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A pena de multa cominada à pessoa jurídica

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI (páginas 89-99)

3.2 DAS PENAS SOBREPOSTAS À PESSOA JURÍDICA EM FACE DE UMA

3.2.3 T IPOS DE PENA APLICÁVEIS À PESSOA JURÍDICA NA ESFERA AMBIENTAL

3.2.3.1 A pena de multa cominada à pessoa jurídica

A pena de multa é a mais comum. É adotada em todas as legislações que aderem à responsabilidade penal da pessoa jurídica.

Sobre a pena de multa Paulo Affonso Leme Machado 245 afirma que:

[...] a pena de multa consiste na obrigação de uma prestação pecuniária, quando revelada ineficaz para o ressarcimento do dano, ainda que aplicada ao máximo, deve ser acrescida três vezes, tendo em vista o valor da vantagem econômica auferida.

A multa deverá ser calculada de acordo com os critérios estabelecidos no art. 18, da Lei 9.605/98 e art. 49, do CP Brasileiro, que dispõem, respectivamente:

Art. 18 da Lei 9.605/98 - A multa será calculada segundo os critérios do Código Penal; se revelar-se ineficaz, ainda que aplicada no valor

244 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 706.

245 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 595.

máximo, poderá ser aumentada até três vezes, tendo em vista o valor da vantagem econômica auferida. 246

Art. 49 do CP - A pena de multa consiste no pagamento ao fundo penitenciário da quantia fixada na sentença e calculada em dias-multa.

Será, no mínimo, de 10 (dez) e, no máximo, de 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.

§ 1º - O valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser inferior a um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, nem superior a 5 (cinco) vezes esse salário.

§ 2º - O valor da multa será atualizado, quando da execução, pelos índices de correção monetária. 247

Inicialmente, o juiz deve fixar o número de dias-multa (entre 10 e 360 dias-multa), com base nos elementos fornecidos pelo art. 59 do CP. Em seguida, elege o valor do dia-multa, em quantia variável entre um trigésimo e cinco vezes o salário mínimo.248

Serão levados em conta a gravidade do delito, o grau de reprovação da conduta, a condição econômica da empresa e o montante do dano ambiental para fixar a pena de multa, que poderá ser aumentada até três vezes, considerando-se a vantagem econômica auferida.249

Sobre o disposto no art. 18 da Lei 9.605/98, Guilherme de Souza Nucci 250, afirma que:

O art.18 apresenta somente uma inovação: determina que o aumento (até triplo) se faça com base no valor da vantagem econômica auferida pela prática do crime ambiental e não com fundamento na situação econômica do réu”. Imagina-se que o agente criminoso, se muito lucrou com o delito contra o meio ambiente, não pode ser apenado com pena de multa ínfima.

246 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais: Lei nº 9.605/98. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p.

1.635.

247 VADEMECUM. Código Penal: Decreto-Lei nº 2.848/40. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 544.

248 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 860.

249 COSTA JR, Paulo José da; MILARÉ, Édis. Direito Penal Ambiental. p. 64.

250 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 860.

Para a constatação da gravidade do delito, deverá ser realizada uma perícia, em conformidade com o disposto no art. 19 da Lei 9.605/98:

Art. 19. A perícia de constatação do dano ambiental, sempre que possível, fixará o montante do prejuízo causado para efeitos de prestação de fiança e cálculo de multa.

Parágrafo único. A perícia produzida no inquérito civil ou no juízo cível poderá ser aproveitada no processo penal, instaurando-se o contraditório. 251

Somente após que concluída da perícia, o juiz analisará o grau de reprovação da conduta, levando em consideração a condição econômica da empresa e o resultado do dano ambiental, por fim fixando a multa.

Como se pode denotar, a pena de multa não recebeu uma disciplina própria, para a aplicação às pessoas jurídicas, aplicando a regra do CP tanto para as pessoas físicas como as jurídicas, da forma do art. 18 da Lei 9605/98.

Assim puni-se da mesma forma a pessoa física como a jurídica, tornando muitas vezes a penas de multa para a segunda inocula em relação aos seus faturamentos, a Lei 9605/98 deveria ter diferenciado a multa das pessoas físicas das jurídicas, conforme fica demonstrado na citação feita por Fernando Capez das críticas de Sergio Salomão Shecaira 252, em sua obra:

Melhor seria se o legislador houvesse transplantado o sistema de dias- multa do Código Penal para legislação protetiva do meio ambiente, com as devidas adaptações, de modo a fixar uma unidade específica que correspondesse a um dia de faturamento da empresa e não padrão de dias-multa contidos na Parte Geral do Código Penal.

