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A TEORIA DO DISCURSO E O DISCURSO JURÍDICO JUDICIAL 1

No documento ANIZIO PIRES GAVIÃO FILHO (páginas 34-75)

Anizio Pires Gavião Filho

1 Introdução

A teoria do discurso formulada por Habermas sustenta que os juízos de valor e de dever e, assim, as proposições normativas, podem ser justificadas racionalmente do mesmo modo que as pro- posições empíricas descritivas do estado das coisas. As proposições normativas, tanto quanto as proposições descritivas, são passíveis de verdade. Apenas a verdade das proposições descritivas corresponde à correção das proposições normativas.2 O ponto central da teoria do discurso é que as questões práticas podem ser decididas de modo ra- cional no âmbito de uma argumentação prática, desenvolvida a partir de uma ação comunicativa dirigida ao acordo ou ao entendimento

1 Este foi originalmente desenvolvido em: GAVIÃO FILHO, Anizio Pires. Colisão de direitos funda- mentais, argumentação e ponderação. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010.

2 Cf. HABERMAS, Jürgen. Wharheit und Rechtfertigung. In: HABERMAS, Jürgen. Wahrheit und Re- chtfertigung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1999, p. 285-286.

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mútuo.3 Cuida-se de uma racionalidade comunicativa, construída com base nas ações, atos de fala, interações mediadas pela linguagem e mundo da vida.4

As questões práticas, assim como as questões teóricas, po- dem ser decididas por meio da razão alcançada a partir da força do melhor argumento escrutinado em uma situação ideal de fala que pressupõe determinadas condições, conhecidas como pretensões de validez e que devem ser observadas por todo aquele falante que pre- tende estabelecer um entendimento com um ou com outros falantes.

O resultado de uma argumentação prática em que são cumpridas as pretensões de validez é a obtenção de consenso racionalmente mo- tivado ou intersubjetivamente controlável. Essas formulações encon- tram fundamentação na teoria da ação comunicativa e na teoria do discurso de Habermas, desenvolvidas a partir da chamada virada lin- guística e inseridas no âmbito da pragmática universal.5 O caminho a ser percorrido, então, requer algum detalhamento dos elementos centrais da ação comunicativa no sentido da pragmática universal, das pretensões de validez, da racionalidade comunicativa e da justifi- cação das proposições normativas. A partir disso, pode ser formulada a questão que pergunta se as exigências da teoria do discurso podem ser aplicadas ao discurso jurídico judicial desenvolvido no âmbito da prática jurídica dos participantes do contencioso judicial e dos pró- prios juízes.

3 Cf. HABERMAS, Jürgen. Theorie des kommunikativen Handelns. Band 1. Frankfurt am Main:

Suhrkamp, 1987, p. 39.

4 Cf. HABERMAS, Jürgen. Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Le- benwelte. In: HABERMAS, Jürgen. Nahcmetaphysisches Denken. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992, p. 63.

5 Cf. HABERMAS, Jürgen. Was heiβt Universalpragmatik? In: HABERMAS, Jürgen. Vorstudien und Ergänzungen zur Theorie des kommunikativen Handelns. 3. Auf. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1989, p. 353-441.

2 Os pressupostos da pragmática universal

A função central da pragmática universal, como uma teoria da competência comunicativa, é construir as condições universais de enten- dimento possível entre pessoas. O objetivo da pragmática universal é apresentar os pressupostos gerais de comunicação ou de uma ação co- municativa, alcançando as bases para a validade universal do discurso.6

O campo da pragmática universal não é analisar a língua en- quanto estrutura, mas submeter o processo da comunicação a uma análise formal. A análise lógica da língua enquanto estrutura reme- te para o exame das regras que devem ser observadas para a pro- dução de palavras e formulação correta de frases. Isso diz respeito às propriedades sintáticas e semânticas das formações linguísticas.

A pragmática propõe uma análise formal da estrutura geral da fala como processo de comunicação.7 A base da pragmática universal está na teoria dos atos de fala, que propõe um conjunto de regras universais de competência comunicativa. Se a análise reconstrutiva da linguagem se ocupa das regras que um falante deve dominar para formar expressões e construir proposições corretas, a teoria dos atos de fala se ocupa do processo de comunicação e propõe um conjunto de exigências e regras que devem ser observadas para que os falan- tes possam usar a linguagem de modo satisfatório.8 Não por outra razão, aliás, deve-se distinguir entre frases e expressões no sentido de que uma frase corretamente formulada satisfaz a exigência de compreensibilidade, e um ato de fala satisfatório do ponto de vista comunicativo requer, além da compreensibilidade linguística, que os

6 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 353.

