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A Fundação Brasil Central em Caiapônia – (GO)

Segundo Villas Bôas e Villas Bôas (2012), havia interesse de retirar a capital brasileira do litoral desde começo do século XIX, ou talvez, desde a proclamação da República em 1889. Porém, “Não se falava em interiorização como movimento expansionista, mas em tirar a capital da beira do mar, por questão de segurança” (VILLAS BÔAS; VILLAS BÔAS, 2012.

p. 33). O interesse/ideia ganharia corpo com o início da I Guerra Mundial, perdendo força já no término desta. Somente com II Guerra Mundial, voltou-se a ser lembrada a tese da mudança.

Outro fator preponderante foi a questão demográfica “[...] a mudança expressava a exigência natural de uma sociedade em franca explosão demográfica. Estávamos deixando de ser uma nação litorânea”. (VILLAS BÔAS; VILLAS BÔAS, 2012, p. 33). Ainda segundo estes autores, para que a interiorização se tornasse realidade, era preciso que o próprio governo liderasse esse movimento, deste modo, surgiu a “Marcha para o Oeste”. Sendo que a viabilidade deste projeto de ocupação do território aconteceu durante o governo de Getúlio Vargas, no chamado Estado Novo (1937-1945), com a criação de dois organismos: Expedição Roncador-Xingu (ERX) e a Fundação Brasil Central (FBC). Mais tarde, a Expedição Roncador-Xingu passou a ser de responsabilidade da Fundação Brasil Central.

E a Segunda Guerra, com a sua tônica do espaço vital, serviria para trazer à nossa visão a imensa carta geográfica brasileira, com suas não menos imensas manchas brancas. Nascia, assim, em plena guerra, um impulso expansionista, desta feita alentado pelo próprio Estado. Dois organismos foram criados pelo governo: o primeiro, a Expedição Roncador-Xingu (ERX), com a atribuição específica de entrar em contato com os “brancos” das nossas cartas geográficas; o segundo, a Fundação Brasil Central (FBC), com a função definida de implantar núcleos populacionais nos pontos ideais marcados pela Expedição. O primeiro órgão era, assim, a vanguarda do segundo. (VILLAS BÔAS; VILLAS BÔAS, 2012, p. 34).

Ferreira e Mendes (2009) assinalam a contribuição desta para a economia brasileira, absorvendo o excedente populacional e promovendo o desenvolvimento de uma frente agrícola, voltada para a produção de alimentos para os centros urbanos em crescimento à época.

Marcha para o Oeste contribuiu para resolver dois problemas básicos da economia brasileira: absorver os excedentes populacionais liberados pela decadência da cafeicultura, a partir da superação das relações de troca entre o velho campo e a nova economia urbana e promover o desenvolvimento de uma frente agrícola comercial interna capaz de fornecer produtos alimentícios mais baratos para os centros urbanos. (FERREIRA; MENDES, 2009. p. 15-16).

Essa expansão aconteceu por meio de lavouras alimentares e na pecuária de corte, sendo a produção destinada para o consumo interno. Compreende-se, então, que a “Marcha para o Oeste” foi o movimento para suprir interesses econômicos e militares. De acordo com João Marcelo Ehlert Maia (2012), em seu livro: Estado, território e imaginação espacial, a

“Marcha para Oeste” não deve ser compreendida apenas com a ação isolada do Estado para ocupação para o oeste. “Na verdade, a expressão ‘Marcha para o Oeste’ designa um vasto processo de expansão do poder estatal por diversas regiões do país, que se traduziria em variados eventos e programas” (MAIA, 2012, p. 46). Portanto, tratava-se de um ambicioso projeto de ocupar o território, porém, o Estado, em um dos momentos mais oportunos da História brasileira, não adotou uma política voltada para a pequena propriedade. Mesmo com diagnósticos apontando o domínio da grande propriedade.

Segundo Maia (2012), as obras de Nelson Werneck Sodré (1941) e Caio Prado Junior (1944), tinham concepções diferentes sobre o modelo a ser adotado para a ocupação do Oeste do Brasil, porém, em ambas as concepções, havia um ponto em comum que seria a implementação da pequena propriedade como mecanismo de desenvolvimento, ocupação do espaço e afirmação do poder. Segundo Maia (2012), quando Sodré, em 1941, escreveu

“Oeste: ensaio sobre a grande propriedade pastoril”, descrevia que o Oeste do Brasil era marcado pelo domínio da grande propriedade.

[...] o Oeste como uma geografia marcada pelo predomínio da grande propriedade e pela dimensão errante e móvel do seu território alagadiço. [...] principalmente, a zona caracterizada pela marcha do café pelo rio Paraná, nos espaços fronteiriços com Paraguai, e a região pantaneira. (MAIA, 2012. p. 51).

Maia (2012) ainda destaca que na percepção de Sodré, à medida que este entendia que haveria dificuldade das populações de erguer a vida social sólida e enraizada, explicada pela oferta desmedida de terras, isso possibilitava que não houvessem conflitos, a ocupação se dava pelo espraiar-se pelo território. E essa dispersão pelo espaço extenso, o que era negativa, por possibilitar a rejeição a um poder central. Enquanto que, Prado Junior (1944), no seu artigo: Problemas de povoamento e a pequena propriedade, concordaria com o diagnóstico apresentado por Sodré, porém, defenderia outra abordagem para o desenvolvimento.

Enquanto Sodré defenderia “[...] o regime da pequena propriedade, única forma de criar vida

municipal sólida – esta, por sua vez capaz de funcionar com suporte para uma economia organizada” (MAIA, 2012.p. 51).

