A Zona Costeira Brasileira constitui um espaço extremamente diversificado devido à variedade de suas características ambientais e às atividades socioeconômicas ali desenvolvidas. Caracterizada como uma zona de usos múltiplos, ao longo do tempo, agregou atividades econômicas muito diversificadas, o que originou graves conflitos de uso do solo, agravado pela intensa ocupação humana. A diversidade dos ambientes naturais e dos tipos de uso do espaço costeiro constituem uma complexidade que exigem ações efetivas de planejamento e regulação dessa ocupação (ASMUS; KITZMANN;
LAYDNER, 2004).
Os limites legais da zona costeira brasileira foram estabelecidos no Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro - PNCG II (BRASIL, 1990), para fins de gestão governamental, e compreendem uma faixa terrestre e uma marítima. A faixa terrestre abrange municípios selecionados de acordo com os critérios estabelecidos no PNGC II, totalizando cerca de 280 municípios defrontantes com o mar, distribuídos ao longo de 7.367 km de costa (que alcança 8.698 km de extensão ao se considerar as reentrâncias), numa área de aproximadamente 388 mil km². A faixa marítima vai até as 12 milhas
marítimas, compreendendo a totalidade do mar territorial brasileiro (ASMUS;
KITZMANN; LAYDNER, 2004).
A zona costeira brasileira é uma região de contrastes, pois são encontradas nessa região áreas onde coincidem intensa urbanização, atividades portuária e industrial relevantes e exploração turística em larga escala, metrópoles e centros regionais litorâneos. Porém, esses espaços são permeados por áreas de baixa densidade de ocupação e ocorrência de ecossistemas de grande significado ambiental, mas que vêm sendo objeto de acelerado processo de ocupação como o turismo e a segunda residência. Nas duas situações, o elemento comum é a diversidade dos problemas, a fragilidade dos ambientes e a complexidade de sua gestão, com uma demanda enorme por capacitação e mobilização dos diversos atores envolvidos, pressupondo intervenções integradas das políticas públicas nacionais incidentes nessa região (ASMUS; KITZMANN; LAYDNER, 2004).
A Zona Costeira Brasileira concentra 23,9% da população do país, ou seja, 40,6 milhões de pessoas segundo o Censo Demográfico de 2000, concentradas em 7% dos municípios brasileiros (são 280 municípios defrontantes do mar segundo a Portaria nº 461 de 13 de dezembro de 2018). A densidade média é de 105 hab./Km2, número cinco vezes superior à média nacional (20 hab./Km2) (ASMUS; KITZMANN; LAYDNER, 2004).
Segundo o Decreto nº 5.300 de 07 de dezembro de 2004, que regulamenta a Lei nº 7.661 de 16 de maio de 1988, o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro determina que a Zona Costeira Brasileira corresponde ao espaço geográfico de interação do ar, do mar e da terra, incluindo os seus recursos renováveis ou não, abrangendo uma faixa marítima e uma faixa terrestre, e possui os seguintes limites:
a) faixa marítima: espaço que se estende por doze milhas náuticas, medido a partir das linhas de base, compreendendo, dessa forma, a totalidade do mar territorial;
b) faixa terrestre: espaço compreendido pelos limites dos Municípios que sofrem influência direta dos fenômenos ocorrentes na zona costeira.
As cidades abrangidas pela faixa terrestre da zona costeira serão:
a) defrontantes com o mar;
b) não defrontantes com o mar, localizados nas regiões metropolitanas litorâneas;
c) não defrontantes com o mar, contíguos às capitais e às grandes cidades litorâneas, que apresentam conurbação;
d) não defrontantes com o mar, distantes até cinquenta quilômetros da linha de costa que contemplem em seu território atividades ou infraestruturas de grande impacto ambiental na zona costeira ou ecossistemas costeiros de alta relevância;
e) estuarino-lagunares, mesmo que não diretamente defrontantes com o mar;
f) não defrontantes com o mar, mas que tenham todos os seus limites com Municípios referidos nos incisos I a V.
Em termos de latitudes, a costa brasileira cobre dos 4º30’ Norte até os 33º44’ Sul, estando localizado nas zonas intertropical e subtropical, o que determina a presença de ambientes muito diferenciados e de alta relevância ecológica. A costa brasileira apresenta uma grande variedade de ecossistemas e habitats, quais sejam: recifes costeiros, mangues, lagoas costeiras e restingas, ilhas de barreiras, marismas e pântanos, zonas de marés, praias, dunas, ilhas e bancos submersos, mar aberto e profundo e ressurgências (VITTE, 2003).
Na zona costeira estão localizadas as maiores manchas residuais da Mata Atlântica, bioma que originalmente se estendia do litoral nordestino ao Rio grande do Sul.
