• Nenhum resultado encontrado

A Regeneração Nacional e a consolidação da monarquia liberal

No documento universidade federal de minas gerais (páginas 102-124)

IV. A estrutura da Tese

1.5. A Regeneração Nacional e a consolidação da monarquia liberal

A forte polarização e disputa pelo poder que marcaram Portugal de 1826 até pelo menos 1851, não foi essencialmente produto da formação de grupos políticos coesos. Tratava- se, de outro modo, da delimitação de duas correntes políticas ligadas ao pensamento liberal oitocentista. Para Pedro Mesquita, as catalogações “vintismo”, “cartismo” e “Setembrismo”, seriam interessantes para destacar os períodos de estabilização do liberalismo em Portugal, assim como as principais lideranças dos movimentos políticos correlatos. Entretanto, não seriam adequadas para se caracterizar as posições teóricas e políticas no interior da matriz do liberalismo.287 Garrett, por exemplo, se sentava à esquerda do parlamento, apresentando discursos e ideias, inicialmente progressistas, mas se demonstrou um legislador conservador.

284 VIEIRA, Benedicta Duque. A Revolução de Setembro e a Discussão Constitucional de 1837. Lisboa:

Salamandra, 1987, p.133.

285 Constituição Portuguesa de 1838, disponível em: www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/1058.pdf. Acesso em:

07/06/2016.

286 SILVA, António Martins. A vitória definitiva do liberalismo e a instabilidade constitucional..., p. 105.

287 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. Matrizes Gerais do Pensamento Político Português na Primeira Metade do Século XIX. In: Liberalismo, Democracia e o Contrário – Um Século de Pensamento Político em Portugal (1820-1930). Lisboa: Edições Sílabo, 2006, p.17.

100 Ao passo que Mouzinho da Silveira, um notável cartista e apoiador de D. Pedro e D. Maria, foi um dos mais avançados reformadores de todo o período liberal. 288

As diferentes referências do pensamento liberal foram apropriadas de acordo com o jogo político da monarquia constitucional que se consolidava ao longo do século XIX, uma tendência verificada principalmente a partir dos anos 1830, após a guerra civil.289 O jacobinismo, por exemplo, cada vez mais figurava como um adjetivo e não como um substantivo. Foi recorrentemente empregado com um tom pejorativo, sobretudo pelos políticos conservadores, quando procuravam detratar seus adversários.290 Não seria seguro afirmar que, no decorrer do século XIX, a influência jacobina era estruturadora de um projeto político, ou que fosse sequer uma ameaça efetiva para o status quo português. Trata-se muito mais de um emprego, com significados bem delimitados. Pode-se pensar o mesmo em relação a outros modelos e/ou correntes políticas preexistentes. Por essa razão, de acordo com Mesquita, valeria a pena considerar as propostas, os debates e as tendências dos grupos políticos e não apenas as suas transitórias denominações. 291

Nos oitocentos, seria possível identificar duas matrizes políticas concatenadas a partir da gestação da monarquia liberal. A primeira, denominada “democratismo”, grafada pela noção de que a soberania estava na nação, com ênfase na soberania popular. Considerava-se a legitimidade das mudanças revolucionárias, mesmo desconfiando de alguns dos procedimentos para a sua realização. Medidas extraordinárias de segurança do Estado e defesa da revolução eram apoiadas, bem como o sufrágio universal-direto e o unicameralismo. Além disso, essa corrente foi marcada pela rejeição aos vetos feitos pelo legislativo, pela defesa do centralismo administrativo e do protecionismo estatal.292 Tal proposição edificou-se a partir da ação e dos debates dos políticos e homens de letras, que muitas vezes foram chamados ou se auto intitularam de: vintistas, republicanos e/ou jacobinos e setembristas. 293

A segunda tendência, denominada “reformismo”, primava por dar preeminência aos direitos individuais em relação às formas do Estado, advogando-se a favor da expansão cautelosa da cidadania política. A tolerância, mas também a soberania nacional – que não era encarada como a soberania popular, um atentado à própria essência do governo representativo

288 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p.17-18.

