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A chegada dos cistercienses ao Brasil correspondeu ao período no qual a Igreja Católica, através de alianças com o Estado, buscou restaurar seu poder social político formal perdido após a instalação da República e o fim do padroado régio66. A separação entre Estado e Igreja, permitiu-lhe a reestruturação religiosa dos seus quadros eclesiásticos. Segundo Cury, os laços com a Sé Romana começaram a se tornar mais e mais estreitos67 nesse período denominado de restauração, romanização ou europeização68da religião católica no Brasil.

Contudo, se por um lado, a República possibilitou uma reestruturação positiva para a Igreja Católica, o mesmo não ocorreu com o Estado Laico que enfrentou forte

66 O Padroado Régio foi o “direito de fé”, concedido pelo Vaticano, no processo de colonização da America Portuguesa e Espanhola, aos chamados Reis Católicos, tornados os principais defensores e propagadores da fé católica no Novo Mundo, associando à expansão da fé a expansão do Reino no projeto colonizador. Com o Padroado estes possuíam o direito de administrar os negócios Eclesiásticos tornando- se Chefes da Igreja na America Latina. No que concerne a America Portuguesa, após a independência do Brasil, a constituição de 1824, no seu artigo 5, legitimava o Padroado herdado dos tempos coloniais: “ A Igreja Católica Apostólica Romana continuara a ser a religião do Império. Todas as outras religiões são permitidas, com a condição de que seu culto seja doméstico ou privado, em casas a isto destinadas, mas que não tenham as formas exteriores de um templo”. Entretanto, se a Carta Constitucional tornava o Catolicismo sua religião oficial, em contrapartida reservava ao recém-criado Estado, o direito de validar os decretos eclesiásticos, tornando-se per si uma fonte de conflito que ganharia corpo com o processo de romanização iniciado no Sec. XIX com as novas diretrizes do pontificado de Pio IX a partir de 1848.

Ver: MATTOSO, Kátia M. de Queiros, Bahia Século XIX. Uma Província no Império. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. Págs. 304-305; FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2ª Ed. São Paulo:

EDUSP/FDE,1995. Pág. 229

67 CURY, Carlos Roberto Jamil. Ideologia e Educação Brasileira. 1978. Op. Cit. Pág. 15.

68 Alguns autores como Riolando Azzi, Sergio Miceli, Alípio Casali entendem o período a partir do movimento romanizador de restauração católica. Augustin Wernet trabalha com o conceito de europeização devido ao fluxo de ordens missionárias europeias e da aproximação com o catolicismo romano.

resistência e oposição dos diversos setores católicos, liderados por Dom Sebastião Leme, e pelos intelectuais católicos Jackson de Figueiredo69, Alceu Amoroso Lima70 e do então Ministro da Educação e Saúde Pública, Francisco Campos. Esses fundaram a LEC – Liga Eleitoral Católica, e como resultado de sua ação, a Igreja Católica foi quase oficialmente reconhecida na Constituição de 193471.

Segundo Jamil Cury, o grupo católico acreditava que o mundo estava em uma crise causada pelo avanço dos ideais liberais modernizantes que colocou em xeque o poder da Igreja, posicionando-a sob o controle do Estado laico. A solução da crise, vista pelo grupo católico, no seu sentido mais amplo, era a restauração de tudo em Cristo, já que a origem de todos os males foi o esquecimento de Deus. Na cosmovisão de mundo do grupo católico, a Igreja Católica deveria ser superior ao Estado, pois, os interesses das questões espirituais superariam as questões de ordem temporal72.

A busca por essa representação perante o Estado irá marcar os primeiros quarenta anos da República brasileira. Nesse sentido, o ano de 192273 possuiu uma expressividade significativa para o mundo católico, devido à celebração do Congresso Eucarístico do Rio de Janeiro, evento de dimensão nacional que teve a atuação de D.

Sebastião Leme. No mesmo ano, os intelectuais católicos se organizaram e fundaram o Centro Dom Vital e publicaram a Revista Ordem.

