1.3 Os conceitos de cultura: modos de compreender e agir em
1.3.2 A problemática em torno do termo “Cultura”
[...] ao resgatar na história do termo ‘cultura’ tanto a definição mais restrita de cultura como manifestação intelectual e artística quanto a mais ampla, de cultura como todo um modo de vida, [...] Williams evitou conscientemente optar por uma delas. Ambas eram para ele necessárias e combinadas tanto para se perceber, como ele propunha, que a cultura era uma experiência ‘ordinária’, ou seja, ‘comum’, parte da vida cotidiana de qualquer pessoa vivendo em sociedade, quanto para demonstrar que a arte é produto e tentativa de resposta aos dilemas dessa experiência comum de vida social (MATTOS, 2012, p.183-184).
Para Mattos (2012), esta dupla definição de Williams permite compreender como a classe trabalhadora do século XX pode produzir, por exemplo, instituições de classe, como sindicatos e partidos políticos, mesmo sob a lógica dominante e violenta da sociedade capitalista.
Por último, mas ainda buscando descrever as contribuições de Williams para o debate sobre cultura, este estudo se refere a Ramos27 (2012) e aos argumentos de Eagleton (2005, 2012), a serem posteriormente apresentados. De acordo com estes autores, Williams se debruçou sobre o estudo da cultura, principalmente a partir de três dimensões: (a) de cultura como civilização (com o pressuposto de desenvolvimento progressivo); (b) de cultura como modo de vida; e (c) de cultura como expressão da arte. Nesta perspectiva, Eagleton (2005) retomará estas dimensões de análise dos estudos culturais, novamente problematizando-as e relacionando-as entre si. Deste modo, seus estudos apontaram, também, contradições inerentes ao próprio termo cultura, assim como os significados e usos políticos e ideológicos a que este conceito está exposto, sem deixar de destacar, na própria contradição, as possibilidades que o mesmo pode conter.
afirma que se pode entender cultura como derivada de trabalho e agricultura, e seu significado designando uma atividade ou um processo material que só posteriormente irá tornar-se “uma abstração em si mesma” ou “questões do espírito”. Sob esta lógica de argumentação, enfatiza ainda que esta palavra guarda consigo aspectos da “[...] mudança histórica da própria humanidade da existência rural para a urbana.” Com base nesses argumentos, levanta o questionamento se apenas os habitantes urbanos são “cultos”, e se os lavradores da terra não o são (EAGLETON, 2005, p.10). Nessas últimas palavras, fica claro que o autor pretende dialogar com o termo problematizando-o, e é assim que seguirá sua linha de raciocínio.
A palavra cultura traz questões fundamentais também no âmbito da filosofia, uma vez que, se cultivo implica ação sobre a natureza, isso nos remete a questionamentos “[...] entre o que fazemos ao mundo e o que o mundo nos faz” (EAGLETON, 2005, p.11). A relação cultura-natureza expressa um movimento dialético que provoca na produção do novo a própria desconstrução da natureza, assim como as formas usadas para transformá-la são elas mesmas os resultados da natureza. O movimento de construção e desconstrução nesta relação se refere às práticas humanas de transformações, o que reafirma a natureza humana como essencialmente cultural.
Contudo, o ser humano não pode ser compreendido somente como produto do ambiente nem, tampouco, o ambiente é objeto passivo do homem. Se o homem age sobre a natureza, ela lhe impõe os limites de sua atuação.
Nós nos assemelhamos à natureza, visto que, como ela, temos de ser moldados à força, mas diferimos dela uma vez que podemos fazer isso a nós mesmos, introduzindo assim no mundo um grau de auto-reflexividade a que o resto da natureza não pode aspirar. Como autocultivadores, somos argila em nossas próprias mãos [...] (EAGLETON, 2005, p.15-16).
Na relação homem-cultura-natureza, cabe ao homem o movimento de transformação de si mesmo sem, contudo, esquecer que este cultivo de nós mesmos nem sempre é feito apenas por nós – homens, individual ou coletivamente – mas muitas vezes é feito pelo Estado28. Eagleton enfatiza em suas argumentações que:
Numa sociedade civil, os indivíduos vivem num estado de antagonismo crônico, impelidos por interesses opostos; mas o Estado é aquele âmbito transcendente no
28 As questões que envolvem o entendimento do conceito de Estado e sua relação com a categoria cultura, produzindo uma dada forma de corporeidade social no âmbito da sociedade de classes, será tratada no bloco 3 -
“Categorias de análise da dimensão cultural do trabalho técnico em gestão em saúde: uma trajetória de investigação” deste estudo, tendo como referências principais as discussões de Gramsci (2012) e Poulantzas (2000).
qual essas divisões podem ser harmoniosamente reconciliadas. Para que isto aconteça, contudo, o Estado já tem que ter estado em atividade na sociedade civil, aplacando seus rancores e refinando suas sensibilidades, e esse processo é o que conhecemos como cultura (EAGLETON, 2005, p.16).
