3. A FORMA SOCIAL DA ESTEIRA
3.2 A perspectiva neutra
O resultado é que o sistema de Ford conseguiu elevar muito a produtividade dos sistemas produtivos, como podemos observar na sua introdução na fabricação dos chassis automotivos:
“Quando a montagem era toda fixa, o máximo que conseguíamos era um em 12 horas e 8 minutos. Tentamos rolar um chassis por meio de tornos, por uma distância de 75 metros, ao mesmo tempo que seis operários iam recolhendo as peças dispostas pelas margens do caminho. No começo desta experiencia, ainda que imperfeita, o tempo foi reduzido a 5 horas e 50 minutos por chassis.
No começo de 1914 o nível do plano movediço foi elevado, ficando o operário em posição vertical. Dois outros planos haviam, um a 68 c. e outro a 62 acima do solo, que se destinavam a alcançar a altura dos vários grupos de trabalhadores. Quando o nível da operação alcançou a altura dos hombros e o encadeamento das operações se aperfeiçoou de modo a não se fazerem movimentos inúteis, o tempo da montagem desceu a 1 hora e 33 minutos.
Desde essa época toda a montagem de chassis passou a ser feita em séries”.
(FORD, 1925, p.110-111)
Os ganhos de capital permitidos pelo aumento de produtividade, por um lado foram obtidos a partir da mais valia absoluta através da intensificação do trabalho, por outro, a partir da mais valia relativa permitida pela introdução da esteira como meio de transporte. Esse uso do dispositivo, formatado a partir de critérios sociais e técnicos, aparece, para engenheiros e técnicos em geral, como fruto de uma racionalidade puramente técnica, como veremos no próximo tópico.
nela, “só diria a respeito à combinação de meios eficazes para obter determinados produtos ou resultados técnicos” (THIOLLENT, 1980 p.64). Neste tópico nós apresentaremos essa perspectiva e seus limites.
As máquinas, enquanto conjunto de elementos articulados segundo uma lógica racional (concatenação de mecanismos causais) para produzir movimentos funcionais, se constituiu, em alguma medida, pelo conhecimento produzido pelas ciências naturais. As ciências naturais, por sua vez, por meio dos métodos científicos, traduzem os fenômenos naturais em leis físicas, químicas e biológicas. Esses conhecimentos produzidos pela ciência, ao longo do tempo, foi se desenvolvendo permitindo uma compreensão melhor e mais abrangente dos fenômenos naturais. Os artefatos técnicos se beneficiaram desse avanço científico aprimorando seus mecanismos e ampliando suas aplicações.
Essa correlação positivista entre ciência e tecnologia nos faz crer que: 1) o desenvolvimento cientifico e tecnológico se desenvolvem de forma linear, como se estivessem evoluindo de modelos mais simples para modelos mais complexos; 2) a racionalidade cientifica e racionalidade tecnológica são da mesma natureza; 3) a racionalidade dos métodos é que fazem a ciência e a tecnologia se desenvolverem, em outras palavras, o “desenvolvimento da tecnologia segue um caminho automático, pré-determinado por uma lógica interna à ciência e à técnica” (DAGNINO, 2008, p.
49); e 4) que o avanço científico e tecnológico leva ao progresso social (visão determinista).
A Administração Científica do Trabalho (ACT) de Taylor, enquanto uma técnica de organização do trabalho, é um bom exemplo dessa visão neutra da tecnologia. A ACT visa o aproveitamento de homens de modo mais eficiente, que pode ser entendida pelas palavras de Taylor como a “economia de tempo e o consequente acréscimo de rendimento, possíveis de obter pela eliminação de movimentos desnecessários e substituição de movimentos lentos e ineficientes por movimentos rápidos em todos os ofícios” (TAYLOR, 1990 [1911], p.33). O método proposto para alcançar esses resultados é o do Estudos de Tempos e Movimentos, que segundo a proposta de Taylor se apresenta em 5 etapas:
“Primeira: Encontrar, digamos, 10 ou 15 trabalhadores (preferentemente de várias empresas e de várias regiões do país) particularmente hábeis em fazer o trabalho que vai ser analisado.
Segunda: Estudar o ciclo exato das operações elementares ou movimentos que cada um desses homens emprega, ao ser executado o trabalho que está sendo investigado, como também os instrumentos usados.
Terceira: Estudar, com cronometro de parada automática, o tempo exigido para cada um desses movimentos elementares e então escolher os meios mais rápidos de realizar as fases do trabalho.
