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A INDEPENDÊNCIA DO INDIVIDUO

No documento A Evolução do Direito (páginas 156-200)

' 110. A independência do individuo assegurada pelo com- mercio jurídico. — Homem independente não é, como de ordinário se diz, aquelle que tem menos necessidades a sa- tisfazer. É essa uma independência pouco invejável, e, sob!

esse ponto de vista, o animal é-nos superior, como o selva- gem o é ao homem civilisado. A independência consiste em poder cada um satisfazer as suas necessidades. Os meios para isso assegura-os o commereio jurídico. Este serviço que elle presta á sociedade dos homens, é a base da inde- pendência humana. Se elle a faz depender da condição — posse de dinheiro — não se segue d'ahi que o encargo com- pense o beneficio, porque, se é certo que sem dinheiro o commereio jurídico perde todo o valor para o homem, não o é menos que o dinheiro é um factor inútil sem as relações sociaes. No meio de uma população selvagem para nada servem montes d'oiro, visto que nada ai li podemos comprar do que é útil para a existência; entre nós uma somma bem pequena pode proporcionar os mais nobres prazeres. Em país civilisado, o obreiro com o seu salário pode adquirir) os fruetos do trabalho' de milhares de homens. Os dez reis que gastamos fornecem-nos o que se produz no cabo do mundo e põem em actividade uma multidão de mãos humanas. Se é certo que não ha trabalho que não seja remunerado, que o comprador de uma mercadoria paga os esforços que a sua producção custou, desde que a matéria prima se destacou do solo até que lhe chegou ás mãos, os poucos reaes dados por uma chávena de café ou por um jornal contribuem para todas as despesas que foram necessárias á producção de um e do outro. Pelo que toca ao café, paga a parte relativa do rendimento do proprietário da plantação, as despesas de cultura e de transporte, os prémios de seguros, salário da equipagem, lucros do armador e do importador, commissão do corretor, imposto, lucro do merceeiro

A EVOLUÇÃO DO DIREITO ____________ 163 e o do dono do café. Isto no tocante ao café; mas ha a fazer outras contas — para o assucar e para o leite. Com os dez réis que o meu jornal me custa, eu pago ao editor, ao im- pressor e aos operários, ao fabricante de papel, aos reda- ctores e aos correspondentes, pago os telegrammas, pago ao correio, ao distribuidor. As partes que eu pago por este meio não podem determinar-se mathematicamente, mas é innegavel que ellas estão comprehendidas em proporções infinitesimaes nos dez réis que dispendo. Este phenomeno é o resultado de três ordens de progressos, que devemos á perfeição do nosso actual systema de relações: a divisão do trabalho, a intensidade da força productiva, e a expansão do commercio atravez do mundo inteiro. Nem todos os seus thesoiros teriam podido proporcionar a Creso uma chávena de café ou o numero de um jornal, se elle houvesse de realisar por si próprio todas as operações necessárias á sua acquisição. Hoje o pobre, por alguns reaes, tem mais homens ao seu serviço e em todos os cantos da terra, do que os que Creso poderia obter ainda mesmo que esvasiasse os seus cofres.

2. O PRINCIPIO DA EGUALDADE DAS PESSOAS.

111. A egualdade das pessoas no commercio jurídico—O commercio jurídico abstrae das pessoas; não se preoccupa m o ricaço, nem com o proletário; com o homem celebre, nem com o obscuro ignorante; com o nacional ou com o estrangeiro. Só conhece o dinheiro. Esta indifferença pela personalidade — consequência evidente do egoísmo, que apenas vê o ganho — é, no que toca á sociedade, de um valor realmente incalculável, porquanto garante a todo o homem, quem quer que elle seja, comtanto que saiba pagar, a certeza de poder satisfazer as necessidades da sua existên- cia e a possibilidade de collocar esta ao nivel da civilisação da sua época. Esta situação social do homem é inexpugná- vel. O Estado pode tirar-lhe a honra, prival-o da liberdade;

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a Egreja, as associações, podem expulsal-o: o commercio juridico nunca o repelle. Aquelle que é impróprio para tudo, e de cujo contacto todos fogem, sempre merece que se fa çam com elle negócios. O dinheiro é uma recommendação que a sociedade nunca deixa de considerar. I

