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A proteção internacional da mulher

Importa frisar que o art. 61 da Convenção Americana de Direitos Humanos prevê a legitimidade somente dos Estados-Partes e da própria Comissão, para processar Estados perante a Corte Interamericana e para que a mesma conheça em qualquer caso se faz necessário o esgotamento dos processos previstos nos arts. 48 a 50 da Convenção 23.

Assim é que, se o Estado violador não acatou as considerações do primeiro relatório da Comissão, esta pode acioná-lo perante a Corte. Possui o Estado, o direito de produzir provas respeitado o devido processo legal (RAMOS, 2002, p.239). A sentença da Corte é definitiva e inapelável, possui efeito amplo, assegurando à vítima o gozo do direito ou liberdade violados e a reparação das conseqüências da medida ou situação que configurou violação de tais direitos, além de poder impor ao Estado, um extenso rol de obrigações que visem ao respeito e garantia dos Direitos Humanos.

Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência conta a Mulher (criada no âmbito da OEA, em 1994, ratificada pelo Brasil em 1995.)

A Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher tem como fundamento a obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade (PIOVESAN, 2003, p. 207). Já no seu preâmbulo, estabelece que a discriminação contra a mulher viola os princípios da igualdade e da dignidade humana e ressalta a implementação dos princípios da eqüidade e da justiça para a devida promoção da igualdade entre homens e mulheres. Reconhece também em seu preâmbulo, a grande importância do papel da mulher na educação dos filhos e no bem-estar da família.

Segundo o Art. 1º desta Convenção, a discriminação contra a mulher resulta de todo e qualquer comportamento de “distinção, exclusão ou restrição” que resulte em prejuízo à mulher, levando-se em consideração a igualdade entre homens e mulheres, os direitos humanos e as liberdades fundamentais. Para Olga Spinoza (2002, p.56), a grande contribuição dessa Convenção reside exatamente neste ponto, ou seja, na definição da discriminação, “reconhecendo-a como toda distinção, exclusão ou restrição, baseada no sexo e cujo resultado prejudique ou anule o reconhecimento, gozo ou exercício dos direitos humanos da mulher.”

Os Estados-partes, conforme dispõem os artigos da parte 1 deste diploma, assumem algumas obrigações no âmbito internacional, entre outras: adotar políticas que visem eliminar a discriminação contra a mulher e a implantação de legislação adequada que estabeleça a igualdade entre homens e mulheres; adotar uma política de educação que vise modificar os padrões socioculturais e condutas de preconceitos e práticas consuetudinárias, baseados na idéia de inferioridade ou superioridade de qualquer dos sexos; garantir uma educação inclusiva da responsabilidade comum de homens e mulheres, no tocante à educação e ao desenvolvimento de seus filhos; adotar medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher no emprego, assegurando condições de igualdade entre homens e mulheres.(arts I a VI).

Devem adotar também os Estados-partes medidas protetivas, consoante previsão da parte 2 da Convenção, em relação à implementação da igualdade entre homens e mulheres, entre elas: o direito ao trabalho e as mesmas oportunidades de emprego, à igualdade de salários, inclusive a aplicação dos mesmos critérios de seleção em questões de emprego; o direito à seguridade social, nos casos de

aposentadoria, desemprego, doença, invalidez, velhice e direito á férias; o direito à proteção da saúde e à segurança nas condições de trabalho, inclusive a especial proteção da função de reprodução; salvaguardar a mulher de demissões por motivo de gravidez ou de licença-maternidade e da proteção especial durante a gravidez.

Para Flávia Piovesan (2003, p. 208), a Convenção impõe a obrigação de assegurar as mulheres igualdade formal perante a lei, reconhecendo que medidas temporárias de ação afirmativa são necessárias em muitos casos para que as garantias de igualdade formal venham se transformar em realidade.

No mesmo diapasão, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará) teve grande relevância no combate à violência contra a mulher, definindo-a como grave violação aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, constituindo violação à dignidade humana e contestação de relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens. Estabelece a Convenção que a violência contra a mulher resulta de qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada (art. 1º). A convenção estabelece ainda, em seu preâmbulo, que a eliminação da violência contra a mulher é condição necessária para o desenvolvimento social e individual da mulher, assegurando assim, a participação igualitária em todas as esferas da vida.

Infere-se que a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, tornou-se um importante instrumento internacional de combate às discriminações e abusos contra a mulher. No dizer de Flávia Piovesan, os instrumentos internacionais apresentados pela Convenção têm o escopo de proteger o valor da igualdade, considerando para tal, o respeito à diferença. Para a autora, a Convenção obriga o Estado no sentido de que, tornando públicas as violações de direitos das mulheres, submete o Estado violador ao constrangimento político e moral24 (PIOVESAN, 2003, p. 217-218).