7 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 359.

8 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 387.

participantes do discurso satisfaçam as outras pretensões de validez – verdade, sinceridade e correção. Assim, a formulação de frases cor- retas é uma questão exclusivamente linguística, e a dos atos de fala é uma questão pragmática.9

Qualquer pessoa que atue comunicativamente no sentido de se entender com outra pessoa e com ela chegar a um acordo, ao rea- lizar um ato de fala, deve colocar quatro pretensões de validez, ainda que implicitamente. Um jogo de linguagem entre falantes e ouvintes somente é possível se houver o reconhecimento recíproco destas qua- tro pretensões de validez: a) inteligibilidade; b) verdade proposional;

c) veracidade; d) correção normativa.

Todo e qualquer falante deve colocar a pretensão de se expres- sar de forma inteligível, construindo a expressão linguística ou a pro- posição conforme as regras gramaticais da linguagem, estando assim satisfeita a pretensão de inteligibilidade. Isso significa que o falante deve escolher uma forma inteligível de expressão a fim de que ele pos- sa se entender mutuamente com o ouvinte. Todo e qualquer falante deve ter a pretensão de comunicar uma proposição verdadeira, ou seja, apresentar ao ouvinte um conteúdo proposicional de algo existente de tal modo que o ouvinte possa compartilhar esse conhecimento do falante. Todo e qualquer falante deve expressar suas intenções de uma forma verdadeira de tal modo que o ouvinte possa confiar no discurso.

Todo e qualquer falante deve colocar um discurso correto no que diz com as normas e valores existentes de tal forma que o ouvinte possa aceitá-lo e, assim, possam entrar em um acordo mútuo a partir de uma base normativa comum.10 Segundo Habermas, o objetivo do entendi- mento é chegar a um acordo que encontra justificativa na compreen-

9 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 393.

10 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 354-355.

são intersubjetiva, no conhecimento partilhado, na confiança mútua e no acordo entre os ouvintes. Esse acordo, portanto, está fundado na compreensibilidade, verdade, sinceridade e correção.11

Uma ação comunicativa somente pode ser reconhecida se essas quatro pretensões de validez forem reciprocamente realizadas pelos falantes, ou seja, elas devem ser mutuamente reconhecidas pe- los participantes do discurso. Isso significa que o falante e o ouvinte devem presumir essas pretensões de validez da ação comunicativa.

Assim, podem ser colocados três aspectos: a) se o objetivo é realizar uma ação comunicativa destinada ao entendimento, o falan- te e o ouvinte devem pressupor as pretensões de validez; b) o falante e o ouvinte devem pressupor que ambos satisfazem as pretensões de validez; c) o falante e o ouvinte devem pressupor que as pretensões de validez já se encontram satisfeitas, no caso da compreensibilidade das expressões, ou possam ser satisfeitas, no caso de que as frases, as propostas, as intenções, as expressões e as palavras proferidas sa- tisfaçam as condições de adequação correspondentes.12

Aqueles que podem intervir na práxis argumentativa são capa- zes de dar e receber razões e, na medida em que são as razões que contam, coloca-se a importância do melhor argumento. Ser racional é estar no espaço do dar e receber razões, e ser um agente racional é estar no espaço do dar e receber razões pelas quais alguém faz al- guma coisa. O que é uma boa razão depende de regras lógicas e con- ceitual-semânticas intersubjetivamente compartilhadas, deduzíveis da práxis argumentativa de uma comunidade linguística.13

11 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 355.

12 Cf. HABERMAS, Was heiβt Universalpragmatik?..., p. 356.

13 Cf. BRANDOM, Robert. Making it Explicit. Cambridge: Harvard University Press, 1994, p. 252-253.

3 Ação comunicativa e ação estratégica

Um dos passos centrais para a compreensão da ação comuni- cativa é a distinção entre duas formas de comunicação: ação (agir) e discurso (falar). Por um lado, as ações podem ser descritas como ati- vidades propositivas por meio das quais o agente intervém no mun- do com o objetivo de realizar seus objetivos, valendo-se dos meios apropriados. Por outro lado, as ações podem ser entendidas como expressões linguísticas pelas quais o falante pretende se entender com outra pessoa a respeito de algo no mundo. Essas descrições linguísticas podem ser formuladas na primeira pessoa, bem como ser confrontadas com as descrições que são feitas na perspectiva de uma terceira pessoa, que observa a forma como um agente, por meio de uma atividade proposital, alcança um objetivo, ou como, por meio de um ato de fala, entende-se com outra pessoa sobre alguma coisa.14

As ações são atos de fala no quais as pretensões de validez colocadas são reconhecidas tacitamente, não havendo dúvida quan- to à verdade de uma proposição afirmada ou quanto ao estado de coisas expressado pelo falante. Diferentemente, os discursos colo- cam pretensões de validez problematizadas que exigem justificação.

