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ABSTRACT

2. ESPECTROS CORPORAIS

2.3. ENFOQUE PSICOLÓGICO / EMOCIONAL

2.3.1. O Corpo e a linguagem

2.3.2.1 A imagem corporal

Por imagem corporal compreende-se a concepção interna e subjetiva que o sujeito tem de seu próprio corpo (STENZEL: 2006). Segundo Schilder (1999),

Entende-se por imagem do corpo humano a figuração de nosso corpo formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós. Há sensações que nos são dadas. Vemos partes da superfície do corpo. Temos impressões táteis, térmicas e de dor. Há sensações que vem dos músculos e seus invólucros, indicando sua deformação; sensações provenientes da inervação dos músculos (sensibilidade a energia; Von Frey); e sensações provenientes das vísceras. Além disso, existe a experiência imediata de uma unidade de corpo. Esta unidade é percebida, porém é mais que uma percepção. Nós a chamamos de esquema de nosso corpo, esquema corporal (...)

[...] O esquema do corpo é a imagem tridimensional que todos têm de si mesmos. (SCHILDER:1999, p.7)

Embora o termo “esquema corporal” seja considerado mais completo, por compreender a imagem associada aos movimentos e a propriocepção, manteremos no decorrer deste estudo a utilização do termo “imagem corporal”. Partindo dessa concepção, a imagem se apresenta como uma complexa percepção de atributos físicos, somáticos e históricos.

6 Sentidos - Cada uma das diferentes modalidades sensoriais através das quais, recebe-se sensações, segundo os órgãos fisiológicos destas. (visão, audição, olfato, paladar e tato)

A imagem do corpo no mito deriva de uma vivência concreta que o homem faz do seu corpo, na qual a coisa é tomada por aquilo que, ao expressar-se, ela parece ser. A partir de então, ao corpo é atribuída uma ordem de significados – idéias – cujo intento era substituir por meio de conceitos a vivencia que do corpo o homem faz. (BOHADANA: 1990, 27)

O indivíduo constrói sua auto-imagem, baseado em suas percepções, suas experimentações, suas projeções. A imagem pressupõe criação e imaginação, sendo, portanto, vulnerável a influências externas, do ambiente, do Outro ou de um contexto social específico. Stenzel (2006) afirma que a imagem corporal não se refere exclusivamente à aparência do corpo, tampouco pode ser considerada produto exclusivo da atividade intrapsíquica.

Pessoas com privação sensorial, cegas ou surdas, atribuem a possibilidade de perceber alguns estímulos através da utilização de outras modalidades sensoriais.

Os conhecimentos oferecidos pela neurociência apontam para a interconectividade e interatividade de áreas sensoriais cerebrais, as quais estariam na origem do conceito de intermodalidade. Esta, refere-se à capacidade que as modalidades sensoriais possuem de absorver e utilizar informações adquiridas por outra modalidade diferente dela. (Conf. PROUST, Joëlle: 1997, p 13-14) Assim, uma imagem não se restringe àquela percebida unicamente pelo sistema visual ou auditivo, mas sim, sob a ótica da intermodalidade, através de um conjunto de estímulos sensoriais. Sendo percebida é interiorizada, com referências extras, cognitivas e afetivas, o que possibilita sua evocação e associações subjetivas.

(SACKS: 2007)

A imagem do corpo estruturaliza-se em nossa mente, no contato do indivíduo consigo mesmo e com o mundo que o rodeia. Sob o primado do inconsciente, entram em sua formação contribuições anatômicas, fisiológicas, neurológicas, sociológicas, etc.

A imagem corporal não é mera sensação ou imaginação. É a figuração do corpo em nossa mente. (CAPISANO: 1992, p. 179)

A imagem corporal constitui-se em uma rede integrada e transformadora, na qual, um somatório de fatores, contribui para sua formação. São referências que nos conduzem no mundo externo, desvelando-o afável ou hostil.

(...) a imagem corporal não é uma construção restrita às influências obtidas pela informação visual. A imagem corporal, sob a ótica Vigotskyana, é uma representação produzida sob um contexto sóciohistórico e é fruto da experiência individual. Imagem e esquema corporal são constituídos a partir da articulação entre significado e sentido. Contribuem para essa construção, as experiências vividas em toda sua dimensão sensorial: imagens olfativas, cinestésicas, visuais, táteis e auditivas. A conexão entre inteligência prática, sensório-motricidade e emoção, por um lado, e o campo dos signos e da linguagem, por outro, é que permite a internalização dos conceitos de si, do outro e do mundo.