289 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Liberalismo. ..., p.832.

290 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Liberalismo. ..., p. 831.

291 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p.18.

292 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p.22-23.

293 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p.23-24.

101 –, seriam valores para essa perspectiva. Não eram reconhecidos quaisquer expedientes revolucionários e considerava-se a igualdade social uma perigosa ilusão, que poderia abrir as portas para o despotismo. Defendia-se, também, o poder moderador, o sufrágio restrito e indireto, o bicameralismo, o municipalismo e o livre-cambismo.294 Essa corrente angariou o apoio dos mais diversos grupos políticos, desde os cartistas, os monarquistas mais tradicionais resignados, até ex-setembristas, ou, ainda, outros grupos que se mantiveram ligados ao liberalismo, mas que procuraram repensar seus posicionamentos e ideias, conforme determinados interesses e conjunturas.295 No último caso, vale mencionar os “Vencidos da Vida” (1887-1894), grupo de que Eça de Queiroz fazia parte, que será tratado com mais cuidado segundo capítulo.

Quando se afirma que essas são duas matrizes, construídas ao longo do século XIX e que perpassam os diferentes grupos políticos, é significativo considerar que não se trata de dois modelos engessados. O caráter tendencial é fundamental. Existem, entre elas, pontos de divergência, mas também de convergência. Questões como o sufrágio ou a divisão das Cortes eram debatidas no interior de cada uma dessas correntes, que

[...] não se distinguem ao nível dos grandes princípios que identificam genericamente o ideário liberal. Em todos eles, encontramos o mesmo reconhecimento do primado dos direitos naturais, da liberdade, da segurança, da propriedade; em todos eles, uma semelhante reivindicação da tolerância e do livre-pensamento; em todos eles uma comum partilha dos princípios da soberania nacional, da representação, da separação dos poderes e da consagração dos direitos civis como caráter distintivo do sistema representativo. 296

Acima dos princípios mais generalizantes ligados ao ideário liberal, outra questão aproximava

“democratistas” e “reformistas”: o objetivo de regenerar Portugal. Era preciso fazer com o que o país superasse a crise econômica, conquistasse a estabilidade política, garantisse a paz social e o progresso. O que estava em disputa era que projeto poderia buscar a efetivação dessas pretensões.

Os “democratistas” tenderam a defender reformas econômicas e políticas mais estruturais, além da ampliação do sufrágio; ao passo que os reformistas acreditavam que as mudanças precisavam ser mais graduais, incluindo aí a extensão do direito ao voto, submetida à criação das condições de maturidade intelectual, independência financeira e capacidade de

294 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p. 24-25.

295 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p.25.

296 MESQUITA, António Pedro. Liberais e Contrarrevolucionários. ..., p.22.

102 discernimento. Os liberais, principalmente os que estavam ligados a essa corrente reformista, aspiravam construir em Portugal o que poderia se chamar de um “estado cívico”.

Queriam que o governo pertencesse a um corpo de cidadãos, autônomos e iguais entre si, para quem a atividade política constituísse a mais alta forma de realização pessoal. Obviamente, sabiam que nem toda a população estava preparada para aceder a esse tipo de vida: uns porque não tinham educação, outros porque eram pobres, outros ainda porque as naturezas os excluíam da comunidade política: era o caso, segundo os liberais, das mulheres e dos jovens. O estado cívico pertencia aos homens adultos, educados e com meios de vida. 297

Os defensores da perspectiva reformista almejavam formar um cidadão “qualificado”, que pudesse fazer parte de uma “comunidade cívica”, com a efetiva capacidade de participação e atuação política. Para tanto, seria importante uma vanguarda política e intelectual, que preparasse os novos cidadãos.298 Os membros da matriz do democratismo tinham outra perspectiva: a própria experiência eleitoral e a participação na vida pública conformariam a cidadania. A expansão do direito ao sufrágio seria, em si, um processo de

