2. HISTORIOGRAFIA DAS MULHERES
3.1 A GATA BORRALHEIRA
O resumo a seguir é baseado em uma tradução de Monteiro Lobato. Gata Borralheira é um conto famoso, publicado pelo escritor francês Charles Perrault em 2002, baseado num conto popular italiano chamado La gatta cenerentola (“A gata borralheira”).
Era uma vez um gentil homem, que após ficar viúvo casou-se com uma mulher muito orgulhosa que tinha duas filhas, muito parecidas com ela. Este homem tinha uma filha que era muito bondosa e muito doce.
Após o casamento a mulher mostra seu mau gênio, pois não suportava as qualidades de sua enteada, pois essas qualidades enfatizavam mais ainda os defeitos de suas filhas. Por não suportar a enteada a madrasta a obrigava a fazer todos os serviços domésticos. Quando terminava, Borralheira se recolhia no sótão, enquanto suas meio irmãs desfrutavam de toda regalia.
Apesar de sofrer com os maus tratos da madrasta e das irmãs postiças, a garota suportava tudo sem reclamar ao pai, pois ele já estava dominado pela nova esposa.
O destino de Borralheira começa a mudar quando o rei decide dar um baile e convida todas as moças solteiras da cidade. Ao receberem o convite as filhas da madrasta de Borralheira, começaram a escolher roupas, vestidos e sapatos para comparecerem no baile, enquanto a pobre Borralheira só espiava tudo de longe.
Enfim chegou o grande dia, as duas irmãs passaram o dia se arrumando e partiram felizes e borralheira ficou as observando com tristeza por não poder ir também. Nesse momento surge sua fada madrinha disposta a realizar seu desejo de ir ao baile. Com o toque de sua varinha mágica a fada madrinha transformou os trapos de Borralheira num belíssimo vestido, deu-lhe também um par de sapatos de cristal. Para que não fosse ao baile a pé a fada pediu a menina que trouxesse uma abóbora, e a transformou numa luxuosa carruagem dourada, em seguida, a madrinha foi a uma ratoeira armada perto da dispensa e tirou de lá seis ratinhos e os transformou em lindos cavalos, quase tudo pronto para a partida para o baile, mas a
fada percebeu que faltava o cocheiro e então pediu que Borralheira que fosse procurar mais ratos na dispensa.
A menina foi e encontrou mais três ratos e sua madrinha transformou-os em cocheiros. Agora a menina já podia ir ao baile, mas antes que partisse a fada lhe disse para deixar a festa antes da meia-noite, porque nesse horário o encanto acabaria e ela voltaria a ser a mesma Borralheira de sempre.
Borralheira prometeu que faria como recomendou sua madrinha. Então partiu muito feliz. Quando chegou a festa todos ficaram admirados com a beleza daquela princesa desconhecida. Quando o príncipe a viu, logo convidou-a para dançar, a bela moça dançou com muita graça e sutileza. Estava tão encantada que nem percebeu a hora passar. O relógio soou onze e quarenta e cinco, Borralheira fez uma reverência para todos e saiu apressada. Ao chegar em casa contou tudo o que havia acontecido para a madrinha e disse que o príncipe a convidou para ir novamente ao baile no dia seguinte. Neste momento as irmãs chegam e Borralheira vai abrir a porta com cara de sono.
No dia seguinte as irmãs foram outra vez ao baile e em seguida Borralheira também foi. Dessa vez mais bonita que anteriormente. O filho do rei não se separou dela nenhum momento, ambos se distraíram conversando que nem perceberam o tempo passar. A menina só percebeu que estava na hora de ir embora quando o relógio soou meia-noite. Borralheira saiu tão depressa que acabou deixando pra trás seu sapato.
No outro dia o príncipe deu ordens aos seus empregados para procurarem a dona do sapatinho, para que pudesse casar com ela. Um emissário do príncipe foi na casa de todas as moças solteiras do reino, experimentando o sapato em seus pés, até chegar à casa de Borralheira. Ao chegar, o emissário experimentou o sapato nas irmãs, mas o calçado não lhes serviu. Borralheira que observava tudo num cantinho da casa pediu para experimentar o calçado e este lhe serviu muito bem. Neste momento as duas irmãs pediram perdão a Borralheira por tudo que fizeram e a garota as perdoou. Em seguida o emissário levou a garota ao palácio do príncipe e este anunciou o casamento com a bela moça.