É no contexto da tentativa da Igreja católica de reaproximação com o Estado – denominada de “reação católica” -, com iniciativas em torno de questões sociais, políticas e da renovação do tomismo no campo das ideias, que Jackson de Figueiredo – intelectual convertido ao catolicismo – funda em 1921, a revista Ordem e, no ano seguinte, o Centro Dom Vital74.

69 Formado pela Faculdade de Direito em Salvador foi durante o inicio de sua carreira como advogado um anticlerical, mas sob a influência da leitura dos escritos de Pascal e da sua amizade com Alceu Amoroso Lima, converteu-se, em 1918, ao catolicismo. http://educacao.uol.com.br/biografias/jackson-de- figueiredo.jhtm.

70 Também conhecido como Tristão de Ataíde, foi jornalista, crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras. É considerado o mais importante intelectual católico do século XX. Substituiu Jackson de Figueiredo após sua morte, à frente da Revista ordem.

71 CURY, Carlos Roberto Jamil. Ideologia e Educação Brasileira. 1978. Op. Cit. Pág. 18.

72 Idem. Págs. 39-40.

73 Azzi, Riolando. História da Igreja no Brasil. 2008. Op. Cit.

74 RODRIGUES, Cândido Moreira. A ordem. Uma revista de intelectuais católicos. 1934-1945. Belo Horizonte: Autêntica/Fapesb, 2005. Pág. 15.

Através da revista, se pretendia “recatolizar” o Brasil mantendo a ordem simbólica religiosa75 e garantindo a manutenção da ordem política da Era Varguista.

Vale ressaltar que a revista discutiu de maneira enfática a reforma educacional, contrapondo-se ao modelo proposto por Anísio Teixeira que defendia a democratização da educação e a manutenção do ensino laico.

Em 1923 D. Leme organizou na cidade do Rio de Janeiro, o “Congresso Nacional do Apostolado da Oração”, que tratou em seu “programa de Restauração, de substituir, aos poucos, o catolicismo medieval de cunho leigo, devocional, familiar, por um catolicismo mais clerical, sacramental, com ênfase no aspecto doutrinário da fé” 76. Com aprovação do Papa Pio XI, em 1939, D. Sebastião Leme realizou, também na cidade do Rio de Janeiro, o Concílio Plenário Brasileiro, para o qual contou com a participação de aproximadamente oitenta bispos de todas as dioceses do país.

O objetivo formal do evento era projetar estratégias de consolidação das iniciativas restauradoras até então implantadas. Ao encerramento do Concílio, em 20 de janeiro de 1939, os Bispos promulgaram uma Carta Pastoral que apresentava muitas semelhanças, no conteúdo, com a Carta Pastoral de D. Leme de 1916, sobretudo na insistência sobre a necessidade de formação religiosa no País. Por esta razão, a Carta voltava a enfatizar a necessidade de melhoria quantitativa e qualitativa de Escolas Católicas em todos os níveis ... Segundo Azzi, esse Concílio marca o “ponto alto da Romanização da Igreja no Brasil e seu enquadramento no espírito trindantino e ultramontano” 77.

Para Azzi, embora as mudanças culturais e religiosas sejam sempre muito lentas, é inegável que no início dos anos 1920, foram criadas novas condições para a presença católica no país 78. Segundo esse autor, entre os anos de 1922 e 196279, a Igreja Católica foi marcada pelo projeto de restauração da fé, dos princípios católicos e da moralidade, com a formação de novos Arcebispados por todo o Brasil.

Miceli indicou que entre 1890 e 1930, foram criadas 56 dioceses, 18 prelazias e 3 prefeituras apostólicas para os quais foram designados, no mesmo período, cerca de

75 O conceito está sendo compreendido a partir de Bourdieu In: BOURDIEU, Pierre. Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2011.

76 CASSALI, Alípio. A Elite intelectual e restauração da Igreja. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1995.

Pág. 83).