“educação cívica”.299 Essa concepção chegou a se desenvolver mais acentuadamente a partir do ano de 1878, quando todos os homens adultos e casados foram considerados aptos para votar e integrar o corpo de cidadãos, já que a capacidade de gerir uma família foi levada em conta, na ausência de renda e escolaridade, como garantia da independência política necessária para o exercício da cidadania. Portugal chegou a ter um dos maiores corpos eleitorais da Europa, contando com 72% dos homens adultos. 300

Para os reformistas, essa expansão representava a diluição do poder de decisão de quem realmente poderia exercer a função cívica da cidadania. Já os democratistas defendiam que somente com a ampliação da participação se garantiria a cidadania e se qualificaria a política. A contração participativa figurava como um problema para a linha mais progressista e como uma solução para os mais moderados. No tocante a questão do sufrágio e da participação política, considera-se que:

Preconizando a igualdade, a burguesia optava por um regime eleitoral de predomínio censitário cuja evolução, com avanços e recuos, espelha o jogo de forças que se defrontavam e que se dividiam entre o reforço do sufrágio universal masculino e a opção pela capacidade material ou intelectual como garantia do direito a cidadania. A concepção, dominante, de que a carência

297 RAMOS, Rui. A Cultura do Patriotismo Cívico. ..., p.47.

298 RAMOS, Rui. A Cultura do Patriotismo Cívico. ..., p.48-49.

299 RAMOS, Rui. Transformações do liberalismo em Portugal (c.1880-c. 1900). ..., p. 54.

300 RAMOS, Rui. Transformações do liberalismo em Portugal (c.1880-c. 1900). ..., p.54-55.

103 entupia a razão e dificultava a honra condicionou, neste âmbito, a realização da obra liberal. 301

Considerando a predominância paulatina da restrição do direito ao voto, mas também a complexidade crescente das linhas de força que acabaram por formatar a vida política em Portugal destaca-se que a divisão entre “democratistas” e “reformistas” é pertinente principalmente até os anos 1850. A partir de então, começaram a se estruturar os partidos políticos, que se cristalizaram nos anos 1870, e as forças conservadoras ganharam mais espaço no espectro político-social em questão. Essa formulação fez com que, ao longo da segunda metade do século XIX, as tendências mais democráticas ou reformistas se dividissem menos linearmente, integrando-se, isto sim, à diversidade de proposições e posicionamentos que surgiram a partir do protagonismo dos partidos. 302

Pode-se dizer que a primeira metade do século XIX foi marcada pelo impulso democratizante e progressista, ainda que com percalços; ao passo que, principalmente a partir dos anos 1850, assiste-se ao declínio gradual dessa tendência. Não por acaso a constituição que vigorou, a partir da estabilização da monarquia liberal, foi a Carta de 1826. Aliás, a fixação desse texto constitucional faz parte da estabilidade adquirida. Ainda que seja relevante levar em conta algumas nuances e relativos avanços dos grupos mais progressistas, principalmente no final dos anos 1860, verificou-se o paulatino predomínio da tendência reformista – a partir de então, não mais representada por um grande bloco mais ou menos coeso, mas por diferentes grupos do espectro político e partidário que veio a se constituir.

Essa tendência está relacionada com a consolidação do regime, por sua vez, ligado ao projeto de regeneração que se efetivou. Relaciona-se também com a dinâmica eleitoral que se verificou. 303

Assistiram-se a conturbados pleitos realizados ao longo do século XIX. Isso principalmente no que se refere ao chamado “caciquismo”. Esse fenômeno foi marcado pela atuação dos chefes políticos regionais, que controlavam os votos e a participação política dos que, em tese, não tinham formação e preparo. Tal controle seria a base para os comportamentos eleitorais, as influências políticas, a corrupção e o compadrio.304 Com o

301 CRUZ, Maria Antonieta. Burguesia em Portugal na segunda metade do século XIX. In: Olhares sobre o Portugal do Século XIX. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012, p. 71.

302 RAVARA, António Pinto. Os partidos políticos liberais na primeira fase do rotativismo parlamentar. Análise Social,v.1, n.46, Lisboa, 1976, p.364.