O casamento realizou-se e Borralheira por ser generosa, levou as irmãs para morar no palácio e as casou com dois grandes fidalgos.
3.2 CORALINE
Coraline é uma obra de Neil Gaiman, publicada no Brasil em 2003 pela editora Rocco. Trata-se de um conto de fadas às avessas. A temática é rica, e Neil Gaiman não fala em dragões, gigantes, duendes ou príncipes, ele discute sobre algo mais universal e conhecido por todas as crianças, os adultos e seus pais. A obra trata de uma sombria aventura vivida pela jovem Coraline, após ter descoberto uma misteriosa porta no canto afastado da sala de visitas que a levava a uma realidade paralela e cheia de perigos.
Coraline Jones é uma menina muito esperta, ativa e curiosa, que acaba de mudar-se com seus pais para uma casa bem antiga situada no meio da mata, longe de qualquer coisa interessante. Ao mudar-se para seu novo lar a garota percebe que lá não há nenhuma criança com quem possa brincar e passar o seu tempo.
Ela está de férias e embora seus pais estejam sempre presentes, pois ambos trabalham em casa, eles nunca lhe dão atenção o suficiente para preencher a necessidade que Coraline tem de uma companhia. Então a menina começa a achar tudo por ali muito chato e faz tudo o que pode para passar o tempo. Coraline conhece seus novos vizinhos: duas senhoras, Sra. Spink e Forcible, que foram grandes artistas; porém estão aposentadas, ambas falam em enigmas e o Sr. Bobo, um artista de circo que afirma falar com ratos e diz estar treinando-os para um show muito especial. A menina também explora o jardim do casarão e encontra o poço, o qual havia sido avisada pelas velhas vizinhas que era perigoso, conhece os animais que ali habitam, na vizinhança, inclusive um estranho gato preto.
Certo dia, Coraline foi proibida por sua mãe de sair de casa, pois estava chovendo muito e isso a deixou muito entediada. Decidida que continuaria com sua exploração vai até seu pai e o mesmo não tendo o que fazer e não podendo lhe dar atenção a sugere que continue com sua exploração dentro da própria casa, então lhe dá uma caneta e um pedaço de papel para que conte as portas e as janelas da nova casa, e anote tudo que for azul, não tendo nada de interessante para fazer ela decide obedecer a seu pai. Através de sua exploração, Coraline acaba encontrando uma porta fechada. Curiosa, faz com que sua mãe a abra e vê que a mesma não dá em parte alguma, atrás da porta havia apenas uma parede de tijolos. No entanto, aquilo havia deixado Coraline intrigada. Por mais que não houvesse justificativas para o porquê de aquela porta estar ali, trancada e bloqueada, Coraline não resistiu
ao seu instinto de exploradora e curiosa, e logo não parava mais de pensar na tal portinha. Assim, as perguntas da garota vão sendo respondidas e ela percebe que há um grande segredo escondido atrás daquela porta.
Certo dia, motivada por sua curiosidade, pega a chave da porta e a destranca e ao abri-la se surpreende, pois ao invés da parede de tijolos havia um corredor escuro. Ao atravessar o corredor, Coraline encontra sua casa, seus pais, seus vizinhos, o jardim, enfim tudo exatamente da mesma forma. Porém, numa versão muito melhor do que a que estava acostumada. Ali parece ser um mundo mágico onde tudo é feito para agradá-la, seus pais são totalmente atenciosos, a casa possui um jardim lindo, com a forma de seu rosto, uma comida perfeita, seus brinquedos tem vida e até o gato preto estranho que ronda sua casa começa a falar.
Nessa nova casa, tudo é muito melhor.
Coraline divertiu-se muito nessa outra casa, assistiu ao grande espetáculo das senhoras Forcible e Spink, saboreou uma comida maravilhosa feita pela sua outra mãe, também viu o circo de ratos cantantes do outro senhor maluco que, aliás, apareceu por lá no final da apresentação dos roedores. O mais curioso é que ele a chamou pelo nome correto.
