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A PROTO-MARTYR ACADEMIA

No documento REVISTA (páginas 80-83)

Em toda parte, as Academias são victimas da irreverencia letrada.

A nossa é um thema constante do

" h u m o u r " do jornalismo.

A Academia defende-se dessas coarcta- das com a lisonjeira fabula de Phedro:

Nondum matura cst

A defesa é excessiva, porque a vinha acadêmica nem por fabula dá vinho ge- neroso, e, quando muito, pode gabar-se de um carrascão encorpado, que enton- tece e emborracha as raposas famintas.

O exame imparcial das coisas con- vence-nos de que na Academia ha culpá- vel excesso de expoentes como na li- teratura, cá fóra, ha exaggero de pre- tcnções descabidas.

No Brasil, a literatura, por emquanto é uma funcçao inactual, sem meios para sua finalidade civil. O melhor delia é imprensa e jornalismo no que tem de visível e aproveitável.

Os homens que escrevem livros, culti- vam certo amor-proprio de superiorida-

de; equivoco tão desastroso como o da superioridade acadêmica que só embauca

os papalvos.

Nem uns nem outros resistem ao mais leve exame.

Escrever é apenas a occupação dos que não dispõem de outra efficiencia.

Dm geral, na maioria, pelo menos, os nossos homens da penna não passam de seres intempérantes, tagarellas indiscre- tos e incontinentes, que se propõem in- fluir no curso dos acontecimentos. São criticos voluntários da politica ou das letras, que ganharam certa elegancia au- tomatica da expressão.

A sua literatura delles é um sacer- dócio ou uma picareta; quasi sempre é sacerdócio por que a picareta exige certo allôr de braços e de embocadura.

Esse idealismo forçado é sempre um

"pis aller", uma achega economica com- parável ao silencioso " j e t o n " de certa companhia letrada.

Do lado opposto, o academicismo é uma literatura larvada e subentendida, scien- cia occulta, divina e imperceptível. E' o melodioso " j e t o n " sans paroles".

Grande coisa ser acadêmico! e por essa gloria ferve o odio, inventam-se pendencias gratuitas, apparecem e desap- parecem os Renans ( ! ) incríveis que soffrem de almorreimas, coisa funesta mesmo a um Renan tropical. Com os

seus sphincteres desgovernados oompro- mettem a bonhomia inalteravel do mode- lo francez que ridiculamente adoptaram.

De que accusam a Academia?

Accusam-n'a cá fóra (e até exdruxu- lamente lá dentro), de não escolher ver- dadeiros homens de l e t r a s . . .

Ora, esta escrupulosa academia dos quarenta, não conta, sequer, dez litera- tos, no sentido proprio da palavra.

E' certo que ha ali quarenta formo- sas possibilidades, algumas em estado nascente; mas o literato profissional, é um secundário elemento naquella com- panhia, e é, talvez, o ingrediente menos desejável.

Quanto a mim, que presumo ficar des- classificado, não tenho receio de votar num ministro com ou sem livro de ver-

sos ou sem algum romancete mediocre.

Os homens de Estado, sob o estado de sitio, não me podem fazer malefício al- gum. E muito pelo contrario, dos pro- prios literatos, é que tenho apanhado alguns respingos dentro da ordem e das garantias constitucionaes.

Isso vae como resposta á jovial perver- sidade de um folliculario que não li, mas

entrevi por uma referencia do "Correio da M a n h ã " , de que eu voto sempre em

qualquer candidato que leva para a Aca- demia uma pasta ministerial.

A perversidade é ainda maior, quan- do me attribue a intenção de lançar o des- crédito sobre a Academia e promover a dissolução do cenáculo.

O caso, sendo pessoal, não tem im- portância; mas, etm verdade, é muiito geral. O Ministros têm tido sempre mag-

nifica votação. N ã o ha exemplo de mi- nistro derrotado nem malferido nesses

pleitos. Tanto pôde o meu voto!

O grupo reduzido e incoherente que na Academia, por vezes, cultiva a "li- teratice" incondicional (sem, aliás, re- presental-a na opinião commum), finge- se indignado, mas, na occasião da prova, põe sebo aos calcanhares, e os que fi- cam de resistencia, não passam de dois ou tres que, em todas as catastrophes, são sempre os bastantes para contar a h i s t o r i a . . .

Entretanto, é louvável a independen- cia mesmo quando não passa de falsa careta de independencia.

