2. O FIM DA HISTÓRIA
2.3 Luzes e trevas
2.3.1 A nova época
Berdiaev concebe a história como uma sucessão rítmica. Nela, se observa uma alternância entre cumes e vertentes, seguindo um “fluxo” e um “refluxo”. Esta sucessão rítmica conteria “épocas” e “períodos”, além de “tipos diversos de culturas.”247. Graças à alternância de épocas, é permitido dizer se se vive em períodos secularizados ou sagrados, diurnos ou noturnos. Berdiaev acreditava viver em um “tempo de transição”, pois a época própria da modernidade chegava no seu fim e estava se decompondo. Deste fim e desta decomposição nascia “um mundo novo, um mundo desconhecido.”248Este nascimento de um mundo novo possui uma característica particular. Ele é dotado de uma dupla configuração:
aparecendo “a uns como uma ‘revolução’, a outros como uma ‘reação.’”249
Isto se deve ao fato de que, no curso dos acontecimentos, a revolução e a reação se desenvolvem, em alto grau, de modo emaranhado. Com efeito, Berdiaev aposta que sua época representa “o fim dos tempos modernos e começo de uma nova Idade Média.”250Não há uma pretensão de dizer qual será exatamente o curso da história. As ambições são mais modestas Elas se coadunam com as tarefas que o pensamento religioso russo do início do século XX se propôs. Trata-se, efetivamente, de um esboço, de um ensaio, a fim de mostrar os traços fundamentais que darão forma à cultura e à sociedade. A natureza do pensamento religioso de Berdiaev se choca com aquela de todos os pensamentos modernos, pois, segundo ele, seu pensamento é “de outro mundo que começa, de um outro mundo que seria uma nova Idade Média.”251 Com efeito, podemos dizer que se esgotaram as forças espirituais dos tempos modernos. Isto pode ser demonstrado pela crise do racionalismo. Não há mais o dia ensolarado da razão, senão seu crepúsculo, portanto, “nós nos aproximamos da noite.”252 Vivemos, agora, num período noturno da civilização, ao qual os meios de investigação, iluminadores, solares são inadequados.
247 BERDIAEFF, 1937, p. 89.
248 Id. Ibid.p. 89.
249 Id. Ibid.p. 90.
250 Id. Ibid.p. 90.
251 Id. Ibid.p. 90, 91.
252 Id. Ibid.p. 91.
Este período de noite histórica possui outro traço particular. Tanto o bem quanto o mal aparecem em sua nudez. Trata-se de uma época de revelações, iluminada pelo “esplendor das estrelas”, pois ela “não é menos de Deus”. Ao contrário, a noite “possui mais familiaridade com o mistério das origens do dia.”253 É durante a noite que o abismo (Ungrund) se abre, enquanto que, o dia “estende sobre ele um véu.”254. A noite está para a metafísica, assim como, o dia está para a ontologia, pois, a razão, solar, investiga os entes e, na noite, a intuição pressente o mistério.255 O véu que o dia possui é móvel e fluido. Ele está presente na natureza e na história. Berdiaev acredita que o sentido de sua época só pode ser revelado com o desvelamento do “abismo do ser”. Este desvelamento é, na verdade, um “face a face com o princípio da vida”, uma “descoberta da ‘fatal herança’” Enfim, o desvelamento significa, em suma, a “entrada na noite.”256 Entretanto, o dia não termina em paz e calmaria. “Grandes convulsões” e “gigantescas catástrofes” precedem a entrada na noite. O que caracteriza o começo dos novos tempos é a ‘barbárie. Tudo o que foi edificado na história no passado terminou por ser “invadido pelo afluxo das forças caóticas” Na verdade, não é apenas a “má vontade dos homens” que cria “as mais terríveis guerras” e revoluções, que causa o
“naufrágio de civilizações” e que provoca a “destruição de impérios”, senão que, tudo isto, também é obra da Providência.257
Os tempos modernos são caracterizados por um acentuado racionalismo, solar, diurno.
A passagem para uma Nova Idade Média, noturna, conduz não propriamente a um irracionalismo, mas, sim, a um “supra-racionalismo de tipo medieval.”258 Embora este supra- racionalismo possa ser caraterizado como obscurantismo, ele é um movimento irreversível.
Na verdade, os costumes, o modo de viver e o pensamento de utopistas, revolucionários e progressistas envelheceram e perderam o sentido para o atual presente. Palavras como
“progressista” e “reacionário” devem ser reavaliadas desde um ponto de vista ontológico. O
253 Id. Ibid.p. 91, 92.
254 Id. Ibid.p. 91.
255 É muito importante deixar claro o que Berdiaev compreende como metafísica. Não se trata de uma disciplina que trabalha com as noções de necessidade e contingência, nem com modalidades e categorias. A metafísica em Berdiaev estaria mais próxima do discurso da Mística ou da Teologia Mística.