A indifferença do commercio juridico pelo que toca a personalidades, equivale á egualdade absoluta de todos no commercio juridico. Em parte alguma o principio da egual- dade se acha mais completamente realísado na pratica. O dinheiro é o verdadeiro apostolo da egualdade. Os precon- ceitos sociaes, todas as antitheses sociaes, politicas, religio- sas, nacionaes, são impotentes contra elle. É um bem? É um mal? Tudo depende do ponto de vista em que nos collocarmos. Se considerarmos o porque do facto, não po- deremos applaudil-o: dicta-o o egoismo, e o sentimento de humanidade é-lhe estranho. Se porem attendermos aos seus effeitos, eu não posso deixar de repetir que o egoismo, servindo-se a si próprio, favorece a família humana;

preoccupado somente comsigo próprio e com o seu interesse, realisa no seu domínio, sem o saber e sem o que- rer, um principio a que elle resiste em qualquer outra parte

— o da egualdade das pessoas (').

3. A IDEIA DE JUSTIÇA.

112. À justiça no campo económico. —A ideia de justiça representa o equilíbrio imposto pelo interesse da sociedade entre um facto e as consequências que d'elle resultam para o seu auctor, isto é, entre o facto criminoso e a' pena, entre o facto meritório e a.recompensa. O commercio juridico realisa este ultimo equilíbrio do modo mais perfeito. Graças a elle cada contractante recebe em troca o equivalente

(') Lá para diante me occuparei mais detidamente d'este assumpto:

aqui trato d'elle apenas tanto quanto interessa ao thema que estou ver- sando, v.is:

A EVOLUÇÃO DO DIREITO 165 cTaquillo que deu (n.° 70). O salário (salário obreiro, preço da mercadoria) é pois a realisaçõo da ideia de justiça no terreno económico. A fixação da pena comporta sempre um certo grau de arbítrio; é determinada por uma disposição do poder publico; a sua medida é sempre variável e incerta.

A fixação do equivalente é, pelo contrario, o resultado de uma apreciação cuidadosamente estudada e incessantemente experimentada por todos os interessados. O salário possue sensibilidade egual á do mercúrio no thermometro: sobe ou desce á menor mudança na atmosphera económica. É no commercio jurídico, no meio das nossas instituições so- ciaes, que a ideia de justiça tem sido mais perfeitamente e também mais promptamente realisada. Elle achou no salá- rio a sua formula adequada, muito melhor do que o Estado achou a sua na pena. É ainda por elle que a ideia de justiça se tem realisado mais uniformemente no mundo. O direito e a pena mudam ao passar de um estado para outro; os preços e salários não conhecem fronteiras, se bem que certas instituições positivas do Estado (alfandegas e contri- buições) obstem, até certo ponto, ao seu nivelamento uni- versal.

A applicação da noção de justiça ao salário, fornece-nos a chave de um phenomeno psychologico particular: é a repugnância que teem, ainda os menos avaros, em pagar uma coisa por mais que o seu valor, mesmo quando a diffe- rença seja insignificantíssima. Tal repugnância não é, como o julgam os espíritos tacanhos, filha da avereza; provém do sentimento do direito, que resiste á ideia de conceder o que se não deve. Esta resistência não é orientada por um motivo económico, mas dictada por um motivo moral.

Assim vemos pessoas que para se eximirem á suspeita de avareza e afirmarem o desprezo pelo dinheiro se entregam, por mera ostentação a vans prodigalidades; ratinham por dez réis e desperdiçam uma libra.

As três ideias cuja applicação ao commercio jurídico eu acabo de mostrar, são os mais altos problemas da ordem moral que a et nica conhece, e esta resolveu-os com uma

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perfeição que o Estado nunca pôde attingir. Na alvorada da historia, e muito antes que x> Estado saísse dos seus limbos, já o commercio tinha cumprido em parte a sua missão.

Ainda os Estados se combatiam, e já o commercio tinha rasgado os caminhos que deviam unir os povos e estabe- lecer entre elles a troca dos seus productos e das suas ideias.

Foi elle o pioneiro do deserto,, o arauto da paz, o porta-j facho da civilisação.

CAPITULO VIII

A MECÂNICA SOCIAL OU OS MOTORES DO MOVIMENTO SOCIAL

II. Motores egoístas.—A coacção.

113. Coacções diversas. — A coacção serve de segundo motor á ordem social. O commercio jurídico assenta na organisação social do salário; o Estado e o direito assentam na coacção. Com esta o commercio jurídico attinge o apo- geu do seu desenvolvimento. O salário deve apoiar-se no direito.