Tudo parecia perfeito, até a garota receber um convite de seus outros pais para viver com eles para sempre, para isso, ela teria que deixar a outra mãe costurar dois botões pretos em seus olhos. Desconfiada da proposta duvidosa dos seus outros pais, Coraline não aceitou a condição e depois disso, sem a autorização deles, retornou para a sua verdadeira casa, mas essa não foi uma tarefa fácil porque durante o percurso ela teve que enfrentar uma terrível escuridão ao som de vozes estranhas. Ao chegar descobre que seus pais verdadeiros tinham sido aprisionados por sua outra mãe, então a menina retornou aquele lugar, para resgatá-los.
De volta à sua outra casa, ela enfrenta a imposição de sua outra mãe que jamais dirá onde estão seus verdadeiros pais. E por não querer ceder à condição que lhe foi imposta, Coraline é colocada de castigo num lugar escuro e pequeno atrás de um espelho. Em meio a essa escuridão ela percebe que ali estão outras crianças. Eram espíritos que haviam sido aprisionados pela mãe má, antes de morrerem. Mas nunca puderam sair daquele local porque à maléfica roubou suas almas. Passado algum tempo depois a garota é retirada do castigo. Coraline resolve propor à vilã um jogo de exploração, o qual tinha a finalidade de encontrar seus pais e as almas das crianças que ali permaneciam. Se Coraline ganhasse o jogo poderia voltar para sua casa verdadeira com seus pais, do contrário, ela permaneceria
naquele mundo para sempre e deixaria sua outra mãe costurar os botões em seus olhos. Desafio aceito, agora a menina precisará ter muita coragem para vencer todos os desafios que sua outra mãe criou e contará com a ajuda do gato falante.
Coraline arriscou-se em um desafio macabro. Para isso ela usou sua inteligência, raciocínio e teve que superar seus medos. Coraline tem uma definição perfeita para coragem: [...] “quando você tem medo e mesmo assim faz, isso é coragem." (p. 59).
E a partir daí começa a busca da garota por seus pais, mesmo se sentindo desesperançada, ela luta em meio ao pavor de ficar presa na outra casa para sempre.
Coraline inicia a procura, vai para seu quarto, revira seus brinquedos, mas não encontra nada. Quando estava quase desistindo, lembrou-se da voz no escuro, e o que lhe dissera para fazer. Então ela pegou do seu bolso uma pedra que havia ganhado das senhoras Forcible e Spink, segurou-a em frente ao seu olho direito, nesse momento ela viu algo da cor de uma brasa na lareira, era a alma de uma das crianças. E assim ela vai explorando os cômodos da casa até encontrar as que faltavam. Seu lado explorador e curioso a ajudou a sair daquele lugar sombrio.
Coraline venceu o jogo com o brilhantismo de uma criança esperta e corajosa que é.
No dia seguinte, Coraline descobre que sua tarefa ainda não está cumprida.
A mão da outra mãe tentava roubar a chave de Coraline para ter sua vingança, mas ela consegue atrair a mão para o poço e a joga com a chave lá. Enfim Coraline consegue se livrar dos perigos que a outra mãe causava a ela, as almas das crianças e ao seu mundo.
Coraline Jones é uma menina com personalidade comum à juventude, pois gosta de brincar, se divertir e de criar seu mundo imaginário, principalmente na ausência de amigos reais. Ao atravessar a porta e se deparar com seus outros pais, ela logo recebe todo o carinho e atenção deles, sem perceber que na verdade, tudo aquilo era fantasia, o que a faz ficar com dúvidas. Ela é a típica menina reclamona e brava, cheia de exigências e que se revolta com negações.
Coraline é uma menina observadora, independente, que sabe do que gosta e do que não gosta e se sente muito sabida, mas ainda assim é uma criança que precisa ouvir e obedecer ordens, respeitar horários e seguir a vontade dos pais, inclusive quando eles se mudam contra a sua vontade.
