporâneo. Religare, v. 12, n. 1, p. 103, jun. 2015.
que a vocação niilista da hermenêutica desenvolvida por Vattimo encontra-se imbricada junto aos veios da secularização cristã96.
Com base nisto começamos a visualizar a ideia de Vattimo quando se refere à era da hermenêutica. Esta perspectiva tem como centro a interpretação que decorre de experiências vividas, dadas pelo conhecimento, ou seja, o sujeito pensante alcança a coisa na medida em que é capaz de reconstruí-la a partir da forma que se manifesta nesta reconstrução. Logo, o ser não pode ser objetivamente alcançado. Dessa forma, Vattimo aponta para elementos que retratam diretamente esta presença continuada da hermenêutica:
1) a difusão dos meios de comunicação de massa, que, paradoxalmente não desenvolve tanto a consciência vaga e geral do seu caráter de agências interpretativas não neutras e “objetivas”;
2) a autoconsciência da historiografia, para a qual mesmo a ideia de história é um esquema retórico, que por conseguinte não pode mais valer como princípio de realidade em que confiava grande parte da filosofia moderna depois, e como alternativa, à fé empirista e positivista nos fatos verificáveis pela sensação ou a experimentação;
3)a palavra de ordem da multiplicidade das culturas, que, com a sua mesma consciência de códigos capazes de durar, desmentem uma ideia unitária, progressiva, de racionalidade;
4) a destruição psicanalítica da fé na “ultimidade” da consciência. E assim enumerando, até a teoria dos paradigmas amadurecida na mesma autoconsciência dos cientistas97.
Cabe-nos, no entanto, reconhecer que a hermenêutica não se reduz a um modo relativista de ver as coisas, mas consiste em uma observação acurada da maneira como a racionalidade pós-moderna adentra em nossas consciências. Vattimo diz que a hermenêutica pertence à tradição religiosa do Ocidente. É importante reconhecer esta tradição não apenas como mera tradição, mas como algo fundado na revelação escrita “que orienta o pensamento para reconhecer o lugar central da interpretação; nem apenas porque, libertando o pensamento do mito da objetividade, a hermenêutica abre, por sua vez, o caminho para escutar os muitos mitos religiosos da humanidade”98. Trata-se de perceber este movimento hermenêutico como a atualização do mistério da encarnação, que se atualiza na comunidade dos Crentes.
96SALES, Omar Lucas Perrout Fortes de. A vocação niilista da hermenêutica filosófica de Gianni Vattimo radicada no processo da secularização cristã. Horizonte, Belo Horizonte, v. 13, n. 39, p. 1582, jul./set. 2015.
97VATTIMO, Gianni. A Tentação do Realismo. Tradução de Reginaldo Di Piero. Rio de Janeiro:
Lacerda; Ed. Istituto Italiano di Cultura, 2001. p. 26-27.
98VATTIMO, Gianni. Para além da interpretação: o significado da hermenêutica para a filosofia.
Tradução de Raquel Paiva. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999. p.76.