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A Função Social na CRFB/88

Assim, partindo desde a Constituição Imperial de 1824, outorgada por D. Pedro I, verifica-se que o art. 179, inciso XXII, apenas, trata a respeito da possibilidade de indenização de desapropriação por interesse público, ensina CUNHA183, apesar de considerar a Propriedade como direito absoluto184, com exceção das desapropriações. Segundo o estudo realizado por NONES185, apesar da inspiração liberal da época da promulgação da Constituição de 1824, não se vislumbra qualquer análise direta à expressão Função Social.

O mesmo ocorreu na Constituição de 1891, na qual mais uma vez se fez preservar o direito de Propriedade e a desapropriação por necessidade ou utilidade púbica – § 17 do artigo 72186 – porém, sem mencionar o termo Função Social.

Já na Constituição de 1934, encontra-se devidamente presente a figura da Função Social da Propriedade, mediante uma análise reflexa do artigo 125 da Constituição de 1934, que permitia ao cidadão brasileiro requerer, mediante determinados requisitos legais, o usucapião de terra que utilizasse por pelo menos dez anos contínuos e nela residisse e a tornasse produtiva, segundo

183 CUNHA, Alexandre Sanches. Todas as constituições brasileiras de 1824 a 1988: edição comentada. Campinas: Bookseller, 2001. p. 43 – “XXII. É garantido o Direito de Propriedade em toda a sua plenitude. Se o bem publico legalmente verificado exigir o uso, e emprego da propriedade do Cidadão, será elie previamente indemnisado do valor della. A Lei marcará os casos, em que terá logar esta única excepção, e dará as regras para se determinar a indemnisação.”

184 GRISARD FILHO, Waldyr. A função social da propriedade (do direito de propriedade ao direito à propriedade). RAMOS, Carmem Lucia Silveira. Direito civil constitucional – situações patrimoniais.Curitiba; Juruá, 2002, p. 237.

185 NONES, Nelson. A empresa e sua função social como dever positivo, dever negativo e responsabilidade social no estado democrático de direito. 2005. 388 f. Tese (doutorado) Universidade do Vale do Itajaí, p. 162

186 CUNHA, Alexandre Sanches. Todas as constituições brasileiras de 1824 a 1988:edição comentada. p. 72. § 17 O Direito de propriedade mantém-se em toda a plenitude, salva a desapropriação por necessidade ou utilidade pública, mediante indemnização prévia.

se extrai de NONES.187 Tratava-se de um modelo inspirado na Constituição Weimar, conclui GRISARD FILHO188.

Em 1937, a Constituição inspirada no Estado Novo, não previu qualquer vinculação da Função Social à Propriedade ou qualquer outro interesse do cidadão brasileiro, constituindo-se um retrocesso a uma das efetivas funções da Propriedade.

Com a promulgação da Constituição de 1946, retorna-se a proteção da Propriedade mediante a justa indenização em dinheiro, em decorrência da desapropriação “(...) por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social (...)”, conforme NONES que complementa dizendo, “Como efeito, nessa Constituição, encontravam-se implícitos o princípio da função social da propriedade e, ao que tudo indica, pela influência do constitucionalismo contemporâneo próprio do Estado Social.” 189, sendo esta a primeira manifestação constitucional da expressão Função Social da Propriedade.

A Constituição de 1967, manteve a possibilidade de justa indenização em caso de desapropriação, porém nele se destaca o inciso III, do artigo 157, do Título da ordem econômica e social190, que numa simples análise constata-se a regulamentação da Função Social da Propriedade, o que demonstra uma evolução desse estudo em pleno regime militar.

187 NONES, Nelson A empresa e sua função social como dever positivo, dever negativo e responsabilidade social no estado democrático de direito. p. 163

188 GRISARD FILHO, Waldyr. A função social da propriedade (do direito de propriedade ao direito à propriedade). p. 238.

189 NONES, Nelson. A empresa e sua função social como dever positivo, dever negativo e responsabilidade social no estado democrático de direito. p. 163

190 CUNHA, Alexandre Sanches. Todas as constituições brasileiras de 1824 a 1988: edição comentada. p. 351. – “Art. 157. A ordem econômica tem por fim realizar a justiça social, com base nos seguintes princípios: (...) III – função social da propriedade;”

Mediante a Emenda Constitucional nº 1, do ano 1969, o artigo 160 destacava o desenvolvimento nacional e a justiça social com base em diversos princípios e dentre eles o da Função Social da Propriedade191.

