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A integralidade na formação do terapeuta

1. INTRODUÇÃO

4.5 A integralidade na formação do terapeuta

Não basta compreender as partes. É preciso que diante da reflexão da própria vida o terapeuta consolide o seu saber, fazendo-o emergir de seu próprio mundo.O curador de si, uma vez no mundo em si, encontrará caminhos para chegar ao curador do outro, que se desvela de igual maneira. O curador é o mesmo, só muda o veículo.

Neste ponto, chegamos ao que compreendemos de o porquê escolher

“terapeutas” como profissionais para a esta pesquisa e relacionar a necessidade de uma formação profissional que envolva as capacidades sensíveis humanas.

Terapia segundo suas raízes linguísticas, vem do grego “therapeia” que significa acolhimento, servir, ser caloroso, sendo o terapeuta a pessoa que exerce o papel de acolher e cuidar de outros (Barreto, 2008). Para cuidar do outro é necessário que o próprio homem disponha de um saber que auxilie outros, e de certa forma, todos nós independente da profissão que escolhemos, ou condições externas em que nos mantemos, possuímos esse saber. A função de um terapeuta está ligada a leitura de mundo, a compreensão de uma realidade física, psíquica, social, cultural e espiritual. A integralidade de um saber que ultrapassa de um âmbito tecnicista, para uma compreensão complexa de um organismo vivo que é o homem e o mundo.

Neste contexto, a procura pela compreensão sobre a dualidade das coisas e sua unidade, a construção histórica que nos formou como homens e a justa medida entre a observação do pensar, sentir e querer para a elevação da sensibilidade humana até ao vazio do qual nos refere Steiner, como o pensar intuitivo nos levaria ao verdadeiro significado de “SerTerapeuta”.

Steiner adentra o conceito de terapeuta dividindo-os em três atribuições: o terapeuta do corpo (profissionais da área da saúde) responsável por trabalhar diretamente no organismo-físico material; o terapeuta da alma (educadores) responsável pelas teias de significados e aprendizados do “eu” no mundo; e o terapeuta do espírito (sacerdotes), responsável em auxiliar o homem a estruturar um pensamento espiritual que se eleva da matéria e a compreende como parte manifestada do todo. Compreende que todas as três “manifestações” do terapeuta interferem diretamente no fazer saúde, educação e sociedade. Um terapeuta seria o

“mediador” que tece a teia de significados, necessitando assim elaborar a sua própria concepção de mundo, para assim, ocupar o lugar de mediador junto a outros, tanto com criticidade construída pela sua própria leitura de mundo e prática, quanto em sensibilidade advinda das suas investigações sobre si mesmo e suas mobilizações internas para o agir.

Compreender onde estamos neste espaço e tempo, bem como onde estivemos em outros tempos, nos oferece um substrato capaz de refletirmos o Eu em nós, desde as dimensões mais objetivas da realidade às mais subjetivas dos sentimentos e entendimentos, podendo ainda, nos lançar a unificação do que ainda nos é dual e a evolução da sensibilidade ao ponto de manifestarmos o pensamento intuitivo e vivenciarmos a liberdade que tem sido buscada.

Propomos que, mediante a observação do pensar, do sentir e do querer no mundo, o homem tem a possibilidade de descobrir aspectos de sua individualidade e reflexos de uma dimensão coletiva, histórica e cultural que o envolvem. Compreende a si mesmo, e o coletivo que o cerca em seu processo de construção humana, adquiriu maior liberdade de pensamento, advindo da observação crítica, para novas construções. E, mediante ao aprofundamento dos sentimentos/sensibilidade humana, ele abre espaços internos decorrentes da construção de sentidos e afetos, que caminham a integração onde o coletivo e a própria natureza que emerge pelo pensar intuitivo.

Refletimos aqui um caminho de pensamento que possa sustentar a sensibilização, criticidade e liberdade de pensamento na construção humana e em específico na formação profissional do terapeuta, como aporte para subsidiar professores e terapeutas nas mais diferentes áreas do saber em suas práticas.

5.METODOLOGIA

Esta pesquisa teve como abordagem a perspectiva qualitativa. Nesta abordagem interligam-se questões de valores, crenças, atitudes e representações, em que a singularidade expressa por meio dos sujeitos envolvidos é considerada um nível legítimo de produção de conhecimento (MINAYO E SANCHES, 1993).

Segundo Minayo (2012) compreender é o principal intuito de uma abordagem qualitativa, sendo que para compreender é preciso observar a singularidade do indivíduo, pois seu viver total manifesta-se por meio de sua subjetividade.

Correspondente aos nossos objetivos, esta abordagem nos pressupõe a reflexão da autopercepção do terapeuta considerando a sua dimensão humana, sua prática profissional, sua relação com o outro e com a sociedade, sua subjetividade, sendo legitimado pela observação das manifestações anímicas: seu pensamento, seu sentimento e seu querer refletidos em sua fala.

A pesquisa foi realizada na Universidade do Vale do Itajaí (campus Itajaí) com um grupo de voluntários de um Projeto de Extensão Universitária intitulado Terapeutas da Alegria, sendo autorizada pelo respectivo coordenador do projeto de extensão. Este projeto tem como objetivo auxiliar na humanização dos serviços de saúde e no âmbito social, utilizando a figura do Doutor Palhaço para estabelecer suas práticas. Este projeto, subsidiado pela Universidade e desenvolvido em Itajaí e região há 15 anos, auxilia na formação de profissionais preocupados com o ser humano, sua saúde, educação e qualidade de vida, capazes de abordá-lo de forma integral e interdisciplinar, colaborando para a melhoria do atendimento nos estabelecimentos de saúde e nos diversos setores de âmbito social. O grupo é variado, conta com a participação de diversos acadêmicos de diferentes áreas (Engenharia, Direito, Medicina, Fonoaudiologia, Jornalismo), profissionais formados e pessoas da comunidade.

