Considerando-se o objetivo da pesquisa, que é conhecer as trajetórias de mulheres negras permeadas pela relação com as representações raciais e a ligação das ações individuais com o fenômeno do racialismo, utilizou-se uma ferramenta que permite conhecer as os percursos sociais em nível microssociológico: o relato de vida (BERTAUX, 1989).
Esta ferramenta se enquadra no ramo das abordagens biográficas, um campo multidisciplinar que compreende, entre outras técnicas: “[...] análise de biografias e de autobiografias, histórias de vida, narrativas pessoais, entrevistas narrativas, etno-biografias (sic), etnografias e memórias populares” (GALVÃO, 2005, p. 329).
Um dos precursores de seu uso nas Ciências Sociais foi Max Weber, com sua Sociologia Interpretativa. De acordo com Meihy (2005), um uso mais sistemático da abordagem se deu a partir de 1918, na Escola de Chicago. Foi utilizado também por autores como Florestan Fernandes27 e Norbert Elias28.
Santos, Patrícia Oliveira e Priscila Susin (2014), perceberam o aumento do uso dos relatos a partir da década de 1970, e o aumento de sua valorização quando da publicação do livro “Memória e sociedade: lembranças de velhos” por Eclea Bósi29, em 1994, na Psicologia Social. Contemporaneamente, no Brasil, destaca-se o uso da pesquisa social reconstrutiva,
26 Original em espanhol.
27 No artigo “Tiago Marques Aipobureu: Um bororo marginal”, publicado em 2007.
28 No livro “Mozart: Sociologia de um gênio”, publicado em 1991.
29 Eclea Bosi foi uma psicóloga, professora e escritora brasileira.
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utilizada no Brasil pela socióloga Wivian Weller, com base na “entrevista narrativa”
desenvolvida por Fritz Schütze30.
As diversas abordagens biográficas se diferenciam em termos de métodos de aplicação e análise, mas possuem em comum a interpretação do sujeito como agente social e não somente receptor e reprodutor de normas e significados. Como decodificador, parte de sua ação precisa ser interpretada, e, “[é] precisamente a interpretação subjetiva da realidade ou do contexto social que poderia oferecer boas perspectivas para o desenvolvimento da pesquisa com narrativas biográficas na sociologia brasileira” (SANTOS; OLIVEIRA; SUSIN, 2014, p. 377).
2.1.1 Relatos de vida
As escolas francesa e alemã de sociologia, representadas por nomes como Fritz Schtuze, Bernard Lahire e Daniel Bertaux, desenvolveram de forma mais sistematizada as abordagens biográficas. Vanessa Barros, Caroline Barros e Maira Nogueira (2007) apontaram Bertaux, sociólogo francês, como uma das principais influências sobre o tema no Brasil. Apesar disso, Costa e Yumi Santos (2020) ressaltaram que ele ainda precisa ser melhor apropriado pela sociologia brasileira. Bertaux sistematizou a técnica conhecida como etnossociologia (BERTAUX, 1989; COSTA; SANTOS, 2019).
Sua abordagem consiste em utilizar relatos de vida para alcançar as relações socioestruturais de um contexto social específico (COSTA; SANTOS, 2019), buscou um nível intermediário da distinção clássica entre sujeito e estrutura proposta pelas teorias contemporâneas (o autor comentou a distinção campus/habitus de Bourdieu, sistema/ator de Touraine e estrutura/agência de Giddens). Segundo Bertaux (1989, p. 341), no nível intermediário se compreendem “[...] relações subjetivas fortes e duráveis”, que explicam a complexidade do mundo social melhor do que os binarismos. Com a técnica, procurou apreender a lógica de funcionamento do que está sendo estudado, não apenas seus efeitos na sociedade.
2.1.2 Narração como verdade
O campo das abordagens biográficas é povoado por discussões acerca da validade das narrações como fontes de dados. Uma das críticas mais contundentes foi feita por Bourdieu
30 Sociólogo Alemão nascido em 1944, que contribuiu para o desenvolvimento da sociologia interpretativa.
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(1996), que considerou que os escritos biográficos pressupõem a afirmação de um sujeito e da narração como uma história objetiva.