Para Paulo Affonso Leme Machado, “a pena de multa é uma sanção penal que deve merecer prioridade no combate à delinqüência ambiental praticada pelas corporações”. 253

251 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais. p. 1.635.

252 CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. p. 61

253 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 656.

3.2.3.2 As penas restritivas de direitos cominada à pessoa jurídica

De acordo com o art. 22 da Lei de Crimes Ambientais, as penas restritivas de direitos da pessoa jurídica são: a) suspensão parcial ou total de atividades (inciso I); b) interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade (inciso II) e c) proibição de contratar com o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações (inciso III). 254

3.2.3.2.1 Suspensão parcial ou total das atividades

A aplicabilidade da pena de suspensão parcial ou total das atividades da pessoa jurídica é regulamentada pelo art. 22, § 1º da Lei de Crimes Ambientais, que versa:

Art. 22 - § 1º A suspensão de atividades será aplicada quando estas não estiverem obedecendo às disposições legais ou regulamentares, relativas à proteção do meio ambiente. 255

Sobre o referido artigo, Paulo Affonso Leme Machado 256, ensina que:

A suspensão das atividades de ma entidade revela-se necessária quando a mesma age intensamente contra a saúde humana e contra a incolumidade da vida vegetal e animal. É pena que tem inegável reflexo na vida econômica de uma empresa. [...] Conforme a potencialidade do dano ou sua origem, uma empresa poderá ter suas atividades suspensas num setor, ou seja de forma parcial. [...] A lei não fixou o prazo para a duração mínima ou máxima para a suspensão, destarte, diante desta ausência fica a critério do juiz, conforme o caso, fixar em horas, em dias, semanas a suspensão das atividades.

Para Guilherme de Souza Nucci 257:

É a pena restritiva ideal para a pessoa jurídica que, ao cometer o crime, conforme constatação feita pelo juiz, já não vinha obedecendo as disposições legais ou regulamentadas em relação à proteção do meio

254 CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. p. 60

255 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais. p. 1.635.

256 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 596.

257 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 864.

ambiente. É substitutiva da pena prevista nos tipos penais incriminadores, tanto que não tem valor próprio. Se o delito possuir, em tese, pena de seis meses a um ano de detenção, o magistrado deve suspender, parcial ou totalmente, as atividades da empresa pelo período que elegeu – dentro do mínimo de seis meses ao máximo de um ano, conforme os critérios gerais de aplicação da pena.

Édis Milaré e Paulo José da Costa Jr., citando Gilberto Passos de Freitas e Vladimir Freitas, afirmam que “o juiz deve agir com cautela e impor tais sanções com equidade”, impondo por primeiro a suspensão parcial das atividades e somente depois a total”. 258

Quanto, a não disposição de prazo para a duração mínima ou máxima para a suspensão, parcial ou total das atividades, entende-se que esta ficará condicionada há efetiva extinção da ação ou omissão causadora do dano ambiental praticado.

3.2.3.2.2 Interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade

A segunda espécie da pena restritiva de direito aplicada a pessoa jurídica consiste na interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade. É disciplinada pelo art. 22, § 2º da Lei de Crimes Ambientais, que diz:

Art. 22 - § 2º A interdição será aplicada quando o estabelecimento, obra ou atividade estiver funcionando sem a devida autorização, ou em desacordo com a concedida, ou com violação de disposição legal ou regulamentar. 259

A interdição temporária do estabelecimento, obra ou atividade tem lugar quando houver funcionamento sem autorização ou em desacordo com aquela que foi concedida, e também quando houver violação de disposição legal ou regulamentar.

260

Nesse caso, não se suspende a atividade da pessoa jurídica total ou parcialmente, como previsto no inciso I, mas pode o juiz interditar um dos

258 COSTA JR, Paulo José da; MILARÉ, Édis. Direito Penal Ambiental. p. 67.

259 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais. p. 1.635.

