OS HOMENS FORTES DAS MONTANHAS
6.1 A revolta de Laba’yu e sua similaridade com Saul
e se expande para o sul, leste e oeste. Esta afirmação, também é observada tempos depois com Saul (KAEFER, 2020, p. 45; LIVERANI, 2014. p. 119).
Siquém, considerada umas das cidades-Estado mais importantes no período de Amarna, se encontra na região denominada mais tarde como montanha de Efraim. Localizada entre os montes Gerizim e Ebal. É geograficamente estratégica, porque de um lado tem acesso ao Jordão, “ao leste, pelo Wadi al-Far’a, até a costa mediterrânea, a oeste, e, por outro, o caminho que vem do norte, até Jerusalém e Hebrom, no sul (Os 6,9)” (KAEFER, 2020, p. 70).
reinado a partir de Benjamim, mais ao sul. No denominado “reino das montanhas”, Saul expandi seus domínios para o norte “em direção à montanha de Efraim, beirando o vale de Jezreel, e para o leste, na direção de Jabes de Gilead, na Transjordânia” (FINKELSTEIN, 2006, p. 180). Quando Saul, da mesma forma que Laba’yu está prestes a alcançar o vale de Jezreel, ele e seu exército são derrotados pelas cidades-Estados da planície. Vale ressaltar que os interesses egípcios estavam mais uma vez ameaçados no século X AEC, assim como por Lab’ayu e seus rebeldes no século XIV AEC (FINKELSTEIN, 2006, p. 180).
A revolta siquemita atinge seu melhor momento quando seus adeptos conseguem dominar Samaria, o vale do Jordão e talvez parte de Gileade. Também ameaçam as cidades fieis ao Egito como Betsã (EA 244, 246, 248 e 250) e avançam em direção a Meguido e Rehov. A expansão saulida engloba parte de Gileade e do Jaboque, no leste (2Sm 2,9) e é possível que tenha alcançado as margens de Jezrael, de acordo com as tradições nortistas que relatam a batalha e morte de Saul no monte Gilboe e Betsã (FINKELSTEIN, 2006, p. 182).
A repressão egípcia liderada por Sheshonq I, também consegue, assim com Akenaton, derrotar o exército rebelde. A história dos homens fortes e “foras da lei” das montanhas (Lab’ayu e seu filho Mut-Ba’lu e Saul com seu filho Isbaal) porém, não tem um fim definitivo.
O Egito não consegue estender seu domínio sobre Canaã até o século seguinte da morte de Saul.
A verdadeira libertação da região montanhosa, foi possível algum tempo depois com os omridas (século IX AEC) e o surgimento do independente Reino do Norte. “Os omridas conseguiram sua expansão para as planícies e mantiveram durante muito tempo seu governo por lá”
(FINKELSTEIN, 2006, p. 180; KAEFER, 2020, p. 150-151).
Contudo, a partir da análise feita neste capítulo, é possível identificar Isbaal como o último rebelde antes do surgimento do estado de Israel com os omridas. No entanto, a redação deuteronomista tratou de ocultar, para poder criar um espaço cronológico onde alocar a inverossímil monarquia unida de Davi e Salomão.
CONCLUSÃO
A pesquisa realizada se propôs a apresentar, por meio da literatura bíblica, da História e da Arqueologia a construção das origens monárquicas de Israel. No entanto, não do tradicional Israel unificado, mas do Israel com origem nas terras altas, que deu início ao Reino do Norte.
Nossa análise tem por texto base 2Sm 2, 1-11 e trata da sucessão do reino de Saul, que após sua morte é transmitido para seu filho e herdeiro Isbaal “homem de baal”, principal personagem de nosso estudo aqui realizado.
O livro de Samuel demonstrou-se intrigante por conter tradições nortistas que vão de encontro com a redação deuteronomista. As tradições revelam dois povos, que apesar de possuírem muitas semelhanças, não são iguais. A tentativa de apagar as memórias do Norte fracassa na própria redação dos textos bíblicos, porque diante de tamanha força em suas tradições tornou-se impossível ocultar totalmente suas memórias. A alternativa investida pela redação judaída foi influenciar negativamente seus leitores a respeito dos governantes nortistas e de toda a região.
