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A leitura como passaporte, bilhete de partida

Todo mundo vê TV. Não que a televisão seja assim tão perversa, mas precisamos do leitor literário também. Esse é um direito que não foi escrito, mas é importante para a autonomia do sujeito. Ora, o mundo é do tamanho do que sei dizer. É do tamanho das palavras que sei dizer

Bartolomeu Campos de Queirós

As avaliações externas têm demonstrado, ao longo dos anos, que, apesar da compreensão do papel da escola na disseminação da leitura, poucas práticas estão sendo desenvolvidas para promover a formação leitora dos alunos, esvaziando-a de sentido no cumprimento da sua função. O Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes - PISA2 mostra que o desempenho dos educandos da Educação Básica na aprendizagem da leitura não é nada animador, revelando uma queda ao compararmos os dados de 2012 com os de 2009.

Em 2012, o desempenho dos estudantes brasileiros em leitura piorou em relação a 2009. De acordo com dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o país somou 410 pontos em leitura, dois a menos do que sua pontuação na última avaliação e 86 pontos abaixo da média dos países da OCDE. (BRASIL, 2014) (Grifo meu).

Esse resultado coloca o Brasil na 55ª posição do ranking de leitura, tendo uma classificação inferior a países como Chile, Uruguai, Romênia e Tailândia. O relatório revela ainda que 49,2% dos estudantes não alcançam o nível 2 de

2 O Pisa se propõe a avaliar estudantes de 15 anos de idade, matriculados a partir do sétimo ano de estudo. A avaliação é trienal, sendo que a cada edição o foco está centrado em uma área principal a ser avaliada.

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desempenho em leitura, ou seja, não conseguem deduzir informações e estabelecer relações entre diferentes partes do texto.

Com o intuito de avaliar o perfil e o comportamento do leitor brasileiro, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil3, divulgada em 2012, retrata essa realidade, mostrando queda do número de leitores no Brasil, chegando a 9,1%, em quatro anos, saindo de 95,6 milhões de leitores, em 2007, para 88,2 milhões, em 2011, concluindo que estamos trocando o hábito de ler por atividades como ver televisão, assistir a filmes, reunir-se com amigos e família e se divertir na rede de computadores. E cerca de 75%

da população brasileira jamais pisou numa biblioteca.

Ao revelar que mais da metade das pessoas não lê, porque não entende o que está lendo, a pesquisa mostra que a faixa etária que reúne maior número de leitores não está na fase escolar, mas se concentra entre 30 e 39 anos. Contudo, no quesito quem são os influenciadores dos entrevistados para a leitura, o professor ainda tem a melhor atuação como mediador de leitura em sala de aula, revelando um significativo aumento nos índices de 2011, comparado aos índices de 2007.

Os resultados da leitura no Brasil são consequência da crise interna do sistema de ensino anunciada por Zilberman (1988), que, segundo a autora, se perpetua nas diferentes etapas da vida escolar, desde a alfabetização até o final do ensino médio, no enfrentamento do vestibular. Em Feira de Santana, essa realidade é bastante visível. Os últimos resultados do Prova Brasil e do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica - Saeb, 2013, avaliações externas desenvolvidas pelo Ministério da Educação - MEC, com foco em leitura e resolução de problemas, revelam que apenas 19% dos alunos, do 5º e do 9º ano da rede pública de ensino, atingiram o resultado adequado em leitura e interpretação de textos.

O resultado adequado é calculado de acordo com o número de pontos obtidos, assim, “os alunos são distribuídos em 4 níveis em uma escala de proficiência:

Insuficiente, Básico, Proficiente e Avançado. [...] consideramos que alunos com aprendizado são aqueles que estão nos níveis proficiente e avançado. Se adentrarmos os resultados específicos da rede municipal, o índice do 5ª ano cai para 17%, ou seja, dos 899 alunos avaliados, 152 mostraram o aprendizado adequado,

3 Na 3ª edição, 2011, a Pesquisa confirma seu compromisso em promover estudos sobre o comportamento leitor e ações de fomento à leitura e, em especial, de viabilizar a construção de séries históricas sobre indicadores de leitura.

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enquanto a média nacional do aprendizado adequado nas redes municipais de ensino foi de 38% no 5º ano e de 21% no 9ª ano.

Nas minhas vivências na educação pública de Feira de Santana, bem como em cidades circunvizinhas, como professora e formadora, observo que, em consonância com as discussões teóricas e pesquisas supracitadas, as salas de leitura e bibliotecas não são uma realidade das nossas escolas, embora conservem um rico acervo de leitura literária. São muitos os livros recebidos pelas escolas, através de programas do governo federal, que, na maioria das vezes, ficam subutilizados, guardados em armários, e/ou são utilizados esporadicamente nas salas de aula, sem um planejamento prévio, intencional na expectativa de formar alunos leitores.

Na tentativa de transformar a qualidade da capacidade leitora do Brasil e trazer a leitura para o dia a dia do brasileiro, uma das ações criadas pelo governo, em 2011, foi o Plano Nacional do Livro e Leitura - PNLL, através do Ministério da Cultura - MinC . Contudo, para o plano ser efetivado, é necessário que os estados e municípios implementem seus Planos Estaduais e Municipais do Livro e Leitura.

No município de Feira de Santana - BA, apesar de a elaboração e implantação do Plano Municipal do Livro e Leitura - PMLL ser uma das metas do Plano Municipal de Educação - PME, Lei Nº 3.326/ 2012, ítem Formação de Professores e Valorização do Magistério, não temos conhecimento da existência de um plano municipal que estabeleça políticas locais para o livro e a leitura, visando ao desenvolvimento de programas e ações articuladas, envolvendo sociedade civil e governo, que favoreçam a formação de uma comunidade leitora. Temos notícias de iniciativas pontuais de incentivo à leitura, realizadas por alguns orgãos e instituições públicas e privadas, que não encontram eco necessário para este fim. Assim, a escola ainda é, para a grande maioria da população, segundo apontam pesquisas e discussões teóricas, uma das únicas formas de acesso à leitura e ao livro e, consequentemente, o professor como um importante agente de formação de leitores, uma função que precisa ser assumida pela escola, ao passo que

[...] a área da leitura ocupa, no encadeamento anual da aprendizagem, um lugar de destaque. Resultado da alfabetização, sua prática ocupa toda a carreira escolar do aluno, uma vez que não é reduto exclusivo da disciplina de comunicação expressão. Com efeito, a leitura, se é estimulada e exercitada com maior atenção

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AFORMAÇÃOCONTINUADACOMOPONTODEPARTIDA pelos professores de língua e literatura, intervém em todos os setores intelectuais que dependem, para a sua difusão, do livro, repercutindo especialmente na manifestação escrita e oral do estudante, isto é, na organização formal de seu raciocínio e expressão. ( ZILBERMAN,1988, p.6)

Em virtude disso, se o ato de ler é importante para todo o percurso escolar do indivíduo, já que repercute na formação de seu raciocínio e expressão, sendo uma

“ferramenta” necessária para continuar a aprender e, mais ainda, se humanizar, faz- se necessário estabelecer um diálogo com professores que atuam nas diversas etapas e níveis de ensino, sobre o seu papel na mediação da leitura, refletindo, à luz de teorias, acerca das lacunas existentes nas formações inicial e continuada, bem como nas práticas metodológicas dos professores.

3.2 Por uma formação continuada que permita ao outro ser dono do seu