Nenhuma realidade para um sujeito, em sua subsistência mais profunda, é idêntica a qualquer outra. (MACHADO; FERREIRA:

2002, p.15)

O poder da imagem de tornar presente algo que está ausente, acena ao sujeito com a possibilidade de ser qualquer coisa. Capisano (1992) nos indica que “a imagem corporal não é sempre a mesma. É lábil, mutável e incompleta. Depende do uso que fazemos dela, de nosso pensamento, de nossas percepções e das relações objetais”.

Partindo deste princípio, pode-se supor que a imagem corporal pode se acentuar como negativa se os sentimentos de depreciação forem predominantes, ou mesmo falsamente positiva. Neste último caso, isto acontece em decorrência de dois movimentos distintos. O sujeito baseado em suas imagens idealizadas pode criar para si, mentalmente, uma imagem que lhe agrade e fixar-se nela. Wolf (2005) menciona que “o homem dispõe desse poder interno de tornar presente, por si mesmo, em pensamento, a aparência visível das coisas que não estão presentes.

Esse poder interno chama-se imaginação”.

(...) a função imaginária é determinante para a construção de toda a atividade mental e da representação da realidade interna e externa.

A imagem corporal, como um produto imaginário tem também sua origem na interação entre a atividade sensório-motora do bebê e o campo da linguagem, que é eminentemente cultural. Sendo assim, a percepção de si e do seu corpo passa pela representação que cada sujeito vai fazer para si na sua relação com o outro, por meio dos signos e a partir da sua própria experiência. (MACHADO;

FERREIRA: 2002, p.15)

Assim, num primeiro movimento, ele vive, sente, age referenciando-se nesta imagem fantasiosa que criou para si. Ao confrontar-se com a imagem real, a respeito de sua aparência, desconhece-se e a renega, seja em fotografias, seja em

comentários alheios. Incluem-se nesses casos, os anoréxicos e bulímicos, quando o sujeito também nega a própria imagem, apresentando distorções. Capisano (1992) refere-se que entende como desvio da imagem corporal a não coincidência com o corpo, objetivamente considerado. Assim, direcionando a atenção para pessoas com obesidade, é possível compreender como é difícil para alguns deles perceberem-se como obesos.

A imagem é efetivamente real, é nela própria uma realidade, mas não tem a realidade daquilo que representa. [...] é um ser menor daquilo que representa, é um falso ser, simples imitação da aparência, é múltipla em lugar de una. [...] (WOLF: 2005, p. 22)

Num segundo movimento possível, o sujeito mantém essa imagem idealizada para si, em seu íntimo. Nela ancora os próprios anseios e desejos. Como num sonhar acordado, repleto de devaneios convenientes, supre suas necessidades de ser. No entanto, no contato com o outro, vê-se tomado de pavor. Pois o outro lhe aponta ou pode apontar, aquilo que ele nega e não quer enxergar: o próprio corpo.

O modelo postural de nosso corpo se relaciona com o modelo postural dos corpos dos outros. Existem conexões entre os modelos posturais de seres humanos semelhantes. Vivenciamos as imagens corporais dos outros. A experiência da nossa imagem corporal e a experiência dos corpos dos outros são intimamente interligadas.

Assim como nossas emoções e ações são inseparáveis da imagem corporal, as emoções e ações dos outros são inseparáveis de seus corpos. (SCHILDER: 1999, p.18)

No contato com o outro, a decepção galopante lhe atira as máscaras ao chão.

Perplexo, sem direção, o sujeito caminha como se estivesse numa contramão. A esquiva se torna constante. A dor e o isolamento o acompanham. Norteados pelo pensar e o sentir existente, o agir o compele cada vez mais ao distanciamento do real. Afasta-se da possibilidade de dimensionar a própria dor ou alegria, ao contrário do que diz o poeta numa canção: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” 7. Desarvorados neste caminho, esses sujeitos sucumbem, adoecem, física e mentalmente, distanciando-se da respiração plena e livre, que viabilizaria uma expressão consciente de ser no mundo.

7 Alusão à expressão utilizada por Caetano Veloso na canção “Dom de iludir”, em que diz “Cada um sabe a dor e delícia de ser o que é”.

No documento dissertação hegle - (www.pgcl.uenf.br). (páginas 36-40)