A abordagem metodológica da pesquisa é a análise comparada em educação, método que advém da sociologia com base em Durkheim e Tenbrucke, assim como afirma Schriwer (2018), e apresenta os desafios de destacar as problemáticas centrais e subjacentes dos diferentes ramos de estudos comparados e internacionais em educação.
Ao pensar em comparação, deleita-se sobre relações, afinal estudos comparados requerem uma inter-relação das relações internacionais e nacionais em prol de se pensar em procedimentos que se coadunam com os objetos de comparação entre si, obedecendo a alguns critérios metodológicos advindos de elementos observáveis da experiência social cotidiana ou de categorias sociais conhecidas pela familiaridade com as situações culturais estudadas. Trata-
se de técnicas de níveis múltiplos que intercalam uma operação mental estruturada e consciente a partir de problemas específicos. É o que Shriwer (2018) chama de operação mental (relações de semelhanças) e método científico (comparação das semelhanças).
Essa técnica funciona como um convite ao aprofundamento das relações básicas intercalando as inter-relações entre teorias e conhecimentos. As sociedades modernas, de acordo com Schriwer (2018), caracterizam-se pela pluralização de tendências centrífugas, pronunciando características da sociedade moderna os processos de comunicação autorreflexiva que se intensificam a ponto de se tronarem teorias de reflexão.
Consequentemente, considera-se de suma importância ampliar as pesquisas em educação sob a ótica internacional, apresentando níveis distintos de análise partindo de novos contextos sociais, políticos e econômicos, a fim de fazer uma análise comparada que forneça subsídios para se pensar no objeto de pesquisa com um alargamento de possibilidades.
Diana Escobar, Cintia Costa e Alicia Bonamino (2016), a partir de um estudo comparado entre os planos nacionais do Brasil e da Colômbia, alertam quanto à necessidade de se fazer uma análise exploratória de documentos, pensando nas diferenças e semelhanças de natureza política e social dos países em destaque com o objetivo de se criar categorias de análise como tema-marco, metas e estrutura.
Na mesma direção, Nóvoa (2000) pontua que as possibilidades de um estudo comparado ultrapassam os limites das comparações tradicionais que, muitas vezes, limitam-se a apenas apontar similitudes e divergências entre os países, exigindo uma problematização da própria noção de comparação e um exercício crítico de criação de categorias férteis com base no objeto de pesquisa. Faz-se necessário perceber e analisar com cautela as peculiaridades dos processos de apropriação dos saberes e da invenção das práticas no campo educacional. O autor registra que “isso exige também que constituam instrumentos comuns de investigação a serem empregados no estudo das duas situações” (NÓVOA, 2000).
Vale ressaltar ainda que, para Nóvoa (2000), o contexto de comparação deve primeiro reconhecer a individualidade do outro, pois a comparação em educação seria uma história de sentidos, os quais diferentes comunidades dão às suas ações, permitindo-lhes a construção/reconstrução do mundo. Nesse sentido, um estudo comparado requer a atenção do pesquisador quanto aos aspectos culturais, econômicos, sociais e individuais de cada nação.
Nóvoa (2017) alerta também a possibilidade de ilusões e desilusões da educação comparada, defendendo uma técnica mais problematizadora marcada por três grandes gestos, são eles: distanciamento, intercessão e comunicação, de modo que a análise comparada possa
construir uma compreensão do espaço relacionado com o tempo, apresentando o descrever, o imaginar, o prever e o prescrever.
Uma das tensões descritas pelo autor na educação comparada diz respeito à política e ao conhecimento, tendo em vista que Nóvoa (2017) defende um pensamento da diferença e não da generalização, da compreensão e não da solução. Nesse sentido, o autor pontua uma nova versão da educação comparada, mas que não está isenta de riscos, e insiste na diferença e na compreensão como elementos centrais do trabalho comparado em educação, pois o trabalho é do/a pesquisador/a é tentar compreender.
Nóvoa (2017) convida, ainda, a sair das margens e da zona de conforto rumo ao desconhecido. Para isso, o autor chama atenção para as desilusões da educação comparada ao longo dos seus 200 anos: “[...] a ideia de que é possível definir o rumo certo, os aperfeiçoamentos que podem ser transportados de um país para outro e a crença de que este rumo pode ser definido cientificamente” (NÓVOA, 2017, p. 17). A terceira grande desilusão acreditou que as leis podiam ser generalizadas independentemente da história e dos contextos.
O interesse do método comparado reside nas suas possibilidades teórico-críticas. A quarta desilusão, por sua vez, seria a ligação entre política e o conhecimento ancorada na lógica comparada sem relação com o contexto.
Essas tensões nomeadas de desilusões por Nóvoa (2017) alerta quanto a não estabelecer a crença de que, através da educação comparada, é possível encontrar soluções ou apropriações de leis em realidades distintas, pois são visões simplistas. A educação comparada consiste em tentar compreender a diferenças, estabelecendo um ampliar de horizontes a respeito de uma problemática.
O trabalho comparado deve ser capaz de abrir problemáticas, sem se reduzir às métricas, deve promover abordagens científicas que favoreçam uma apropriação do conhecimento por parte dos diferentes atores individuais e coletivos, reconhecendo o papel dos especialistas, mas sem lhes conceder um poder de decisão e de definição das políticas educativas. (NÓVOA, 2017, p. 21).
Para Nóvoa (2017), há três gestos que são decisivos para a construção de uma educação comparada problematizadora, pois, quando comparamos fatos com fatos, ficamos na superfície dos problemas e do conhecimento.