O Estado, segundo os argumentos de Eagleton, é, enfaticamente, atividade cultural, e representa a cultura que deve ser incorporada aos homens, transformando-os em cidadãos responsáveis e amigáveis. Esta ação tem como finalidade suprimir os conflitos existentes nas relações sociais ao imprimir em seu povo a cultura que representa, ou seja, a cultura da classe que detém a hegemonia social. A hegemonia da cultura dessa classe prevalece sobre a política ao conformar homens para o exercício de uma dada sociedade, e não para o debate dela, e faz isso ao esconder seu verdadeiro movimento, qual seja, “[...] são os interesses políticos que, geralmente, governam os culturais, e ao fazer isto definem uma versão particular de humanidade” (EAGLETON, 2005, p.18).
A cultura se caracteriza como o elemento da hegemonia ao moldar os sujeitos conforme as necessidades de um tipo de sociedade. A política organiza a cultura ao mesmo tempo em que busca esvaziar o debate político ao formar cidadãos “[...] dóceis, moderados, de elevados princípios, pacíficos, conciliadores e desinteressados dessa ordem política”
(SCHILLER apud EAGLETON, 2005, p.19). Este movimento resolve e/ou mitiga os conflitos sociais no âmbito da cultura, esvaziando o espaço político para a disputa por interesses opostos. Tornar os homens “civilizados” é impingir neles uma cidadania regulada que corrobora um tipo particular de verdade social – a corporeidade da sociedade capitalista.
Esta dimensão da discussão sobre cultura nos remete novamente à primeira perspectiva a que se refere Williams, a saber: a cultura como civilização – pressuposto do desenvolvimento social gradativo – quando aborda os três principais sentidos modernos da palavra cultura, já anteriormente referidos. Neste sentido, Eagleton recupera a ligação do conceito de cultura com os princípios franceses do Iluminismo, de modo que valorizava tanto o refinamento social quanto o desenvolvimento progressivo. A opção pela palavra civilização, naquele contexto, tinha como pano de fundo a ideia de que “[...] ‘civilização’ minimizava as diferenças nacionais, ao passo que a ‘cultura’ as realçava” (EAGLETON, 2005, p.20).
No entanto, este sentido de “civilização” vai adquirindo, aos olhos de alguns liberais do fim do século XIX, ênfase em suas características imperialistas, e a retomada do termo cultura pelos alemães é o movimento de disputa neste processo. A ideia de cultura retorna associada a uma atitude de crítica, a qual, esclarece ainda Eagleton, necessita garantir a dimensão de crítica social. Entretanto, a disputa que se trava entre “cultura” como atitude
crítica e “civilização” como conformação de um tipo específico de homem em muitos aspectos se tratou de um falso debate. Se civilização era naquele momento entendida como forma alienada de existência, e a cultura como a possibilidade de fazer a crítica da civilização, rebelando-se contra seus princípios, seria, também, a própria cultura a responsável por
“refinar estes rebeldes” e, na contradição, ir ao encontro da própria civilização para evitar que ela se autodestrua.
Entretanto, não se pode deixar de reconhecer que, guardadas as devidas diferenças, convivendo com semelhanças aparentemente irreconciliáveis, é a partir deste movimento que a ideia de cultura assume seu sentido moderno, ou seja, cultura como “modo de vida característico”. A cultura não trata, então, de um movimento unidimensional (uma única cultura superior frente a todas as sociedades, como o eurocentrismo quis fazer acreditar), mas da diversidade da vida social, com suas formas e leis singulares.
“A origem da palavra cultura como modo de vida característico, então, está estritamente ligada a um pendor romântico anticolonialista por sociedades ‘exóticas’
subjugadas” (EAGLETON, 2005, p.24). Este exotismo será reeditado, na sociedade contemporânea, na exaltação da “cultura popular”. Ela irá se referir, então, mais a modos de vida que se contrapõem ao modo de vida dos “civilizados”, este preconizado pelo modo hegemônico de produção e reprodução da existência social.
Esse modo de entender cultura traz também em seus aspectos um determinado rompimento com a crítica racional, já que ela é entendida como um modo de vida que não necessariamente está atrelada a um conjunto racional de comportamento social ou, ainda, é expressão de determinações sociais de várias origens. Na contradição, entretanto, o reconhecimento desta diversidade, tanto em termos de existência social quanto de lógica hegemônica de funcionamento destas mesmas sociedades, poderá, também, propiciar algum tipo de crítica da sociedade chamada civilizada.
Para Eagleton (2005), entender cultura na pluralidade de significados que ela pode conter implica reconhecer aspectos positivos e negativos num termo que é ambíguo e complexo. Se há entusiasmo em reconhecer cultura como o desenvolvimento de um determinado povo, torna-se bem mais complexo manter este entusiasmo quando o pluralismo de seus significados indicarem culturas antissociais, racistas, sexistas, etc. Como um exemplo moderno da pluralidade de significados e possibilidades de existência conjunta que o entendimento do conceito de cultura pode conter, pode-se citar o próprio capitalismo que, apesar de forjar um tipo de corporeidade social que pretende garantir a propagação e o desenvolvimento de seus interesses econômicos, é expressão dessa diversidade, pois não só
convive com estas diferenças, mas necessita desta heterogeneidade cultural para sua própria sobrevivência. Deste modo, essa fragmentação encobre a disputa que a classe dominante trava para manter submissa a classe dominada.
