3. A REFLEXÃO TEOLÓGICO-CANÔNICA DA FAMÍLIA
3.3 Aspectos da atuação nas causas de nulidade matrimonial
3.3.1 A orientação personalista do processo de nulidade
A união matrimonial, cenário da análise de nulidade que os Tribunais se propõem, aspira ao comprometimento por toda a vida. A doação, que se promete no altar e firma a aliança matrimonial, parte de dois indivíduos diferentes, que desejam traçar, a partir daquele momento, um só caminho. O Código de Direito Canônico de 1983 afirma que o matrimônio é constituído de dois fins: o bem dos cônjuges e a geração e educação da prole323.
O caráter personalista da nova legislação canônica prevê a valorização dos esposos no reconhecimento da subjetividade de cada um, entendo-os como seres complexos que estão na caminhada para viver de forma autêntica os sacramentos assumidos. O bem dos cônjuges (bonum coniugum)
na união íntima de suas pessoas e de suas atividades, na recíproca integração e
324, mas que é renovado a cada dia como um ato de amor e de fé.
Quando a relação não persiste, cabe ao Tribunal Eclesiástico analisar se a união contraída foi ou não válida. Entretanto, o processo de nulidade matrimonial não consta apenas de publicar uma sentença sobre a união, mas busca uma maior abertura e acolhimento dos que
controvérsia, para motivar a razoável confrontação com a visão da outra parte 325.
O Tribunal, ao se propor atuar na vida do cristão, deve ser, acima de tudo, promotor da reconciliação. Diferentemente do direito civil, a lei eclesiástica se envolve com a realidade dos que o buscam ansiando por uma educação e uma proposta de resolução dos conflitos. Para além da promulgação pragmática da resolução do processo, o Direito Canônico está a serviço da graça santificante e não do julgamento do pecado, promovendo a transformação da sociedade e das relações dentro do âmbito eclesial326.
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323 Cf. CDC, cânon 1055, §1.
324 GIRALDO, José Silvio Botero. Magistério pós-conciliar, p. 39.
325 CONDE, Manuel J. Arroba. A orientação personalista, p. 17.
326 Cf. PINHO, Alexandrino Augusto Ribeiro Gomes de. Função e diaconia, p. 108.
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[...] o direito canônico cumpre uma função sumamente educativa, individual e social, no intento de criar uma convivência ordenada e fecunda, em que germine e amadureça o desenvolvimento integral da pessoa humano-cristã.
Com efeito, esta só pode se auto-realizar se negar como exclusiva individualidade, sendo a sua vocação ao mesmo tempo pessoal e comunitária. O direito canônico permite e favorece este característico aperfeiçoamento, enquanto leva à superação do individualismo: da negação de si como exclusiva individualidade leva à afirmação de si como genuína socialidade, através do reconhecimento e do respeito pelo outro como , e revestida de uma dignidade transcendente327.
A adequação do Código à realidade da modernidade fomentou o cumprimento do
societária mais sensível às exigências individuais 328. Personalizar a atuação da justiça não significa agir com relativismo, negando a seriedade das normas e das interpretações legais, mas observar a presença de Deus na vida do ser humano e na vocação de perceber que a semelhança divina está na doação ao outro.
A concepção personalista pós-conciliar acentua o descobrimento em nosso
tempo de que a g , e a
plena realização dessa vocação consiste em responder às exigências dessa chamada para ser para o outro 329.
Valorizar a pessoa existente na normativa canônica enriquece a estrutura essencial do fenômeno processual, sem dissolvê-la. As dinâmicas e técnicas de interação entre o juiz e as partes devem articular-se segundo o papel que correspondem na demanda e no exercício da defesa330. Como aponta o teólogo Manuel Jesús Arroba Conde,
[...] a orientação personalista das normas processuais canônicas estriba na capacidade que estas possuem de permitir um justo processo, entendendo-o como uma atividade que, na comprovação dos fatos, assegure a natureza irrepetível de cada caso, a participação de seus protagonistas em clave de corresponsabilidade e de verificação dialógica, a confrontação de instâncias e determinações na força argumentativa das motivações alegadas, amadurecendo em tempos razoáveis uma decisão que espira a evitar conflitos entre foro interno e foro externo331.