77 Idem. Pág. 90.

78 Azzi, Riolando. História da Igreja no Brasil. 2008. Op. Cit. Pág. 08.

79 O autor demarcou os anos de 1922 e 1962 como o período em que o Brasil viveu processo de restauração católica. Para Azzi, o marco final em 1962, decorre do significado do Concílio Vaticano II que, ao criar condições para “os novos” ruímos da Igreja Católica, colocando-a em uma nova fase a partir dos anos 1960.

100 bispos. O autor entendeu que, ao formar em todos os Estados brasileiros pelo menos uma diocese, a Igreja Católica passou a dispor de um “sistema de governo”, com concentração de recursos organizacionais compatíveis às novas realidades externas e internas a ela mesma: dignitários, seminários, pessoal eclesiástico, escola80.

Essa nova estrutura facilitou a penetração da Igreja Católica em áreas onde estivera ausente durante o padroado régio, possibilitando um catolicismo mais românico e próximo da comunidade religiosa. O sucesso desse empreendimento deveu-se, em grande parte, à vinda de Ordens Missionárias europeias para o Brasil, e estas atuaram, principalmente, na educação. Foi a partir desse contexto que os Cistercienses chegaram à Jacobina e iniciaram seu projeto educacional na década de 1940.

O investimento no campo educacional, por parte das congregações religiosas, esteve associado aos decretos promulgados em 01 de Janeiro de 1900, do Concílio Plenário Latino-Americano81, realizado em 1899, cujo título IX destinava-se à educação da juventude nas escolas primárias, secundárias e universitárias. Segundo Passos, em todo o país, “no primeiro período republicano, houve um aumento considerável da rede escolar católica, pois chegaram ao Brasil 95 congregações religiosas femininas” 82.

Os bispos que estavam à frente do movimento procuraram obter a colaboração de religiosos europeus para incrementar a obra iniciada.

(...) tornaram-se importantes veículos para a implantação do modelo de Igreja hierárquica e tridentina, conforme o projeto dos bispos. Através de sua ampla rede escolar e paroquial, os religiosos contribuíram enormemente, especialmente junto às classes médias urbanas, para divulgar a ortodoxia da doutrina católica e contrapor-se, assim, a uma presença cada vez maior de outras denominações cristãs também atuantes na nação83.

80 MICELLI, Sergio. A Elite Eclesiástica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pág. 59-79.

81 Segundo Monsenhor Maurílio Cesar Lima, “o Concilio Plenário Latino-Americano foi inaugurado em 25/05/1899, com a participação de 13 arcebispos e 40 bispos entre os quais nove brasileiros, e mais os arcebispos de Salvador, do Rio de Janeiro e três sacerdotes como notários. O Concílio se desenrolou dentro das regras pré-estabelecidas. Os bispos latino-americanos tiveram efetiva atuação, em plena comunhão com o sumo pontífice. Trataram particularmente de assuntos relativos à fé e sua difusão, à pastoral, à disciplina do clero, ao culto e à dignidade e missão dos próprios bispos. Os decretos do Concílio foram aprovados pelas letras apostólicas Jesus Christi Ecclesiam de 01/01/1900. Entre as disposições do Concílio Plenário Latino-Americano, previa-se que os Bispos realizassem conferências periódicas de consultas, para acertarem rumos e acompanharem sua realização”. LIMA, Monsenhor Maurílio Cesar. Breve História da Igreja. Rio de Janeiro: Restauro, 2001. Páginas 152-153.

82 PASSOS, Mauro. Entre o sagrado e o profano: caminhos da educação católica na Primeira República.

IN: PASSOS, Mauro e Baptista, Paulo Agostinho Nogueira. O Sagrado e o Urbano. Diversidade, Manifestações e Análise. São Paulo: Ed. Paulinas, 2008. Pág. 32.

83 AZZI, Riolando. História da Igreja no Brasil. 2008. Op. Cit. Pág. 26-27.

Dallabrida84 acrescentou que, “para fazer frente à laicidade do sistema público de ensino implantado pela República, o episcopado brasileiro investiu suas melhores energias institucionais no estabelecimento de redes de escolas católicas em todo território nacional.” 85 Para este autor, a vinda e a atuação de congregações de ordens religiosas europeias para o Brasil, constitui-se como fator decisivo para o êxito da Igreja Católica no campo educacional, pois, os membros destas congregações religiosas,

“acreditavam que eram enviados com o dever de ensinar a verdadeira fé cristã” nos países periféricos para os quais eram enviados.