É importante considerar que uma das diferenças marcantes nesse projeto é o protagonismo estudantil, pois é coordenado diretamente por acadêmicos da universidade, e vem abrindo e transformando realidades duras e frias, em acolhimento e amorosidade ao longo de todos esses anos. Realizam suas formações semanalmente na Universidade sobre diferentes temas, com o objetivo de auxiliar em sua prática profissional, sua formação humana e sua compreensão de mundo. Desta forma, esta pesquisa subsidiaria a continuidade de formação de

novos membros do projeto. Contamos com a participação de 25 a 35 integrantes semanalmente, dos quais selecionamos apenas 29 para análises de fala. O critério de exclusão dos demais participantes foi por falta de participação em duas ou mais oficinas.

Caracterizada por uma Pesquisa-ação, em que há uma participação direta do pesquisador como membro do grupo e, relaciona-se segundo BARBIER (2002) á três níveis de envolvimento entre pesquisador e objeto: nível psicoafetivo (questiona os fundamentos da personalidade), nível histórico existencial (questiona a existência do pesquisador), nível estrutural profissional (refere-se ao pesquisador em sua dimensão socioeconômica). Indo ao encontro de nossos questionamentos de pesquisa, e buscando solucioná-lo por meio da reflexão coletiva em seus diferentes âmbitos. Caracterizou-se por uma pesquisa-ação por gerar um movimento vivencial, e sendo legitimado pelas considerações de todos os envolvidos e o trabalho de reflexão dialética.

Objetivou-se cinco encontros para serem trabalhados os conteúdos programados, que poderiam ser modificados e/ou acrescentados dias na formação a depender das condições de tempo/espaço/disponibilidade e discussão do grupo.

Porém, não necessitamos de dias extras, visto a profundidade de discussões nos encontros previstos.

Foram cinco dias de vivência, com duração aproximada de quatro horas cada, totalizando um histórico de 20horas de formação. Cabe ressaltar que as atividades interligam-se em cada encontro com as três manifestações anímicas de maneiras distintas a depender do processo da atividade, entre pensar-sentir e querer. Sendo que as categorias refletidas para as vivências pertencem a antroposofia, todavia, os métodos de aplicação das atividades, as dinâmicas e o direcionamento delas no decorrer do trabalho são ocupados por uma bagagem vivencial, em minha formação artística e terapêutica em diferentes vertentes.

Os encontros buscaram o aprofundamento nas três atividades anímicas do ser humano: pensar-sentir e querer. As atividades do sentir buscaram mobilizar o homem internamente pelo que eleentende como sentimentos. As atividades do pensar buscaram a elaboração das representações mentais da realidade. E as atividades do querer buscaram a manifestação da vontade individual e coletiva refletida por meio das práticas vivenciais reflexivas entre pensar e sentir.

Nestes encontros,buscamos pelo Despertar do Corpo a ampliação das percepções sensíveis; adentramos a esfera de compreensão do Despertar da Alma em três níveis: alma das sensações, alma do intelecto e alma da consciência; e de igual maneira, a complexidade do pensamento em uma esfera interrelacional com o corpo e a alma pelo Despertar do Espírito, onde elucidamos o pensar intuitivo, a consciência do eu coletivo, e a Essência Trina do homem sobre a sua unidade, autocognição.

Como descrição da organização dos encontros e das atividades desenvolvidas, elaboramos a partir dos objetivos dessa dissertação e do contato com o grupo no processo de formação ométodo de ensino-aprendizagem para o Despertar do Eu: “Essência Trina” (detalhado no apêndice 9.4)criado como um aporte tecnológico capaz de subsidiar professores e terapeutas nas mais diferentes áreas do saber em suas práticas.

A coleta de dados foi realizada por meio de gravação em áudio e vídeo e posterior transcrição, sendo iniciada após a aprovação do Comitê de Ética da Universidade do Vale do Itajaí. Para a realização da coleta de dados, no primeiro dia de encontro com o grupo, foi apresentado de forma oral e escrita a proposta da pesquisa e do projeto de formações com o grupo e, para quem decidiu participar, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, elucidando de forma clara os procedimentos a serem utilizados para a obtenção e análise dos dados da pesquisa.

Portanto, os participantes foram informados sobre os cuidados a serem tomados envolvendo esta pesquisa e a liberdade de retirada do consentimento em qualquer período da pesquisa, bem como a garantia de confidencialidade dos dados. Os sujeitos que aceitaram participar como membros da pesquisa receberam uma das duas cópias do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que foi assinado pelos mesmos, sendo outra anexada ao projeto.

A Figura 1 sintetiza o processo adotado pelo método.

Após cada encontro o material gravado foi transcrito para posterior análise.

Ao final dos cinco encontros foram selecionadasas falas dos 29 participantes parainvestigação e escolha das categorias de análise que foram adotadas na pesquisa.

Figura 1 – Síntese do método de ensino-aprendizagem “Essência Trina”

PENSAR

REFLEXIVO PENSAR

VIVENCIADO

QUERER

ALMA DA CONSCIÊNCIA

A

PENSAR SENTIR

ESPÍRITO

ALMA

CORPO

ALMA DO

INTELECTO ALMA DA

SENSAÇÃO EU ESPÍRITO

PENSAR INTUITIVO

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