A pista literária que trouxe esclarecimento sobre a construção redacional, está em nosso texto base, mais especificamente em 2Sm 2,9, ao qual analisamos o território governado por Isbaal, filho de Saul após a sua morte. Um território extenso e próspero, localizado ao norte e que provavelmente trata-se de uma memória genuína dessa região.
O personagem protagonista de nossa pesquisa, apesar de sua pouca visibilidade nos textos bíblicos, demonstrou ser de vital importância para o entendimento das origens de Israel.
Observamos que sua utilização estilizada pela redação sulista é trabalhada exaustivamente na narrativa bíblica e isso foi observado de forma muito clara na mudança de seu nome (Isbaal/Isboshet), para tentar provocar indignação e desprezo por parte da população israelita tardia. Esse desprezo estende-se à construção de uma personalidade fraca e dependente de seu tio Abner para decidir por ele. Porém, a manipulação redacional não apaga sua presença durante a sucessão monárquica e deixa claro que ele reina após Saul e não Davi.
A influência sulista é observada no Texto Massorético, que por meio da pesquisa apresentada mostrou-se tardio com relação as traduções mais antigas da Septuaginta, no que diz respeito a nossa perícope. Esta influência pode ser notada não somente pela alteração no nome de Isbaal para Isboshet para criar uma imagem negativa do personagem, mas na tentativa de ocultar o politeísmo existente no período monárquico como algo comum.
Não sabemos ao certo quantos governantes saulidas existiram, ou mesmo se o governo de Isbaal foi paralelo ao de Davi. No entanto, é notória a lacuna que vai de seu governo ao de
Jeroboão. A cronologia do reino saulida, como vimos, estabelece paralelo com o período da expedição egípcia de Sheshonq I. Se a interpretação da Baixa Cronologia estiver correta, como defendemos, ela coloca os saulidas aproximadamente um século à frente. Essa diferença impacta com toda a estrutura bíblica redacional e cronológica, também reforça a inexistência do reino unificado de Israel.
Por fim, analisamos a similaridade entre Lab’ayu, líder da revolta canaanita contra o Egito (XIV AEC), que após sua morte seguiu com seu filho Mut-Ba’lu e a marcha por libertação liderada por Saul (X AEC) relatada no primeiro livro de Samuel e que foi continuada por seu filho Isbaal. As similaridades nas histórias destes personagens vão além do seu inimigo em comum, ela se estende aos territórios conquistados, o objetivo de alcançar o vale de Jezreel e suas mortes, que ocasionaram um fracasso momentâneo. O extermínio dos homens fortes das montanhas, não foi duradouro. Algum tempo depois, sob a dinastia omrida a libertação do território das mãos dos grandes impérios é alcançada assim como sua extensão.
O último homem forte da montanha, Isbaal, assim como a casa saulida, demonstraram ser essenciais para entender a construção do povo de Israel, a partir do Norte e não do Sul como defendido pela narrativa bíblica. Sua força não pode ser ocultada e nem a grandiosidade e prosperidade de seus territórios. A tentativa redacional desesperada em manchar a imagem deste governante só reforça sua importância para a história israelita.
Quando propomos embasarmos nosso trabalho, principalmente na crítica à redação deuteronomista, realizamos este intento com o apoio científico e interdisciplinar. As expectativas com os resultados apresentados são de um ainda maior aprofundamento no tradicionalmente “amaldiçoado” Reino do Norte. As pesquisas relacionadas com o período abordado, das origens monárquicas de Israel, apontam para um Israel anterior ao Israel bíblico, com suas origens no extenso e próspero território saulida, governado por Isboshet. O Israel Norte, que mais tarde se tornaria o pequeno império dos omridas. Esses governantes, antes estilizados pela redação judaíta, agora ganham visibilidade e por meio de pesquisas atuais começam a expor sua real importância para a história de um povo que fora encoberta em muitos aspectos por ideais teológicos, políticos e econômicos.
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