Quando se coloca uma dúvida sobre a verdade de uma proposição afirmada pelo falante, passa-se da ação para o discurso. Os discur- sos, portanto, são atos linguísticos que se desenvolvem com a inter- venção de vários participantes portando opiniões contrapostas umas às outras, que atuam cooperativamente no sentido de eliminar as dúvidas apresentadas por intermédio da apresentação de razões e

14 Cf. HABERMAS, Jürgen. Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Le- benwelte. In: HABERMAS, Jürgen. Nahcmetaphysisches Denken. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992, p. 63-64.

dos melhores argumentos, seguindo determinadas regras. Assim, os discursos servem para solucionar os casos de pretensões de validez problematizadas de normas e de opiniões. Consideradas as preten- sões de validez, somente a pretensão de verdade proposicional e a pretensão de correção é que podem ser sustentadas discursivamente.

Por outro lado, a pretensão de veracidade problematizada somente pode ser sustentada pelo comportamento posterior do falante. Daí, então, que a veracidade das expressões linguísticas não pode ser fun- damentada, mas tão somente demonstrada. A falta de veracidade pode ser rastreada na falta de consistência entre a manifestação e as ações vinculadas internamente a elas.15

A compreensão de ação e de discurso é importante para a análise das interações sociais mediadas pela linguagem. Esses dois tipos de ações estão entrelaçados na linguagem, mas ocorrem em âmbitos diferentes conforme as forças ilocucionárias dos atos de fala, que podem ter uma função coordenadora da ação ou estarem de tal forma subordinados à dinâmica não linguística de exercício de influ- ência mútua com uma determinada finalidade.16 Esses dois tipos de interação são diferentes um do outro se considerados os respectivos mecanismos de coordenação da ação, pois a linguagem pode ser usa- da como meio de transmissão de informação ou como fonte para in- teração social. Na ação estratégica, o efeito de coordenação da ação depende da influência exercida pelo falante sobre a situação da ação e também sobre o ouvinte. Na ação comunicativa, a força consensual dos atos de fala para a obtenção do entendimento é eficaz para a coordenação de ações. O falante não pode realizar atos de fala com a intenção de entrar em entendimento com o ouvinte e, ao mesmo

15 Cf. HABERMAS, Theorie des kommunikativen Handelns..., p. 69.

16 Cf. HABERMAS, Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Lebenwelte..., p. 68.

tempo, realizar atos de fala com o objetivo produzir uma influência causal sobre aquele. O entendimento não pode ser forçado por um lado em relação ao outro, quer pela intervenção direta na situação da ação, quer pelo exercício indireto de influência.17

O que resulta manifestamente de ameaça ou de logro não pode ser considerado um acordo intersubjetivamente controlável, pois tal intervenção viola as condições sob as quais a força ilocucio- nária dos atos de fala pode produzir consensos. A ação comunicativa depende da utilização da linguagem sob a satisfação de certas con- dições mais rigorosas. Os participantes da ação comunicativa devem adequar seus planos cooperativamente dentro de um mundo da vida compartilhado e com base em interpretações comuns da situação da vida. O fim dos falantes e dos ouvintes deve ser o integral cumprimen- to dos objetivos ilocucionários.18 Com isso, os atos de fala adquirem uma força vinculativa na medida em que o falante, ao apresentar uma pretensão de validez, assume uma garantia confiável de justifi- car a pretensão com razões, caso necessário. Nisso, então, distingue- se a ação comunicativa da ação estratégica. O sucesso de uma ação não se funda na racionalidade destinada a um fim estabelecido pelos planos de ações específicas em favor dos respectivos participantes, mas, sim, no poder racionalmente motivante do cumprimento dos feitos de se obter entendimento.19

Duas situações podem clarear a distinção entre ação comu- nicativa e ação estratégica. Quando o falante A diz ao ouvinte B

