4 SÉRIES
4.2 A 13 REASONS WHY
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consigamos atingir os objetivos propostos, não discutiremos nem nos debruçaremos a observar questões teóricas de multimodalidade.8
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principal. O telespectador tem acesso ao conteúdo das fitas gravadas por Hannah através do personagem Clay Jensen, colega de escola e amor não correspondido de Hannah, que encontra a caixa com as fitas na varanda de sua casa. Clay, então, passa a ouvir as fitas e, logo de início, percebe que se trata de gravações feitas por Hannah antes de seu suicídio.
Nas fitas, Hannah faz uma espécie de “áudio-diário”, contando sua (versão da) história e elencando os 13 porquês que a levaram a cometer suicídio. Logo no primeiro, dos 13 lados das fitas, Hannah deixa claro que a pessoa que recebeu as fitas é um dos 13 porquês que a levaram a se matar e que esta pessoa, depois de ouvir todas as fitas, deve passar para a pessoa seguinte, acompanhando a ordem em que cada pessoa é citada nos lados das fitas. Cada pessoa é citada em um dos 13 lados, totalizando, assim, os 13 porquês de sua morte autoprovocada. Se alguém quebrar a “corrente”, outro conjunto de fitas será vazado para toda a escola. Cada fita se dirige a uma pessoa que, em algum momento, e por alguma razão, teve contato com Hannah e foi, por ela, considerada um dos porquês para sua morte.
A série passa a ter um tom investigativo, em função do processo que os pais de Hannah movem contra a escola. A família dela afirma que a escola sabia de possíveis “sinais” dados por Hannah sobre sua situação emocional. A escola, por sua vez, diz não ter conhecimento de qualquer indício deixado por Hannah. Ao longo dos cinco primeiros episódios, os colegas de Hannah citados nas fitas se encontram, mas somente enquanto colegas de escola. A partir do sexto episódio, passam a se encontrar para deliberarem sobre o que farão a respeito das fitas deixadas por Hannah.
Isso porque, Clay, o personagem que ouve as fitas ao longo da primeira temporada, reage de uma maneira inesperada. Ele também busca respostas sobre a morte de Hannah. Passa a investigar também os fatos contados pela colega morta. Mesmo sabendo que ele também foi citado como um dos 13 porquês para sua morte, Clay se vê na obrigação de ir em busca de vingança pela morte de Hannah. A partir do episódio oito, ele passa a ameaçar os demais colegas citados nas fitas e diz estar disposto a fazer com que toda a verdade venha à tona.
Em casa, no entanto, Clay diz não conhecer Hannah. Até o episódio nove, quando ele conta a sua mãe que a conhecia, trabalhavam juntos e que ele estava devastado por sua morte, sentindo-se culpado por não poder ter ajudado e por não poder trazê-la de volta à vida. A mãe de Clay, uma advogada especialista em assuntos civis, por sua vez, está envolvida no caso de Hannah. A escola a contratou para defender os interesses da comunidade escolar sobre o processo movido pelos pais de Hannah. A senhora Jensen passa a frequentar os espaços da escola para colher provas que ajudem na defesa da comunidade escolar. Todo esse clima de tensão vai se agravando, na medida em que os episódios vão se passando.
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Questões relacionadas, incialmente, ao bullying cometido na escola dá espaço para situações mais graves, desde o caso do estupro de Jéssica, amiga de Hannah, até a morte de outro jovem num acidente de carro, dessa vez amigo de Clay, e do próprio estupro de Hannah, ocorrido uma semana antes de sua morte; e outra tentativa de suicídio, após a morte de Hannah.
Além dessa tonalidade investigativa, da reação de Clay ao saber dos fatos contados por Hannah e dos demais colegas e do processo movido pelos pais de Hannah, a série ainda mostra, em dada dimensão, a realidade de uma família no pós suicídio. A perplexidade sobre o caso faz com que a família de Hannah pense que não conheciam bem a filha; que não sabiam quem ela, de fato, era. Seus pais passam a buscar artefatos que expliquem as razões para que sua filha de 17 anos tirasse sua própria vida. Sem ter conhecimento das fitas, os pais de Hannah reúnem, numa caixa deixada pela filha, material que servirá posteriormente como prova para o processo contra a Liberty School.