Em relação ao que vem a ser a Função Social nos textos Constitucionais a partir da Emenda Constitucional nº 1/1969, mais especificamente no Título da ordem econômica e social, BASTOS192 ensina que

“(...) o princípio da função social da propriedade se erige numa das vigas mestras da nossa ordem econômica e social”, vindo, portanto, a se constituir no próprio direito de Propriedade, e complementa:

Vale dizer: a propriedade é assegurada, mas simultaneamente, se lhe cobra que esteja voltada ao atingimento de uma função social.

Portanto, esta é a linha nuclear para que possamos, realmente, compreender os tópicos que são suscitáveis debaixo da noção de função social da propriedade. Inicialmente, portanto, há o direito de propriedade, assegurado como uma prerrogativa fundamental da pessoa humana; em segundo lugar, há a definição desse direito como preordenado ao atingimento de uma função social, o que vem consagrado no artigo 160 da Carta Magna.193

Analisando agora a Constituição promulgada de 05 de outubro de 1988 – CRFB/88194, constata-se uma presença ainda maior do termo Função Social, sendo:

a) como direitos e deveres individuais e coletivos, a previsão da Função Social se encontra nos incisos XXIII, do Artigo 5º da CRFB/88, in verbis:

191 NONES, Nelson. A empresa e sua função social como dever positivo, dever negativo e responsabilidade social no estado democrático de direito. p. 163

192 BASTOS, Celso Ribeiro. Comentários à Constituição do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. p. 122

193 BASTOS, Celso Ribeiro. Comentários à Constituição do Brasil, p. 122

194 Será utilizado a partir desse momento tão somente a sigla CRFB/88, para identificar a Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 05 de outubro de 1988.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

(...)

XXIII – a propriedade atenderá a sua função social:195

b) como princípio da ordem econômica e financeira, a Função Social é encontrada no inciso III do artigo 170, que diz:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

(...)

III – função social da propriedade:196

c) como princípio da política urbana, constata-se a presença da Função Social no parágrafo 2º do artigo 182, ao expor que:

Art. 182 ...

§2º A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende a exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.

Prevê ainda NONES197 que o parágrafo 4º do artigo 182198, o artigo 183199 e os artigos 184200 a 191201 da CRFB/88, apesar de não trazerem de

195 BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil, promulgada em 05 de outubro de 1988.

196 BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil, promulgada em 05 de outubro de 1988

197 NONES, Nelson. A empresa e sua função social como dever positivo, dever negativo e responsabilidade social no estado democrático de direito. p. 167

198 § 4º. “É facultado ao Poder Público municipal, mediante lei específica para área incluída no plano diretor, exigir, nos termos da lei federal, do proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado, que promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessivamente de:

I – parcelamento ou edificação compulsória;

II – imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo

forma expressa o termo Função Social, as exigências ali contidas a utilização e proteção aos proprietários de áreas urbanas ou rurais, bem como a fiscalização do Governo, são suficientes para demonstrar o alcance da Função Social da Propriedade.

FACHIN202 expressa seu entendimento do termo Função Social na aplicação da Propriedade, segundo os termos Constitucionais, como a superioridade absoluta dos interesses da comunidade de uma forma geral sobre o individual, penalizando o particular quando não cumpre a Função Social imposta pelo ordenamento jurídico.

No mesmo sentido, preleciona GRISARD FILHO:

Desta forma, resta claro que todo direito de propriedade, nos regimes constitucionais modernos, está ligado à função social, fórmula universalmente adotada que se funda na convicção de que a propriedade não pode ser utilizada em detrimento de toda a comunidade (...) Quer isto dizer que apenas a propriedade que cumpre sua função social está protegida pela Constituição.203

III – desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas, assegurados o valor real da indenização e os juros legais.

199 Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinqüenta metros quadrados, por cinco anos, ininteruptamente e sem oposição, utilizando-se para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural.

200 Art. 184. Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.

201 Art. 191. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como seu, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra, em zona rural, não sendo superior a cinqüenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade.

202 FACHIN, Luiz Edson. A função social da posse e a propriedade contemporânea: uma perspectiva da usucapião rural. Porto Alegre: Fabris, 1988, p. 95.

203 GRISARD FILHO, Waldyr. A função social da propriedade (do direito de propriedade ao direito à propriedade). p. 240.

Assim, diante dessa célere análise da evolução das Constituições Brasileiras, foi possível estabelecer os momentos históricos-legislativos em que o político brasileiro primou pela manutenção da Função Social, voltada principalmente aos interesses sociais da Propriedade privada.