17 Cf. HABERMAS, Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Lebenwelte..., p. 69.

18 Cf. HABERMAS, Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Lebenwelte..., p. 70.

19 Cf. HABERMAS, Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Lebenwelte..., p. 70.

“entregue R$ 100,00 para C”, conforme as exigências de uma ação comunicativa, B deve reconhecer o contexto normativo que confere a A o poder para colocar essa determinação, justificando-se assim a expectativa do interlocutor de que tem razões para agir conforme o que lhe foi estabelecido. Isso, contudo, não é suficiente. Segundo Habermas, o conhecimento das condições para o sucesso, ou seja, para B entregar o dinheiro a C, não é suficiente para se entender o significado do ato ilocucionário do ato de fala enquanto ato imperati- vo. Esse conhecimento deve ser complementado pelo conhecimento da existência de condições sob as quais o falante pode ter razões para justificar normativamente o que ele diz. Essas condições são satisfeitas se o falante está se dirigindo a um amigo generoso, a um credor ou a um comparsa de crime. Evidentemente, o ouvinte pode rejeitar a pretensão de validez colocando que o falante não tem razão para determinar que entregue dinheiro a outrem. Diferentemente, no contexto de uma ação estratégica, as pretensões de validez da verdade proposicional, da correção normativa e da sinceridade subje- tiva não estão colocadas plenamente. Quando um assaltante, usan- do uma arma, exige que se lhe entregue dinheiro, as condições de validez normativa são substituídas pela ameaça. Nesse caso, o lugar do substrato normativo é ocupado pela estrutura “se..., então” da ameaça, substituindo-se as pretensões de validez normativa na ação comunicativa pela pretensão de poder. Na ação estratégica, os atos de fala não exercem as funções coordenadoras de ações, pois estas são desempenhadas por formas exteriores à linguagem.20

Considerado o ponto de vista dos participantes, um acordo não pode ser imposto de fora de um participante em relação ao ou-

20 Cf. HABERMAS, Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen und Lebenwelte..., p. 73-74.

tro, seja pela via instrumental, recorrendo-se a uma intervenção dire- ta na situação da ação, seja pela via estratégica, por meio de uma intervenção indireta sobre atitudes proposicionais do outro partici- pante. Qualquer coisa que seja resultado manifesto de influência ex- terna não pode ser considerada como um acordo intersubjetivamente alcançado.21

Uma ação comunicativa como tal exige a satisfação de exigên- cias cooperativas e comunicativas. Os participantes devem atuar em cooperação e harmonização quanto a seus planos de ação no contex- to de um mundo compartilhado a partir de bases de interpretações comuns das situações da vida. Além disso, os participantes devem es- tar empenhados em processos de entendimento sinceros quanto ao cumprimento de seus objetivos ilocucionários. Isso significa, especifi- camente, que os participantes devem cumprir seus objetivos ilocucio- nários numa atitude performativa, o que exige pretensões de validez reciprocamente colocadas entre os participantes. Assim, eles utilizam efeitos vinculativos dos atos de fala na medida em que o falante, com sua pretensão de validez, assume uma garantia confiável daquilo que diz que é válido.22

Na ação comunicativa, a origem da coordenação da ação está na força racionalmente motivadora de se obter entendimento. Os processos linguísticos funcionam com mecanismos de coordenação de ações pelo fato de os participantes da interação acordarem quan- to à validez reclamada pelos seus atos de fala. Também na ação co- municativa se encontra um telos, mas é uma finalidade de se alcançar o entendimento próprio às estruturas da linguagem. Nesse proces-

21 Cf. HABERMAS, Jürgen. Zur Kritik der Bedeutungstheorie. In: HABERMAS, Jürgen. Nahcmetaphy- sisches Denken. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992., p. 129.

22 Cf. HABERMAS, Zur Kritik der Bedeutungstheorie..., p. 130.

so, passa-se de uma atitude objetivante do agente, orientada para o sucesso, que busca alcançar algo no mundo e, assim, orientada às consequências – ação estratégica – para uma atitude performativa do falante de se entender com outra pessoa sobre algo no mundo – ação comunicativa.23

Portanto, conclusivamente, pode-se formular que todo o uso da linguagem é comunicativo e nem toda a comunicação se destina ao entendimento com base nas pretensões de validade intersubjetiva- mente compartilhadas. As frases proposicionais e intencionais utiliza- das mentalmente não configuram um modo comunicativo. No âmbito das interações sociais, as ações comunicativas fracas são orientadas para o entendimento enquanto as ações comunicativas fortes – lugar dos atos de fala completamente ilocucionários (expressivos, constata- tivos e normativos) – são orientadas para o acordo. Por seu lado, no âmbito das ações estratégicas, as perlocuções são orientadas para as consequências ou entendimento mútuo indireto.24

4 A racionalidade comunicativa

Com essas formulações estão assentadas as bases para a ra- cionalidade comunicativa, que completa o espaço do racional junta- mente com a racionalidade epistêmica e a racionalidade teleológica.