A coacção, tomada a palavra em sentido geral, consiste na realisação de um fim por meio do constrangimento de uma vontade estranha. A coacção suppõe activa e passi- vamente um ser vívo dotado de vontade. O constrangi- mento da vontade alheia pode obter-se de dois modos (n.os 9 e 21): primeiro mecanicamente (coacção mecânica, physica, vis absoluta), se a resistência opposta pela vontade de outrem ao fim visado é quebrada por uma pressão material mais forte. Isto constitue um facto puramente exterior, como o seria o do homem que afastasse o obstáculo inanimado que lhe estorva a passagem. Em linguagem ordinária o acontecimento traduz-se em qualquer dos casos pela ex- pressão de força. Mas a força que actua sobre o ser vivo chama-se também coacção, porque, se bem que dirigida somente contra o corpo, attinge também a vontade, visto que lhe tolhe a liberdade. A coacção psychologica é a antithese da coacção mecânica. N'esta o acto é executado por quem a exerce; na coacção psychologica é executado pelo que a soffre. Alem é necessário que negativamente se anulle a resistência da vontade; aqui é necessário que a von-

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tade actue, positivamente. O resultado é o mesmo, mas a distincção tem a sua importância sob o ponto de vista psy-i enológico e jurídico, como o provam o estupro violento e a extorsão.

Segundo a natureza positiva ou negativa do fim a alcan- çar, assim a coacção é propulsiva ou compulsiva. Aquella combate a resistência contra um certo acto, esta quer a exe- cução d'esse acto. A legitima defeza é propulsiva; a justiça privada é de natureza compulsiva.

I Eis a primeira ideia que quizémos apresentar acerca da coacção. Vamos estudar a sua organisação no que respeita aos fins da sociedade. Esta organisação baseia-se na reali- sação das duas noções de Estado e de Direito: d'um lado a organisação do poder que exerce a coacção, do outro a fixação dos princípios que regulam o seu exercício.

Esta organisação da coacção não exgota a matéria. Ao lado da coacção politica ha uma outra não organisada, que em toda a parte a precedeu e em toda a parte se manifesta ao seu lado: chamar-Ihe-ei coacção social. O objecto da coacção politica é a realisação do direito; o da social a mo- ralidade. Mais tarde trataremos da theoria da moralidade (Cap. IX).

Vou agora tentar examinar as duas noções, Estado e Direito, até nos seus primeiros princípios. Como fiz para o salário no systema do commercio jurídico, expor-lhes-ei a genése tal como ella invencivelmente resulta da força im- pulsiva pratica da noção de finalidade. Conto com um duplo resultado: primeiro constatar a continuidade do desenvol- vimento da ideia de finalidade na sociedade humana, e de- pois mostrar como esta ideia derrama uma viva luz sobre o Estado e sobre o direito organisador.

Reconhecendo e frisando energicamente a dependência do direito com relação ao Estado, a philosophia do direito moderno realisou incontestavelmente um progresso sobre o antigo direito natural; mas ultrapassa o seu fim quando, como HEGEL, por exemplo, recusa todo o interesse scientifico á situação que precedeu o advento do Estado. A existência

A EVOLUÇÃO DO DIREITO 169 independente do ser vivo só data do seu nascimento; mas a sciencia remonta até aos primeiros germens da vida uterina, e a historia do crescimento do embryão torna-se para ella uma fecunda origem de conhecimentos.

E por isso que se deve permittir á sciencia, mesmo no que toca ao direito, que estude o estado embryonario das coisas. Aquelles que se teem occupado da historia natural do direito não se detiveram no facto exterior do direito e do Estado. O seu titulo de gloria está em haverem inqui- rido d'onde procediam quer um quer o outro; mas resolve- ram falsamente o problema attribuindo ao contracto a ori- gem do Estado na historia. É essa uma simples hypothese colhida fora da realidade histórica. Elles seguiram a historia do desenvolvimento do direito sem observar attentamente esse mesmo desenvolvimento. A moderna philosophia do direito veiu contraditar, e com fundamento, tal solução do problema; mas este continua de pé, e a sua solução impõe*

se. Se o historiador do direito comparado, e o philosopho, unirem os seus esforços, a historia do desenvolvimento do direito ha-de vir a ser um dia para o jurista tão interessante como o estudo do desenvolvimento do feto para a anato- mia comparada.