Coraline é uma personagem que está insatisfeita com sua vida, já que é filha única, muda-se para uma casa que não tem nenhuma criança com quem possa brincar e principalmente por não ter atenção dos seus pais, que estão sempre
ocupados trabalhando. O fato de seus pais não terem tempo de lhe dar atenção, faz Coraline tornar-se uma garota autônoma, pois na sua casa quem cozinhava era o pai e a garota odiava suas comidas. Para não ficar com fome Coraline sempre procurava algo na geladeira e esquentava para si.
A garota foi criada sem mimos e isso tornou-a uma pessoa independente, capaz de se cuidar sozinha, na ausência dos adultos. A veracidade dessa afirmação é constatada quando os pais de Coraline somem, ela fica sozinha em casa, prepara um lanche, assiste TV e quando se cansa vai escovar os dentes e em seguida dormir.
4. A INDEPENDÊNCIA FEMININA NA OBRA: CORALINE
Na obra Coraline, de Neil Gaiman (2003), a personagem é uma menina esperta e corajosa, que por se sentir entediada de sua rotina vai à busca de aventuras que lhe proporcionarão perigos num mundo paralelo. Em Coraline, Neil Gaiman inicia sua narrativa apresentando o “túnel” que, na verdade, é uma porta, que levará a pequena a uma aventura perigosa, na qual ela precisará usar sua coragem e esperteza diante dos obstáculos que surgirão. A personagem encontra- se explorando e procurando o caminho de volta para casa. E para que isto aconteça, ela contará com a ajuda de um gato que representa sua “consciência”.
Os contos tradicionais mostram outra visão sobre a mulher. Esta é vista como um ser belo, dócil, amável, desprotegida e totalmente submissa ao domínio masculino, estas veem o amor como o ideal de felicidade e o casamento como concretização dessa felicidade. Enquanto a mulher é representada como um ser frágil, incapaz de defender-se sozinha, o homem é descrito como corajoso e independente, o único capaz de resgatá-la do sofrimento em que vive.
Segundo Bettelheim, mulheres eram educadas para amar e honrar seu marido acima de qualquer coisa. Para ser uma esposa prendada era preciso ter beleza física e virtude, como as princesas dos contos de fadas. Essa virtude era reconhecida através da submissão e resistência aos sofrimentos, por mais intenso que eles fossem. (BETTELHEIM 2002: p. 318).
Segundo Beauvoir (2009), o conceito de feminilidade estava relacionado a um valor cultural, ensinado às meninas desde pequenas, que ser mulher seria associado à passividade e à inferioridade. Esse destino era imposto por seus educadores e pela sociedade. A elas era ensinado que era necessário procurar agradar, permitindo que a fizessem de objeto; ela deveria renunciar à sua independência. A menina era tratada como uma boneca viva e era privada de liberdade.
Todas essas características podem ser comprovadas no conto A gata Borralheira, de Charles Perrault (2002):
Borralheira é uma pobre menina, muito amada pela mãe, porém após sua morte, passa a viver com a madrasta e suas filhas, ambas têm inveja de sua beleza. Gata Borralheira sofre com a convivência e acaba virando a serviçal da casa. Apesar de todo o seu sofrimento e dos trapos que vestia,
Borralheira continuava a ser extremamente generosa e bondosa.
(PERRAULT: 2002, p.39)
Nesse trecho ficam visíveis as qualidades e resignação de Borralheira. Ela obedecia por ser uma pessoa muito boa, aceitava todas às ordens da madrasta, sem sequer reclamar dos maus tratos. Ela acreditava que sendo boa seria recompensada e assim seria liberta dos maus tratos que tolerava.
No século XVII, quando foi publicado tal conto, a mulher era educada para casar e consequentemente cuidar da casa e do marido, por isso desde cedo as meninas tinham que aprender a bordar, fiar etc. Tais serviços eram destinados às mulheres de classes menos abastadas, estas faziam os serviços mais grosseiros como cozinhar, lavar e engomar, enquanto as de classes privilegiadas aprendiam bordar, costurar e cozinhar, para cumprirem com o papel de boa dona de casa.