260 COSTA JR, Paulo José da; MILARÉ, Édis. Direito Penal Ambiental. p. 67.

estabelecimentos da pessoa jurídica, ou uma das obras que venha conduzindo, ou ainda, uma das suas atividades e não o conjunto delas. 261

Guilherme de Souza Nucci 262 ilustra a supramencionada afirmação da seguinte forma:

Uma grande empresa, com vários ramos de atividades na área ambiental, pode ter a sua atividade global suspensa total ou parcialmente, por um certo tempo (inciso I), como pode ter uma de suas filiais interditada por determinado tempo (inciso II). Esse tempo de interdição equivale ao que advier do preceito secundário dos tipos penais (ex.: de dois a quatro anos; de três meses a um ano etc.)

Paulo Affonso Leme Machado diz que “a interdição é temporária, sua aplicação visa assegurar que a empresa possa adaptar-se à legislação ambiental, devendo iniciar a sua obra apenas quando da devida autorização”. 263

Ainda aduz que:

A pena de interdição temporárias de direitos aplicada à pessoa física tem outra redação (art. 10 da Lei n.º 9.605/98). Parece-nos que diante do silêncio da lei quanto ao prazo da vigência da interdição temporária de direitos para a pessoa jurídica, é razoável aplicar-se os prazos do referido artigo 10. 264

O conceito da interdição temporária de direito e os prazos de tal interdição são disciplinados pelo art. 10 da Lei de Crimes Ambientais, que reza:

Art. 10. As penas de interdição temporária de direito são a proibição de o condenado contratar com o Poder Público, de receber incentivos fiscais ou quaisquer outros benefícios, bem como de participar de licitações, pelo prazo de cinco anos, no caso de crimes dolosos, e de três anos, no de crimes culposos. 265

261 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 864.

262 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 864.

263 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 597.

264 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 597.

265 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais. p. 1.634.

Essa interdição é equivalente ao embargo, ou a paralisação da obra, do estabelecimento ou de sua atividade, todavia a pena é medida judicial, enquanto o embargo poderá feito pela administração pública, em seu poder de polícia, mediante ato discricionário ou vinculado.

3.2.3.2.3 Proibição de contratar com o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações

Por fim, a última espécie da pena restritiva de direito aplicada à pessoa jurídica é estipulada pelo art. 22, § 3º da Lei dos Crimes Ambientais, e estabelece que:

Art. 22 - § 3º A proibição de contratar com o Poder Público e dele obter subsídios, subvenções ou doações não poderá exceder o prazo de dez anos. 266

Este espécie de pena tem por objetivo impedir que as empresas penalizadas participem dos processos licitatórios. Nesse sentido é o entendimento de Paulo Affonso Leme Machado 267:

Com relação à proibição de contratar o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações, definidos no artigo 22, § 3º, da Lei n. 9.605/98, visa esta lei impedir que as empresas participem dos processos licitatórios, mesmo que a licitação tenha sido anterior ao contrato com o poder público [...].

Várias empresas têm interesse em celebrar contratos com o Poder Público, nas mais variadas áreas, pois, como regra, envolvem altas somas de dinheiro e grandes obras. O contrato pode advir de uma licitação ou não, mas a pena prevista no inciso III proíbe qualquer deles. O tempo será o da pena privativa de liberdade; prevista no tipo incriminador, a ser devidamente mensurada e depois substituída pela restritiva de direito. 268

266 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais. p. 1.635.

267 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 597.

268 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 865.

Édis Milaré e Paulo da Costa Júnior adverte que “a pena restritiva enumerada no Inciso III, contudo, não poderá jamais superar o limite legal, estabelecido em dez anos pelo §3º”. 269

Outro ponto que pode afetar a pessoa jurídica é a perda de subsídios, subvenções ou doações governamentais, afinal, muitas somente sobrevivem no mercado graças a esses incentivos. O mínimo que devem fazer é respeitar as leis editadas pelo Estado que, de um modo ou de outro, as sustenta. 270

3.2.3.3 A pena de prestação de serviços à comunidade cominada à pessoa jurídica

A pena de prestação de serviços à comunidade cominada à pessoa jurídica está prevista no art. 23 da Lei de Crimes ambiental, e reza:

Art. 23. A prestação de serviços à comunidade pela pessoa jurídica consistirá em:

I - custeio de programas e de projetos ambientais;

II - execução de obras de recuperação de áreas degradadas;

III - manutenção de espaços públicos;

No entendimento de Édis Milaré e Paulo José da Costa Júnior,

“referida modalidade apresenta a vantagem de não suspender ou interditar as atividades da pessoa jurídica, penas que, inexoravelmente, conduzem a perdas sociais e econômicas (empregos, produção, etc.)”. 271

Para Guilherme de Souza Nucci, a prestação de serviços à comunidade pela pessoa jurídica não deveria ter sido colocada em plano autônomo das

269 COSTA JR, Paulo José da; MILARÉ, Édis. Direito Penal Ambiental. p. 67.

270 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 865.

