O edifício a ser intervencionado encontra-se em Lisboa, a nordeste da rotunda do Marquês de Pombal, na Rua Eça de Queiroz. Por ser do início do século XX é uma das edificações de urbanização desta vasta área em que hoje facilmente se identifica o desenho dos quarteirões, já indiciado na cartografia das últimas décadas do século XIX.
No início do século XX, um pouco por toda a Europa, dá-se o debate entre a modernização, baseada na utilização de novas técnicas e materiais, e a nostalgia que se opunha a essa mudança. Este edifício na Rua Eça de Queiroz é exemplo da última, como acontece com vários edifícios do mesmo autor: apresenta largas paredes resistentes em alvenaria de pedra e vigamentos de madeira. Ao nível da fachada, o desenho é de gosto revivalista, eclético.
Projetado em 1916 pelo arquiteto António do Couto e construído em 1918 com consideráveis alterações ao desenho original, funcionou inicialmente como estabelecimentos e moradia, no primeiro e segundo piso respetivamente. As principais alterações ao projeto encontram-se no desenho da fachada principal - substancialmente menos ornamentada - e na escada - seria de dois lances em curva e passou a uma solução mais “barroca” de 3 lances, em simetria.
A entrada faz-se ao centro da fachada principal, seguida da escada que se afirma em frente como elemento forte. Um pátio interior central ilumina-a, bem como aos espaços em redor.
O projeto previa o emprego dos materiais em seguida descritos:
Cantaria de Lioz na fachada principal.
Pinho português nos vigamentos.
Alvenaria de pedra ordinária nas paredes.
Betão nos pavimentos da loja e páteo.
Madeira casquinha nos pavimentos do 2º piso.
Calçada portuguesa no pavimento da entrada de serviço.
Foi muito intervencionado ao longo dos anos:
Em 1945 foi acrescentada uma escada que levava do 2º piso até à cobertura em terraço, que por sua vez passou a servir também de terraço ao edifício a oeste pertencente ao mesmo dono.
Em 1979 foi pedida permissão para construção de um 3º piso, para refeitório, que foi indeferido por ser considerado excessivamente contrastante no que toca à materialidade e demasiado evasivo ao nível da fachada. Apesar destes avisos, o 3º piso acabou por ser construído ligeiramente recuado em relação à fachada. Nunca foi licenciado e permanece até à atualidade.
Em 1985 a câmara municipal emitiu um parecer em que permite demolições de interiores, mas lembrando que a fachada principal deve ser mantida e integrada em projetos futuros.
Em 2004 o edifício passou a ser a sede de um banco e acabou por ser intervencionado por esta razão. Embora não existam documentos que o comprovem, há um elevador que não estava patente em desenhos prévios e poderá ter sido resultado destas alterações, bem como a modificação de algumas divisões.
A proximidade à praça do Marquês de Pombal - atualmente um dos grandes centros da metrópole - oferece muita diversidade de serviços e uma grande variedade de possibilidades no que respeita aos meios de transporte, nomeadamente as linhas azul e amarela do metropolitano de Lisboa, os serviços de autocarros da Carris, Vimeca e TST, bem como os meios de transporte privados que contam com vários parques de estacionamento.
Programa
A primeira fase de aproximação a um projeto de arquitetura não deve ser de imediata criação traduzida em esquissos ou maquetes. O projeto arquitetónico passa primeiramente pela definição de uma “equação” composta por diversas variáveis: a envolvente natural e construída do lugar, o contexto social, histórico, cultural e económico, e o programa. De certa forma, todos estes temas aparecem como dados certos à partida, à exceção, idealmente, do programa.
O papel inicial do arquiteto passa pela revisão do programa, independentemente da escala do projeto atribuído - da habitação particular aos grandes equipamentos da cidade. Só depois da correta definição desta pedra basilar se pode elaborar uma proposta bem fundamentada.
Esta responsabilidade assume maior dimensão nos dias que correm, em que a arquitetura se tornou um processo rápido e pressionado, tendencialmente gerador de propostas irrefletidas.
A reabilitação integra-se neste paradigma com particular gravidade: frequentemente os interesses dos donos de obra entram em colisão com a morfologia dos edifícios pré-existentes, criando situações de tensão. Resultam edifícios em que a fachada se mantém em prol da linguagem urbana envolvente, mas o interior cede a interesses de ordem económica e / ou funcional. O termo “fachadismo” 1 2 aparece regularmente como crítica a projetos de reabilitação em que a intervenção desvirtua o interior do edifício em relação à sua fachada. Num momento em que zonas centrais de cidades consolidadas apresentam inúmeros casos de edifícios em rápido processo de degradação é crucial encontrar forma de resposta que não os descaracterize. Estou convicto de que essa resposta passa fortemente pela correta elaboração do programa. Os edifícios e os centros das cidades não devem estagnar no momento em que as suas funções se tornam obsoletas, contudo as novas funções propostas devem ser respeitadoras da sua morfologia base. Assim, propõe-se um novo ciclo de vida às construções 3 que vão sofrendo abandono e degradação, sem que se corra o risco de cair em “fachadismo”.
1“Façadism or façadomy is a way for urban tradition to conform to development, when historical building preservation contradicts the plans of urban developers.” em Kyriazi, E. (n.d.). Façadism , Building Renovation and the Boundaries of Authenticity Author, 2(2), 184–195.
2“This practice involves erecting modern or futuristic buildings behind the façades, premises that have nothing in common with the historical façade; the latter somehow clinging to a new construction, usually larger in volume.” em Kyriazi, E. (n.d.).
Façadism , Building Renovation and the Boundaries of Authenticity Author, 2(2), 184–195.
3“É importante integrar os monumentos, conjuntos e sítios na vida social e, para tal, conferir-lhes uma nova função, no contexto das actividades e dos requisitos actuais (revitalização), e adaptá-los criteriosamente às necessidades do nosso tempo (reabilitação).” emCouncil of Europe (1976) Resolution (76) 28 concerning the Adaptation of Laws and Regulations to the Requirements of Integrated Conservation of the Architectural Heritage, II. Principles of integrated conservation policy, III. National integrated conservation policies.
“Requalificar a cidade existente (...) exige o melhoramento das condições físicas do parque construído através da sua reabilitação e da instalação de equipamentos, infra-estruturas e espaços públicos, mantendo a identidade e as características da cidade (...).” em 1º Encontro Luso- Brasileiro de Reabilitação Urbana (1995) Carta de Lisboa sobre a Reabilitação Urbana Integrada, Artigo 1º .