A sua área original (mais de 1 milhão de Km2), foi quase totalmente derrubada para ocupação agrícola, pastoril e urbana, restando entre 5 e 10%, localizados principalmente nas encostas de relevo mais íngremes da Serra do Mar nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Um dos ecossistemas de expressiva ocorrência na zona costeira são os manguezais, que cobrem uma área de cerca de 14.000 km2, margeando estuários, lagunas e enseadas. Quando se considera as formações associadas (marismas), essa estimativa passa a 25.000 km2 (OLIVEIRA, 2014, ASMUS; KITZMANN; LAYDNER, 2004, VITTE, 2003).
As formações vegetais costeiras como mangues, restingas e marismas cumprem funções essenciais na reprodução biótica marinha e no equilíbrio das interações da terra com o mar. Assim como a Mata Atlântica, essas também foram muito alteradas ao longo do processo de ocupação do solo brasileiro, apesar de abrigarem espécies endêmicas, serem importantes para a fixação do solo costeiro e fornecerem abrigo e alimento para muitas espécies estuarinas e costeiras. Os espaços litorâneos possuem uma riqueza significativa em termos de recursos naturais e ambientais, cuja intensidade do processo de ocupação desordenada vem colocando em risco (PANIZZA et al., 2009).
Há uma grande diversidade de ecossistemas costeiros e marinhos na Zona Costeira Brasileira e a abundância da vida marinha apresenta uma relação direta com a profundidade até onde a luz solar penetra, faixa que vai da superfície até uma profundidade média de 100 metros, enquanto em áreas com profundidades maiores os registros de vida marinha tornam-se gradativamente mais escassos (LANA; CASTELLO, 2020, OLIVEIRA, 2014).
A Zona Costeira Brasileira é banhada por águas quentes que ocupam grande parte das bordas tropicais e subtropicais do Atlântico Sul Ocidental, onde a variação espacial e temporal dos fatores ambientais são distintos. Entre o Cabo Orange, na Foz do Rio Oiapoque e o Arroio Chuí, ocorrem diversos tipos de hábitats, sistemas lagunares margeados por manguezais e marismas, costões e fundos rochosos, recifes de coral, bancos de algas calcárias, plataformas arenosas, recifes de arenito paralelos à linha de praias e falésias, dunas e cordões arenosos, ilhas. Além das praias arenosas amplamente utilizadas pelo turismo costeiro, se destacam inúmeros estuários e lagoas costeiras, praias lodosas, praias e falésias, dunas e cordões arenosos, ilhas costeiras e ilhas oceânicas (DIAS, 2003, VITTE, 2020).
A Região Norte é dominada pela Corrente Norte do Brasil e pela pluma estuarina do Rio Amazonas. A elevada carga de material particulado em suspensão, oriundo da Bacia Amazônica e dos sistemas estuarinos do Maranhão para o mar adjacente, origina fundos ricos em matéria orgânica. Esse tipo de hábitat oferece boas condições de alimento para peixes de fundo e camarões explorados pela pesca industrial e artesanal (BARBOZA; NICOLODI, 2003; DIAS, 2003).
As características físico-químicas e geomorfológicas da costa do Amapá e o setor ocidental da costa do Pará são determinadas pelo Delta do Amazonas. Essa região é denominada Golfão Marajoara. Ali se encontram centenas de ilhas margeadas por manguezais exuberantes e marismas ainda bem preservados, oferecendo recursos vivos inestimáveis e pouco explorados pela pesca artesanal. Mais da metade dos manguezais brasileiros concentram-se nessa região. A baixa densidade demográfica dessa região restringe a exploração pesqueira e o impacto urbano e industrial nas áreas metropolitanas (CARVALHO; RAVENA–CAÑETE, 2021; GRUBEL; BARBOZA; NICOLODI, 2003;
VITTE, 2003).
Os hábitats marinhos da região Nordeste são típicos de áreas tropicais e caracterizam-se pela grande diversidade biológica. Na área existe abundância de recifes de coral e de algas calcárias, e na costa predominam praias arenosas interrompidas por falésias, arrecifes de arenito e pequenos sistemas estuarino-lagunares margeados por manguezais. O maior impacto ambiental é causado pela ocupação urbana, pelo turismo, sobre pesca, obras portuárias, mineração e ocupação de áreas de manguezais (BEIRÃO;
MARQUES; RUSCHEL, 2020).
