abarás y […]”
23(AMADO, 2009, p. 187). Houve, portanto, um Espelhamento/Empréstimo.
Acredita-se que, ao utilizar essa estratégia de tradução, houve a tentativa de preservar as marcas culturais relacionadas à cozinha afro-religiosa.
No glossário elaborado pelas referidas tradutoras, presente no final da obra, apresenta uma definição para o marcador cultural ‘abará’ como um
[…] plato de la gastronomía afrobaiana, pequena bolita de pasta de poroto fradinho con cebolla, sal, aceite de dendê, envuelta en hojas de banana y cocida en agua. A veces lleva camarón entero o molido mesclado en la masa.
(AMADO, 2009, p. 679).24
Nota-se que, para construir essa definição, as tradutoras descrevem os ingredientes que
constitui o ‘abará’ e parte de sua origem, porém falta referenciar que esse alimento também é
uma comida votiva, a fim de evidenciar as marcas culturais. Conforme exposto no início dessa
análise, a falta dessas informações poderá implicar em um apagamento cultural.
O dicionário do Folclore Brasileiro (2000) situa o verbete ‘acaçá’ como uma espécie de bolo de arroz ou de milho como um dos pratos mais comuns da culinária africana. Todavia, a Enciclopédia Brasileira da Diáspora africana
27o define como
[...] bolinho agridoce da culinária afro-baiana feita tradicionalmente com milho branco e, às vezes, vermelho. O milho, depois de moído, é posto de molho para fermentar. Em seguida, é cozinhado como anu ou mingau e embrulhado em fola de bananeira, onde é servido frio. Do fongbé akuansan,
“pasta de farina de mandioca” [...].
Porém, o dicionário online Aulete
28situa esse mesmo verbete como um “Bolinho cozido de farinha de arroz ou milho, com consistência de gelatina, envolvido ainda quente em folha de bananeira”. Nota-se então, que esse dicionário não relata a origem do alimento, o que ocasiona no apagamento histórico e cultural dessa lexia.
O ‘acaçá’ é uma comida de santo, preferida do Orixá Oxalá, e é recebida como uma oferenda em diversos cerimônias, que variam a forma do ritual de acordo com a intenção que é utilizada. Esse alimento é feito com milho vermelho ou branco e transformada em uma massa que será cozida com água e após o cozimento são embrulhadas em folhas de bananeiras, cortadas em tamanhos proporcionais e levada ao fogo.
Outra forma, também, de preparo do ‘acaçá’ é a utilização do leite, conhecido como acaçá de leite que deve ser doce ou sem o doce, dedicado especialmente ao Orixá Oxalá.
Essas diversas formas de preparo do ‘acaçá’ também foram incorporadas no dia a dia do povo baiano, tornando-se um prato típico afro-baiano.
27 ENCICLOPÉDIA BRASILEIRA DA DIÁSPORA AFRICANA. Ed. Selo Negro. São Paulo, 2011.
Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=rtTDBAAAQBAJ&pg=PT36&dq=aca%C 3%
A7%C3%A++nei+lopes&hl=ptBR&sa=X&ei=nihaVf7cC5L8gwSss4GYDg&ved=0CBwQ6AEwA#
v=onepage&q=aca%C3%A7% C3%A1%20%20nei%20lopes&f=false. Acesso em: 11 de abr. de 2021.
28 DICIONÁRIO AULETE DIGITAL. Disponível em: https://www.dicio.com.br/abara/. Acesso em: 15 de nov. de 2021.
Figura 6 – Acaçá enrolado na folha de bananeira como oferenda
Fonte: https://gmlopes2007.wordpress.com/2014/02/24/acaca-e-seus-fundamentos/.
Vale destacar que “só existe uma oferenda capaz de restituir o axé e devolver a paz e a prosperidade à Terra, e ela é justamente o acaçá” (EYIN, s/a, p.17). Logo, essa comida tem extrema importância nos rituais para os Orixás e deve seguir à risca os fundamentos do candomblé, pois é preciso levar em consideração que,
[...] no Ilê Dara Axé Oxum Eyin, os acaçás destinados aos rituais de sacrifício e oferendas aos orixás são feitos com a farinha de ebô. Nas festas públicas, como o Pilão de Oxalá e o Olubajé, é servido o acaçá de leite, que segue a mesma receita, acrescida de açúcar e outros condimentos e leite de coco em vez de água. (EYIN, s/a, p.21).
Já em relação ao prato típico para consumo, ele que está incorporado na cozinha baiana, e houve com o tempo algumas mudanças no acréscimo de ingredientes e na forma de preparo.
O ‘acaçá’ representa a identidade da Bahia, ou seja, da cultura afro-brasileira que desperta interesse e atrai também os turistas, movimentando a economia.
No glossário exposto no final da obra Doña flor y sus dos maridos (2009) traduzida para o espanhol ‘acaçá’ é definido como “Comida preferida de vários Orixás, pasta de harina de arroz o maíz con agua y sal, cocida a punto de gelatina, envuelta caliente, en trozos grandes, em hojas verdes de banano” (2009, p. 679). Nota-se que as definições são bem parecidas e correspondem ao mesmo prato. Manter a informação de que esse alimento é uma comida preferida de vários Orixás demarca uma identidade cultural religiosa.
Amado (2000), ao utilizar na obra o marcador cultural ‘acaçá’, aborda-o como uma
forma de sobremesa, que pode ser comparado a um grande despacho luxuoso, preparado para
o orixá, devido à forma como a mesa é arrumada, como os alimentos são expostos, como a
exemplo, “A mesa era soberba: acarajés e abarás, moquecas de aratu em folhas de banana,
cocadas, acaçás, pés-de-moleque, bolinhos de bacalhau [...]” (AMADO, 2000, p. 306), momento em que o prazer da mesa remete à estética, aromas, cores, sabores.
Para além dessa ocorrência, existem mais três, as quais duas delas correspondem à modalidade de tradução empréstimo e uma a omissão. Nota-se, então, que, para o mesmo marcador cultural, as tradutoras optaram por duas estratégias de tradução. A omissão aqui pode ser verificada no quadro abaixo:
Quadro 10 – Trechos da obra em português e espanhol Dona Flor e
seus dois maridos em
português (2000)
“[...] Num desperdício de comida, ali se exibiam os quitutes baianos, vatapá e efó, abará e caruru, moquecas de siri mole, de camarão, de peixe, acarajé e acaçá, galinha de xinxim e arroz de haussá, além de montes de frangos, perus assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que não apreciasse o azeite-de- dendê (pois como considerava Mirandão de boca cheia e com desprezo, há todo tipo de bruto nesse mundo, sujeitos capazes de qualquer ignomínia). [...].” (2000, p. 64).
Doña flor y sus dos maridos em
espanhol (2009)
“En un desperdicio de comida, allí se exhibían los bocaditos bahianos, vatapá y efó, abará y caruru, xinxim y arroz de haussá, adeniás de pilas de pollos, pavos asados, patas de cerdo, tajadas de pescado frito para algún ignorante que no supiera apreciar el aceite de dendê (pues como reflexionaba Mirandão con la boca llena y con desprecio, hay todo tipo de brutos en este mundo, sujetos capaces de cualquier ignominia).” (2009, p. 113).
Fonte: Elaborado pela pesquisadora, baseada em AMADO (2000; 2009).