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explicar e fazer compreender esse tema ocorre mediante uma seleção lexical e uma construção frasal apropriadas, tendo em vista as exigências do gênero. Todos esses procedimentos, além dos elencados ao longo da análise, contribuem para reforçar o caráter de seriedade do discurso do L1/E1, bem como a forma como se constitui enquanto responsável pela orientação dada ao discurso.

Encaminhando-nos para o final da investigação do nosso corpus de estudo, apresentamos o resultado da análise da terceira e última reportagem, intitulada Maconha:

remédio proibido, na sequência.

Quadro 41 - Representação de voz não científica na R3

Coletivo social Indivíduo representativo Texto

Indeter. Determinado Indeter. Determinada

1 0

Gov. Comun.

0

Cid. Gov. Comun.

1 1 2 1 1

Fonte: Elaborado pela autora com base em Calsamiglia e Cassany (2001).

A explicitação do resultado desse levantamento de dados segue abaixo.

a) coletivo social

a.1) voz indeterminada:

o se (verbo na terceira pessoa: falava mais pronome pessoal se) a.2) voz determinada:

• de governo:

o Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)

• de comunicação social:

o SUPER

b) indivíduo representativo b.1) voz determinada:

• de cidadão:

o Norberto Fischer: pai da menina Anny o Katiele Bortoli: mãe da menina Anny

• de governo:

o Dirceu Barbano, presidente da Anvisa

• de comunicação social:

o Tarso Araújo, jornalista da SUPER

A seguir, são arroladas essas representações sociais convocadas pelo L1/E1 no quadro pré-citação. (CALSAMIGLIA; CASSANY, 2001; CALSAMIGLIA; LÓPEZ FERRERO, 2003). São representações de voz não científica, isto é, que se enunciam sem trazer conhecimento científico ao artigo principal da reportagem.

4.3.3.1.1 Representação de Coletivo Social, Indeterminada

No artigo principal da R3–Maconha: remédio proibido, identificamos uma incidência de voz representativa de um coletivo social, indeterminada: após o intertítulo Há milênios no mundo (linha 192). Ela é mostrada a seguir:

Exemplo (65)

[R3-E01] Dá a impressão de que o assunto é novo, já que tão pouco se falava sobre as terapias com maconha. (linhas 185-186, grifo nosso).

No discurso do L1/E1 no artigo principal, constatamos apenas esse emprego de voz impessoal, o que nos possibilita concluir que não se trata de uma característica marcante do gênero reportagem que comunica ciência no corpus que estudamos. Podemos levantar a hipótese de que, ao tratar de um tema da ciência, é preciso que o L1/E1 traga ao seu discurso vozes nomeadas e designadas, que possam legitimar o conhecimento a ser comunicado.

4.3.3.1.2 Representação de Coletivo Social, Determinada, de Governo

Com relação à R3, a representação de coletivo social no âmbito do governo ocorre mediante a opção do L1/E1 por uma voz determinada: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), autarquia que controla o uso de substâncias no país, com autoridade suficiente para se manifestar sobre o tema e legitimar o conteúdo do seu dizer. O exemplo [R3-E02] comprova a ocorrência:

Exemplo (66)

[R3-E02] A Anvisa afirma que o tempo médio para a análise tem sido de uma semana. (linhas 91, grifo nosso).

Trata-se, nesse cotexto, da voz de uma autarquia que tem como área de atuação todos os setores relacionados a produtos e serviços que possam afetar a saúde da população brasileira. Essa representação de um coletivo social, conhecido, é introduzida no discurso, quando o L1/E1 busca uma voz de prestígio para se manifestar, frente à pressão popular, sobre a ilegalidade do uso da maconha como medicamento. Designada por nome completo, inicialmente, no decorrer do discurso é retomada pela sigla, mais conhecida da população, ou

pelo primeiro termo do seu nome (agência), ou seja, depois de introduzida no discurso, volta a ser mencionada de maneira informal.