O cristianismo implica um processo de educação. Isto está associado a sua missão evangelizadora – anunciar e difundir a fé e as verdades cristãs. Na história do catolicismo, a luta pela educação cristã e pelo direito da Igreja nesse campo é um tema recorrente em suas relações com o Estado.86.

Com o discurso de representante do poder divino, a Igreja Católica questionou e atacou os ideais liberais e modernizantes dos escolanovistas a partir de 193287, e

84 DALABRIDA, Noberto. Das Escolas Paroquiais às PUCs: República, Recatolização e Escolarização.

In: BASTOS, Maria Helena Camara e STEPHANOU, Maria. Histórias e Memórias da Educação no Brasil. Vol. III – século XX. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

85 Idem. Pág.78.

86 PASSOS, Mauro. Idem Ibid. pág. 24.

87 O ideário da Escola Nova veio para contrapor o que era considerado “tradicional”. Os seus defensores lutavam por diferenciar – se das práticas pedagógicas anteriores. No fim do século XIX, muitas das mudanças que seriam afirmadas como originais pelo “escolanovismo” da década de 20, já eram levantadas e colocadas em prática. A grande diferença é que na década de 1920 a escola renovada pretendia a incorporação de toda a população infantil. O aluno assumia o centro dos processos de aquisição do conhecimento escolar. A aquisição da escrita tornou-se imprescindível dentro das capacidades fundamentais para o indivíduo. Deveria ser uma técnica mais racional, seguindo os princípios de Ferrier, para não causar uma “fadiga inútil”. Ocorreu uma modificação nos traços e nas formas de escrita. As preocupações com a leitura também ocuparam espaço nas discussões escolanovistas. A leitura oral, prática presente em todo o período anterior de nossa história, principalmente devido ao pequeno número de letrados e de livros, deveria ser substituída pala prática da leitura silenciosa. “O domínio da leitura silenciosa possibilitava ao indivíduo o acesso a um número maior de informações, concorrendo para potencializar a ampliação de sai experiência individual”. (Vidal, 2003, p. 506)

O ler e o escrever passaram a ser associados e racionalizados. Por outro lado, o conhecimento era adquirido através da experiência. Os alunos eram levados a observar fatos e objetos com o intuito de conhecê-los. “O conhecimento, em lugar de ser transmitido pelo professor para memorização, emergia da relação concreta estabelecida entre os alunos e esses objetos ou fatos, devendo a escola responsabilizar- se por incorporar um amplo conjunto de materiais”. (VIDAL, 2003, p. 509)

As preocupações educacionais da década de 20 culminaram na elaboração do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, assinado pelos principais expoentes do meio educacional brasileiro. Basearam –se em partes dos ideários educacionais implantados em outros territórios (como DEWEY e FERRER), mas adaptaram ao contexto brasileiro. O Manifestofoi liderado por Fernando de Azevedo, com o apoio de Anísio Teixeira, Roquette Pinto, Mario Casassanta, Cecília Meirelles e vários outros. Segundo os responsáveis por este documento, 43 anos após a proclamação da República, não havia sido criado ainda um sistema de organização escolar à altura das necessidades modernas e do país. O maior problema nacional era a educação pois ela era um meio de segregação social. A educação nova deveria deixar de ser um privilégio determinado pela condição econômica e social do indivíduo, para assumir um

passou a requerer a volta do ensino religioso nas Escolas. Exerceu papel de fundamental importância nesse processo D. Sebastião Leme, que liderou a política restauradora da Igreja Católica no Brasil em consonância com o Papa Pio XI. Este conhecido também como o “Papa das Missões”, por seu incentivo à ida de Ordens Missionárias para regiões “pobres”, a fim de ampliar o movimento restaurador da Igreja Católica.

1.2. A Diocese de Senhor do Bonfim e o projeto Restaurador para o “sertão das