A Piranha, era uma menina negra, a Repetente era uma menina de cabelo alaranjado que usava calça apertada, a Falada era assim chamada porque já transava, a Favelada era por onde ela morava.
Elas estudavam na mesma escola e nunca tinham conversado, tinham entre 12 e 16 anos, por algum motivo elas nunca haviam nem cruzado os olhares. Mas uma delas observava bastante, sabia que elas tinham alguma coisa em comum, mas o medo de se aproximar a impedia de se comunicar, porque afinal cada uma, já separadas, era um caos, imagina se acaso se olhassem, se vissem e conversassem.
A menina que observava, tinha 12 anos, a Piranha da escola. Fama angariada mediante votos, escritos em uma mesa no refeitório e em outra mesa na sala de aula, bem assinalado e em letras maiúsculas que seu nome agora era “Piranha”.
Ainda que, em outros momentos, fosse eleita a menina mais feia da escola toda. A menina que todas as meninas odiavam, rejeitavam, desprezavam, e que caiu no costume de ter que odiá-las de volta, ganhando dessas meninas o nome que sempre mereceu “ Piranha”. Porque ela odiava, nunca ser a namorada, e sempre ser beijada, sempre ser tocada, nunca namorada, sempre no cantinho, com qualquer um que ela apontava, mas nunca uma namorada, nunca de mãos dadas, nunca às claras. Ela em surtos aturou e Piranha se tornou. Mas um dia se calou, porque sozinha ficou, como ainda não se acostumou?
Noutro belo dia, terrível dia, de passeio escolar, a Piranha não tinha ninguém com quem lanchar. Acho até que ninguém sabia que a Piranha tinha família, e sua mãezinha fazia lanchinhos para compartilhar. Numa bolsa térmica, ela trazia, várias fatias de queijo a bolinar em pães de forma, um pacote de biscoitos e cinco copinhos de guaraná: mamãe achava que Piranha era popular.
O passeio transcorria e todo mundo se divertia, era um lugar desse tipo espetacular: uma feira, cheia de livro, que só acontece de dois em dois anos na sua cidade. Muitas escolas, muitas crianças, muitos livros, Piranha tinha uma paixão secreta pelos livros, tanta paixão que tinha uma coleção, catada no lixão. Porque quis e sem ninguém saber, ela catava livros por aí, talvez até sem os ler, mas por puro prazer de saber que dormia ao lado de um novo saber.
As crianças foram liberadas pelos professores, saíram correndo para se embrenhar afoitas por todo o espaço e passear. Piranha ficou sozinha de novo. Ela só tinha três reais no bolso, aqui até que valia um colosso, mas ela não se interessava pelo alvoroço: todos tinham seus grupos e por que ela tinha que pagar o custo, do gosto do outro?
O passeio ia acabando, Piranha não se interessava muito por comida, por isso mamãe sempre fazia, fazia muita comida, quem sabe [?] enquanto ela dividia
ela também se nutria. Opa! O tempo acabou, Piranha prendeu seu dinheiro até o findar, atiçada para se encaminhar pela hora de no ônibus entrar e para a escola voltar, Piranha comprou, com seus três reais, alguma coisa que fosse fazer com que não ficasse mais “lá fora “ das brincadeiras das outras garotas.
Sentada e cabisbaixa, percebe uma sombra que a observava, ela olha e vê: A Repetente a espreitava.
- O que tem aí de comer?
(Piranha mostrou para Repetente seu pequeno tesouro, nem sequer havia provado).
- Chega aqui Falada, pois ela tá carregada!
(Repetente, Falada e Piranha agora comem)
E entre as mordidas, elas mostram os dentes, sorrindo: - Eu não acredito que você comprou esse lixo! (Disse a Falada, sobre a revista famigerada que a Piranha comprara e não se interessara)
-Nem eu acredito que gastei meus três reais com isso, eu nem gosto disso.
Todas riram. Foram se conhecendo na caminhada. Ah! Apareceu mais uma, a Favelada, toda calada, ela nem se ouriçava, por nada. Chamaram: - Vem aqui sua Favelada!
- Por que te chamam assim?
- Porque eu moro lá, daquele lado, que não neste da escola.
- E tu, é verdade o que Falam?
(Perguntou para Falada)
- O povinho fala, fala, mas não sabem da verdade, ninguém sabe da minha vida, falam de mim e da buceta que é minha, mas minha mãe já sabia. Falam demais, porque eu tinha “camisinha”.
[Repetente] - Eu sou tipo vocês, mas o povinho nem sabe a metade, ficam dizendo as suas verdades e só fazem maldade. Não sabem porque eu tenho 16 e ainda estou na oitava série: Ano retrasado era um churrasco entre Natal e Ano Novo, lá no telhado, estava em família, enquanto brincava e sem querer o vento me atirava pela sacada, caí e quebrei minhas pernas e bacia, quase morri, acordei já era outro ano. Foi a pior época, mas também foi a melhor época, minha mãe ia na doceria direto e me trazia várias “ paradas”, fiquei um ano internada. Não dava em nada, eu
nem andava, só ficava deitada, estudar, não dava. Depois que eu voltei a andar, eu não consegui acompanhar, e não voltei a escola frequentar, mas esse ano eu quero uma coisa diferente para minha vida, vou me dedicar e ninguém acredita.
[Piranha] – Se eu te contar, você nem acredita que o professor de história dizia que você era uma bandida, que nada com a vida queria e que repetia porque inocência não tinha e funk ouvia?
[Repetente] - E tenho culpa se hoje eu tenho bacia, e ela se agita? Dançar funk é minha vida!