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A membresia na Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses

Capítulo III: As Andanças de um distincto professor 118 : Geminiano Alves da Costa

3.2. Outras redes de sociabilidades: a membresia nas confrarias feirenses de São Benedito e São Vicente de Paulo. Benedito e São Vicente de Paulo

3.2.1. A membresia na Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses

Além da Irmandade de São Benedito e da Conferência de São Benedito de São Vicente de Paulo, Geminiano Costa atuou também como membro da Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses, desde o início do século.166 Essa Sociedade foi fundada em Feira de Santana em 1876 pelo Padre Ovídio Boaventura167 e sustentou entre os seus princípios a assistência mútua entre seus membros e familiares.

Costa e Silva (1981) pesquisou a Monte Pio dos Artistas em Salvador e destacou o caráter caritativo dessa associação para os seus membros. Entre os objetivos dessa associação destacou que

O socorro mútuo entre os sócios, prioridade assinalada no artigo 19 do estatuto que lhe deram os fundadores [...] tem por fim ajuntar um capital adquirido por meio de joias, prestações mensais e donativos, que será empregado nos benefícios e justos fins de socorrer os associados. [...]

socorrer a aquelles de seus sócios que por molestia, ou alguma outra circunstância prescripta d’estatutos se acharem impossibilitados de

166 Jornal O Progresso, 15 de Outubro de 1907. p. 01. Arquivo digitalizado. BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.

167 Segundo SANTOS, (2010), era filho da prestigiada família dos Boaventura, e ocupou e reproduziu o lugar de aristocrata e privilegiado. Padre Ovídio fundou algumas associações filantrópicas em Feira de Santana, a exemplo da Monte Pio e do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, para meninas órfãs, a partir de de mecanismos paternalistas no intuito de controlar e vigiar os pobres, ofertando-lhes instituições de caridade, paternalisticamente sustentadas pelas esmolas e caridades dos fazendeiros e grandes comerciantes de Feira de Santana (p.147).

proverem aos meios de subsistência: assim como as viúvas, os orphãos... e as mães e irmãs dos sócios que faleccerem sem deixar filhos. [...] Três aspectos integram-se a essas assistência financeira: o sócio doente, o sócio que morre, e a pensão familiar, como forma de suprir o ganho do cabeça da família que não mais existe. Com prioridade, a doença que impossibilitava ao associado de maneira permanente prover pela arte sua arte, as suas necessidades. (Silva: p.38, 39, 50).

Silva (2010) para Feira de Santana afirma que o Monte Pio era decentemente organizado, com estatutos elaborados em 1881 e ‘todos os artífices dignos poderiam ser membros do Monte Pio, dos sexos ambos, de qualquer nacionalidade’168. Seus objetivos era garantir auxílios mútuos a seus associados e familiares em situações pouco promissoras.

Silva (2010) afirma que numa época em que não havia benefícios da Previdência Social, as viúvas pobres recebiam o pecúlio deixado por seus maridos, “pouco, mas certo”. Contudo, para a autora, Montepios e Círculos Operários de origem católica era uma espécie de antídoto à crescente organização da classe operária dos fins do século XIX.

Geminiano Alves da Costa esteve ligado a esses movimentos de organização de trabalhadores, tanto por dirigir a Escola do Centro Operário, por atuar na Escola para Pobres da Sociedade São Vicente de Paulo; e por dar aulas a operários feirenses, enquanto por ser membro na Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses. Nesta, participou como membro até sua morte, e dividiu o rol de membros com Tertuliano Carneiro, Agostinho Fróes da Motta, o Capitão Leoncio Evangelista, Jacynto Ferreira, o juiz de Direito da cidade em 1909169e outros nomes de destaque político e econômico feirense, sujeitos pertencentes aos setores da elite comercial e agropecuária feirense.

Mas existia nesta associação também de uma variedade de sujeitos, artistas e artesãos, que enxergavam o acesso aos processos de inserção social por meio da atuação nas associações. O irmão de Geminiano Alves da Costa era artista exercia a profissão de cabeleireiro170, João Alves da Costa assumiu as aulas da Escola para Pobres depois da morte do Professor em 1919, o que nos indica que os dois faziam parte de uma família que partilhava entre os sujeitos de cor o exercício do magistério.

168 SILVA, op. cit., 2010, p. 131.

169 Jornal Folha do Norte, 17 de setembro de 1909, p. 02. Arquivo digitalizado. BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.

170 Livro de Indústria e Profissões de Feira de Santana, 1917 a 1920. Página 008. APMFS.

João Alves da Costa não tem registro de associado na Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses mas é provável que o tenha sido pela condição de artista; e, pelo lugar de destaque ocupado pelo seu irmão professor nos cargos na mesa diretora da Monte Pio.

