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realiza o ideal do Reino por ele mesmo proclamado. Ao pregá-lo ela afirma a possibilidade efetiva do Reino acontecer entre nós. A vida cristã é viver para os outros no serviço e não na apropriação; é acumular dons para Deus e não riquezas para os homens.

Mas a humanidade é bastante temerária para viver a vida que seja de total entrega e aniquilamento, como a de Cristo. Em muitos cantos e recantos tanto homens quanto mulheres buscam segurança em suas vidas. parte do espírito humano. O problema é não saber conduzir essa inclinação, finaliza González Faz.4

Os evangelistas recordam as advertências de Jesus acerca das falsas seguranças que a humanidade é suscetível a criar para si. Eles lembram que este pode ser o pecado de raiz, pois origina, alimenta e garante a sustentabilidade de todos os outros. A este pecado Jesus chamou de hipocrisia.5 Evite-se entendê-la como desvio de personalidade ou simples fingimento de ser aquilo que não se é. Não é idiossincrasia qualquer. Ela é ato fundante de comportamentos vivenciais de autoengano e leva a acreditar que tais imposturas são condutas autênticas. A hipocrisia conduz à atitude pecaminosa de repelir a realização última do ser humano como entrega desmedida de si a fim de encobrir a insatisfação incomensurável do ego. Livrar-se da mentira é deixar para trás toda situação de pecado,6 porque apenas a verdade pode afiançar a liberdade.

A atividade pastoral de Jesus entre os seus se baseava em apontar os atos espúrios encobridores da realidade. E na sociedade que usava o santo nome de Deus para fundar situações de injustiça e exclusão sociocultural e religiosa, percebeu por onde deveria começar a sua reforma. Posto ao lado de pobres e marginalizados denunciou a hipocrisia daqueles que se diziam defensores dos direitos de Deus. Sem hesitação lançou verrinas aos poderes pontificais (religiosos) de sua época sempre a serviço do Templo e de seus sequazes, mas entrincheirados contra os homens e mulheres. Jesus não precisou ser assassinado na cruz para rasgar o véu da separação entre a humanidade e Deus. Sua encarnação, e, ainda mais, ao ensinar a maneira paternal de Deus aos discípulos, pôs fim à divisão entre sagrado (Deus) e profano (homem). Nota-se que isso não lhe valeu a acusação de impiedoso. De fato, os opositores de Jesus não questionam sua religiosidade.7

4 GONZÁLEZ FAUS, 2010, p. 217.

5 Idem, p. 222.

6 Idem, p.223.

7 Idem, p. 224. González Faus está comentando uma passagem do teólogo uruguaio J. L. Segundo.

Jesus abriu a todos a possibilidade de serem filhos e filhas de Deus. no batismo se tem a porta de entrada para a autêntica vida cristã. O Espírito possibilita o pleno acesso e direto ao Pai. Somos filhos no Filho. A filiação humana é diferente da filiação de Jesus, segundo pensa o Corpus Joaninum por meio de seu vocabulário peculiar. Aí o Cristo é tratado como Filho (hyiós) enquanto dos homens se diz serem filhinho ou criança (tekna).8 Para González Faus, a humanidade deu um passo à frente, ou seja, da consciência criatural se foi à revelação filial em Cristo. O homem não se pensa uma criatura entre outras, mas vê a sua responsabilidade perante si. A graça filial não o torna joguete nas mãos de Deus.

A vida na graça não fomenta paternalismos ou dependências. Ao revés, ela entrega ao ser humano a tarefa de edificar a sua própria existência, ou seja, devolve-lhe a si mesmo.9

Deve-se evitar, conforme o jesuíta, entender a tarefa humana de responsabilidade sobre si como exercício solitário. A verdadeira liberdade deve criar solidariedade fraterna de comunhão de vida com os outros. Não existe liberdade (ato pessoal) sem libertação (ação comunitária, para não dizer social). E a vida cristã não é dependência, mas alegria em poder louvar e agradecer aquilo que se recebeu por pura e generosa gratuidade. É compartilhar a felicidade sem cobranças de outrem.10 Dizer que a humanidade deve criar laços de solidária vivência fraterna não é fazer florilégios às arramas que aprisionam os anseios de uma vida livre, mas negar a solidão do homem gerado à moda iluminista, ou seja, autossuficiente e egoísta. A filiação divina não destrói a nota criatural do homem.

Ao revés, ao se ressaltar o ato criador de Deus (feitos) visa indicar a atividade livre do homem (fazer-se). Aquilo com que a humanidade é presenteada, o que lhe vem de fora, faz como que ela seja autora de si mesma.11

E infere que a nota relacional do homem e da mulher é ser feito e se fazer. Que Deus só pode ser aquele Outro quando é mais em mim mesmo do que sou eu. A reflexão leva a concluir, consequentemente, a abolição da autonomia da criatura e da heteronomia divina. A humanidade é levada àquilo que aquele teólogo chamou de “teonomia”. É uma maneira extremamente nova de se religar a Deus.12 Deus deve ser situado pelo ser humano

8 TABORDA, Francisco. Nas fontes cristãs: uma teologia do batismo-crisma. São Paulo: Loyola, 2012, p. 126-127.

9GONZÁLEZ FAUS, José Ignácio. Proyecto de hermano: visión creyente del hombre. Santander:

Sal Terrae, 1987, p. 66-67. O autor tenta responder à crítica de Karl Marx resumida na seguinte frase: ‘um homem que vive por graça de outro se considera a si mesmo dependente’.

10 Idem, 1987, p. 67.

11 Idem, p. 68.

12 Idem, 1987, p. 69.

no mais íntimo de si, ou seja, naquilo que a Escritura chama de coração. Conhecer a Deus se torna demasiadamente mais importante que crer n’Ele. Pois somente o conhecer a Deus provoca a experiência do amor ao homem, onde Deus acontece.13 Portanto, nada é mais humano do que agradecer pelo dom recebido e não há atitude mais nobre porque livre louvar na vida a Quem nos presenteia sem que se peça.14 É-se conduzido a reconhecer que a existência não se resume ao mundo, embora nele se deva se situar.