Cabe supor que o relato autobiográfico se baseia sempre, ou pelo menos em parte, na preocupação de dar sentido, de tornar razoável, de extrair uma lógica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consciência e uma constância, estabelecendo relações inteligíveis [...] (BOURDIEU, 1996, p. 185).
O autor considerou existir uma confusão entre narrativa e história factual. Ele acredita que o que cria a narrativa não são os fatos, mas o direcionamento da perspectiva para a organização coerente de acontecimentos, centrada em um sujeito considerado preexistente e ordenado. Assim, julgou que, o que dá sentido aos relatos é a intenção de quem narra e de quem pesquisa de criar uma coerência que transforma fatos em narrativas. Bourdieu (1996) apontou para alguns equívocos que podem vir a ser cometidos nos estudos de percursos de vida, como manter o foco no sujeito desconsiderando-se a função do contexto no seu deslocamento pelo mundo social. Ao mesmo tempo em que lida com esta crítica, que, segundo apontaram Santos, Oliveira e Susin (1992), se origina das premissas estruturalistas de Bourdieu, o gênero biográfico se ocupa, ainda, das críticas vindas da parte do pós-estruturalismo que adota uma postura relativista absoluta.
Embora se encontrem autoras e autores que representam as duas perspectivas (estruturalista e construtivista), no gênero biográfico, de forma geral, a elaboração de uma narrativa não é considerada a reprodução de fatos objetivos e tampouco uma ficção absoluta. O intuito da pesquisa biográfica não é buscar a verdade, mas “[...] os sentidos dos movimentos que conduzem de uma posição a outra” (SANTOS; OLIVEIRA; SUSIN, 1992, p. 367). Esses movimentos, inseridos em seu contexto sócio-histórico, permitem perceber o sujeito como o
“[...] fio condutor que levará ao social” (SANTOS; OLIVEIRA; SUSIN, 1992, p. 367).
A perspectiva construtivista destaca os muitos elementos que atuam na construção da narrativa, como: a escolha, por quem narra, do que será lembrado e do que será esquecido; os marcadores sociais hierarquizantes que mediam a relação entre a pessoa que entrevista e a que é entrevistada (DAPHNE PATAI, 2010); e a produção do texto final, controlada pela pessoa que pesquisa. Bertaux (1989) acredita que o texto tem dois autores: quem pesquisa e quem narra31.
31 Santos, Olivera e Susin (2014) apontaram que é recorrente nas abordagens biográficas a apresentação dos relatos de forma inalterada após a transcrição, como forma de eliminar intermediações ou distorções na voz da pessoa entrevistada. Consideram que “[...] que ao ofuscar o papel deste [de quem pesquisa] – presente na construção do relato oral desde o momento da entrevista – a análise de fenômenos sociais sofreria uma limitação injustificável.
Ademais, a não utilização de procedimentos de análise abrangentes e claramente compreensíveis para o leitor
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Para Bertaux (1989), ainda que todo relato de vida incorpore a subjetividade por inserir a interpretação de quem pesquisa sobre os fatos narrados, isso não implica em que o relato seja falso. A preocupação de quem pesquisa não deve estar na interpretação, que nunca são totalmente baseadas em “verdades”, mas em que os fatos sejam factualmente exatos, pois desse modo, poderão dar acesso aos processos sociais. O controle sobre a exatidão dos fatos é realizado com o uso de múltiplos relatos, que permite verificar aquele que foge a um padrão majoritariamente encontrado e pode ser considerado não verdadeiro.
Ainda com relação à subjetividade de quem pesquisa, alguns trabalhos (KAJA KAZMIERSKA, 2004, GLASER; STRAUSS, 2017; BERTAUX, 1989, SANTOS;
OLIVEIRA; SUSIN, 1992) já mostraram que os estudos biográficos contam com aparato de verificação e objetivação. Portanto, na discussão sobre a verdade da narração, considera-se que não existe uma verdade e que isso não necessariamente invalida a análise, pois existem formas de garantir confiabilidade dos relatos e por meio deles é possível alcançar as dimensões sociológicas dos fenômenos.