Segundo Habermas, o que é racional se refere a crenças, ações e expressões linguísticas, pois, na estrutura proposicional do conheci- mento, na estrutura teleológica da ação e na estrutura comunicativa do discurso estão as distintas raízes da racionalidade. Ainda que elas não tenham raízes comuns, a racionalidade comunicativa tem um

23 Cf. HABERMAS, Zur Kritik der Bedeutungstheorie..., p. 130-131.

24 Cf. HABERMAS, Rationalität der Verständigung..., p. 129-130.

papel integrativo no sentido de promover uma junção das raízes pro- posicional, teleológica e comunicativa.25

Uma condição para a racionalidade é a capacidade de impu- tabilidade. A racionalidade de qualquer pessoa depende de sua capa- cidade de se expressar racionalmente e, além disso, de sua capacida- de de justificar suas expressões em uma perspectiva reflexiva. Uma pessoa somente pode se expressar racionalmente se, performativa- mente, pode colocar as pretensões de validez. Dizer que uma pessoa se comporta racionalmente e é racional pressupõe sua capacidade para se orientar conforme as pretensões de validez. A imputabilidade, portanto, pressupõe uma autorrelação refletida por parte da pessoa sobre o que diz, acredita e faz.26

O conhecimento é intrinsecamente linguístico em razão de sua estrutura proposicional, pois o conhecimento proposicional de- pende da utilização de frases proposicionais. Os fatos somente po- dem ser conhecidos se, ao mesmo tempo, as razões pelas quais os ju- ízos correspondentes são verdadeiros podem ser acessadas. Por isso, então, “saber o que” e “saber por que” exige, sempre, justificações. É inerente ao saber pressupor que tudo aquilo que se sabe deve ser jus- tificado. Por isso mesmo, quem assume um saber deve estar disposto a apresentar uma justificação discursiva das pretensões de verdade correspondentes.27 A racionalidade está vinculada a isso, e aquele que apresenta uma crença deve estar pronto para dar razões aceitáveis no contexto da justificação. Uma crença é racional se verdadeira a partir das razões dadas no contexto de uma justificação aceita ra- cionalmente. Isso, contudo, não implica verdade, mas aceitabilidade

25 Cf. HABERMAS, Jürgen. Rationalität der Verständigung. In: HABERMAS, Jürgen. Wahrheit und Rechtfertigung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1999, p. 104.

26 Cf. HABERMAS, Rationalität der Verständigung..., p. 105.

27 Cf. HABERMAS, Rationalität der Verständigung..., p. 107.

justificada em um determinado contexto.28 Assim, então, deve ser compreendida a racionalidade epistemológica.

A racionalidade teleológica de uma ação está diretamente vinculada ao fato de o agente ter obtido ou não o resultado dese- jado no mundo com base nos meios livremente escolhidos e rea- lizados. Uma ação pode ser compreendida como a concretização de uma intenção de uma pessoa que escolhe e decide livremente.

Assim, um agente bem-sucedido age racionalmente quando sabe os motivos de seu sucesso e se esse conhecimento é capaz de motivá- -lo de tal forma a executar a ação por razões que, ao mesmo tempo, possam explicar seu possível sucesso.29 Se A, que está em Veneza, pretende chegar a Roma o mais rápido possível, é racional a ação de preferir um avião a um carro como meio de transporte. Portanto, para a racionalidade da ação, é essencial que o agente a sustente em um plano que implica a verdade de p, ou seja, no sentido de po- der alcançar o fim desejado conforme as circunstâncias dadas. Uma ação teleológica somente pode ser racional se o agente cumpre as condições que são necessárias para a satisfação de seu desejo de intervir no mundo.30 A racionalidade da escolha exige um cálculo do sucesso da ação, o que, em determinadas situações, depende de estruturas centrais do conhecimento e do discurso. A definição do curso de ação racional, em alguns casos, estará na dependência da obtenção de informações confiáveis a respeito do estado das coisas do mundo objetivo ou sobre o comportamento e intenções das outras pessoas – aí, então, a interação entre os diversos tipos de raízes de racionalidade.

28 Cf. HABERMAS, Rationalität der Verständigung..., p. 108.

29 Cf. HABERMAS, Rationalität der Verständigung..., p. 109.

30 Cf. HABERMAS, Theorie des kommunikativen Handelns..., p. 29.

No documento ANIZIO PIRES GAVIÃO FILHO (páginas 34-75)

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