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Sobre o espaço habitado e modificado pelo homem ao longo da história, Santos faz a seguinte consideração:

[...] atingimos uma situação-limite, além da qual o processo destrutivo da espécie humana pode tornar-se irreversível. O espaço habitado se tornou 'um meio geográfico completamente diverso do que fora na aurora dos tempos históricos. Não pode ser comparado, qualitativa ou estruturalmente, ao espaço do homem anterior à Revolução Industrial.

Conforme assinala Garrett Ekbo em seu belo livro A Paisagem que vemos, com a Revolução Industrial a articulação tradicional, histórica, da comunidade com o seu quadro orgânico natural, foi então substituída por uma vasta anarquia mercantil. Agora, o fenômeno se agrava, na medida em que o uso do solo se torna especulativo e a determinação do seu valor vem de uma luta sem trégua entre os diversos tipos de capital que ocupam a cidade e o campo. O fenômeno se espalha por toda a face da terra e os efeitos diretos ou indiretos dessa nova composição atingem a totalidade da espécie. Senhor do mundo, patrão da Natureza, o homem se utiliza do saber científico e das invenções tecnológicas sem aquele senso de medida que caracterizará as suas primeiras relações com o entorno natural. O resultado, estamos vendo, é dramático. (SANTOS, 1988, p. 16)

7 A região era originalmente habitada pelos índios Goytacazes, na língua tupi-guarani, para alguns significa índios nadadores

8 Extensão de terras da área utilizada, pois não conta com investimento de capital e tecnologia.

O processo urbano acelerado e a falta de um planejamento adequado nas últimas décadas inserem a lagoa do Vigário num quadro de degradação ambiental que compromete a qualidade de vida da população que vive no seu entorno num aspecto ecológico, sanitário e socioeconômico.

O quadro atual ratifica as palavras de Lannes quando afirma que:

Ambientes naturais inseridos em áreas urbanas caracterizam-se por apresentar grande suscetibilidade a flutuações em sua composição hidroquímica, devido ás interações entre o ambiente e o produto do modo de vida da população que margeia o ecossistema em questão.

(LANNES, 2002, p. 6).

Essa suscetibilidade a flutuações na sua composição hidroquímica traz várias consequências nocivas. Primeiro no que diz respeito ao aspecto ecológico, porque representa perda do patrimônio natural, visto que esta é uma das últimas lagoas localizada no perímetro urbano da cidade. Em relação ao aspecto sanitário, as consequências também são maléficas porque estando numa área de enchente, a contaminação de suas águas é multiplicada inúmeras vezes por servir de depósito de resíduos orgânicos e químicos (esgoto in natura) de seus ocupantes.

A degradação ambiental compromete ainda o aspecto socioeconômico, visto que onde há agressão e devastação do meio ambiente, se instalam a pobreza e a miséria. Todos esses fatores resultam em um ambiente propenso a endemias e epidemias acentuando mais ainda a pobreza e a miséria.

Um dos indicadores importantes que apontam a degradação é a eutrofização, ou seja, o excesso de plantas aquáticas, que pode se apresentar como plantas flutuantes e fixas, propiciadas por um alto teor de nutrientes presentes na lagoa. Na Lagoa da Vigário encontra- se uma vegetação conhecida popularmente como tabúa, o alto índice de nutrientes se dá em decorrência dos resíduos orgânicos que são lançados na lagoa, diariamente, pelos seus ocupantes, principalmente compostos nitrogenados e fosforados.

A soma de nutrientes orgânicos na água favorece o desenvolvimento de uma superpopulação de microorganismos decompositores, que consomem rapidamente o gás oxigênio reproduzido na água. Em conseqüência o nível de oxigênio da água é drasticamente reduzido, acarretando a morte por asfixia das espécies aeróbicas9. O ambiente, então, passa a

9 Seres que dependem de oxigênio para sua sobrevivência.

exibir uma nítida predominância de organismos anaeróbicos10, que produzem substâncias tóxicas diversas como o malcheiroso ácido ou gás semelhante ao de ovos podres.

FIGURA 6 -Vegetação aquática da Lagoa do Vigário

Arquivo pessoal, obtido em 04 de setembro de 2006

Nota-se que o indicador paisagístico da figura 6 aponta para uma morte lenta e silenciosa da lagoa.