271 COSTA JR, Paulo José da; MILARÉ, Édis. Direito Penal Ambiental. p. 68.

penas restritivas de direitos, como feito no art. 21, III. “É a mais adequada de todas as restrições de direitos, pois confere reais benefícios à sociedade em geral”. 272

Já Sérgio Salomão Shecaira 273 explana seu entendimento sobre o assunto da seguinte forma:

Trata-se de uma moderna resposta penal que atende perfeitamente aos princípios penais da proporcionalidade no que concerne à retribuição jurídica, e à prevenção geral positiva, como medida de incentivo ao cumprimento da norma.

Poderá o Ministério Público, pleitear ao juiz, a aplicação de uma das subespécies de prestação de serviço à comunidade acima apontadas, no caso de incidência dessa modalidade de pena à pessoa jurídica.

Sobre a assertiva, Paulo Affonso Leme Machado 274 manifesta-se no seguinte sentido:

O ministério Público ou a própria entidade ré poderão apresentar proposição ao juiz, solicitando a cominação de qualquer desses tipos de pena de prestação de serviço. Será oportuno que se levantem os custos dos serviços previstos no art. 23 para que haja proporcionalidade entre o crime cometido, as vantagens auferidas do mesmo e os recursos econômicos e financeiros da entidade condenada. O Justo equilíbrio haverá de conduzir o juiz na fixação da duração da prestação de serviços e do quantum a ser despendido.

Os custos do serviço devem ser levantados para que haja uma proporcionalidade entre o crime cometido, as vantagens auferidas por este e os recursos econômicos e financeiros da entidade condenada; assim o juiz determinará o quantum a ser despendido e o tempo de duração da referida prestação. 275

272 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 865.

273 SHECAIRA, Sérgio Salomão. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica. p. 128.

274 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. p. 598.

275 CÔRREA, Daniele Pereira. Tutela penal do meio ambiente (Lei Federal nº 9.605/98). Escritório On-

line 07/12/2002. Disponível em:

<http://www.escritorioonline.com/webnews/noticia.php?id_noticia=2457&>. Acesso em: 15, jun. 2009.

3.2.3.4 A perda de bens e valores cominada à pessoa jurídica

Resta, finalmente, analisar o art. 24 da Lei 9.605/98, que prevê a possibilidade de liquidação forçada do patrimônio da pessoa jurídica, que por sua vez, for constituída ou utilizada, com a finalidade de permitir, facilitar ou ocultar a prática de crime definido pela Lei de Crimes Ambientais.

O art. 24 da Lei 9.605/98 determina que:

Art. 24. A pessoa jurídica constituída ou utilizada, preponderantemente, com o fim de permitir, facilitar ou ocultar a prática de crime definido nesta Lei terá decretada sua liquidação forçada, seu patrimônio será considerado instrumento do crime e como tal perdido em favor do Fundo Penitenciário Nacional 276

A liquidação se apresenta como espécie de morte civil da pessoa jurídica. É fase posterior à declaração de dissolução da companhia. 277

Daniela Pereira Côrrea 278, em sua concepção, alega que:

A pena de perda de bens e valores, constitui a mais grave sanção aplicada à pessoa jurídica, trata-se da liquidação forçada do ente coletivo que, em termos comparativos, assemelha-se à pena de morte da pessoa física que é permitida em alguns países.

Para Guilherme de Souza Nucci 279:

A liquidação é uma autentica pena acessória e deverá, por isso mesmo, ser objeto de expresso pedido na denúncia. Se assim não o for, não poderá o juiz impô-lo na sentença, pois estaria sacrificando o direito de ampla defesa da ré. Portanto na inicial acusatória deverá ficar explícita a acusação do desvio de finalidade da pessoa jurídica, e o pedido de sua liquidação final.