A Região Costeira Central assemelha-se à Região Costeira do Nordeste, porém com maiores flutuações climáticas. Na parte sul dessa região, ocorre a ressurgência das
águas mais profundas (ressurgência de Cabo Frio) e a temperatura na parte próxima à costa pode baixar até 16ºC. Esse evento natural torna essa região extremamente produtiva, sendo área de concentração de indústrias pesqueiras (CARVALHO; RAVENA–
CAÑETE, 2021; DIAS, 2003; TESSLER; GOYA, 2005)
A Plataforma Continental estende-se desde 10 km próximo a Salvador, até cerca de 190 km ao sul da Bahia, devido à ocorrência dos Bancos de Abrolhos onde predominam fundos de algas calcárias e de recifes de coral. Na área mais próxima da costa, predominam praias arenosas, estuários e baías margeadas por manguezais. Nessa região a pesca artesanal e o turismo são as atividades econômicas mais importantes (BEIRÃO; MARQUES; RUSCHEL, 2020; PANIZZA et al., 2009; SCHERER, 2013)
A Região Sul, na faixa subtropical da costa brasileira, localiza-se entre o litoral norte do Rio de Janeiro e o litoral do Rio Grande do Sul. A diversidade de hábitats marinhos que ocorrem nessa região está sujeita a uma grande variabilidade sazonal das condições climáticas e da hidrografia da plataforma. Essa fração do litoral brasileiro é influenciada pela confluência da Corrente do Brasil com a Corrente das Malvinas e pela drenagem continental do Rio da Prata, da Lagoa dos Patos e do Complexo Estuarino Paranaguá-Cananéia. O assoalho marinho da plataforma continental é predominantemente arenoso, com focos areno-lodosos e algumas formações rochosas (BEIRÃO; MARQUES; RUSCHEL, 2020).
Costões rochosos, praias arenosas, restingas, manguezais, baías e lagoas costeiras são ambientes comuns junto à linha de costa. A maior praia do mundo (Praia do Cassino) tem cerca de 200 km de extensão entre a saída da Lagoa dos Patos e o Chuí. Todos esses ecossistemas são importantes do ponto de vista ecológico e socioeconômicos (pesca, turismo e transporte). Várias unidades de conservação foram estabelecidas nesse litoral e ajudam na preservação da biodiversidade marinha (SCHERER, 2013,
O oceano sempre teve um papel importante na história do Brasil desde seu descobrimento. Foi através do mar que ocorreu a expansão colonial portuguesa que permitiu a incorporação do continente americano ao mundo do europeu. No Século XV, Portugal se tornou o país pioneiro do processo de expansão marítima e no ano de 1500, a frota de Pedro Álvares Cabral chegou às terras do Brasil, consolidando o império ultramarino português (DIAS; CARMO; POLETTE, 2009, LANA; CASTELLO, 2020).
Até finais do século XIX, a ocupação da Zona Costeira (praias, costões rochosos abertos à ação das ondas, manguezais, dunas, ilhas etc.) foi mínima, um autêntico
“Território do Vazio” como sagazmente disse Corbin (1989), importante pesquisador e historiador francês. Tanto que, nos finais do século XIX, cerca de 80% da população
mundial nunca tinha visto o mar. Porém, esse cenário mudou e no contemporâneo mais de 50% da população mundial vive a menos de 60 km da linha da costa. E há estimativa que num tempo aproximado de duas décadas haja aumento dessa percentagem e que 75%
da população decida morar na Zona Costeira. Este fenômeno da litoralização possui relação direta e indireta com a exploração dos recursos costeiros, marinhos e oceânicos e é extremamente preocupante pois a Zona Costeira corresponde somente a 10% do espaço habitável na terra (DIAS, 2013, DIAS; CARMO; POLETTE, 2009).
No Brasil, das seis maiores aglomerações metropolitanas, cinco estão localizadas na Zona Costeira em Belém, Fortaleza, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, concentrando 12,9% da população nacional. Além disto, treze das dezessete capitais dos estados litorâneos situam-se à beira-mar. Essa situação é resultante do processo de ocupação colonial do território, onde os primeiros assentamentos humanos se localizavam na Zona Costeira, e somente muito mais tarde é que começou a interiorização.
Nesse sentido, um dos objetivos da mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Goiás, na região central do país, o que levou à construção de Brasília, inaugurada em 1960, foi a necessidade de interiorizar a ocupação do território. Apesar disso, a concentração populacional na Zona Costeira ainda perdura, e metade da população brasileira reside a não mais de 200 km do mar, impactando diretamente os ambientes costeiros (ASMUS; KITZMANN; LAYDNER, 2004; VITTE, 2003).
Segundo Dias, Carmo e Polette (2009), como a tendência atual é de crescimento da população costeira, é esperado um aumento dos problemas associados ao aumento populacional. A construção de casas em áreas de alta sensibilidade ambiental tais como dunas, mangues, estuários etc., a falta de saneamento básico, junto com as atividades de agricultura e atividades urbanas, degradam os ambientes naturais através da poluição orgânica, deposição de sedimentos e deterioração dos habitats naturais. A perspectiva do crescimento continuado em densidade demográfica costeira, conforme temos observado nas últimas décadas, urge o estabelecimento de estratégias adequadas de manejo e de redução dos impactos ao meio ambiente e à saúde humana.
