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Ambiente da Sala de Espera em uma Perspectiva de Cuidado Integral

No documento universidade do vale do itajaí - Univali (páginas 40-45)

No ano de 1994 o Ministério da Saúde implantou a Estratégia de Saúde da Família – ESF, a qual tem como papel principal a reorientação do modelo assistencial para a atenção básica, buscando a integralidade da assistência. A atenção básica da saúde deve ser a base para a assistência da população, conforme Ronzani e Silva (2008), a atenção básica caracteriza-se pelo atendimento de forma preventiva e promocional, visando o ser humano holisticamente, em todos os seus contextos, sendo eles físico, social, psicológico, cultural e espiritual, deixando de lado as percepções de individualismo e assumindo o cuidado integral ao ser humano (NORA; MÂNICA; GERMANI, 2009).

Nessa perspectiva, novas metodologias assistenciais tiveram de ser implementadas para atender as necessidades da população. Neste viés, a sala de espera apresenta-se com o intuito de amenizar o desgaste físico e

emocional associados ao tempo de espera por um atendimento no âmbito dos serviços de saúde (NORA; MÂNICA; GERMANI, 2009, p. 400).

Um dos maiores desafios enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é a realidade das filas e o tempo de espera que as pessoas suportam para conseguirem ser atendidos. Por isso, a sala de espera recebe atenção privilegiada em prol da humanização na atenção, passando a ser utilizada como local de execução de atividades do acolhimento (PIMENTEL; BARBOSA; CHAGAS, 2011).

O território da sala de espera é o lugar onde as pessoas aguardam o atendimento dos profissionais de saúde, comumente em unidades básicas, mas também existe em outros espaços de atenção em saúde, como nos hospitais públicos e privados. Percebe-se que a sala de espera é um território dinâmico, onde ocorre a mobilização de diferentes pessoas à espera de um atendimento de saúde.

A priori, os clientes que estão na sala de espera não constituem um grupo propriamente dito, mas um agrupamento, isso porque geralmente, as pessoas que se encontram neste espaço não se conhecem e nem mantém um vínculo estável.

Entretanto, quando essa atividade se instala pela iniciativa dos profissionais de saúde, comumente, forma-se um trabalho de grupo, de modo singular e específico para aquele contexto e com determinado fim. A composição das pessoas em grupo é mantida, naquele momento, pela iniciativa dos expositores que iniciaram o processo participativo em saúde. Entretanto, esse ambiente não é voltado para esses profissionais, mas um local dinâmico, onde transitam os mais diversos atores sociais, possibilitando às pessoas conversarem, trocarem experiências e emoções (TEIXEIRA; VELOSO, 2006).

O lidar com o cotidiano das práticas de saúde favorece o contato com a realidade das pessoas que buscam as unidades de saúde, que é diversificada, envolvida por dimensões econômicas, sociais e pluriculturais. Nessa interface, enquanto os clientes aguardam o atendimento, eles partilham suas emoções, falam de suas aflições, de suas doenças, da qualidade do atendimento na instituição e da vida cotidiana. Ocorre então uma troca de experiências, do saber popular e das distintas maneiras de cuidados com o corpo, de modo que o linguajar popular interage com os saberes dos profissionais de saúde. A sala de espera, apesar de ser um lugar da instituição de saúde, é um espaço popular, onde se expressam vivências, espontaneidades e senso comum.

Conforme autores como Paixão e Castro (2006), o termo “sala de espera” é polissêmico, porque nem sempre essa atividade é realizada em uma sala. Pode ocorrer em um corredor, um hall, um espaço ao ar livre, assim, o momento da sala de espera não precisa ser realizado necessariamente em uma sala, pode simplesmente ocorrer no ambiente no qual as pessoas estão sentadas aguardando atendimento, mas também pode ser realizada num local mais apropriado para tal fim, podendo fazer uso de outros recursos audiovisuais, como som ambiente e PowerPoint, no intuito de transmitir determinadas mensagens, além de água, chás, enfim, recursos que possam tornar a atividade mais agradável.

Esse espaço possibilita explorar situações difíceis de forma menos traumática, trabalhando desde as emoções do individuo, propiciando o devido conforto, relaxamento e segurança, além de facilitar a troca de saberes entre os integrantes na sala de espera, possibilitando a contribuição para a prevenção de doenças e promoção da saúde.

Nesse território ocorrem interações entre o saber em saúde e o saber popular, nas quais as pessoas expressam suas subjetivações, formas de ser e maneira de se cuidarem. Quando adentra-se nesse cenário, com o propósito educativo, ressalta-se a importância da comunicação, fazendo uso de uma linguagem clara, objetiva e de fácil entendimento, proporcionando aos envolvidos a apreensão de algumas questões que interferem nas condições de saúde dos mesmos, sendo possível utilizar esse espaço como local de reflexão, possibilitando uma relação de corresponsabilidade, favorecendo formas mais humanas e dignas de trabalhar com o ser humano, tornando o trabalho em saúde mais efetivo para ambas as partes, nesse sentido, através das atividades realizadas é possível criar espaços de diálogo, resultando em tratamento integral (NORA; MÂNICA; GERMANI, 2009).

É por meio da sala de espera que os profissionais da área da saúde têm a possibilidade de desenvolver atividades que extrapolam o “simples” cuidado, como a educação em saúde, por exemplo, capaz de auxiliar na prevenção de doenças e na promoção da saúde, proporcionando uma melhora na qualidade do atendimento, garantindo maior acolhimento aos seres humanos, e segundo Rodrigues et.al.

(2009), melhorando a inter-relação usuário/sistema/trabalhador de saúde, além de constituir-se em uma forma de humanizar muitas vezes os burocratizados serviços prestados.