327 BERTONE, Tarcísio. Pessoa e estrutura na Igreja (Os direitos fundamentais dos fiéis). In:
CAPPELLINI, Ernesto. Problemas e perspectivas de Direito Canônico. São Paulo: Loyola, 1995, p.
71. 328 BERTONE, Tarcísio. Pessoa e estrutura, p. 68. (grifo do autor)
329 GIRALDO, José Silvio Botero. O amor conjugal, p. 129.
330 Cf. CONDE, Manuel J. Arroba. A orientação personalista, p. 13.
331 CONDE, Manuel J. Arroba. A orientação personalista, p. 13-14.
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Todo o movimento da Igreja pós-conciliar caminha para uma realidade que confere ao leigo maior atuação, importância e responsabilidade nos processos. Esta abertura ao laicato para o ofício judicial corrobora com o melhor desempenho e organização dos tribunais, pois busca cumprir com isso seu papel de se integrar de forma mais plena aos fiéis e caminhar com eles durante toda sua vida.
O Direito Canônico acompanha o homem durante toda a sua existência, do nascimento à morte. É um direito vivo, em constante transformação, adaptando-se às realidades mundiais, buscando sempre o bem espiritual dos fiéis. Portanto, todo o fiel católico pode e deve recorrer aos Tribunais da sua Igreja332.
Os leigos podem exercer diversas funções em um Tribunal Eclesiástico, conforme cânones 1421333, onde se afirma a presença do leigo quando se julgar um processo de nulidade e 1435334. Dessa maneira, uma maior abertura aos leigos proporciona uma nova estrutura para os Tribunais Eclesiásticos. Entretanto, as funções de Vigário Judicial e Vigário Judicial Adjunto são cargos exclusivos de clérigos, pois a eles compete julgar os casos e acolher a todos como representante do bispo nas causas e nos processos.
No que compete aos casos de nulidade matrimonial, os Tribunais Eclesiásticos avaliam se o consórcio entre os nubentes existiu, segundo as normas do Código de Direito Canônico. Em algumas situações, uma das partes, ou até mesmo o casal, pode não estar ciente do consentimento dado no altar, o que torna, portanto, infundada a renovação diária dos votos e vivência matrimonial.
Portanto, declarar nulo um matrimônio significa afirmar que o sacramento jamais existiu e o consentimento dado no altar não foi verdadeiro. Para tanto, é importante escutar as partes e testemunhas que atestem a maturidade, o desejo e a ciência dos noivos quando se casaram. A partir da avaliação dessas audiências é que o caso é julgado como nulo ou não.
Cada caso é único em seu desenvolvimento e essa subjetividade fica resguardada na particularidade conferida à ação jurídica.
332 PINHO, Alexandrino Augusto Ribeiro Gomes de. Função e diaconia, p. 112.
333 CDC, cânon 1421, §2: A Conferência episcopal pode permitir que também leigos sejam constituídos juízes; de entre estes, quando a necessidade o aconselhar, pode ser escolhido um para formar o colégio.
334 CDC, cânon 1435: Compete ao Bispo nomear o promotor da justiça e o defensor do vínculo, os quais sejam clérigos ou leigos, de fama íntegra, doutores ou licenciados em direito canónico, e de comprovada prudência e zelo da justiça.
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Nesta realidade, um grande percentual dos processos de nulidade de matrimônio que batem à porta do Tribunal é devido à emoção aflorada que levou os contraentes a assumirem um matrimônio e que depois se arrependem por terem feito esta escolha diante de uma realidade que não era a deles, ou movidos apenas pela emoção.
O Direito Canônico se coloca como um instrumento de comunhão, pois permite a regularização dos fiéis que, por alguma razão, não constituíram em sua relação um verdadeiro matrimônio. Não se trata de anulação do sacramento, mas de constatar que a aliança, mesmo dada na Igreja, não foi tornada, pelos noivos, em um consentimento verdadeiro.