[...] O gesto do distanciamento ou, por outras palavras, a capacidade para desconhecermos, para nos afastarmos daquilo que pensamos saber, abrindo-nos a novas possibilidades de conhecimento; o gesto da intercessão, isto é, a capacidade de percebermos, como sugere Gilles Deleuze (1990), a importância do intercessor, uma figura que não se limita a transportar, transpor ou traduzir ideias de um lugar para
outro; e o gesto da comunicação, no sentido etimológico do termo, “tornar comum”, ou dito de outro modo, a capacidade de trabalharmos em comum a partir das nossas diferentes posições e maneiras de pensar (NÓVOA, 2017, p. 21).
Para tanto, faz-se necessário romper com as visões limitadas e pensar em duas linhas de trabalho, são elas: a ligação entre o local e o global a partir da globalização e pensando nas espacialidades e a desmaterialização do espaço, prestando atenção nos fluxos, nas comunicações, na hibridez, nas redes, nas conexões. É interessante enfatizar que a compreensão de diferentes espacialidades vai além do espaço físico, tendo em vista que contempla as especificidades locais do país. Há também a necessidade de inscrever o pensamento no tempo em suas diferentes temporalidades, as quais organizam os processos educacionais, compreendendo as turbulências de acontecimentos de mudança intensiva na ligação do tempo com os processos de longa duração.
A educação comparada é marcada pela compreensão da diferença, mas, para se chegar a isso, é necessário o desdobramento das espacialidades e das temporalidades. Mais do que uma comparação entre países e mais do que uma visão macro e global, faz-se necessário entender a propagação das políticas como ondas que vibram em diferentes espaços-tempo. Nóvoa (2017) apresenta uma educação comparada para organizar um espaço público de debates e decisões;
suas tarefas consistem em compreender as diferenças a partir do espaço público e produção/reflexão em comum a partir das nossas diversidades e diferenças. A expectativa é de descobrir como multiplicar os olhares e a compreensão dos indivíduos acerca de uma problemática no espaço-tempo.
Não obstante, Moraes (2017), ao realizar uma comparação entre Brasil, Inglaterra e Finlândia, orienta a pensar nas fontes primárias e secundárias, uma vez que a educação comparada funciona como importante ferramenta para a compreensão dos problemas internacionais da educação, sendo de suma importância fazer uma relação global entre as particularidades e singularidades das nações. Veja:
O breve estudo comparado realiza-se a partir de fontes primárias e secundária, indicadores sociais e educacionais, documentos e relatórios de organismos internacionais, estudos e pesquisas, bem como notícias publicadas na grande mídia (MORAES, 2017, p. 407).
Nesse trilhar de preposições, esta pesquisa compromete-se a pensar na educação comparada em sua complexidade, envolvendo as similitudes e divergências, mas levando em conta os aspectos individuais de cada nação no que se refere a questões históricas, culturais, sociais, econômicas e educacionais na relação entre espaço-tempo, considerando a
compreensão das diferenças e construindo um espaço público de discussão acerca da temática em sua multiplicidade.
No que tange às fontes primárias e secundárias, delineiam-se documentos oficiais destinados à educação de crianças dos dois países como fonte primária e, por sua vez, entrevistas com pesquisadores/as, professoras, gestoras de ambos os países como fonte secundária, apresentando também as observações participantes junto com as crianças, registrando suas falas e brincadeiras.
A vantagem de trabalhar com estudos comparados está na possibilidade de estabelecer aberturas para estudos sobre diversidades culturais, etnia, gênero, entre outros. Faz-se necessário buscar um panorama de desenvolvimento recente nos estudos referentes ao nacionalismo, considerando a diversidade e identidade presentes nas nações, pois cada sistema educacional é característico da nação que o criou. Assim, os autores supracitados orientam a eleger categorias de comparação e análise.
As categorias preliminares deste estudo foram organizadas em um quadro comparativo das políticas e dos estudos para educação infantil/educación inicial como um instrumento de análise, de problematização, de compreensão, de diferenciação, de promoção de debate público e de aprofundamento.
Quadro 1– Categorias primárias e secundárias de análise referentes a gênero na educação de crianças (Educação Infantil/Educación Inicial) entre Brasil e Argentina
Categorias Indicadores
Primários:
documentos oficiais e embasamento
teórico
Indicadores Secundários:
pesquisadores/as, professoras,
gestoras e crianças dos
países e embasamento
teórico
Brasil Argentina História da educação- formação social e
educacional Sistema de política social Condições ambientais e culturais
Política nacional de educação Concepção de educação Concepção de Educação Infantil Concepção de criança e infância Obrigatoriedade na Educação Infantil
Integral ou parcial
Financiamento da Educação Infantil Espaço físico
Formação dos profissionais de Educação Infantil
Políticas de Educação Infantil Diretrizes educacionais para crianças
Concepção de gênero Educação sexual
Políticas de igualdade de gênero Políticas de educação em gênero para
crianças
Educação sexual para crianças Fonte: Dados da pesquisa (2022)
Este projeto intenta realizar uma pesquisa comparada entre Brasil e Argentina, apresentando a aplicabilidade de gênero no sistema educacional para crianças da Educação Infantil/Educación Inicial de ambos os países, pensando em indicadores primários e secundários para a criação e a análise de categorias, com cuidado quanto às orientações de Nóvoa (2017) e dos demais autores que chamam a atenção para a necessidade de uma educação comparada que considere o espaço-tempo e a necessidade de compreensão, de diferenciação e de problematização da temática, promovendo debates públicos e alargando nossos olhares.
Vale ressaltar que a comparação como método científico-social que se assenta sobre várias técnicas complexas e de níveis múltiplos possui relações variáveis em níveis sistêmicos diferentes em vários contextos socioculturais que são analisados através da estrutura. A relação que se estabelece vai além de comparações simples entre as semelhanças e as divergências, o que permite ao/à observador/a diferentes lentes e óticas do objeto pesquisado.