A terceira dimensão do significado que tanto Williams (1992) quanto Eagleton (2005) abordam trata da cultura como expressão da arte e, neste aspecto, seu sentido tem sido mais restringido a expressões da música, da pintura e da literatura do que em suas formas mais expandidas, como na variedade de atividades intelectuais. Se a arte teve o fardo insustentável de representar o modo de vida ideal de uma época passada, hoje o pós-modernismo a liberta para expressões independentes e sem propósito aparente, comprometida apenas com a liberdade de demonstrações e “desinteressada” da tomada de partido de um ou outro embate dentro da sociedade.
“Com esta recusa do partidarismo, a cultura aparenta ser uma noção politicamente neutra. Mas é precisamente nesse compromisso formal com a multiformidade que ela é mais clamorosamente partidária” (EAGLETON, 2005, p.31). O indivíduo culto, aos olhos críticos dos autores acima referidos, é muito mais o liberal conservador das sociedades capitalistas do que a antítese deste. Seu comportamento moderado e sua mentalidade aberta e criativa frente a todas as possibilidades demonstram ser mais um convite à paralisação e a contemplação, ou ainda, à manutenção do mesmo status quo, do que a transformação deste.
A complexidade de sentidos do termo cultura e sua religação como lugar também da política é abordado por Williams a partir da:
[...] versão nativa inglesa da Kulturphilosophie europeia. Essa corrente de pensamento poderia ser vista como um esforço para ligar vários significados de cultura que estão gradualmente distanciando-se: cultura (no sentido das artes) define uma qualidade de cultura de vida refinada (cultura como civilidade) cuja realização na cultura (no sentido de vida social) como um todo é a tarefa da mudança política (EAGLETON, 2005, p.34).
Deste modo, pode-se depreender que a ligação entre os sentidos de cultura é mais complexa, ou seja, estas diferentes dimensões são apenas a resposta ao fracasso da cultura como civilização, esta como a “[...] grande narrativa do desenvolvimento humano”
(EAGLETON, 2005, p.35), já que as próprias crises desta narrativa social contradizem este desenvolvimento ou, ainda, levantam o questionamento sobre qual perspectiva de desenvolvimento que se quer assumir. Assim, pode-se dizer que essas três dimensões da cultura se relacionam dialeticamente entre si (de modo conflitante) e é, segundo o autor, a dimensão crítica deste processo que tem potencial de romper com este distanciamento, apenas
formal, entre cultura e política, tornando possível uma crítica do presente que incorpore uma outra possibilidade de futuro.
A crítica do presente é, também, em sua natureza, dialética e contraditória, já que tem como possibilidade a exposição das contradições que coexistem no seio desta sociedade, assim como a possibilidade de manutenção e reafirmação desta lógica. Se a crítica é a saída, é certamente sobre um determinado tipo de crítica que Eagleton se refere e esta trata, especificamente, da crítica que incorpora o pensamento dialético29 na compreensão do movimento histórico de constituição desta sociedade. É sobre o presente que se constrói o futuro, como continuidade ou como transformação, como também é mediante estes sujeitos, que produzem e reproduzem cotidianamente a sua existência, que se pode manter ou transmutar a realidade social.
Se a cultura engendrada nos sujeitos contém em si mesma a possibilidade de rupturas com sua expressão hegemônica – diante da exposição e compreensão de suas contradições –, estas forças que promovem ou podem promover a transformação não surgem como manifestação espontânea destas contradições sociais, e este parece ser o grande desafio a ser enfrentado por aqueles que requerem um outro tipo de sociedade. Em outras palavras, a possibilidade desta transformação está atrelada a uma reelaboração da concepção de realidade existente, que só pode ser feita pelo corpo social que a produziu. Esta tarefa da crítica social coloca, segundo o autor acima referido, a ideia de cultura como ponto fundamental deste processo, pois, feitas as devidas ressalvas já anteriormente destacadas, a compreende como principal elemento de construção desta reelaboração social. É “[...] a cultura, no sentido de ter em comum uma linguagem, herança, sistema educacional, valores compartilhados etc., que intervém como princípio de unidade social” (EAGLETON, 2005, p.42). E este argumento é, sem dúvidas, o papel político da cultura nas sociedades.
Na mesma linha de raciocínio, como já exposto anteriormente, Gramsci (1978) trata da elevação intelectual e cultural das massas como caminho imprescindível se o horizonte é a transformação.
29Sobre este ponto ver o bloco 2 - “Materialismo histórico dialético: um diálogo para a análise da cultura profissional” deste estudo.