Quarta: eliminar todos os movimentos falhos, lentos e inúteis
Quinta: depois de afastar todos os movimentos desnecessários, reunir em um ciclo os movimentos melhores e mais rápidos, assim como os melhores instrumentos.” (TAYLOR, 1990 [1911], p.86)
A aproximação desse método com os métodos científicos, por meio da definição da amostra, realização de experimento, levantamento e análise de dados, ajudou a legitimar e difundir a ACT. A racionalidade, que antes era empírica, ganha o status de científica, aquela poderosa responsável pela produção de conhecimentos do funcionamento da natureza e que tornou possível o desenvolvimento da mecânica, da química da elétrica etc. Como na ciência, se a aplicação do método for bem feito os resultados serão alcançados, nas palavras de Taylor, os resultados “só poderão ser apreciados de modo completo depois que forem completamente observadas as vantagens que decorrem dum perfeito estudo do tempo e movimento, feito por pessoa competente” (TAYLOR, 1990 [1911], p.33). Ainda nessa analogia com a ciência, o sistema se desenvolve à medida que sejam desveladas as “leis” e as “normas” que estão por trás dos processos de trabalho.
O caráter científico da obra de Taylor foi amplamente criticada por estudiosos.
Lahi, contemporâneo a Taylor, na minuciosa análise das obras do autor, não considera “a administração cientifica do trabalho” como ciência, mas apenas “uma técnica destinada a obter, para as indústrias, o máximo rendimento” (LAHI, 1921; p.5), nela o homem é considerado como uma máquina, algo que produz apenas movimento e força (homo economicus). Braverman afirma que “faltam-lhe as características de uma verdadeira ciência porque suas pressuposições refletem nada mais que a perspectiva do capitalismo com respeito às condições da produção” (BRAVERMAN, 1987, p. 82 e 83). Para o autor, a ACT não se propõe a investigar o trabalho em geral, mas a sua adaptação às necessidades do capital, que, no sistema de manufatura pode ser entendido como controle do trabalho alienado. O que fez Taylor foi
racionalizar o processo de produção de forma a controlar25 o trabalho, conforme as características descritas por Braverman no tópico anterior (página 46).
Se a economia de tempo de trabalho promovida pela ACT foi proporcionada pelo aumento do controle sobre os trabalhadores, essa técnica está mais ligada a um caráter social que propriamente técnico, um modo racional de combinação de recursos. O controle do trabalho, necessário para as empresas diante do conflito entre capital e trabalho, é um valor intrínseco à ACT, sendo assim essa técnica não é neutra.
Ela tem o propósito de intensificar o trabalho.
Os próprios critérios de melhoria da eficiência e da rentabilidade (redução de custos e aumento de receitas) presentes no desenvolvimento tecnológico não podem ser definidos sem fazer alusões a questões sociais, como coloca Thiollent:
“obter sucesso e reduzir custos são sinônimos de racionalidade e eficiência e são normas fundamentais dentro da tecnologia. Mas isso não nos parece constituir critérios de natureza a tornarem dispensável uma definição social, especialmente no que diz respeito ao custo. O custo pode ser definido do ponto de vista estreito do empreendedor ou do ponto de vista da coletividade que eventualmente suporta os efeitos negativos. A referência è exigência de sucesso e à redução de custo não chega a definir um único padrão de racionalidade ou de eficiência, pois existem muitos caminhos para se chegar ao sucesso e muitos modos de avaliar os custos.” (THIOLLENT, 1980, p. 66)
Se os engenheiros e técnicos em geral empreendem suas ações negligenciando os aspectos sociais, os produtos dos seus trabalhos incorporam esses valores. Nas técnicas de organização do trabalho ficam evidente essa incorporação, como foi visto no caso da ACT, e nos artefatos técnicos e máquinas também, como vimos no caso da esteira no tópico 3.1. Considerar que o problema da tecnologia está apenas no uso e na apropriação não nos leva repensar o desenvolvimento cientifico- tecnológico. Os aspectos sociais da tecnologia ganham centralidade em outras abordagens como a do construtivismo social (BIJKER et al, 1989; LATOUR, 1994, CALLON, 1986), da teoria crítica da tecnologia de Feenberg (2002) e da tecnologia social (DAGNINO, 2010), que veremos no próximo tópico.
25 Na obra de Taylor, a submissão dos trabalhadores à forma de organização do trabalho da ACT se dá pela cooperação amistosa entre trabalhadores e patrões e não pelo controle do trabalho exercido pela gerência. Como diz Taylor, “em lugar de vigilância desconfiada e da guerra mais ou menos encoberta, características dos sistemas comuns de administração, há cooperação cordial entre direção e empregados” (TAYLOR, 1990 [1911], p.35)