As origens primarias, que vamos prescrutar, são mais remotas no tocante á coacção do que no tocante ao salário-: j este só nasce com o homem; aquelle existe já para o ani- mal. N'este apparece ella sob o seu aspecto mais rudimentar;

no Estado reveste a feição mais elevada. Vamos esfor-çar-nos por as relacionar uma com a outra.

1. 0 animal

114. A coacção em a natureza animada. — A FORÇA.Ap- licamos a noção de força tanto aos corpos inanimados como aos seres animados. Falamos do poder dos elementos, da força centrífuga, do predomínio que um animal exerce

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sobre outro. Exteriormente eguaes, esses factos differem essencialmente uns dos outros na sua essência internai Quando a tempestade desarraiga o carvalho, quando o mar despedaça os seus diques, produzem-se factos que caem sob a alçada da lei da causalidade. Quando um animal derriba outro, e o mata e o devora, procede tendo em vista um fim:

é pois a lei de finalidade que rege o acto. Mas, quando o animal usa da força, o seu fim é o mesmo que o do homem que usa do seu poder — é a conservação, a afirmação da própria vida. JÉ sempre o mesmo o fim a que se dirige a força, quer por parte do animal quer por parte do homem, quer no Estado. O resultado depende da sua superioridade.

Em toda a natureza sempre os seres mais fortes vivem á custa dos mais fracos; mas o recurso á força apenas se verificará quando as suas condições vitaes entrem em conflicto, e se o mais fraco não preferir subordinar as suas ás do mais forte.

Isto conduz-nos á coacção.

A COACÇÃO PSYCHOLOGICA. Comparada com a força, esta constitue um immenso progresso. O corpo inanimado mais fraco não pode escapar ao choque de um corpo mais forte, mas o animal mais desarmado pode escapar pela fuga ao seu inimigo mais terrível: salvará a existência cedendo terreno. O animal, o homem, o povo, que cedem ao que é mais forte que elles, subordinam por este facto as suas con- dições de vida ás do inimigo. E um modas vivendi que se estabelece entre elles. Esta capitulação diante da coacção é affirmação do seu próprio ser. O cão fraldeiro que foge á lucta, e larga o seu osso ao mastim, conserva a vida á custa do sacrifício da sua presa. A força afirma um fim pessoal não reconhecendo em principio, e subordinando de facto, o fim alheio. A coacção representa a conciliação entre estes dois fins, produzida pela reflexão e pela submissão do ser ameaçado. O animal possue o grau de reflexão necessária para comprehender a ameaça e a necessidade de se lhe subtrahir. É d'este modo que a natureza permitte ao mais fraco que viva ao lado do mais forte. Ao que é impotente

A EVOLUÇÃO DO DIREITO 171 para se defender concede ella, como compensação, a intel- ligencia necessária para evitar o ataque. B Esta coacção, de que acabamos de falar, é a propulsiva. É tão geral no mundo animado que nos sentimos quasi tentados a julgar que não existe outra; mas tVeste reino apparecem egualmente casos isolados de coacção compulsiva. O mais interessante é o das expedições guerreiras das formigas, uma tribu inteira, formada em ordem de batalha e guiada pelos seus commandantes, entra em campanha contra uma tribu visinha; o vencido não é aniquillado, mas reduzido á escravidão e coagido a trabalhar para o vencedor.

2. 0 homem. — 0 império da força sobre si mesma

SUMMAIIIO: 115. A força adiando em il própria o principio da sua moderarão.—| 116.

A escravatura. —117. A pM; sujeição do vencido.—118. Origem do direito na força.

115. A força achando em si própria o princípio da sua moderação. — Vida do mais forte á custa do mais fraco; em caso de conflicto destruição d'este ultimo: tal é o espectá- culo que offerece a vida em Commum no mundo animal. — A existência garantida, ainda ao mais débil e ao mais hu- milde, ao lado do mais forte, do mais poderoso, tal é a physionomia da vida na sociedade humana. E comtudo o homem tem na historia o mesmo ponto de origem que o animal; mas a natureza dotou-o de tal modo que, no decor- rer dos séculos, elle pôde, elle deveu mesmo, elevar-se a este grau de civilisação.

Se a historia universal houvesse de reproduzir-se maisí cem vezes, outras tantas a humanidade viria, como em nossos dias, a parar no direito. O homem não pode fazer outra coisa que não seja arranjar para si uma situação que torne possivel a vida em comunidade.

