O Estado é o garantidor fundamental para que se possa existir uma sociedade organizada, dando eficácia e garantia aos princípios e normas para que tenha viabilidade a organização social.
Sabe-se que para sua manutenção e garantia da eficiência, é necessário o reconhecimento do instituto de princípios norteadores nos inúmeros ramos específicos do ordenamento pátrio jurídico.
Dessa forma, os princípios elencados na Constituição da República de 1988 preceituam os direitos fundamentais, sendo este de extrema importância, sendo a essência matriz para a compreensão e estruturação de todo e qualquer raciocínio jurídico-normativo (BRASIL, 1988).
Segundo Nilo Batista, em seu livro “Introdução Crítica ao Direito Penal Brasileiro”:
A sociedade em que vivemos hoje, é regulamentada por normas criadas pelos seres humanos para trazer, acima de tudo, paz, igualdade e, dentre outros direitos previstos em nosso ordenamento jurídico, liberdade e fraternidade, garantindo determinada ordem econômica e social, chamada de controle social. Sendo assim, o direito penal existe para cumprir finalidades, para que algo se realize, não para o simples enaltecimento de valores eternos ou glorificação de paradigmas morais.
(BATISTA, 2007, p. 136).
Dessa forma, não há como determinar, precisamente, qual é a função da pena propriamente dita, há várias explicações para a função penalizadora, sendo defendida a cada vertente de pensamentos. No caso dos menores, é importante que haja um controle eficiente para analisar se as medidas aplicadas nas unidades acolhimento têm efetivado um reflexo positivo na vida do infrator e também analisar se há eficácia, de forma a garantir que haja menor reincidência de crimes, após o cumprimento da medida.
As formas de gestão da Fundação Casa são de origens pedagógicas, com atendimento escolar, visando a educação profissional, com atividades de esporte, lazer, arte e cultura
desenvolvidos em parcerias com ONGs, Ação educativa e CENPEC (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).
Importante trazer à baila os ensinamentos de Zaffaroni:
Urna leitura atenta das leis penais permite comprovar que a própria lei renuncia à legalidade e que o discurso jurídico-penal (saber penal) parece não perceber tal fato através da minimização jurídica reserva-se ao discurso jurídico-penal, supostamente, os "injustos graves"; através da "administrativização", consideram-se fora do discurso jurídico-penal as institucionalizações manicomiais, inclusive as dispostas pelo próprio órgão judicial; através da tutela são excluídas do discurso jurídico penal as institucionalizações dos menores; através do assistencialismo afasta-se totalmente do discurso penal a institucionalização dos anciões. (ZAFFARONI, 1991, p. 22-23).
Desta forma, demonstra-se que o objetivo da aplicação das medidas socioeducativas é propiciar o crescimento do indivíduo, tal qual cometeu infração, trazendo equilíbrio e equidade ao desenvolvimento de práticas e convivência social, ao qual o pertence aquele indivíduo, proporcionando apoio à sua inclusão como adolescente-cidadão protagonista de sua realidade e comprometido com a modificação do mundo que o cerca.
Isto posto, os programas de execução de medidas socioeducativas possibilitam aos adolescentes sua reconstituição como cidadãos. Sendo necessário que aprendam, através das medidas, novos conhecimentos e habilidades suscetíveis às características sociais, sendo-lhes permitida a preparação para o trabalho, o acesso ao desenvolvimento tecnológico, a participação crítica na vida política, ou seja, o acesso à cidadania.
4.2 Princípio do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente
O Princípio do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente é estabelecido pelo art.
3º do Estatuto da Criança e do Adolescente, no qual estabelece a proteção integral da criança e do adolescente ao qual são assegurados seus direitos e garantias fundamentais.
Essa proteção integral da criança e do adolescente é o alicerce do direito da infância e juventude, tendo sua aplicação limitada e situações de irregularidade. Assim, de acordo com Kátia Maciel, na vigência do Código de Menores, a aplicação do melhor interesse limitava se a crianças e adolescentes em situação irregular.
Agora, com a adoção da doutrina de proteção integral, a aplicação do referido princípio ganhou amplitude, aplicando-se a todo público infanto-juvenil, inclusive e principalmente nos litígios de natureza familiar. (MACIEL, 2010, p. 27).