4.3.3.1.3 Representação de Coletivo Social, Determinada, de Comunicação Social

Do artigo principal desta terceira reportagem, trazemos um excerto que mostra outra voz evocada, determinada, de um coletivo social: a revista Superinteressante. O L1/E1 traz ao texto essa fonte como l2/e2 em razão de sua relevante atuação no debate em torno do tema e da produção de material de divulgação. Vejamos o excerto a seguir:

Exemplo (67)

[R3-E03] Em outubro, nos cinemas, a SUPER conta num filme a história de pessoas que lutam contra a ilegalidade para receberem tratamento (linhas 5-6, linha de apoio, grifo nosso).

Ao mencionar o l2/e2 por sua designação mais conhecida pelo leitor (na forma reduzida), o L1/E1 produz um efeito de familiaridade/intimidade com o veículo e com a equipe que o representa. Constatamos, também, que esse veículo de comunicação recebe um espaço significativo no discurso do L1/E1, com o relato das várias ações que promove em prol do debate pela liberação da maconha como medicamento.

4.3.3.1.4 Representação de Indivíduo, Determinada, de Cidadania

Ao inserir no seu discurso o discurso de representação de cidadãos não especialistas da ciência, o L1/E1 apresenta-os mediante prenome e sobrenome (Norberto Fischer e Katiele Bortoli), nas linhas iniciais da reportagem, quando procede à contextualização do tema que vai abordar. No decorrer do discurso, quando expõe os seus depoimentos, trata-os apenas por parte do nome: com a designação de sobrenome, o pai [R3-E04]; com o prenome, a mãe [R3-E05].

Exemplo (68)

[R3-E04] "Foi a primeira medicação que tiramos quando o CBD começou a funcionar. Ela tomou a vida toda", conta Fischer. (linhas 46-48, grifo nosso).

Exemplo (69)

[R3-E05] "Se comparada com outras crianças, ela ainda parece muito debilitada, mas, quando comparada com ela mesma, a transformação é incrível", comemora Katiele. (linhas 51-57, grifo nosso).

A forma de personalização de ambos os cidadãos é mínima, já que não são oferecidos ao leitor detalhes sobre sua identidade social ou profissional, somente o fato de serem os pais de uma menina (citada apenas pelo prenome: Anny) que necessita de tratamento para as frequentes convulsões de que é acometida.

Igualmente, observamos uma única intervenção do pai; da mãe, que é quem fala ao jornalista da SUPER, registramos 2 (duas) menções em DRD e 1 (uma) em DRI. Ela é quem relata ao jornalista o drama vivido pela família, tornando, assim, o caso público, bem como sua opção por declarar-se traficante perante a lei.

Chama-nos a atenção, em relação a essa representação de cidadãos, que o pai é nomeado com formalidade (pelo sobrenome), como aponta van Leeuwen (1996), e a mãe, com informalidade. Designá-la somente pelo prenome (o que não a distingue de outras mulheres de mesmo prenome) pode posicioná-la como um l2/e2 de menor prestígio no conjunto das vozes eleitas pelo L1/E1 ao organizar seu discurso. Do mesmo modo, acreditamos que essa forma de nomeação seja um indicativo dos usos da língua que marcam as relações de gênero: maior formalidade/distinção para homens; menor para mulheres.

4.3.3.1.5 Representação de Indivíduo, Determinada, de Governo

Na R3–Maconha: remédio proibido, o L1/E1 traz ao seu discurso o depoimento de uma representação individual de governo. A fonte inserida manifesta-se como porta-voz da Anvisa: é designada por nome próprio completo e cargo, o que, para van Leeuwen (1996), significa ser apresentado com semiformalidade. Sobre ela, não são oferecidas informações adicionais, pois Dirceu Barbano toma a palavra legitimado pela instituição de que faz parte, bem como pela posição que ocupa na sua hierarquia. Vejamos o excerto [R3-E06]:

Exemplo (70)

[R3-E06] A pressão popular foi tanta que o presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, chegou a anunciar que o composto sairia da ilegalidade, o que acabou não sendo cumprido. (linhas 37-38, grifo nosso).