O mar foi um fator muito importante na forma como o espaço brasileiro foi sendo ocupado após sua descoberta pelos portugueses. Para que o processo de colonização fosse consolidado, era necessário desenvolver uma atividade econômica lucrativa e que permitisse o cultivo permanente do solo. No início, não foram descobertas riquezas minerais e a exploração do pau-brasil não era suficiente para manter um processo de ocupação efetivo (LANA; CASTELLO, 2020, OLIVEIRA, 2014).
A atividade econômica que justificou o povoamento da América portuguesa foi a cultura da cana-de-açúcar e a implantação dos engenhos. Esse açúcar produzido no Brasil era comercializado nos mercados europeus. As caravelas eram o meio de transporte que levavam essa mercadoria, pelo oceano Atlântico, em direção ao Velho Continente. Assim, quanto maior a proximidade do mar mais fácil e mais barato ficava o transporte dos produtos. Além disso, os engenhos eram localizados próximos aos cursos d’água, pois o processo de produção de açúcar exigia grande quantidade de água.
Outro fator importante que direcionou a ocupação no litoral foi a necessidade de defesa do imenso território, com uma costa de aproximadamente 8 000 km. Portugal, na época, não contava com alto contingente populacional para defender todo o seu domínio contra invasores de outras nações, que não aceitavam a divisão do mundo feita entre portugueses e espanhóis. Assim, a ocupação costeira era necessária para impedir o acesso de nações inimigas ao continente e foi ganhando características litorâneas (DIAS, 2013;
DIAS; CARMO; POLETTE, 2009).
Assim, as atividades econômicas historicamente se concentraram na costa, onde se desenvolveram as áreas petrolífera (extração e refino), portuária, agrícola e agroindustrial, aquicultura, extração mineral e vegetal, pesqueira, pecuária, reflorestamento, salinas, e de veraneio e turismo. Por razões históricas e estruturais, o crescimento econômico foi baseado na industrialização, que se concentrou na região costeira, induzindo o seu crescimento populacional e urbano. Essa forte associação entre a urbanização e a industrialização caracterizou os processos de dinâmica territorial, populacional e econômica na história do Brasil, e, por consequência, da zona costeira (BEGON; TOWNSEND; HARPE, 2007; BRASIL, 2019)
A partir da década de 60, determinou a fundação de importantes polos industriais na Zona Costeira, acompanhados de instalações portuárias de apoio, formando complexos industriais-portuários importantes, como o de Cubatão/Santos/São Vicente (SP), de Rio Grande (RS) e de Itajaí (SC). As atividades econômicas costeiras são responsáveis por cerca de 70% do PIB nacional. As exportações industriais brasileiras estão concentradas em setores de alto potencial poluidor como a siderurgia, papel, celulose e química, geralmente concentradas nas regiões metropolitanas da Zona Costeira Brasileira. E os principais complexos industriais presentes na Zona Costeira Brasileira, em ordem de importância são: químico; metal mecânico; agroindustrial; têxtil, vestuário e calçados;
celulose, papel e gráfica; e construção civil (ASMUS; KITZMANN; LAYDNER, 2004, DIAS; CARMO; POLETTE, 2009; VITTE, 2003).
No extenso litoral brasileiro vivem comunidades litorâneas tradicionais não indígenas como jangadeiros (CE e sul da BA), caiçaras (RJ, SP, PR e norte de SC), praieiros (litoral amazônico entre PI e AP) e pescadores, que dependem da pesca artesanal e do extrativismo de recursos naturais para a sobrevivência de seu modo de vida. Com o colapso da pesca artesanal, a degradação ambiental do espaço costeiro e a especulação imobiliária para construção de segundas residências, essas comunidades têm experimentado um processo de empobrecimento econômico e cultural (PÁDUA, 2015;
VITTE, 2003).
As comunidades caiçaras revelam a grande diversidade cultural do litoral brasileiro. Apesar disso, são os exemplos mais evidentes dessa situação de degradação social, cultural e ambiental. Os caiçaras resultam da miscigenação entre os indígenas, colonizadores portugueses e negros, e ocupam a área situada entre o sul do litoral do Paraná e o sul do litoral do Rio de Janeiro. São comunidades que têm um modo de vida característico que associa à pesca, à pequena agricultura, ao artesanato e ao extrativismo vegetal, tendo desenvolvido tecnologias patrimoniais, um conhecimento aprofundado sobre os ambientes em que vivem, danças e músicas além de um vocabulário com inúmeras palavras de uso exclusivamente local (ASMUS; KITZMANN; LAYDNER, 2004; VITTE, 2003).