256 BERDIAEFF, 1937, p. 93.
257 Id. Ibid.p. 96.
258 Id. Ibid.p. 97.
critério é o avanço ou retrocesso em relação ao “sentido do universo” e às “autênticas bases da vida.”259
A história moderna, por seu turno, é marcada por um extremo atomismo social. O comunismo tentou vencê-lo, contudo, somente a Igreja e o “espírito ecumênico” conseguem fazê-lo. Além disso, o poder é tomado pelos modernos como um direito. Contrariamente, “a nova Idade Média deve considerar o poder como um dever.”260 Não há possibilidade de o poder ser justo se alguém o reivindicar em seu próprio nome. O poder somente estará ao lado da justiça se demandado em nome de Deus ou da Verdade. Mais exatamente, todo direito humano ao poder é uma concuspiscência. Além disso, não há nada de ontológico na luta pelo direito ao poder. Tal luta é uma “vida irreal, fictícia e vampírica.” Há pouco de substância, de realidade na política. Este pouco corresponde à “organização do poder indispensável à existência do mundo, - quer dizer, do poder de Deus.”261Neste período noturno em que a humanidade dá entrada, a fé na política e o papel que a política exerce declinarão. Observa-se, por outro lado, um crescimento dos “processos espirituais e econômicos mais reais.”262
Berdiaev cogita uma reabilitação das relações hierárquicas. A vida só pode florescer onde há uma aristocracia espiritual, onde o respeito pelas diferenças entre as pessoas é observado. A democracia representa um movimento de entropia social. A Nova Idade Média não será propriamente democrática, mas, sim, demótica, pois “as massas trabalhadoras e as camadas populares” desempenharão “um grande papel nas destinações do governo.”263 Contudo, a obtenção do poder político pelas camadas populares não se dará pelo voto. Isto porque “as democracias são inseparáveis da dominação da classe burguesa e do sistema industrial-capitalista.”264 Berdiaev aposta na “representações profissionais e corporativas” que ele nomeia “princípio ‘soviético’”.
Berdiaev acredita que as uniões vitais, que salvam o Estado e a sociedade da ruína, são
“profissionais”, “corporativas”, “econômicas” e “espirituais”. São elas que erigirão o “Estado da Nova Idade Média”. Na verdade, o que demanda e exige satisfação não é a aspiração ao
259 Id. Ibid.p. 89.
260 Id. Ibid.p. 153.
261 Id. Ibid.p. 153.
262 Id. Ibid.p. 154.
263 Id. Ibid.p. 156.
264 Id. Ibid.p. 157.
poder, mas “as necessidades espirituais e materiais das massas.”265 Não é da natureza do poder pertencer à massa. Ele possui uma relação fundamental com a hierarquia. “O que se chama soberania popular é somente um instante na vida do povo, o transbordamento da potência instintiva do povo.”266 A desigualdade ou a atribuição do governo a um corpo político faz parte da “estrutura da sociedade e do Estado” e da “constituição da ordem social”.
A determinação de quem formará o corpo político na Nova Idade Média, segundo Berdiaev, será efetuada pelo povo “por meios reais e vitais”. O povo “decidirá a forma de governo em função de suas crenças”, o que não significa a existência de uma democracia.267
A defesa da hierarquia se explica pela filosofia da desigualdade, mas a defesa da pessoa poderia ser mais bem elaborada por uma filosofia personalista, à qual Berdiaev se dedicará nas suas últimas obras. A propósito da hierarquia, obedecer é irracional. Só se obedece a alguém pela sujeição do desejo e pelo desejo de sujeição. Hoje, se obedece por motivos pragmáticos: para não ser morto, para não ser ferido, para obter um possível ganho futuro. Os demais casos pertencem à esfera dos idiotas úteis e às crianças. Seja dito, todavia, toda autonomia neste nível é fictícia. Viver fora de normas neste mundo não é possível. O organismo faz parte de uma totalidade orgânica. Tornar-se indivíduo significa tomar parte na sociedade normalizada. Vir a ser sujeito é um assujeitamento. O poder nos atravessa a todos, para muito além de qualquer racionalidade imaginável que pudesse justificá-lo. Podemos, somente, explicar seu funcionamento. Libertar-se do jugo do poder significa a passagem do organismo, do indivíduo, do sujeito para o nível da pessoa que supõe a livre criação, pois todo organismo e sociedade normativos supõe um resto cujas normas não o alcançam.