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Cabe-nos agora analisar o primeiro componente. É na esteira de Aristóteles que o termo vida boa encontra sua base. Destarte, Ricoeur recorda o que é o bem para o Estagirita e trata de diferenciá-lo do conceito platônico. “É o momento de se lembrar da distinção que Aristóteles faz entre o bem tal como visado pelo homem e o Bem platônico” (Ibid., p. 187).

Faz-se mister ressaltar, aqui, o fato de que Aristóteles concebe o bem como aquilo a que todos aspiram e pode ser alcançado pelo homem, mas esse bem somente é realizável no interior da polis, ou seja, em comunhão com os demais membros da comunidade. Isso se faz digno de atenção, porque já direciona a preocupação que Ricoeur traz em sua reflexão sobre o outro, conforme fica patente na máxima supracitada. Dito de outra forma, a vida boa não pode prescindir da relação com o outro.

Ricoeur traz à baila uma questão posta por Aristóteles sobre o fim último da práxis e que fora elaborada pelo Estagirita em sua ética nicomaquéia.

Nesse aspecto, não é indubitável que Aristóteles tenha resolvido o paradoxo aparente, segundo o qual a práxis, pelo menos a boa práxis, seria em si mesma seu próprio fim, ao mesmo tempo que visasse um fim ulterior (RICOEUR, 2014, p. 188).

A discrepância refere-se, segundo o autor, no tocante à deliberação dos fins.

Ele toma como base passagens como “não deliberamos acerca de fins, mas a respeito de meios” (ARISTOTELES, III, 3, 1112b 15). Ora, isso evidencia que para o Estagirita escolhemos apenas os meios para alcançar determinado fim, e não o fim em si. Por conseguinte, Ricoeur vê nessa passagem que tudo que depende de nós é posto por Aristóteles como meio:

Um médico, por exemplo, não delibera se há de curar ou não, nem um orador se há de persuadir, nem um estadista se há de implantar a ordem pública, nem qualquer outro delibera a respeito de sua finalidade. Dão a finalidade por estabelecida e consideram a maneira e os meios de alcançá-la; e, se parece poder ser alcançada por vários meios, procuram o mais fácil e o mais eficaz;

e se por um só, examinam como será alcançada por ele, e por que outro meio alcançar esse primeiro, até chegar ao primeiro princípio, que na ordem de descobrimento é o último (Ibid., III, 1112b 15).

Diante disso, nosso autor faz a seguinte afirmação:

Sem dúvida, compreende-se a predileção de Aristóteles por esse modelo: se a deliberação deve referir-se às coisas que dependem de nós, os meios de nossos fins são exatamente o que mais em nosso poder; a visada dos fins deve então ser remetida para o campo do desejo (boúlesis), que em geral se refere a coisas fora de nosso poder (RICOEUR, 2014, p. 189).

Ao mesmo tempo em que é possível entender essa posição, ela deixa uma perplexidade:

O argumento, porém, deixa perplexo: Aristóteles teria ignorado que um homem pode estar colocado na situação de escolher entre tornar-se médico em vez de orador ou político? A escolha entre vários cursos de ação acaso não é uma escolha sobre os fins, ou seja, sobre sua conformidade, mais ou menos estreita ou distante, com um ideal de vida, com aquilo que cada um considera sua visada da felicidade, sua concepção da “vida boa”? Essa perplexidade, que adiante alimentará nossa reflexão, obriga a admitir que o modelo meio-fim não abrange todo campo da ação, mas apenas a tékhne, desde que ela se subtraia a uma reflexão fundamental que, precisamente, será feita pela phrónesis do livro VI. Pior: o modelo meio-fim parece de fato levar a um falso caminho, uma vez que convida a construir todas as relações entre fins subordinados e fim último com base numa relação que continua sendo fundamentalmente instrumental (RICOEUR, 2014, p. 189).

No intento de resolver tais perplexidades nosso autor recorre ao pensamento contemporâneo. O primeiro passo é compreender como ocorre a qualificação da práxis como sendo boa:

A qualificação propriamente ética desses preceitos é garantida por aquilo que MacIntyre chama de “padrões de excelência” (standards of excellence), possibilitam qualificar de bons um médico, um arquiteto, um pintor, um enxadrista. Esses padrões de excelência são regras de comparação aplicadas a resultados diferentes, em função de ideais de perfeição comuns a certa coletividade de executantes, interiorizados pelos mestres e pelos virtuosos da prática considerada (RICOEUR, 2014, p. 192).

Esses padrões são vistos por Ricoeur (Ibid., p. 216, nota 37) como fruto de uma coletividade, pois “comportam já de saída uma dimensão ‘corporativa’”, o que segundo ele, repele qualquer tipo de visão solipsista. Importa saber neste momento, qual o tipo de relação há entre os padrões de excelência e a visada ética do bem viver.

Basicamente existem duas formas em que é possível notar essa relação. A primeira se justifica porque “os padrões de excelência possibilitam dar sentido à ideia de bens imanentes à pratica” (Ibid., p. 193) . A segunda forma diz respeito ao conteúdo da norma, ou seja, “uma reserva” em vista de uma retomada da concepção normativa da moral. Ricoeur então fala de uma integração das ações, que ele denomina de plano de vida, entendido no sentido ético cultural, ou seja, o ser humano em seu conjunto. Plano de vida seria o conjunto envolvendo o trabalho escolhido e as práticas que qualificam como sendo boas para determinada ação. A isso temos que, “é esse elo entre o ergon do homem – o que chamamos de “plano de vida” – e os padrões de excelência especificados por cada pratica” (Ibid., p. 194). Com isso ele almeja responder a dificuldade sobre o fim último da ação levantado em Aristóteles. “É na relação entre prática e plano de vida que reside o segredo da imbricação das finalidades; uma vez escolhida, uma vocação confere aos gestos que a põem em ação esse caráter de ‘fim em si mesmo’” (Ibid., p. 194).

Ao final desse breve itinerário, não podemos abandoná-lo sem deixar esclarecido o que para Ricoeur, vem a ser a vida boa. Ele afirma que não temos propriamente uma conclusão, e sim um horizonte, porém ele deixa esclarecido o que seria o conteúdo e o estatuto dessa vida boa:

Com referência ao conteúdo, a “vida boa” é, para cada um, a nebulosa de ideais e sonhos de realização em relação à qual uma vida é considerada mais

ou menos realizada ou não realizada. É o plano do tempo perdido e do tempo reencontrado. Nesse sentido é “aquilo em vista de que” tendem essas ações que, no entanto, dissemos terem seu fim em si mesmas. Mas essa finalidade na finalidade não arruína a autossuficiência das práticas, quando seu fim já estiver posto e enquanto continuar posto; essa abertura, que fratura práticas que pareceriam fechadas em si mesmas, quando somos dominados pela dúvida quanto a orientação de nossa vida, mantem uma tensão, na maioria das vezes discreta e tácita, entre o fechado e o aberto na estrutura global da práxis. […] Numa linguagem mais moderna, diríamos que é num trabalho incessante de interpretação da ação e de si mesmo que prossegue a procura de adequação entre o que nos parece o melhor para o conjunto de nossa vida e as escolhas preferenciais que governam nossas práticas (RICOEUR, 2014, p.

196).

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