No entanto, Prado Júnior (1944) teria optado por defender a reforma agrária mais próxima dos espaços centrais, por entender que haveria dificuldade de se construir a infraestrutura e comunicações que, por sua vez, impossibilitaria o desenvolvimento. Ao que tudo indica, mesmo com autores discutindo as possibilidades para a estrutura fundiária do Oeste do Brasil, que passava a ser desbravado, a Fundação Brasil Central não atuaria nesta perspectiva. Por outro lado, sua ação se refletiu no fortalecimento de núcleos urbanos e ocupação de áreas antes desabitadas, a não ser pelos nativos. Dentre estes núcleos estava o município de Caiapônia, que funcionaria como uma base, para penetração ao estado de Mato Grosso e, consequentemente, para a região amazônica.

Segundo Souza (1985), a motivação para o estabelecimento do posto da FBC em Caiapônia, seria a amizade do então prefeito local, Dr. Plinio Gayer, com o responsável pela FBC, o ministro João Alberto Lins e Barros. Sendo assim, em 1944, estabeleceu-se no município a base da expedição Roncador-Xingu (posteriormente passou a ser Fundação Brasil Central). Se tornou o “marco 0”, o ponto de partida para penetração no Oeste e o canal da linha de comunicação existente com Mato Grosso. Porém não se pode atribuir apenas a amizade de Plinio Gayer e o ministro João Alberto Lins e Barros, a escolha de Caiapônia para estabelecer FBC, pois de acordo com Maciel (2010), o município e a região do entorno de Aragarças – (GO), apresentava economia agropecuária para autoconsumo, relativamente desenvolvida.

Nesta região, na época, de economia agropecuária para autoconsumo, relativamente desenvolvida, pela primeira vez, a população podia abastecer-se, regularmente, de produtos manufaturados, tanto de artigos de consumo imediato – tecidos, calçados, artigos de perfumaria e armarinho, medicamentos e, principalmente, sal (insumo indispensável na criação de gado vacum) -, como de certos bens duráveis – máquinas de costura, ferramentas, instrumentos agrícolas, etc (MACIEL, 2010, p. 7)

A seguir, na figura 1 têm-se o registro do prédio da FBC na década de 1970, possivelmente com os traços originais.

Figura 1 – Caiapônia – GO: Sede da Fundação Brasil Central na década de 1970

Fonte: Revista Transcaiapônia (1972).

Nos dias atuais, ainda se encontra edificado o prédio da FBC no município, porém passaram por algumas alterações estruturais e mudanças de função, hoje pertence às dependências de um frigorífico local. Sobre as mudanças de forma e função, contribui Santos (2008, 63) ao afirmar que “Sistemas de objetos e sistemas de ações interagem. De um lado, os sistemas de objetos condicionam a forma como se dão as ações e, de outro lado, o sistema de ações leva à criação de objetos novos ou se realiza sobre objetos preexistentes” conforme pode ser observado na Figura 2, em comparação com a figura 1 (Foto da década de 1970) perdeu-se parte da forma do prédio. Considerando sua função com tempos de atuação da FBC, deixou de ser escritório de fundação subordinada ao Estado para tornar-se moradia.

Figura 2 - Caiapônia – GO: prédio da Fundação Brasil Central (FBC) nos dias atuais - 2019

Autor: Silva, Santiago Soares (2019).

De acordo com Souza (1985), entre os anos de 1944 e 1946, o município contou com inúmeros benefícios advindos da implementação da FBC, como a construção dos armazéns de secos e molhados, depósitos de sal e arame, drogaria e posto de gasolina. Muito destes produtos eram revendidos a preço de custo para a população. Houve também a reforma e ampliação da pista do aeroporto (não pavimentada), que passou a receber regularmente vôos de bimotores da FBC. De acordo com autor supracitado, Caiapônia chegou a receber nos anos seguintes até quatro aviões comerciais por semana, vivia-se um dos maiores momentos de sua história. Tudo em decorrência da instalação da FBC.

[...] em 1946, ainda com o gosto da guerra na economia nacional, Caiapônia tinha escala de quatro aviões comerciais por semana. Era integrante de uma linha doméstica da companhia Nacional Transportes Aéreos – implantada sob convênio com prefeitura. Havia garantia de uma cota estipulada de passageiros ou o pagamento dos prejuízos adivinhos da possível ociosidade da escala. E a linha permaneceu até 1954, sem nunca deixar de auferir lucros às empresas exploradoras.

A ligação feita com São Paulo e Corumbá (Mato Grosso), todas as semanas, as segundas, terças, quintas e sexta- feitas. (SOUZA, 1985. p. 130).

Segundo este autor, um dos grandes benefícios para o município foi a implementação da rodovia que liga Caiapônia a Barra do Garças, entre os anos 1944 e 1946. A partir desta, surgiram as cidades de Piranhas (GO) e Aragarças (GO). Esta última, também, tornou-se posteriormente, posto da FBC. Foi perceptível a importância da FBC para o município, porque além das estradas de acesso estabelecidas naquele período, também outras obras e serviços foram implementadas, tais como: cerâmica (parcial) e prédios e serviços de telégrafos.

Estes fatos propiciaram certa sensação de desenvolvimento econômico, o que de fato aconteceu mesmo que por algum tempo, principalmente enquanto durou a permanência da FBC. Após a mudança da FBC para o município de Aragarças, o município passou um longo tempo no ostracismo e estagnação. Somente com novos impulsos de programas estatais, para o “desenvolvimento” do Cerrado, a exemplo o POLOCENTRO, o Sudoeste de Goiás voltou a destacar-se. No entanto, esse “desenvolvimento” trouxe sérios problemas ambientais ao bioma Cerrado e permitiu a consolidação do domínio pelos latifundiários sobre a terras. Isto devido aos financiamentos com taxas muito atrativas, subsidiadas, ou, até mesmo, sem juros e falta de controle efetivo sobre a área desmatada.