303 RAVARA, António Pinto. Os partidos políticos liberais na primeira fase do rotativismo parlamentar. ..., p.365-366.

304 Sobre o caciquismo, sua persistência na política portuguesa até o início do século XX e as tentativas de reforma levadas a cabo para combater esse fenômeno, ver: SOBRAL, José Manuel; ALMEIDA, Pedro Ginestal

104 discurso de combate dessas práticas,305 articulou-se, principalmente a partir dos anos 1880, a revisão da ampliação do direito ao voto, que, como se viu, havia se desenvolvido no final dos anos 1870. Considerou-se, crescentemente, que a expansão não qualificada dos direitos políticos era um risco para a cidadania e a segurança do sistema.

Mas antes das reformas eleitorais, seus desdobramentos, e da estabilidade política, observaram-se anos agitados em Portugal. Na década de 1840, especialmente, a formação do

“cabralismo” marcou o último período de instabilidade e forte polarização política, antes da tendência à estabilidade e ao relativo consenso, que predominaram durante a segunda metade do século XIX. António da Costa Cabral tinha se alinhado ao “setembrismo”, mas acabou convertendo-se ao “cartismo”, tornando-se um radical defensor da carta constitucional de 1826 e do projeto político a ela associado. 306 Embora não tenha sido oficialmente o principal chefe do governo, liderou o movimento golpista que marcou uma tendência de radicalização, assim como a consolidação do modelo político que iria estruturar a monarquia constitucional.

Após o golpe militar, instaurou-se um governo considerado oligárquico, pautado pela realização de alguns melhoramentos materiais e pela ampliação das relações econômicas externas de Portugal; mas que, por outro lado, foi acusado de praticar nepotismo e de agir com virulência contra qualquer tipo de manifestação de oposição e/ou de defesa das liberdades individuais.307 Chancelado pelo exército e pela maçonaria, Costa Cabral iniciou o processo de consolidação do Estado Liberal, por meio de uma forte centralização e por uma complexa burocratização.308 Eliminaram-se as estruturas populares do exército e da administração pública, realizando destituições e transferências, além de se ter reforçado o sistema eleitoral com o voto indireto e censitário. 309

Em função das ações pouco dialogadas, bem como do próprio contexto de debates inflamados, esse governo teve uma oposição arregimentada por diferentes grupos, com Tavares. Caciquismo e poder político. Reflexões em torno das eleições de 1901. Análise Social, v. XVIII, n.72- 73-75, 1982, p.649-671.

305 A decepção de alguns dos liberais ligados à corrente do “democratismo” com o fracasso da democracia eleitoral fez com que muitos deles se concentrassem no papel do Estado na criação das condições sociais de uma democracia. RAMOS, Rui. Transformações do liberalismo em Portugal (c.1880-c. 1900). ..., p.55.

306 RIBEIRO, Maria Manuela Tavares. A restauração da Carta Constitucional: cabralismo e anticabralismo. In:

MATTOSO, José (dir.). História de Portugal. Volume 5: O Liberalismo (1807-1890). Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 107.

307BRANCO, Rui. A Vida Política. In: PINTO, António Costa; MONTEIRO, Nuno Gonçalo (dir.). História Contemporânea de Portugal: 1808-2010. Volume 2: A Construção Nacional 1834-1890. Madrid: Fundación Mapfre & Objectiva, 2013, p.38.

308 CATROGA, Fernando. A Maçonaria e a restauração da Carta Constitucional em 1842. O Golpe de estado de Costa Cabral. Revista de História das Ideias, Coimbra, v.7, n.1, 1985, p.160.

309 RIBEIRO, Maria Manuela Tavares. A restauração da Carta Constitucional. ..., p.112.

105 interesses e objetivos igualmente variados. Eram “anti-cabralistas” muitos dos “setembristas”, além dos “miguelistas” persistentes e de alguns “cartistas” dissidentes. Irmanavam-se, portanto, contra a nova proposta de governo, grupos políticos de tendência progressista, extremados à esquerda e à direita. Os “setembristas” mais radicais exigiam a restauração da constituição de 1838, os mais moderados defendiam a necessidade de reformas constitucionais, que também integravam os anseios dos cartistas dissidentes. Já os miguelistas tinham esperanças de reaver os direitos dinásticos de D. Miguel, acreditando que, para isso, era preciso derrubar aquele Estado forte que se delineava.310 O grupo de apoiadores, por seu turno, era formado por fiéis defensores do “cabralismo” e suas medidas enérgicas, sendo grande parte deles cartistas convictos. Essa divisão explicita o quanto o debate político passou a gravitar em torno do projeto “cabralista” que estava em curso.