João da Costa era parte da membresia na Conferência de São Vicente de Paulo, da qual se tornou professor e diretor das aulas noturnas em 1921171. Entre 1907 e 1909 Geminiano Costa ocupou o cargo de orador oficial da Sociedade Monte Pio, mesmo ano do ingresso de Tertuliano Carneiro como associado. Em 1909 Tertuliano Carneiro foi eleito presidente.172

Tertuliano Carneiro foi um sujeito presente nas ações de Geminiano Alves da Costa, as fontes indicam estes sujeitos articulados fosse na assunção de cargos nas associações, fosse nas manifestações cívicas escolares. Tendo retornado a Feira de Santana como padre auxiliar em 1907, depois de ter concluído seus estudos para sacerdote na Capital do Estado. Exerceu o posto de auxiliar durante um ano. Quando o cônego Moysés Gonçalves de Couto, que era então vigário oficial de Feira de Santana, foi transferido para a paróquia da cidade de Santo Amaro ocupou o posto de cônego oficial e posteriormente chegou a Monsenhor.

Quando do seu retorno como jovem padre feirense, a festa para o receber que durou dois dias, contou com personalidades importantes feirenses e amigos de Cícero Carneiro da Silva, seu pai, muitas oriundas das cidades vizinhas como Santo Amaro e São Gonçalo dos Campos, como o professor Dyonísio Assumpção, também homem negro, que trouxe

a philarmonica Lyra sangonçalense comparecceu a tarde para felicitar o Padre Tertuliano Carneiro, falando nesta occasião em nome da Lyra, o nosso distincto amigo professor Dyonísio Assumpção que produziu bellísimo e poético discurso 173.

Tertuliano Carneiro conciliou na sua trajetória de vida a política e a religião.

Exerceu diversas vezes cargo no Conselho Municipal, sendo presidente deste em 1925

171 Jornal Folha do Norte, 05 de novembro de 1921, p.01. Arquivo digitalizado. BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.

172 Jornal Folha do Norte, 17 de setembro de 1909, p.02. Arquivo digitalizado. BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.

173 Jornal O Progresso, 23 de junho de 1907, p. 01; Jornal O Progresso, 15 de setembro de 1907, p. 01; Jornal O Progresso, 24 de novembro 1907, p. 01. Arquivos digitalizados. BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.

Tinha o hábito de usar a insígnia de cônego nas posses desse conselho. Manteve, além das relações políticas e religiosas, relações sociais com boa parte da sociedade feirense174.

Ele era o vigário anunciado nas festividades escolares de Geminiano Alves da Costa. Os jornais indicam que no percurso profissional deste professor, todas as solenidades festivas de encerramento e abertura de ano letivo referente à escola do sexo masculino foram ministradas pelo padre Tertuliano Carneiro na Igreja dos Remédios, local de organização da Confraria de São Benedito de São Vicente de Paulo e da Irmandade de São Benedito,

Quanto a participação destas instituições em ações caritativas a Conferência de São Benedito de São Vicente de Paulo e a Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses foram associações que agiram de forma compartilhada na manutenção de projetos filantrópicos como a aula noturna para trabalhadores pobres. Uma destas ações foi a aula noturna mantida com a parceria financeira das duas associações, primeiro, as aulas funcionaram na sede da Conferência no prédio da Igreja dos Remédios. Depois com o aumento da quantidade de alunos foi transferida para a sede da Sociedade Monte Pio.175

No discurso feito na assembleia da Conferência de São Benedito de São Vicente de Paulo como presidente em 1911 Geminiano Alves da Costa convoca os concidadãos de preferência e a Sociedade S. Vicente de Paulo e Monte Pio dos Artistas deviam cogitar desse tentamen, a saber, da implantação de uma casa de educação profissional nesta cidade, onde se possa abrigar os meninos pobres176.

Esta participação nas confraria e na irmandade foram redes de sociabilidade que funcionaram como uma das instâncias facilitadoras para ter trânsito livre em espaços de circulação dos diveros sujeitos, inclusive os trabalhadores. Esses espaços de relações foram determinantes para constituição de um professor de pobres trabalhadores atuando na escola do Centro Operário de Feira de Santana e da Escola para Pobres; e na aula municipal para meninos na zona rural do município, e posteriormente na sede da cidade.

174CUNHA, Nayara F. de A. Os coronéis... op.cit., 2013.

175 Jornal O Progresso, 26 de maio de 1907, p.03. Escola Nocturna São Vicente de Paulo. Jornal Folha do Norte, 22 de março de 1919, p.01. Escola para Pobres. Arquivo digitalizado. BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.

176 Jornal O Município, 7 de outubro de 1911, p.03. Sociedade S. Vicente de Paulo. Arquivo digitalizado.

BSMRG/Museu Casa do Sertão/UEFS/Bahia.