No discurso da personagem, 13 justificativas são apresentadas para explicar sua decisão de tirar a própria vida. O nome da série (em tradução livre para o português: “as 13 razões” ou “os 13 porquês”) faz referência direta às 13 justificativas elencadas por Hannah nos 13 lados das fitas deixadas – uma justificativa para cada lado de cada fita. A personagem aponta, então, quem são as pessoas que se apresentam como um dos 13 motivos para seu suicídio e o que cada uma dessas pessoas fez para ela durante sua vida.
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5 A ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO COMO NORTE: PRECEITOS BÁSICOS DO MARCO TEÓRICO
Para que se faça possível compreendermos de que maneira a série 13 Reasons Why constrói, em seu discurso, a representação do suicídio, faz-se necessário apresentar, em primeiro lugar, os preceitos que fundamentam a perspectiva teórico-metodológica aqui utilizada. Nesse sentido, das perspectivas apresentadas, é de extrema importância destacarmos a própria abordagem assumida pela Análise Crítica do Discurso (doravante ACD). Mais do que um método ou um arcabouço teórico à disposição dos analistas críticos, a ACD é a assumpção de um posicionamento político, principalmente no que se refere à análise da relação entre língua, discurso e sociedade, lançando especial olhar para as relações de poder e dominação, retirando véu que encobre as desigualdades e injustiças sociais.
Dessa maneira, é mister explicitarmos de que maneira tais perspectivas críticas tomam corpo e conduzem suas pesquisas, inscritas nessa “postura” investigativa. Por isso, tão importante ressaltar, independente das várias correntes da ACD, esse enfoque específico em que há implicação dos pesquisadores e pesquisadoras naquilo que se estuda, além da própria visão crítica no modo de olhar o objeto de estudo. A respeito de tal postura crítica, Vieira &
Resende (2016, p. 14) defendem que “o ‘C’ [...] se justifica por seu engajamento com a tradição da “ciência social crítica”, que visa oferecer suporte científico para a crítica situada de problemas sociais relacionados ao poder como controle”. Desse modo, a linguagem, em especial o discurso, é o recurso utilizado na sustentação ou na contestação das relações de dominação, sendo a ACD um instrumento teórico-metodológico engajado na observação de problemas sociais imbricados nessas relações e dos modos de contra posicionamentos frente ao abuso de poder.
Vale destacar, no entanto, que é somente em 1985 que aparece pela primeira vez o termo ACD, cunhado por Norman Fairclough num trabalho publicado no Journal of Pragmatics e que tinha uma filiação, inicialmente, à Linguística Crítica (LC) e às Ciências Sociais Críticas. A ACD só se consolida, entretanto, enquanto uma disciplina na década de 1990, após reunir em um simpósio em Amsterdã, organizado mais precisamente em janeiro de 1991, nomes que viriam a ser expoentes dentro de tal perspectiva, tais como o próprio Norman Fairclough, além de Teun A. van Dijk, Gunther Kress, Theo van Leeuwen e Ruth Wodak. Na ocasião, esses pesquisadores e pesquisadoras compartilhavam resultados de suas pesquisas e discutiam o caráter crítico e engajado da atuação científica diante de questões de relevância social.
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Enquanto arcabouço teórico-metodológico, é uma abordagem científica transdisciplinar e, “em um sentido mais amplo, refere-se a um conjunto de abordagens científicas [...] para estudos críticos da linguagem como prática social” (VIERA & RESENDE, 2016, p. 14). Batista Jr., Sato & Melo (2018, p. 9) sustentam, de forma ampla, que a ACD “busca a explanação de fenômenos sociais, desvelando o modo como o discurso, enquanto linguagem em uso, participa dessa construção, estabilizando distorções sociais”. Em outras palavras, o que os autores postulam é 1) o compromisso da ACD com a análise engajada de um problema social; 2) a explanação de tal problema social como um entrelaçamento de modos de funcionamento do discurso e de relações de poder socialmente estabelecidas; e 3) a atuação na análise discursiva da manutenção de determinadas injustiças sociais.
Na seção a seguir, para melhor entendimento da ACD enquanto posicionamento praxiológico, discutirei os conceitos mais relevantes, bem como os seus desdobramentos para a compreensão do discurso enquanto prática social, especialmente os que me interessam como parte fundamental para a pesquisa ora desenvolvida.