• Como foi para vocês o surgimento do(a) pessoa x na família? (pergunta que visa investigar os processos de luto e readoção na família)
• Como vocês lidaram com as transformações ao longo do processo?
• Para vocês, qual ou quais foram os momentos mais críticos da transição?
• Como foi a decisão de participar desta entrevista?
3.3.4 Procedimentos
Após a submissão do projeto de pesquisa apresentado previamente à Plataforma Brasil, e de sua aceitação pelo CEP – comitê de ética em pesquisa, demos início a coleta de dados. Nesta etapa, realizamos entrevistas semiestruturadas e a coleta de dados sociodemográficos a partir do preenchimento da ficha que foi elaborada para este fim, ambos executados em etapa única. Os encontros foram remotamente realizados com o grupo familiar em conjunto, utilizando a plataforma Google Meet de videoconferências, com exceção de uma única entrevista realizada presencialmente, por preferência da família em questão.
Outrossim, as entrevistas foram gravadas em áudio utilizando um aparelho de celular com esta função, para que posteriormente o referido material fosse devidamente transcrito e analisado a partir do método escolhido. Eventualmente, por estarem em residências separadas, diferentes integrantes de uma mesma família receberam via WhatsApp o link de acesso para a sala virtual na qual realizamos a entrevista, de modo que todos os participantes compartilharam um mesmo tempo e espaço virtual previamente estabelecido. Destoando de nossa proposta inicial, optamos por não gravar também em vídeo as entrevistas, em função de dificuldades técnicas relacionadas ao armazenamento de imagens e da diferença prevista, neste modelo, entre as gravações de entrevistas presenciais e remotas.
afinado com as especificidades metodológicas em questão. Por um lado, a disciplina e o rigor às etapas constituintes são essenciais. Por outro, alguma dose de criatividade, postura intuitiva e abertura para o campo fazem-se igualmente necessárias (Bardin, 2008). É na conjugação destas qualidades que o rigor e a subjetividade se encontram na metodologia de análise.
Assim, como proposto por Bardin (2011), realizamos uma investigação cuja principal função consistiu no desvendar crítico do tema proposto. Além disso, a coleta de dados e a organização do material coletado seguiu igualmente o protocolo proposto pela autora, dividido em três etapas principais: a pré-análise, voltada para a organização dos dados e composição do corpus da investigação; a exploração do material, voltado para a elaboração de categorias pertinentes ao tema da investigação; e o tratamento dos resultados obtidos, no qual interpretamos os dados coletados a partir do referencial teórico adotado e das categorias de análise emergentes das etapas anteriores (SANTOS, 2012).
Deste modo, a análise iniciou-se oficialmente após a realização de quatro entrevistas com quatro famílias distintas, totalizando uma amostra de 9 pessoas distribuídas em seus respectivos grupos familiares. Organizamo-nos para que as transcrições ocorressem ao longo da realização das entrevistas, de modo que, quando uma nova entrevista era realizada, a anterior encontrava-se devidamente transcrita. Este passo teve por objetivo evitar o acúmulo de material para ser transcrito após o término da etapa de realização das entrevistas.
Finalizadas as entrevistas e as respectivas transcrições, foi realizada uma primeira leitura ainda de natureza fluida, ou flutuante, do material coletado. Além disso, como proposto por Bardin (2008), um compilado das primeiras impressões foi realizado para cada entrevista, tendo por objetivo a síntese e a organização deste conteúdo.
Posteriormente, uma leitura mais focada objetivou o recorte de falas emblemáticas para os fins da pesquisa, bem como a eleição de palavras-chaves oriundas dos trechos selecionados. Neste contexto, as palavras-chaves são utilizadas como inspiração para futuras categorias de análise, configurando, segundo Bardin (2008), pré-categorias a serem consideradas. Afinando-se com a técnica proposta pela autora, a eleição das categorias subsequentes ocorreu a partir da fala dos entrevistados, de sua experiência narrativa e do crivo analítico estabelecido ao longo do processo. Assim, como proposto inicialmente, temas e categorias de análise foram frutos do rigor metodológico e da subjetividade da pesquisadora.
3.4.1 Participantes
Tendo como foco as interações características da “família em transição”, julgamos pertinente a realização de entrevistas que reunissem os diferentes componentes da trama transgênera na construção de uma narrativa compartilhada. Logo, o convite para participar da pesquisa direcionou-se para toda a família, e a entrevista ocorreu com aqueles dispostos a participar. Assim, a não disponibilidade de algum familiar ou a disposição de todos foi, em si, um dado de análise. Além disso, os participantes foram recrutados por meio de uma amostra de conveniência, ou seja, a partir de contatos e indicações. Outrossim, a divulgação do convite para participar ocorreu por meio de postagens em redes sociais, como o Facebook e o Instagram, bem como em grupos específicos de WhatsApp onde encontramos sujeitos participantes em potencial.