112 A EVOLUÇÃO DQ DIREITO

A historia do poder no mundo é a historia do egoísmo ;|

mas o egoísmo deve tornar-se circumspecto e aproveitar com a experiência do passado. Esta educação do poder mostra ao egoísmo como deve fazer uso d'elle, não somente para neutralisar o de outrem, mas até para o tornar utif ai si mesmo. A cada passo da civilisação a intelligencia do homem, sempre progredindo e sempre movida pelo inte- resse próprio, serve-Ihe tanto para reforçar o seu poder, como para o moderar. A humanidade, para a qual se eleva, não é, segundo a sua origem primaria, outra coisa mais do que o império da força sobre si mesma, dictado por um bem entendido interesse próprio,

116. A escravatura. — A escravatura assignala o primeiro passo dado n'este caminho. O primeiro vencedor que pou- pou a vida ao inimigo vencido, em vez de o matar, proce- dçu assim por haver comprehendido que um escravo vivo vale mais que um inimigo morto. Poupou-o como o pro- prietário poupa o animal domestico. O serv-are do servus tinha por fim serv-ire ('). Motivo egoísta? — Seja! Bemdito egoísmo que reconheceu o preço da vida humana, que possuiu bastante império sobre si mesmo para a poupar no seu próprio interesse e, portanto, para o bem da humani- dade. O reconhecimento do valor económico da vida hu- mana marca a aurora da humanidade na historia. Os roma- nos chamam ao escravo homo; é o homem e mais nada, isto é, o animal, a besta de carga. Não é persona, sujeito do direito; só o cidadão pode ter pretensões a esse titulo. Mas este homo é a vanguarda do género humano em sua marcha para a humanidade. A escravatura é a primeira solução da coexistência do forte e do fraco, do vencedor e do vencido.

117. A paz. — Sujeição do vencido. — Com o tempo a sua forma torna-se mais suave e a sorte do fraco perante o forte

(') Etymologia romana (V. os textos de SCHRADER Inst. sobre § 3 de jure pers. 6-3) que, linguisticamente falsa, nem por isso deixa de conter, de facto, urna ideia exacta.

A EVOLUÇÃO DO DIREITO 173 é menos cruel. O vencido já não é um escravo, paga tributo, resgata-se, é incorporado nas fileiras do vencedor, a principio com menores direitos, mais tarde com direitos eguaes. Vêem finalmente os tratados pôr fim á lucta, regulam as relações entre òs povos, e o mais fraco vive livre. É o tratado de paz (pascisci= concertar, pax, a paz). A paz importa em favor do adversário o reconhecimento do direito de ser livre: não se fazem tratados com escravos. Foi a humanidade que determinou o vencedor a embainhar a espada antes de ver o vencido agrilhoado a seus pés, e a tratal-o generosamente?

Não foi um sentimento differente d'aquelle que o tinha levado a poupar-lhe a vida, isto é, o seu próprio interesse.

Diante de uma victoria provável, ou mesmo certa, elle calculou o preço do triumpho; pesou as probabilidades que lhe assistiam continuando o combate; perguntou a si próprio se pagar muito caro para obter mais seria para elle mais vantajoso do que obter menos mas com menores despesas; o lucro compensaria o risco? Um esforço y poderá reduzir um corpo ao volume de x polegadas; para o reduzir a x—l será talvez necessário um esforço dey+ÍO. O lucro 1 compensa acaso o custo do esforço de 10? E a este calculo que eu resumo toda a estratégia do vencedor. Se elle fôr bastante senhor de si para substituir a paixão do momento por uma concepção intelligente da situação, o seu interesse ha-de leval-o a não impellir o inimigo para um esforço desesperado que lhe acarretará a si próprio sacri- fícios em desproporção com o fim que quer alcançar. O excesso da pressão conduz a uma reacção violenta. Afora os sentimentos de humanidade, só a politica aconselha mo- deração.

É d'este modo que só o interesse conduz ao direito, que é a paz. A paz é o termo de uma contestação pelo estabe- lecimento de um modus vivendi, a que se submettem as duas partes em lucta. D'este modo a força impõe a si própria um limite que deseja respeitar, cria para si uma norma que está resolvida a observar. Esta norma, que ella consentiu, é o direito. Que ella a observe de futuro, ou que

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