Consoante a isso, importante demonstrar como as decisões dos Tribunais têm agido em relação à aplicação do Princípio do melhor interesse da criança, vejamos:
EMENTA: REEXAME NECESSÁRIO - MANDADO DE SEGURANÇA - MUNICÍPIO DE IPANEMA - MATRÍCULA NO 1º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL - ANO LETIVO DE 2016 - RETROCESSO - IMPOSSIBILIDADE - MELHOR INTERESSE DO MENOR - SENTENÇA MANTIDA. 1. O direito à educação é um dos mais caros direitos garantidos pela Constituição, que estabelece no artigo 205 que "a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". 2. Entendo que nos casos como o ora em análise, devem ser levados em consideração os riscos atinentes à escolarização precoce da criança, dentre eles, a insegurança e a desmotivação pelo aprendizado, além do encurtamento da primeira infância, com a diminuição da fase das brincadeiras que proporcionam vivências importantes à maturidade e ao próprio rendimento escolar. 3. Todavia, a despeito do meu entendimento, na específica hipótese dos autos, observo que a infante, foi matriculada no 1º ano do ensino fundamental em 2016, em obediência a liminar deferida em primeiro grau, já tendo atingido a idade exigida, motivo pelo qual ressai evidente que a reforma da sentença acarretaria o retrocesso da menor, ao lhe impingir o reingresso no período já cursado. 4. Sentença mantida. (MINAS GERAIS, 2019).
Conforme o exposto verifica-se que houve a sentença, na qual determinou a observância do Princípio do Melhor Interesse da Criança para que a esta fosse assegurada o pleno desenvolvimento, em razão da matrícula no ensino fundamental, facilitando o reingresso da menor para que não tenha seus direitos violados.
Acerca disso, a melhor doutrina preceitua que o princípio do melhor interesse da criança atinge todo o sistema jurídico nacional, tornando-se o vetor axiológico a ser seguido quando postos em causa os interesses da criança. Sua penetração no ordenamento jurídico tem o efeito de condicionar a interpretação das normas legais. Por isso, na aplicação da Convenção, o magistrado precisa ter em mente a aplicação do princípio de forma ampla, como, aliás, ocorre em diversos setores da normativa jurídica. (ARAÚJO, 2008, p.525).
Sendo assim, a proteção dos direitos da criança é um direito fundamental, servindo para garantir o pleno desenvolvimento e sua formação cidadã, em cumprimento aos preceitos constitucionais, notadamente no art. 227, da CF (BRASIL, 1988), impedindo abusos do poder, já que a criança é parte minoritária, a partir deste princípio, com status de parte hipossuficiente, tendo, por isso sua autonomia jurídica potencializada.
5 A (IN)EFICÁCIA DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS
A possível ineficácia da aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente é um dos principais argumentos utilizados para defender a Redução da Maioridade Penal. Assim, coloca em questão sobre a eficiência do Estatuto da Criança e do adolescente. Um dos principais pontos que podem ser levantados para análise é o cumprimento efetivo, a alteração nos prazos previstos para cumprimento de medidas socioeducativas e no prazo de internação para que possa garantir uma melhor integração do adolescente na casa de acolhimento, devendo haver um maior investimento em questões sociais, culturais e educacionais.
Necessário enfatizar a concepção sujeito-cidadão, diretamente ligada ao modelo de Estado adotado em um determinado tempo e espaço. Eis aí o dilema do socioeducador em seus aspectos sociológicos, conforme aborda Herbert Read:
O dilema do educador em seus aspectos sociológicos: A escolha então parece ser entre a variedade e a uniformidade: entre o conceito de sociedade como uma comunidade de pessoas que procuram o equilíbrio por meio da ajuda mútua; e uma concepção de sociedade como um grupo de pessoas necessárias para se orientarem em direção a um ideal. No primeiro caso, a educação é direcionada para o incentivo do crescimento de uma célula especializada em um corpo multiforme; no segundo caso, a educação é direcionada para a eliminação de todas as excentricidades e para a produção de uma massa uniforme. O segundo envolve uma concepção particular do Estado e dos direitos de seus cidadãos - como, na verdade, ocorre também com o primeiro. Em termos modernos, a escolha fica entre uma teoria totalitária e uma teoria democrática da educação. Embora, teoricamente, a democracia possa propor um ideal de "homem comum" ao qual todos os cidadãos devem se conformar, e que fará com que todas as diferenças sejam categoricamente eliminadas, essa que é uma concepção de democracia que só pode se harmonizar com uma mentalidade autoritária. Na prática democrática, cada indivíduo tem seus direitos inatos: ele não é um material que possa ser jogado em um molde e receber um selo de autenticação.
