É preciso considerar nessa questão a importância da imprensa como elemento propagador das ideias e opiniões, principalmente a partir do final do século XIX, chegando com muita força ao XX. A emergência de hábitos e costumes característicos da Belle Époque, no espaço urbanizado da cidade onde era possível transitar, estabelecer contatos e relações, contribui para que os periódicos impressos se espalhem com mais facilidade e a informação se fixe como elemento cada vez mais presente.
Começam a aparecer grandes jornais e revistas em lugar das pequenas folhas diárias e com eles o surgimento de um espaço de opiniões no qual vários personagens da intelectualidade brasileira da Primeira República vão participar ativamente da veiculação de ideias e do tratamento dos temas nacionais. A imprensa aperfeiçoa seus métodos de produção e vai chegando a um número cada vez maior de pessoas, assumindo assim um papel que, à luz da mentalidade moderna, seria encarado como civilizatório.
Um personagem com o refinamento intelectual de um Machado de Assis, também ele um dos grandes colaboradores da imprensa, classificou-a como “o grande veículo do espírito moderno” (MACHADO, 1997), e chamou atenção para o poder transformador que carrega principalmente para a estabilidade das posições sociais dominantes. De fato, ao se espalhar e chegar também às classes menos favorecidas (apesar da barreira do grande índice de analfabetismo da população) os jornais também se firmam como elemento de conscientização, principalmente das classes trabalhadoras mais organizadas.
Por outro lado, e é isso que mais nos interessa, as pinas dos periódicos vão servir muito mais às elites como instrumento de consolidação do poder, o que significará, como veremos mais à frente, o estabelecimento de um discurso que vai procurar delimitar as massas, mantendo-as sempre nos postos secundários da vida nacional.
Dentro desse avanço da imprensa jornalística, é preciso destacar o aparecimento da Gazeta de Notícias, em 1874, que na primeira década do século XX se firma como o mais importante periódico da cidade, preferido das elites. Junto com os recursos modernos que promove, trazendo para o jornalismo nacional práticas comuns dos jornais da Europa, como o uso de manchetes e caricaturas, o periódico se destaca por conter artigos e opiniões de figuras altamente consideradas nos meios intelectuais, como um Olavo Bilac e um Coelho Neto, além do já citado Machado de Assis.
Também não demora para que a popularização da fotografia passe a determinar uma nova forma de os periódicos abordarem os fatos e veicular a informação. Com esse recurso de
imagem, as publicações ajudam a solidificar uma cultura na qual a aparência vai se transformando em índice de posição social e de “civilidade”. Fora as implicações desse novo elemento para a reflexão da modernidade como um todo, interessa-nos particularmente o que a valorização da imagem iria significar num contexto onde diferenças raciais são bem flagrantes.
Nas últimas décadas do século XIX, quando os recursos fotográficos começam a se popularizar e a participar das publicações jornalísticas, os discursos ligados à ideia de miscigenação são ainda muito pontuais e esporádicos, ao contrário do que ocorreria no limiar entre os séculos XIX e XX, como vamos ver mais à frente. Isso significa que o advento da valorização da aparência e de seus corolários serviria também como fator que ajudaria a consolidar uma certa hegemonia do elemento europeu e de suas representações culturais como tipo predominante das classes mais altas e de outros que a tomariam como referencia.
Outra novidade é o aparecimento de grandes reportagens, que cada vez mais vão buscando extrapolar o espaço dos salões e cafés da capital da república e abranger áreas da cidade até então indevassadas e por isso misteriosas para os leitores mais habituais dos jornais. As localidades que citamos acima, para onde foram se concentrar as classes expulsas dos locais do centro da cidade onde as reformas de embelezamento aconteceram, estiveram entre os alvos preferidos de jornalistas andarilhos e dispostos a explorar o submundo da cidade, como um João do Rio na crônica e um Raul Pederneiras, na caricatura e nas charges.
Estes, por sua vez, ao romperem em parte com o protótipo do jornalista fixado nas redações, vão se caracterizar como uma espécie de versão nacional do flâneur europeu, o homem de letras que é capaz de transitar pelas diversas “cidades” e dessa forma acaba por atuar como um intermediador cultural. Sua produção jornalística, na medida em que é fruto de sua vivência concreta como “testemunha ocular”, ajuda a fortalecer um aspecto do veículo de informação que se valoriza na modernidade, aquilo que Benjamin chamaria de “ônus da explicação verificável” (BENJAMIN, 1994, p. 209), isto é, o estatuto de “verdade” que deve permear a informação e oferecer ao leitor a comodidade de estar diante das realidades da vida.
A imprensa escrita se firma então como um elemento “civilizatório”, no sentido de fortalecer cada vez mais um estilo de vida baseado na modernidade e nos hábitos culturais europeus. Na medida em que a influência dos jornais mobiliza a cidade, o público-leitor vai ficando cada vez mais exigente e interessado em novidades e é dentro dessa ideia que aparece o interesse crescente no estilo de vida das classes populares, que são vistas pelo prisma do exótico ou pitoresco, uma vez que vivem de forma muito diferente daquela preconizada para
as classes mais abrangidas pelo modo de viver moderno das quais se espera uma total correspondência com os pressupostos da vida urbana e “organizada”.
Assim, vai se desenvolver uma cultura na qual os morros, cortiços e bairros de periferia vão ser continuamente visitados e as realidades ali vividas vão figurando cada vez mais nas pinas dos periódicos e se tornando conhecidas das classes altas. Esse caráter embutido na força da informação seria, no caso da Belle Époque no Rio de Janeiro, de grande importância na medida em que os redatores e cronistas dos diversos periódicos se transformariam em importantes mediadores, que, ao visitar as regiões onde predominantemente foram relegados os afrodescendentes depois da reforma urbanística, abasteceriam a cidade de informações que ajudariam a formar uma visão, que naturalmente em nada se identificaria com os pressupostos do sentido da modernidade, tal como expressado anteriormente.