Com boa exegese, chega-se á conclu- são de que em taes casos a unanimidade é real, a máo grado das apparencias...

A ' s vezes, a entrelinha diz mais que o texto.

Eu não comprehendo que se possa hostilizar um ministro, por ser ministro;

seria estupidez monstruosa e inqualifi- cável.

Se nelle concorriam as qualidades que distinguem os intellectuaes, claro está que mereceu o premio que lhe deram.

Mas, entre nós floresce uma planta cheia de perfumes e de vaidades. E' a da literatura improfissional.

Literatura?

Ou "literatice?"

Fantasia, imaginação, versos, prosa de estylo, contos, novellas, roman;es, dra- mas, comedias, pairam acima de todas as coisas.

A Academia, que está abarrotada de notável jurisprudência, medicina, folhe- tins e não sei que mais, não possue de- centemente o direito de estimular qual- quer resistencia em favor dia literatura que ali brilha por eclipse parcial ou total.

O caracter e a feição que me pa- rece dominantes na Academia, não é, sequer, a intellectualidade, é o munda- nismo.

Não faço aqui censura alguma, veri- fico apenas o facto.

Nos últimos tempos tivemos sessões ornadas de lanterna magica, visitas di-

plomáticas, discursos de intercâmbios, sem falar nos chás com torradas; e dado o elogio á indumentária, feito pelo meu collega Augusto de Lima, presumo qye falta apenas um passo para cairmos no tangô, no fox-trot, no "rag-time" e no delicioso "schimmy".

Não danso (felizmente para os ou- tros), mas na qualidade de amador do

"folk-Iore" nacional suggiro o "maxi- x e " e o "cateretê", já lacrimosamente estilyzado por um acadêmico.

Essa verdade da alteração de antigos hábitos pôde ser, talvez, um progresso que excede a minha cegueira...

U m a verdade é patente. Cada vez mais o poder é o poder, o dinheiro é o dinheiro, e a posição social é a única que nos premune contra o desequilíbrio e a queda.

O mundanismo é o indice desse esta- do d'alma.

Mesquinharia indigna de homens de espirito é collocar acima dos discursos políticos e dos relatorios officíaes o ca- quetico livrinho de versos ou alguma novella desenxabida e vagabunda.

Se a questão é do sentúlo proprio e exacto das coisas, não temos Academia porque não temos literatura.

Se a França escolhe quarenta, o Bra-

sil sem immodestia poderia escolher quatro.

Mas, como acreditava Nabuco, o me- tro acadêmico c um só e invariavel.

E, se concessivamente temos qualquer literatura, ostão-lhe fechadas desde mui- to tempo as portas da Academia elegante

e mundana.

. A ellas têm batido os nossos poetas, que não alcançam mais de tres ou qua- tro votos displiscentes, talvez sem col- locação util. A ellas bateu, ao que dis- seram, por ahi, o maior dos nossos ro- mancistas, que logrou " u m voto único"!

Muita da nossa literatura não passa de certo narcisismo doentio e desorde-

nado, quando não resulta de algumas daquellas cócegas de fogagem espiritual.

Essa brotoeja é essencialmente anti-aca- demica.

A Academia, emfim, é uma das filiaes do "High-life" carioca; tem ella apenas o defeito de conservar por misericórdia alguns seres antiquados e inadaptaveis ao novo teor do cenáculo.

Esses fosseis, com grande gáudio da companhia, mineralizam-se tranquillamen- te, e, graças a Deus, estão por pouco.

Porque não perdoar a esses que per- tencem mais á sua geologia que á sua historia ?

O de que a Academia necessita é de- finir-se claramente, como o logar geomé- trico, que é já, dos trezentos de Gedeão, em disponibilidade.

Todas as nossas instituições estão a reclamar reverendíssimas reformas e eu creio que a primeira revisão a fazer no regimento acadêmico (e já foi tenta- da por uma das columnas do taberná- culo) é a da eliminação summaria dos palradores descontentes.

Respeitamos e amemos a Academia pelas suas altas virtudes frumentarias.

Ella dá o " j e t o n " alimentício que re- fresca os mais fartos, e aos mais fa- mintos parece bem melhor que a pouco azotada immortalidade.

João Ribeiro.

( " O J o r n a l " . Rio)

JOAQUIM NABUCO E MACHADO DE ASSIS JULGADOS

No documento REVISTA (páginas 80-83)

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