Os Estados-partes da Convenção de Belém do Pará assumem obrigações internacionais previstas no art. 7º da Convenção,dentre as quais destaca-se:

24 O constrangimento político e moral, consiste na prática de compelir o Estado violador à apresentar justificativas de sua conduta no fórum da opinião pública internacional

1- Incluir em sua legislação interna normas penais, civis e administrativas necessárias para punir, prevenir e erradicar a violência contra a mulher;

2- Tomar medidas legislativas para abolir leis, regulamentos ou costumes que tolerem a violência contra a mulher;

3- Estabelecer procedimentos jurídicos eficazes, como julgamento oportuno e medidas de proteção;

4- Atuar com a devida diligência para prevenir, investigar e punir a violência contra a mulher;

5- Adotar as disposições legislativas ou de outra índole que sejam necessárias para efetivar esta Convenção.

Também assumem os Estados-partes, conforme previsão do art. 8º do mesmo instrumento, a adoção de medidas protetivas destinadas ao combate da violência contra a mulher, entre elas:

1) Adotar medidas jurídicas que exijam do agressor abster-se de qualquer forma que atente contra a integridade da mulher;

2) Estabelecer mecanismos judiciais e administrativos necessários para assegurar à mulher, acesso efetivo a reparação do dano;

3) Adotar programas que visem modificar os padrões sócio-culturais de conduta de homens e mulheres e programas de educação para contrabalançar preconceitos e costumes que se baseiem em padrões de inferioridade ou superioridade de qualquer dos gêneros;

4) Capacitar o pessoal na administração da justiça, policiais e funcionários encarregados da aplicação da lei e encarregados das políticas de prevenção, sanção e eliminação da violência contra a mulher;

5) Implantar serviços especializados, apropriados para o atendimento necessário à mulher objeto de violência, através de entidades públicas e privadas, preocupando-se com a custódia dos menores envolvidos, entre outras.

No mesmo diapasão, reconhece a Convenção que toda mulher tem direito a uma vida livre de violência, tanto no âmbito público como no privado, estabelecendo em seu artigo 4º a proteção de todos os direitos humanos e liberdades consagrados nos instrumentos regionais:

1 - O respeito a sua vida e integridade física, psíquica e moral;

2- O direito à liberdade e segurança pessoal;

3- Ao direito a uma vida livre de torturas;

4- Direito a dignidade intrínseca à condição de ser humano;

6- Direito a proteção da sua família;

7- Direito à igualdade de proteção perante a lei;

8- O acesso simples e rápido aos tribunais competentes, permitindo assim, a proteção contra atos violadores de seus direitos;

9- O direito a associar-se livremente;

10 - O direito à liberdade de crença, consoante a própria lei;

11 - Direito à igualdade de acesso e participação nas funções públicas Por fim, de grande relevância, destacamos ainda a previsão do artigo 12º, que legitima “qualquer pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-membros da Organização” a apresentar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos petições que envolvam denúncias ou queixas de violação ao artigo 7ºda Convenção. Assim, quando o sistema jurídico de um país, através de suas normas e instituições, não consegue resolver um caso que envolva violência contra a mulher, em tempo hábil e com a devida proteção à pessoa da mulher e seus filhos, ou seja, esgotados todos os recursos previstos no ordenamento jurídico em que mora a vítima, qualquer pessoa ou entidade não governamental tem a faculdade de apresentar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos petições que contenham denúncias ou queixas de violação do artigo 7º da Convenção(PIOVESAN, 2003, p. 217)

Conclui Flávia Piovesan, que é membro do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM), que através dos instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos das mulheres, a exemplo da Convenção de Belém do Pará, “busca-se proteger o valor da igualdade, baseado no respeito à diferença. Consagra-se a idéia de que a diversidade deve ser vivida como equivalência e não como superioridade ou inferioridade.” Bem nos lembra Piovesan, que já se conquistou muito nas últimas três décadas, mas deve permanecer “o desafio de converter a igualdade meramente legal e formal em igualdade material, real e substantiva, mediante formas de inclusão social, capazes de combater a exclusão e invisibilidade, que é a pior das violências” (PIOVESAN, 2003, p. 218-219).

Vale lembrar que a ratificação pelo Brasil destas Convenções constituem grande avanço no combate à discriminação e violência contra a mulher. Contribuem

esses instrumentos internacionais para que o Brasil, através de uma legislação específica, alcance o escopo de promover não apenas a igualdade formal, mas antes de tudo, a igualdade material, através da inclusão social.

2 VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E A DEFINIÇÃO DA SITUAÇÃO DE FRAGILIDADE DAS MULHERES NAS RELAÇÕES INTRA-FAMILIARES

O capítulo II do presente trabalho tem o condão de observar a fragilidade vivenciada pela mulher nas relações intra-familiares em situação de violência doméstica, bem como demonstrar o caso emblemático Maria da Penha, o qual culminou na promulgação da Lei de proteção à mulher em situação de violência doméstica, identificando as obrigações internacionais violadas pelo Estado Brasileiro, reconhecidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos no caso em apreço.

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