A proposta de “reforma do Estado” brasileiro, encaminhada pelo Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE), durante o governo Fernando Henrique Cardoso, na década dos anos 1990 do século passado, entende que o Estado, nos últimos anos, vem colaborando com o desenvolvimento econômico, mas, devido ao seu crescimento distorcido e excessivo, concomitantemente à crise econômica internacional na década de 1970, entra em crise, tornando-se obstáculo ao desenvolvimento.
Nesta mesma orientação, Guerra destaca que são remetidas a três fatores as chamadas crises do Estado: “a crise fiscal; a crise do modo de intervenção protecionista; e uma crise de forma burocrática de administração”. (1998, p. 4).
Nessa visão, o Estado, ao assumir a execução de políticas sociais, adotou uma postura ideológica populista em favor do protecionismo, e ao transformá-la em mecanismo permanente, decreta sua própria falência.
Essa autora argumenta ainda sobre a urgência de uma reforma Constitucional onde se estabeleça “a flexibilização da estabilidade, o fim do regime único, o fim da isonomia como preconceito constitucional, o reforço dos tetos salariais, a definição de um sistema de remuneração nos três poderes”. (GUERRA, 1998, p. 4). O que se quer com essas propostas, na visão de Guerra, é que se opere a desregulamentação dos direitos sociais vigentes, tendo como objetivo maior desresponsabilizar o Estado pelas expressões da questão social.
Tecendo uma crítica a essa postura, a mesma autora esclarece que, se considerarmos a visão explicitada, veremos que a crise contemporânea não é expressão da crise cíclica do capitalismo. Não se trata de considerá-la como a crise de um determinado padrão de acumulação, mas de um determinado modelo de Estado, ou seja, trata-se de uma crise fiscal15.
Outro ponto a considerar é que, em conseqüência de sua forma de conceber a crise, reformar o Estado significa promover a redefinição de papéis de melhor
15 Ao considerar a crise contemporânea como a crise fiscal, cuja origem encontra-se na dívida externa, esta proposta pode ser encaminhada através de políticas para contê-la. Assim “a privatização do maior número possível de empresas estatais e a liberação comercial comporiam uma parte importante desse tipo de política, mas o objetivo não seria obter o Estado mínimo, mas reformar o Estado de modo que ele possa novamente tornar-se capaz de formular e implementar políticas econômicas efetivas”. (GUERRA, 1998, p. 4).
execução dos serviços e políticas sociais, passando ele, então, a desempenhar o papel de regulador e fiscalizador.
A Reforma do Estado deve ser entendida dentro do contexto da redefinição do papel do Estado, que deixa de ser o responsável direto pelo desenvolvimento econômico e social, pela via da produção de bens e serviços, para fortalecer-se na função de promotor e regulador desse desenvolvimento. (BRESSER PEREIRA, 1996, p. 12).
Sendo essa concepção da crise de um modelo de Estado – e se tratando de um Estado burocrático - haveria que substituí-lo por outro modelo que fosse capaz de engendrar o desenvolvimento racional, no qual o mercado é o tipo ideal. Ou seja, não extinguindo os serviços sociais, mas reorganizando-os de forma que sejam geridos pelo mercado e pela comunidade nos moldes da filantropia e do trabalho voluntário.
Na visão de Bresser Pereira, “reformar o Estado significa transferir para o setor privado as atividades que podem ser controladas pelo mercado” (idem, p. 11), de modo que o Estado passe a ser um regulador e transferidor de recursos.
Paralelamente, Guerra (idem, p. 2) aponta que a “reforma do Estado” é parte constitutiva da dimensão ideopolítica da crise contemporânea e vem sendo concebida equivocadamente, como causa e solução da mesma. Na sua visão, a
“reforma do Estado” nos interessa porque, concretizar e reatualizar os traços de exclusão e dependência da nossa formação social-histórica caracteriza-se como uma contrarreforma.
Conforme Antunes (2000), a “reforma do Estado” realiza-se estrategicamente através da racionalização – da formalização, fragmentação e abstração, inerentes ao modo de produção capitalista.
Reportando a Guerra:
A modalidade de reforma do Estado que aqui se encaminha, inspirada e orientada pelos organismos internacionais representantes do grande capital, interdita os direitos sociais conquistados na Constituição de 1988, abstraindo do Estado as suas funções democráticas, refuncionalizando o Estado patrimonialista e corporativista.
(1998).
Na visão dessa autora, esse modelo de Estado em questão supôs “uma síntese programática e social-democrática ou social-liberal entre as antigas estratégias desenvolvimentistas e a crítica neoliberal”. (GUERRA, 1998). Como conseqüência aparece a proposta de converter o Estado brasileiro em um Estado
Social Liberal, contrário e alternativo àquele que defende o Estado Mínimo, concebido como garantidor da propriedade e dos contratos.