(READ, 2001, p. 4).
Diante desse entendimento, entende-se, desta forma que os programas socioeducativos podem favorecer o reconhecimento da capacidade do educando de se auto direcionar e se reconhecer em sociedade, acionando os meios intelectuais e emocionais para que sejam capazes de assumir o pleno uso de suas potencialidades físicas, intelectuais, morais e espirituais na orientação de sua própria formação.
Dessa maneira, à luz do que estabelece o artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente, temos então a finalidade maior da socioeducação:
Art. 3º: A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. (BRASIL, 1990, grifo nosso).
Nesse prisma, a socioeducação, sendo um processo de formação humana integral, torna-se imprescindível para a reprodução da vida, cooperando para trazer a própria identidade particularizada a cada pessoa. A socioeducação, estruturada a partir do desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, constitui-se como um espaço de oportunidades para o exercício da cidadania plena, no exercício de uma cotidianidade repleta de possibilidades para que os adolescentes possam constituir-se verdadeiramente como sujeitos de direitos e portadores genuínos da proteção integral.
Um dos principais motivos que podem corroborar com a eficiência das medidas previstas no Estatuto da Criança e do adolescente e suas sanções é a implantação e a efetivação de programas de execução de medidas socioeducativas em meio aberto, bem como incentivar a participação dos adolescentes e suas famílias no "fazer pedagógico".
Dessa forma, é possível estruturar uma intervenção pedagógica, no aspecto gestão, baseada na participação democrática, com abrangência e acompanhamento pelas famílias aos Programas de Atendimento Socioeducativo, oferecendo planejamento e monitoramento das ações do Programa de Execução de Medidas Socioeducativas, contemplando as peculiaridades e as singularidades dos participantes.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da concepção e implementação de políticas públicas para o adolescente infrator, para que seja bem efetivada a medida socioeducativa, em busca da efetividade e eficácia do Estatuto da criança e do Adolescente, tem-se que é necessária apresentação de propostas de políticas públicas para que seja solucionada a questão da violência.
Diante disso, pode-se observar que, a importância da conexão entre a socioeducação e a necessidade de implementar uma proposta pedagógica mais eficiente para que possa transformar os adolescentes infratores que são submetidos ao cumprimento de medidas socioeducativas.
Através das análises observou-se que há uma necessidade de tornar as medidas socioeducativas mais eficazes, esquivando-se da necessidade de aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição que viola preceitos de direitos e garantias fundamentais. Importante lembrar que o art. 60, §4º determina que a Constituição é cláusula pétrea o que impede que a Constituição sofra qualquer “mutação”.
No que tange à função das medidas socioeducativas, esta cumpre o importante papel consagrado pela Lei 8.069/1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente, com natureza jurídica pedagógica, atuando de forma repreensiva na preparação do menor que cometer ato ilícito, preparando este indivíduo para uma vida social, para que possam ser reeducados e reintegrados em sociedade, para o exercício da cidadania.
Os dados estatísticos do Conselho Nacional da Justiça confirmaram que o número de atos infracionais praticados por menores, nos casos de homicídio são 10% e nos casos de latrocínio são 2%, números ínfimos para que possa caracterizar aumento de violência.
Consoante a isso, é necessário aprimorar e investir mais nas casas de acolhimento para que possam reeducar os menores, trazendo a eles educação de qualidade se valendo da aplicação das medidas socioeducativas com natureza pedagógica, preparando-os para a convivência em sociedade.