A degradação ambiental da lagoa do Vigário hoje é consequência de uma ocupação irregular sustentada, indiretamente, pelo poder público. Ao viabilizar o seccionamento da mesma para que os proprietários expandissem seus “lotes”, dão continuidade ao processo criminoso de assoreamento. O processo de ocupação das margens da lagoa desconsidera a lei estadual promulgada em 19 de outubro de 1984 na qual demarca a Faixa Marginal de Proteção das lagoas. Desta forma, o poder público negligencia seu papel ao permitir a ocupação em áreas de risco. Faz parte do Plano Diretor de Campos dos Goytacazes, (PDCG):

10 Seres que não dependem de oxigênio para sua sobrevivência.

IX - A proibição de construções em áreas de riscos, impróprias para a urbanização, em margens de rios e lagoas e outras áreas protegidas;

(CAMPOS DOS GOYTACAZES, 2007, p 04).

Observa-se uma degradação acelerada pela ocupação insustentável de suas margens, apresentando uma redução do seu espelho d’água. Segundo Soffiati (1998), ao longo do tempo, as lagoas existentes na área urbana de Campos tiveram seu entorno estreitado, seu espelho d’água diminuído e a qualidade de água comprometida. A presença de vegetação nas suas margens, como já visto, sinaliza uma carga de deposição orgânica excessiva acelerando o processo de eutrofização.

Explicando a ocupação acelerada das periferias, Pinto (1987) afirma que, em virtude do declínio agrícola nas lavouras e café e das novas leis trabalhistas adotadas no país no período compreendido entre 1950 e 1960, a zona urbana recebeu uma gama imensa de trabalhadores, deslocados e sem referência de trabalho, o chamado ‘êxodo rural’. Nota-se que o desenvolvimento urbano elaborado nos Planos não acompanhou os desdobramentos socioespaciais, pois foi incapaz de evitar o processo de favelização11 estreitamente relacionado à falência do setor sucroalcooleiro em Campos.

[...] a região possuía 31 usinas na década de 30 até o final da década de 60. A partir de 1963 até meados de 70, passa a operar com 28 usinas. A modernização concentrou o parque industrial em 17 usinas.

Todo esse período ficou caracterizado por uma crescente produção.

Atualmente, apenas 9 usinas estão em operação mas, em contrapartida, ocorreu uma diminuição significativa da produção canavieira regional, o que caracteriza a decadência. (PAES apud PÓVOA, 2002, p.27)

É relevante mencionar que a valorização da área central urbana perdura até os dias de hoje, desconsiderando o aspecto topográfico no qual o PDCG faz menção, orientando que o crescimento urbano se dê na direção de Guarus.

Costa e Alves (2006) fazem um levantamento de campo estabelecendo parâmetros sobre os elementos do meio físico, viabilizando a indicação de aptidões, restrições ou inadequações para o uso do urbano do solo.

11 Segundo dados do IBGE e Pesquisa de povo (2002).

FIGURA 7 - Mapa de Potencial de Uso e Ocupação Urbana do Solo em Campos dos Goytacazes-RJ

Fonte: ALVES & COSTA, 2006, p. 180 apud Revista Brasileira de Cartografia Nº 58/02 (ISSN1808-0936)

A leitura do mapa de potencial de uso e ocupação urbana do solo em Campos elaborado segundo pesquisas geotécnicas da declividade e dados no ano de 2006, ratifica a orientação contida no PDCG. Observa-se que a maior parte urbana da cidade está instalada sob uma área tecnicamente definida como área urbanizável com restrições (área central de Campos) em razão da baixa profundidade do lençol freático e solos hidromórficos12. A necessidade de fundações profundas para construção, torna alto o custo da obra e dificulta o esgotamento sanitário.

12 Solo que apresenta excesso de umidade

Segundo relatório da PDUC-1979, devido ao tipo de solo (tabuleiros) Guarus era uma área de fácil divisão de loteamentos viabilizando assim o aumento da concentração populacional na margem esquerda do rio Paraíba do Sul13. Por ser também uma área de periferia, seu valor era menor.

Diante deste quadro, o trabalho se propõe a analisar a qualidade ambiental urbana de um determinado trecho da Lagoa do Vigário, ocupado irregularmente, na intenção de apontar que a ausência de planejamento ou de sua execução pode criar um quadro negativo e contraditório.

13 O crescimento somente em Guarus chegou a atingir 237%, enquanto o crescimento da cidade foi de 93%.Período compreendido entre a década de 50 e 60 do último século. (dados do IBGE).

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DE AVALIAÇÃO DA QUALIDADE AMBIENTAL DA LAGOA DO VIGÁRIO

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