Na visão de Bresser Pereira (ibidem, p. 21), o Estado Brasileiro é um Estado Social-Liberal, pois está comprometido com a defesa dos direitos sociais definidos no século XIX, mas também é liberal porque acredita no mercado, integra-se no processo de globalização, o que faz com que ganhe uma amplitude historicamente nova, como resultado de reformas orientadas para o mercado:
É o Estado que continua responsável pelos direitos de saúde e educação da população, mas que de forma crescente os executa por intermédio de organizações públicas não-estatais competitivas. Este Estado é uma espécie de síntese onde compromisso entre os direitos individuais, assegurados pelo Estado, mas viabilizado pelo mercado, e os direitos sociais, assegurados pelo Estado e viabilizado pelo próprio Estado, mas, no final deste, cada vez mais assegurados pelas organizações públicas não-estatais. (BRESSER PEREIRA, ibidem, p. 21).
Segundo esse mesmo autor, no plano econômico, a diferença entre uma proposta de reforma neoliberal e uma social-democrata ou social-liberal está no fato de que o objetivo da primeira é retirar o Estado da economia, enquanto o da segunda é aumentar a governança do Estado, e dar ao Estado meios financeiros e administrativos para que ele possa intervir efetivamente sempre que o mercado não tiver condições de estimular a capacidade competitiva das empresas nacionais e de coordenar adequadamente a economia.
Por outro lado, no plano social, a diferença entre a proposta Neoliberal e o novo Estado Social-Liberal que está surgindo, reside no fato de que os verdadeiros neoliberais querem a retirada do Estado também da área social. Criticam fortemente a intervenção do Estado Social que no Primeiro Mundo manifestou-se como Welfare State porque esta intervenção (mesmo ocorrendo apenas na educação e na saúde) acabaria sendo objeto de grupos especiais de interesses, formados por empresários, por grupos de classe média e por funcionários que privatizam a coisa pública.
Adotando um individualismo radical e carente de realismo político, pretendem que a educação e a saúde, por mais importante que possam ser, sejam problemas que as famílias e os indivíduos devam resolver e financiar: essa é a perspectiva neoliberal.
Entretanto, o resultado de sua crítica e da resposta social–democrática não é o Estado Liberal, mas o Estado Social–Liberal, que continua responsável pela proteção dos direitos sociais, mas que gradualmente deixa de exercer diretamente
as funções de educação, saúde e assistência social para contratar “organizações públicas não-estatais” para realizá-las16.
O reconhecimento de um espaço público não-estatal tornou-se particularmente importante num momento em que a crise do Estado aprofundou a dicotomia entre Estado e setor privado, levando muitos a imaginar que a única alternativa à propriedade estatal é torná-la privada. A privatização é uma alternativa adequada sempre que a instituição pode gerar toda a sua receita da venda de seus produtos e serviços, e o mercado têm condições de assumir a coordenação de suas atividades. Quando isto não acontece, está aberto o espaço público não-estatal. Por outro lado, no momento em que a crise do Estado exige o reexame das relações Estado/sociedade, o espaço público não-estatal pode ter papel de intermediação ou pode facilitar o aparecimento de formas de controle social direto e de parceria, que abrem novas perspectivas até para a ampliação do campo democrático.
No setor de serviços não-exclusivos do Estado17, a propriedade deverá ser em princípio, pública/não-estatal. Não deve ser estatal porque não envolve o uso do poder do Estado e não deve ser privada porque pressupõe transferência do Estado.
Deve ser pública para justificar os subsídios recebidos do Estado, porém, o controle será exercido pelo mercado e pelo Estado. O controle do Estado acontecerá pelo poder dos conselhos de administração constituídos pela sociedade e do mercado, na cobrança dos serviços estabelecendo assim, uma co-gestão entre o Estado e a Sociedade Civil. A transformação dos serviços não-exclusivos do Estado em propriedade pública não-estatal e sua declaração como organização social será feita com “programa de publicização” o que não deve ser confundido com o programa de privatização, na medida em que as novas entidades conservarão seu caráter público e seu financiamento pelo Estado.
O processo de publicização deverá assegurar o caráter público, mas de direito privado da nova entidade, assegurando-lhe, assim, uma autonomia administrativa e financeira maior.
16Sobre este assunto Bresser Pereira tratou em seu livro: Crise Econômica e Reforma do Estado no Brasil: para uma nova interpretação da América Latina. São Paulo, 1996.
17 Esclarece Bresser Pereira: “as atividades exclusivas do estado são aquelas em que o poder do estado, ou seja, o poder de legislar e tributar são exercidos. E as não-exclusivas, são: as escolas, as universidades, os centros de pesquisa, os hospitais e museus”. (ibidem, p. 283).
É nesse contexto que as ONGs vêem uma grande possibilidade de obter sucesso em suas ações, estabelecendo parcerias com o Estado18.
Antes de analisarmos a parceria entre ONG e ESTADO, vejamos como funcionam as políticas sociais no contexto do neoliberalismo e em que consiste sua retórica de convencimento.