3. FUNÇÃO SOCIAL DA EMPRESA
3.4. A FUNÇÃO SOCIAL DAS MICROEMPRESAS E EMPRESAS DE PEQUENO
empresa que cumpre com a sua função social atua, passa a valorizá-la e a ser vista com “bons olhos” apenas estimularia o seu crescimento.161
No entanto, contrariamente, TOMASEVICIUS FILHO162, no que diz respeito à atuação das empresas em programas sociais, afirma que é necessário distinguir função social de responsabilidade social e explicita: “a empresa responde perante a sociedade pela inação estatal de cumprir com seus deveres de proporcionar aos cidadãos uma existência digna, ficando obrigada a atuar em setores que, tradicionalmente, são de competência estatal. E quando o Estado não cumpre com os seus deveres, surge a responsabilidade para a iniciativa privada [...]”. Ainda, quanto a responsabilidade social das empresas, o fundamento está no poder econômico das empresas que deve ser exercido também junto à comunidade em que se situa.
Portanto, verifica-se que a função social a ser exercida pelas grandes empresas tem o objetivo de proporcionar uma maior justiça nas relações jurídicas e econômicas entre as pessoas, trata-se de deveres jurídicos impostos ao titular do direito de empresa, ou seja, ao empresário, em razão do objeto social da empresa. E, não deve ser confundida com responsabilidade social que nada mais é do que o exercício de atividades beneficentes que decorrem da possibilidade econômica, e que é praticada, em virtude disto, pelas grandes empresas.
Ante o exposto será possível detectar as diferenças existentes entre o alcance da função social de uma grande empresa para as micros e pequenas empresas, o que se passa a tratar no item a seguir.
3.4. A FUNÇÃO SOCIAL DAS MICROEMPRESAS E EMPRESAS DE PEQUENO
Essa diferenciação tem por objetivo a desburocratização no que tange as empresas de menor poder econômico e, também, visa um maior desenvolvimento empresarial.
REQUIÃO164cita as diretrizes implantadas pela lei atual, são elas: “I - orientação para estabelecimento de incentivos fiscais e financeiros para essas empresas, visando reforçar e manter sua capacidade de geração de empregos, além de melhorar sua competitividade e desenvolvimento tecnológico; II – 20% dos recursos federais aplicados em pesquisa, desenvolvimento e capacitação tecnológica serão destinadas para o segmento dessas empresas; III – tratamento favorecido por parte dos serviços de metrologia e certificação prestados por entidades públicas; IV – obrigação dos órgão de controle de importação e exportação de facilitar as operações dessas empresas, nestes setores”.
Todas as prerrogativas decorrem do disposto na Constituição Federal, no seu artigo 170, inciso IX, ao estabelecer “tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no país”.
De igual teor encontra-se a previsão legal inserta no artigo 179 do diploma constitucional: “A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dispensarão às microempresas e às empresas de pequeno porte, assim definidas em lei, tratamento jurídico diferenciado, visando a incentivá-las pela simplificação de suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias, ou pela eliminação ou redução destas por meio de lei”.
Conforme o que antes foi exposto, quando se tratou das grandes empresas, é necessário ressaltar que somente as grandes empresas possuem a estrutura necessária para realizar obras sociais. As microempresas, as empresas de pequeno porte e até mesmo as de médio porte já convivem com dificuldades consideráveis para sua manutenção não permitindo, assim, que realizem atos beneficentes para a comunidade.165
Mas a função social da empresa não está relacionada com atos de benemerência, o que importa é uma atitude de maneira que possa promover uma melhoria social, o que pode ser alcançado com pequenas mudanças na estrutura da empresa, conforme pontificam ARNOLDI e MICHELAN.166
O que é preciso saber é que a empresa como atividade organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços, possui uma grande liberdade organizadora e estruturadora das
164 REQUIÃO. Rubens. Curso de Direito Comercial. v.1. p. 71-72.
165 ARNOLDI, Paulo Roberto Colombo.MICHELAN, Taís Cristina de Camargo. Novos enfoques da função social da empresa numa economia globalizada. p. 248.
166 ARNOLDI, Paulo Roberto Colombo.MICHELAN, Taís Cristina de Camargo. Novos enfoques da função social da empresa numa economia globalizada. p. 248.
relações jurídicas por elas envolvidas gerando uma obrigação muito maior para com a sociedade, envolvendo a responsabilidade por todos os efeitos sociais dessas relações livremente organizadas.167
Sabe-se que as pequenas empresas são as que detêm a grande maioria dos postos de trabalho do país e, a partir disto, em concordância com a Constituição Federal verifica-se a necessidade de uma política de administração do trabalho para que se reduzam os índices de informalidade, e, assim, permitindo o efetivo exercício da função social.168
Em pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2003, revela que; “uma importante contribuição das mic ros e pequenas empresas no crescimento e desenvolvimento do País é a de servirem de colchão amortecedor do desemprego. Constituem uma alternativa de ocupação para uma pequena parcela da população que tem condição de desenvolver seu próprio negócio, e uma alternativa de emprego formal ou informal, para uma grande parcela da força de trabalho excedente, em geral com pouca qualificação, que não encontra emprego nas empresas de grande porte.”169
Neste sentido, SOTT170 propõe que “os pequenos empreendedores precisam , igualmente, de maior orientação jurídica de profissionais especializados acerca das suas obrigações trabalhistas, de atenção específica dos legisladores quanto ao custo da contratação e de promover a igualdade formal, tratando os desiguais na medida de suas desigualdades”.
No tocante às pequenas empresas, SOTT171 alude que uma das formas de se diminuir a informalidade nos campos de trabalho seria, principalmente, a redução dos custos de contratação, pois para o trabalhador o salário é pouco, mas para o empregador o salário é muito, em razão das altas contribuições decorrentes da contratação formal de mão-de-obra.
Com isto, permitiria que as micros e pequenas empresas exercessem um de seus deveres decorrentes da função social, que nada mais é do que a movimentação da economia no lugar onde se encontra, com a geração de novos postos de trabalho.
Como se pode verificar, a função social das empresas de pequeno porte ao realizarem sua atividade econômica é a de proporcionar à sociedade em que se situa uma movimentação da economia e, assim, diminuir as desigualdades sociais promovendo o bem estar e a justiça
167SALOMÃO FILHO, Calixto. A função social do contrato: primeiras anotações. p. 71.
168 SOTT, Márcia Lovane. A função social da microempresa e da empresa de pequeno porte na esfera trabalhista.
Revista Jurídica Consulex, ano VIII, nº 186, out/2004. p. 65.
169 Cf. SOTT, Márcia Lovane. A função social da microempresa e da empresa de pequeno porte na esfera trabalhista. p. 64.
170 SOTT, Márcia Lovane. A função social da microempresa e da empresa de pequeno porte na esfera trabalhista.
p. 65.
171 SOTT, Márcia Lovane. A função social da microempresa e da empresa de pequeno porte na esfera trabalhista.
p. 64-65.
social. Tais objetivos da função social das empresas devem sempre estar relacionados com os direitos sociais que envolvem toda a coletividade, visto que visam proporcionar a diminuição das desigualdades entre os indivíduos.