276 VADEMECUM. Lei de Crimes Ambientais. p. 1.635.

277 COSTA JR, Paulo José da; MILARÉ, Édis. Direito Penal Ambiental. p. 68.

278 CÔRREA, Daniele Pereira. Tutela penal do meio ambiente (Lei Federal nº 9.605/98). Escritório On-

line 07/12/2002. Disponível em:

<http://www.escritorioonline.com/webnews/noticia.php?id_noticia=2457&>. Acesso em: 15, jun. 2009.

279 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. p. 866.

Caberá também ação civil pública proposta pelo Ministério Público com base no art. 1.218, VII, do CPC, visando à dissolução judicial e ao cancelamento do registro e atos constitutivos da pessoa jurídica em questão, se a sua recusa em cooperar implicar ofensa à lei, à moralidade, à segurança e à ordem pública e social, nos termos do art. 115 da Lei de registros Públicos. Nessa mesma hipótese, independentemente de ação civil pública ser proposta, o Presidente da República poderá determinar a suspensão temporária das atividades da empresa que se recusar a cooperar (Decreto-Lei nº 9.085/46). 280

3.3 POSICIONAMENTOS DOUTRINÁRIOS E JURISPUDENCIAIS ACERCA DA RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA

3.3.1 Posicionamentos doutrinários

A responsabilidade penal da pessoa jurídica é um tema muito polêmico em sede de direito penal e, desta feita, diante de todo o trabalho exposto, esse item tem por finalidade apenas demonstrar posicionamentos de diversos estudiosos da matéria.

Os aspectos favoráveis da responsabilidade penal, firmam que as infrações contra o MA atentam contra interesses difusos e coletivos, e não só contra bens individuais. Para esta corrente favorável, a responsabilidade penal das pessoas jurídicas não pode ser entendida conforme a responsabilidade penal baseada na culpa, mas sim deve ser estendida conforme à uma responsabilidade social. Assim esta responsabilização seria impossível de ser admitida dentro de um CP pautado ao princípio da responsabilidade penal individual, devendo ser realizado através de leis penais extravagantes.

Dessa forma os constitucionalistas, na sua maioria, reconhecem a consagração à responsabilidade da pessoa jurídica na Carta Magna de 1988, pois acreditam que as pessoas jurídicas em sua maioria são as grandes agressoras do MA, devido seu poder econômico, bem como distinguem o grande potencial destrutivo que

280 CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. p. 60.

podem causar, o que justifica a necessidade da penalizar esses entes coletivos, em caso de transgressão ao meio ambiente.

Como dito devido ao elevado potencial de destruição, ficaria impossível, para a pessoa física reparar estragos causando com o auxílio das estruturas organizadas das pessoas jurídicas. Assim o ordenamento constitucional não pode deixar de prever a punição penal da pessoa jurídica, tendo como argumento a ausência de culpabilidade. Dentre eles destacam-se:

A) Marcos André Couto Santos 281 que defende:

É assim iniludível cometerem as pessoas jurídicas, na atualidade, crimes que afetam valiosos bens de cunho econômico e ambiental principalmente, causando danos incalculáveis dentro de sua potencialidade destrutiva. Por isso, não pode o ordenamento jurídico se omitir em responsabilizá-las penalmente sob o manto de que não têm culpabilidade; as penas são pessoais e não se adequam aos entes morais, entre outros argumentos distanciados dos fatos sociais.

B) José Afonso da Silva 282, sobre o tema, afirma taxativamente:

Relevante é o art. 170, VI, que reputa a defesa do meio ambiente como um dos princípios da ordem econômica, o que envolve a consideração que toda atividade econômica só pode se desenvolver-se legitimamente enquanto atende a tal princípio, entre os demais relacionados no mesmo art. 170, convocando, no caso de inatendimento, a aplicação da responsabilidade da empresa e de seus dirigentes, na forma prevista no art. 173, 5º.

C) Celso José Roberto Marques 283, o qual aduz que designando como infratores ecológicos pessoas físicas ou jurídicas o legislador, abriu caminho a um novo posicionamento do direito penal no futuro:

281 SANTOS, Marcos André Couto Santos. Responsabilidade Penal das Pessoas Jurídicas de Direito Público por Dano Ambiental, Revista Direito Ambiental, ano 6, vol. 24, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. p. 121.

282 SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 6ª ed. atual. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 43

283 MARQUES, José Roberto. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica, Revista de Direito Ambiental, ano 6, vol. 22, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001.p. 105.

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