Nessa perspectiva, o Ministério da Saúde enfoca as salas de espera, como um espaço que possibilita diálogo entre a equipe de saúde e o ser humano a ser atendido, permitindo que o momento da espera pela consulta seja utilizado como uma estratégia de cuidado para promover educação em saúde, além de aumentar a adesão terapêutica, melhorando a saúde e a qualidade de vida das pessoas. As atividades desenvolvidas nesse espaço podem contar com a participação dos profissionais de saúde e comunidade local, propiciando então uma interação entre os saberes populares com os saberes profissionais (BRASIL, 2007).

Na busca da fomentação de vínculos com a população é que se estabelecem os momentos de sala de espera, segundo Teixeira e Veloso (2006), a sala de espera pode ser considerada um espaço dinâmico, onde ocorrem vários fenômenos psíquicos, culturais, singulares e coletivos. Pode-se afirmar que esse ambiente ameniza o desgaste físico e emocional associado ao tempo de espera por algum atendimento, espera que pode gerar ansiedade, angústia, revolta e tensão.

O objetivo desse espaço não deve ser o de controlar a forma de vida dos sujeitos, mas sim promover o cuidado de si e a cidadania. “Com efeito, o grupo de sala de espera é um recurso para tal propósito na educação em saúde, que implica no manejo de saberes, na relação e em formas de cuidados” (TEIXEIRA; VELOSO, 2006, p. 322).

Souza et. al (2008), destacam que os serviços de saúde devem adotar práticas centradas no ser humano, desenvolvendo a capacidade de acolher, responsabilizar-se e resolver. Deve haver a produção de um cuidado humanizado, através de ações que desenvolvam a produção de vínculos, acolhimento e autonomização no processo de trabalho. Assim, os profissionais de saúde devem assumir uma postura de equipe capaz de tratar de forma humanizada as pessoas e suas necessidades, por meio de uma relação de mútuo interesse, cientes de que o maior desafio de uma sala de espera talvez seja o de permitir aos que aguardam atendimento um espaço natural, onde seja possível receber informações, além de oportunidades para expressão de sentimentos, dúvidas, receios e desejos (NORA;

MÂNICA; GERMANI, 2009).

Na sala de espera é possível estimular a humanização do atendimento, proporcionando um ambiente de acolhimento, criando espaços de diálogo, de estreitamento das relações entre pessoas atendidas e profissionais, assim, esses espaços se constituem em um alicerce para melhorar a qualidade do atendimento e

consequentemente, refletir em um serviço mais humano, ampliando o conceito de cuidado biológico e físico para um cuidado integral ao ser humano.

Segundo alguns autores, as atividades a serem desenvolvidas na sala de espera, devem ser planejadas e executadas por uma equipe interdisciplinar, porém, o profissional de enfermagem é o que tem maior capacidade de organizar e estruturar a sala de espera, pois é este profissional que em um primeiro momento reconhece a devida importância ao processo de espera, utilizando esse momento para a realização de atividades, pois é neste ambiente que é proporcionado ao enfermeiro o primeiro contato direto com as pessoas a serem atendidas (PAIXÃO;

CASTRO, 2006).

Por meio do espaço da sala de espera é feito o acolhimento dos usuários pelos profissionais. Com isso, o enfermeiro tem a oportunidade de desenvolver habilidades relacionadas à comunicação e interação, assim a sala de espera não constitui apenas mais uma atividade de enfermagem, e sim um instrumento que permite também a troca de conhecimentos entre os participantes, reconhecimento da realidade sociocultural, bem como, crenças e a expressão dos sentimentos dos participantes (NORA; MÂNICA; GERMANI, 2009).

É gritante a importância das atividades de acolhimento em espaços como a sala de espera nos quais se produz a relação de escuta e responsabilização. A partir do encontro entre os profissionais, sejam estes de enfermagem ou das demais áreas de saúde e as pessoas que buscam atendimento, constituem-se os vínculos, e esses devem nortear os projetos de intervenção.

Enfim, nesse ambiente é possível estimular a humanização do atendimento, proporcionando acolhimento às pessoas e seus familiares que utilizam os serviços de saúde, criando espaços de diálogo, de estreitamento das relações, assim, esses espaços se constituem em um alicerce para melhorar a qualidade do atendimento, que por resultado reflete em um serviço mais humano, ampliando o conceito de cuidado biológico para um cuidado integral em saúde, pois a sala de espera tornou- se um espaço para cuidar de si, criar, interagir, refletir sobre o serviço e expressar- se, e por que não formar de novos sujeitos?

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Nesta etapa da pesquisa, apresentam-se os procedimentos metodológicos utilizados para desenvolver o presente estudo e atingir seus objetivos.

Pode-se afirmar que o conceito de método de pesquisa adotado neste trabalho é compatível com a postura de Gil (1999), em considerá-lo como um conjunto de procedimentos suficientemente gerais, para possibilitar o desenvolvimento de uma investigação científica ou de significativa parte dela.

O processo metodológico desta pesquisa se compôs do movimento articulado do pesquisador na sua intencionalidade (a largada inicial, a escolha diretiva, do olhar da consciência sobre o objeto – dados teóricos), na sua percepção (impulso de uma intencionalidade subjetiva, forjada na consciência do pesquisador para captar e significar, a partir de si, o que os dados teóricos e práticos expressam), na sua compreensão (expressão dos registros da percepção de forma sistemática, ocorridos desde o levantamento de dados e reflexões indutivo-dedutivas (pesquisa descritiva exploratória), para a emissão de significados e problematizações possíveis, ampliando o conhecimento sobre o tema de estudo), para na sua descrição dar uma resposta ao problema da pesquisa de forma coerente, consistente e pertinente.

No documento universidade do vale do itajaí - Univali (páginas 40-45)