Por outro lado, o critério único de exclusão adotado foi a condição de não haver familiar algum disposto a participar da entrevista semiestruturada, juntamente com a pessoa transgênera. Tratando-se de um estudo que pretende investigar primordialmente as interações estabelecidas na família em transição, acreditamos prudente realizar a seleção supracitada, definindo que necessariamente deverá haver ao menos um familiar, além da própria pessoa trans, disposto a participar da coleta de dados. Inferimos, de antemão, que tal definição nos impõe o trabalho com famílias minimamente abertas à temática transgênera, dispostas a falar de si, e com algum nível de receptividade ao respectivo familiar trans.
Não se trata, obviamente, de negar a complexidade e a necessidade de validação das inúmeras narrativas de pessoas trans que são excluídas de seus grupos familiares (JANINI, 2017). Corroboramos a crença de que em todos os casos, incluindo os extremos de expulsão do lar e de ruptura total das relações familiares, o grupo será sempre emocionalmente impactado pela transição de gênero de um de seus membros.
Além disso, em termos práticos, dificilmente acessaríamos famílias de pessoas transgêneras que não dispusessem, à revelia de seus discursos e práticas manifestas, de uma receptividade mínima acerca deste familiar. Dito isso, nossa análise iniciou-se antes mesmo de encontrarmos o grupo a ser entrevistado: infere-se, a priori, que se trata de uma família minimamente receptiva ao familiar transgênero. Considerando o nicho de estudo em questão, julgamos prudente a abordagem de famílias coesas o suficiente e igualmente dispostas a falar a partir da perspectiva grupal-familiar. Além disso, não nos deparamos com famílias cuja pessoa trans não podia estar presente no momento de realização da entrevista. Como
inicialmente proposto, priorizamos, desde o início, famílias cuja pessoa trans possuía a disponibilidade para ser incluída na dinâmica da entrevista. Assim, para eleger-se como participante da pesquisa era necessário somente que o sujeito fosse autodeclarado transgênero, e que dispusesse de alguma rede familiar (não necessariamente parente biológico) com no mínimo um integrante disposto a participar. Acreditamos, ainda, que a não restrição etária e nem de gênero permitiu acessar uma amostra que refletiu de alguma forma o cenário social mais amplo. Além disso, a identificação dos participantes definiu-se em função de suas respectivas posições no sistema familiar. Assim, com exceção da família 4, composta somente pelo sistema fraterno, todos os outros integrantes foram identificados como pais ou filhos das famílias analisadas. A seguir, a tabela com os dados sociodemográficos das famílias participantes:
Família Configuração Pessoa(s) trans Profissão Tempo de transição F1 Mãe (49 anos) Filho M- Freelancer 3 anos
Filho (30 anos) F- Freelancer Neta (7anos)
F2 Mãe (60 anos) Filha M- Professora 6 anos
Pai (62 anos) P- Engenheiro
Filha (32 anos) F- Publicitária
F3 Mãe (60 anos) Filho M- Aposentada 2 anos Filho (24 anos) F- Comerciante
F4 Irmão (29 anos) Irmão I - Estudante 4 anos
Irmã (21 anos) I - Estudante
3.4.2- Apresentação das categorias
As categorias emergentes ao longo do processo de análise foram agrupadas em Eixos temáticos, seguindo duas diferenciações: categorias conceituais e categorias descritivas. As categorias conceituais foram estabelecidas a partir da fundamentação teórica realizada para este estudo, precedendo, deste modo, a experiência empírica. Algumas destas categorias originaram-se do próprio questionário semiestruturado e da fundamentação teórica, como
“luto e readoção” e “importância de participar da pesquisa”. Por outro lado, as categorias descritivas emergiram de falas significativas dos entrevistados, apontando nichos de análise relevantes em nossa investigação (SANTOS, 2012).
A definição das categorias evidenciou que orbitavam em torno de dois eixos temáticos distintos: “dinâmica familiar” e “atravessamentos sociais”. Inicialmente, o eixo “dinâmica familiar” abarca as categorias cujo conteúdo relaciona-se com os impactos da transição de gênero na dinâmica e no funcionamento familiar, em suas dimensões interrelacionais e psicodinâmicas respectivamente. Por outro lado, o eixo “atravessamentos sociais” engloba os aspectos relacionados às respostas sociais à transição vivenciada em família. Apesar de interrelacionados, os eixos apresentaram-se com especificidades que justificam tal distinção, mostrando-se relevantes tanto para a análise como para a qualificação dos dados obtidos.
Assim, a distribuição das categorias ocorreu da forma apresentada na tabela abaixo.
Tabela 1
Eixos temáticos e categoria
Eixo temático Categoria
I – Dinâmica familiar Conceitual
Luto e readoção
Reedição da adolescência na família Um armário com várias portas Descritiva
Formas de tratamento oscilante Escolha do nome, uma “escolha familiar”
II - Atravessamentos sociais Conceitual
Medo associado à violência e ao futuro Relação com a família extensa
Descritiva
Importância de participar da pesquisa Importância da rede de apoio