Era um governo pautado por ações repressoras e perpassado por conflitos. Essa tendência estava relacionada com a dinâmica interna do país, mas também com o contexto europeu mais geral dos anos 1840, principalmente no final dessa década. As revoltas nacionalistas e populares que se deflagravam em grande parte do continente, a deposição do rei Luís Felipe na França – com a instauração da Segunda República –, a formação das doutrinas e dos projetos socialistas e os conflitos desencadeados entre os espanhóis, impactaram no cenário político português. Como nos lembra Hobsbawm, a década de 1840 marcou uma época de incertezas e receios, iniciada no final do século XVIII. As elites e as classes médias estavam assustadas e permaneceram preocupadas com o povo: a democracia nos moldes liberais ainda não se tinha consolidado e havia a preocupação de barrar a participação popular, tida como uma ameaça. Ainda segundo o autor, articulava-se a criação de um novo tipo de progresso, com pretensões mais delimitadas e com promessas mais pragmáticas. 311

Costa Cabral, em sintonia com essa tendência revisionista, procurou garantir a ordem, por intermédio de um rigoroso controle social, mas enfrentou uma enérgica resistência, que acabou por comprometer os seus propósitos, pelo menos parcialmente. As ações opressoras tomadas pelo seu governo, juntamente com os problemas sociais crescentes (especialmente o desemprego e a fome) e o processo de laicização desenvolvido, explicam a eclosão das contestações que se desenrrolaram, especialmente a Revolta da Maria da Fonte (1846).312

310 RIBEIRO, Maria Manuela Tavares. A restauração da Carta Constitucional. ..., p.110.

311 HOBSBAWM, Eric. J. A Era das Revoluções. ..., p.21.

312 BRANCO, Rui. A Vida Política. ..., p.38-39.

106 Esse movimento de caráter popular, com a participação de uma considerável parcela da população campesina, representou bem o descontentamento crescente com o governo. Os gritos de socorro dirigidos à rainha, os vivas dados à carta e à religião, demonstram a

[...] espontaneidade da reação popular contra uma política econômico- financeira que não contemplava os seus interesses mais elementares e uma política legislativa que não respeitava profundas crenças religiosas e práticas de séculos, colheria o apoio de outros estratos sociais das burguesias rural, comercial e industrial, bem como de membros da oposição, cujos objetivos políticos – fundamentalmente o derrube do ministério da Costa Cabral – controlaram e enquadraram a espontânea mobilização do povo. 313

Depois dessa revolta Costa Cabral foi deposto, teve que exilar-se na Espanha, onde articulou um novo golpe, ainda em 1846. A ideia era que o governante fosse D. João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun (1825-1880), que ficou conhecido como o Duque de Saldanha.

Apoiava-se um novo governante, contudo, a lógica governativa se mantinha a mesma. Essa manobra política foi abortada pela Guerra da Patuléia (1846-1847), um novo conflito entre os

“cabralistas” – em grande parte, defensores do “cartismo” – e os grupos de oposição ao projeto “cabralista”, isto é: os setembristas (radicais e moderados) e alguns setores mais conservadores. O conflito terminou com a interferência da França, da Inglaterra e também da Espanha, que, com interesses distintos, não viam com bons olhos o prolongamento da guerra e seus possíveis desdobramentos. 314

Como resultado do acordo de paz, que contou com as interferências espanhola e inglesa, formou-se um governo “moderado”, pretensamente apartidário e marcado pela fusão conciliatória de grupos e interesses políticos distintos. No entanto, surgia uma disputa entre Saldanha, que tentava se colocar como chefe do acordo estabelecido, e Costa Cabral, que não admitia perder o protagonismo da política nacional.315 Num primeiro momento, Saldanha acabou conseguindo a dianteira do processo, mas em 1849, a convite da rainha, Costa Cabral voltou ao poder. Seu retorno, porém, não se deu nas mesmas condições de outrora: ele não tinha mais tanto prestígio no exército e enfrentava uma crescente dissidência entre os