O presente trabalho acadêmico não teve como propósito defender um tratamento aos menores infratores, nem defender ou ser favorável à antecipação da imputabilidade penal, conforme a Proposta de Emenda à Constituição apresentada – PEC 115/2015 oriunda da PEC 171/93; contudo, foram apontados posicionamentos de autores que aludem contra a proposta de alteração do art. 228, da constituição Federal de 1988. Pretendendo a antecipação da imputabilidade penal para os menores de dezoito anos, sendo estes menores sujeitos às normas da legislação especial, ressalvados os maiores de dezesseis anos e observando o
cumprimento em estabelecimento separado dos maiores de dezoito anos e dos menores inimputáveis que cometerem crimes hediondos: homicídio doloso e lesão corporal com resultado morte.
Diante do desdobramento das situações apresentadas, conclui-se que não deve ser descartado o posicionamento de especialistas que estudam o comportamento de adolescentes e as sugestões que podem ser benéficas ao seu desenvolvimento em sociedade.
Nos processos envolvendo a prática de atos ilícitos análogos aos crimes previstos no Código Penal brasileiro, cometidos por adolescentes, foi confirmado que há a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Notou-se que algumas decisões analisadas, que entenderam pela aplicação de medidas socioeducativas foram embasadas em questões particulares ao caso concreto, bem como o tipo de ilícito cometido, de forma a preservar o interesse das partes envolvidas.
Verificou-se na decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, foi feita a aplicação equivocada do Estatuto da Criança e do Adolescente, no qual determinou o cumprimento de medida socioeducativa em um minipresídio, na cidade de Apucarana, no Estado do Paraná. Na decisão proferida houve a violação do art. 185, §2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo uma medida inviável e constrangedora para o adolescente, esquivando-se do objetivo de reeducação.
Ademais, o parágrafo único do art. 152, da Lei 12.010/2009, Lei que dispõe sobre a adoção, prevê, de maneira expressa, a necessidade de estrita observância ao princípio constitucional da prioridade absoluta à criança e ao adolescente quando da instrução e julgamento das causas que tramitam na Justiça da Infância e da Juventude.
A decisão do Superior Tribunal de Justiça se coaduna com as normativas elencadas na Lei 8.069/1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como se incorpora aos parâmetros normativos constitucionais delineados pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Entretanto, ainda há a falha em observar estritamente as leis para que não haja violação de deveres e garantias fundamentais, bem como observação aos prazos legais, aos quais se submetem os menores em cumprimento de medidas socioeducativas.
Embora a proposta de redução da maioridade penal, insinuada pela PEC 115/2015, oriunda da PEC 171/1993 não traga uma justificativa com razoabilidade, é mister observar a eficácia das medidas socioeducativas.
As controvérsias que envolvem a aplicação de medidas socioeducativas, que garantem a eficácia do Estatuto da Criança e Adolescente, não aludem à alteração da legislação constitucional. Assim, deve ser analisado com particularidade cada caso, levando-se em
consideração a essencialidade de incentivos do Estado para que possa garantir uma melhor educação, principalmente no que garante o melhor desenvolvimento social do adolescente, observando os preceitos constitucionais que o contemplam e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Logo, para solucionar os litígios acerca da relação criminal do adolescente, tendo como melhor eficácia a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, evitando-se o surgimento de atos ilícitos praticados por menores, como por exemplo, a fixação de pena em estabelecimento carcerário, sugere-se a criação de uma política social com critérios objetivos para dar prioridade à educação e realizar procedimentos de forma a reconhecer a eficácia das medidas socioeducativas na vida dos adolescentes, para que estes possam ter um bom comportamento em sociedade.
Portanto, verificou-se que é necessário estabelecer políticas públicas e sociais, com investimento em escolas e casa de acolhimento do menos para que estes possam participar de projetos de incentivos à vida em comunidade. Assim, estaria possibilitando o acesso ao conhecimento, esporte, lazer e cultura, uma vez que estes estão em fase de desenvolvimento cognitivo de aprendizado, valendo-se dos direitos e garantias fundamentais a eles inerentes com a devida proteção do Estado.
REFERÊNCIAS
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BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (5ª. Turma). Habeas Corpus nº 131.770/RS. Habeas Corpus liberatório. ECA. Ato infracional análogo à tentativa de roubo. Internação provisória.
Extrapolação do prazo legal de 45 dias caracterizada. Art. 108 do ECA. Constrangimento ilegal. Parecer do MPF pela concessão do writ. Ordem concedida para cessar a internação