Pode-se constatar a veracidade desta afirmação no seguinte trecho do conto de Perrault (2002): “Depois da morte da mãe, Borralheira passa a ter uma vida muito difícil mesmo morando na casa de seu pai”. A menina dormia sobre um colchão de palha, fazia as tarefas da casa como lavar, passar e engomar roupas, além de usar roupas muito velhas. Dessa maneira percebemos o quanto Borralheira era humilhada, passando a cumprir as tarefas apropriadas às moças das classes populares.
Nesta época (séc. XVII ao XIX), a mulher era desvalorizada, considerada ser inferior ao homem, portanto sua única função era agradar o ser masculino, fazer bater seu coração, despertar-lhe desejo, nada, além disso. Vejamos o seguinte trecho:
A igreja que ditava as regras da sociedade pregava que as mulheres tinham que ser esposas virtuosas, devendo amar e respeitar seus parceiros como uma verdadeira esposa exemplar. Esse comportamento exigido pela igreja fazia com que a mulher tratasse o casamento como uma obrigação a ser suportada, já que não tinham outra escolha. Seu único destino era casar e cuidar do lar, do marido e dos filhos. (DEL PRIORE: 2006, p.23)
De acordo com Beauvoir (2009), a mulher era tratada como uma boneca viva sem liberdade. Muitas mães entregavam suas filhas a professoras para que estas lhe ensinassem a ser feminina, portanto aprendiam virtudes femininas, como cozinhar, costurar, cuidar da casa ao mesmo tempo, tudo sobre a arte de seduzir, do pudor; tinham que vestir-se elegantemente com roupas elegantes, penteavam-na com penteados sofisticados, impunham-lhe regras de comportamento: "Endireita o
corpo, não ande como uma pata". Para ser graciosa, ela deveria dominar seus movimentos espontâneos; ensinavam-lhe a ter comportamento diferente de menino, não podiam praticar exercícios violentos, tinham que ser como as mais velhas, uma serva.
Beauvoir (2009) afirma que a menina também aprende que para ser feliz é preciso ser amada e para isso é preciso guardar o amor, esperar pacientemente a chegada dele. Nas canções, nos contos, nota-se que o jovem está sempre a partir numa perigosa aventura em busca da mulher; ele mata dragões, luta contra gigantes, enquanto ela encontra-se guardada em uma torre, um palácio, um jardim, uma caverna, acorrentada a um rochedo, cativa, adormecida: sempre à espera. Um dia meu príncipe virá... Some day he'll come along, the man I love... Os refrãos populares demonstram sonhos de paciência e esperança. (BEAUVOIR: 2009, p.33)
Percebemos isso no conto de Borralheira, quando chega o dia do baile, quando a moça vê suas irmãs saírem contentes para a festa, enquanto ela fica em casa. Mesmo Borralheira querendo muito ir ao baile, não reclama da decisão da madrasta que a proíbe de comparecer ao evento, ela apenas chora por não poder ir.
Enquanto as irmãs cumprem todos os rituais de embelezamento destinados às moças privilegiadas da época, preparando-se para o baile, Borralheira se entristecesse por não poder ir, afinal, ela também gostaria de se adequar ao papel social que cabia à moça: embelezar-se, ir ao baile e encontrar um noivo galante.
O dia do baile chegou e lá foram elas entusiasmadas, seguidas pelo olhar triste de Borralheira. Quando as duas desapareceram, borralheira começou a chorar. Então apareceu sua fada madrinha e lhe perguntou por que chorava. Borralheira chorava tanto que não conseguiu falar o que queria.
Então a fada madrinha entendeu que borralheira desejava ir ao baile.
(PERRAULT: 2002 p.40)
Outro aspecto da submissão de Borralheira é quando sua fada madrinha depois de tê-la transformado numa bela princesa, para que pudesse comparecer ao baile, lhe diz que ela tem que voltar antes de meia-noite e ela obedece a fada.
Quando já estava quase partindo para o baile, a madrinha lhe disse para que saísse antes de bater meia-noite, porque nesse exato momento o encanto acabaria e a carruagem se transformaria outra vez em cidra, os cocheiros em lacaios e os ratos em lagartixas e o seu rico vestido em trapos imundos. (PERRAULT: 2002, p.41)
Nesse conto, o baile era um dos pontos principais para arrumar um casamento. Era comum burguesia proporcionar bailes, os quais eram frequentados