“cartistas” (havia alguns que apoiavam o seu governo, outros que não o aceitavam).316 Essa situação abriu caminho para que, em abril de 1851, a partir do Porto, Saldanha liderasse um golpe que afastou Costa Cabral do poder e inaugurou o período conhecido como Regeneração (1851-1890).

313 RIBEIRO, Manuela Tavares. A restauração da Carta Constitucional. ..., p.113.

314 BRANCO, Rui. A Vida Política. ..., p.41.

315 BONIFÁCIO, Maria de Fátima. Segunda ascensão e queda de Costa Cabral (1847-1851). Análise Social, v.

32, n.142, 1997, p. 540-541.

316 BONIFÁCIO, Maria de Fátima. Segunda ascensão e queda de Costa Cabral (1847-1851). ..., p.543.

107 Paralelamente a esse processo, desenvolveram-se movimentos políticos e intelectuais que se irmanavam com a agitação própria do final dos anos 1840. Foram iniciativas impactadas pela série de acontecimentos da “Primavera dos Povos”.317 Mas, igualmente, motivaram-se pelos diálogos estabelecidos com as teorias sociais em voga (como o socialismo utópico), além da situação econômica do país – que já não era nada positiva desde as primeiras décadas do século XIX –, mantendo-se complicada em função da incontornável instabilidade política. 318

Desenvolveram-se, com efeito, movimentos de exaltação à república e de defesa da fraternidade dos povos ibéricos. Formou-se a “Comissão Revolucionária de Lisboa”, e, em 1848, foi articulada a “Conspiração das Hidras”. Esse movimento se deu a partir dos encontros de alguns homens de letras, como Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877), Almeida Garret, Bulhão Pato (1828-1912) e Antônio Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865), que se reuniam em locais como o Café Marrare, em Lisboa.319 Eles discutiam um plano de intervenção e transformação da política nacional, no entanto, não conseguiram êxito, sendo alguns dos representantes presos e o movimento sufocado sem maiores dificuldades.

A despeito da parca ameaça que os movimentos de contestação representaram para a manutenção da ordem em Portugal, no final dos anos 1840, as jornadas de 1848 haviam deixado uma lição que não passou desapercebida pelas elites dirigentes lusitanas. Em grande parte do “Velho Continente”, nesse contexto, percebeu-se que não era mais possível ignorar os anseios do homem comum pelo direito à participação na vida pública. Sendo assim, urgia pensar nas bases dessa possível atuação, criando mecanismos de controle e fazendo com que os setores progressistas e as esquerdas se sentissem atraídos pela ordem social. Logo no início dos anos 1850, outro incentivo foi tendencialmente constituído: a realização de algumas benesses materiais, que justificariam a formação dos pactos políticos considerados a partir de então necessários. 320

317 “Os ecos, em Portugal, das revoluções europeias de 1848, em particular da revolução em França, vão manifestar-se na publicação de numerosos folhetos, em geral clandestinos, de caráter republicano em que o termo revolução será de uso frequente”. FERREIRA, Fátima Sá de Melo. O Conceito de Revolução no Portugal de Oitocentos. In: CARVALHO, José Murilo de; PEREIRA, Miriam Halpern; RIBEIRO, Gladys Sabina; VAZ, Maria João. Linguagens e Fronteiras do Poder. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011, p.94.

318 RIBEIRO, Manuela Tavares. A restauração da Carta Constitucional. ..., p. 117.

319 RIBEIRO, Manuela Tavares. A restauração da Carta Constitucional. ..., p. 119.

320 HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital 1848-1875. 10. Ed. Tradução de Luciano Costa Neto. Rio de Janeiro:

Paz e Terra, 2004, p.417-418.

No documento universidade federal de minas gerais (páginas 102-124)