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De acordo a teoria sociolinguística, existem processos de variação, contínuos nas línguas, que levam a mudança; sendo assim, um dos principais objetivos estudados pelos

pesquisadores, nesse modelo teórico-metodológico, é sistematizar e descrever a heterogeneidade da língua falada; e, para tanto, parte-se do princípio de que a variação nunca é aleatória, ao contrário, defende-se que esta é motivada por fatores linguísticos (estruturais) e extralinguísticos (sócioculturais).

Desse modo, com a premissa de que a variação não é acidental, ela pode se controlada por variáveis que esclarecem a forma pela qual a variação é regulada, podendo antever os contextos de ocorrência das variantes. Pode-se ainda detectar a direção da mudança, percebendo se está ou não havendo variações em direção à mudança linguística.

As variáveis explanatórias linguísticas são fundamentais para o entendimento da língua, da maneira pela qual funciona, estabelecendo o papel que cada variável desempenha dentro do processo de variação, traçando o perfil linguístico da comunidade em foco. Assim, analisamos algumas variáveis nas quais foram consideradas em razão da natureza linguística das amostras de fala que compõem o nosso corpus, a exemplo da presença de determinantes no SN com o elemento possessivo e da quantificação do referente possuído, enquanto que as demais foram consideradas devido às especificidades do fenômeno em estudo. Nesse sentido, foram consideradas as seguintes variáveis explanatórias linguísticas, o que se refere à primeira do plural (mas cuja aplicação ficou invibiliazada, neste trabalho, devido à ausência de variação detectada):

a) variável dependente;

b) paralelismo formal (correlação com o pronome pessoal sujeito);

c) paralelismo discursivo (alternância das formas de referência pessoal por informante nas entrevistas);

d) tipo de posse;

e) sexo;

f) faixa etária;

g) local de nascimento;

h) língua nativa

4.5.1 A Variável Dependente

Conforme expusemos anteriormente, selecionamos como variável dependente desta pesquisa a expressão de posse referente a todas as pessoas gramaticais, considerando a variação como binária, formas sintéticas versus formas analíticas.

Assim, convém salientar, por exemplo, que a variante nosso e flexões é considerada a forma padrão, a que consta nas descrições tradicionais, exemplificada nos quadros ilustrativos sobre os pronomes possessivos, nas gramáticas pedagógicas, tradicionais e normativas. Já a configuração da gente, que praticamente não aparece em tais gramáticas, e,

da mesma forma, é ainda considerada pouco utilizadas nas variedades do PA, segundo demonstram as análises empíricas realizadas; contudo, essa variante foi considerada neste estudo, sobretudo, porque desejávamos averiguar a correlação com a forma inovadora de referência pessoal a gente. Foram consideradas também formas analíticas como: de eu, de você(s), de tu, de nós e dele.

4.5.2 Paralelismo formal (correlação com o pronome pessoal sujeito)

Estimulada pelas análises de Scherre e Naro (1993), em que, analisando a concordância verbal, correlacionaram a aplicação da regra de concordância verbal (SV) com a concordância nominal no SN sujeito da oração e que chegaram à conclusão de que, no nível clausal (da sentença), a ausência de marcas formais no SN sujeito conduz à ausência de marcas formais no SV.

Assim, dependendo do estudo e levando em conta que existe uma relação entre a referência pessoal e a referência possessiva, observamos que quando o informante utiliza a gente, em referência a primeira pessoa do discurso no plural, tende a usar com maior frequência a forma da gente, para a referência à posse a tal pessoa do discurso. Da mesma forma, acontece quando se usa o pronome pessoal nós, favorecendo a ocorrência do possessivo nosso. Dessa forma, consideramos paralelismo formal a correspondência entre a referência pessoal e a referência possessiva numa mesma sentença.

Dessa forma, supomos uma ligação entre os elementos de menção pessoal e os de menção possessiva, pois acreditamos que a variação entre os possessivos decorre de um processo de variação em cadeia, isto é, as variações existentes no sistema de referência pessoal repercutem no dos possessivos. Assim, esperávamos encontrar a forma da gente, correlacionada com o uso da forma a gente, e, as formas nosso (a) (s) e de nós correlacionadas à forma nós. Organizamos o grupo de fatores para essa variável explanatória como mostra o Quadro 8:

Quadro 8 – Variável Paralelismo formal (correlação com o pronome pessoal) Grupo de

fatores

Descrição Próximo a

nós

O elemento indicador de posse encontra-se próximo a nós (anteposto ou posposto)

Próximo a a gente

O elemento indicador de posse encontra-se próximo a a gente (anteposto ou posposto).

Não se aplica

O elemento indicador de posse não está nem anteposto nem posposto à forma nós ou a gente.

Fonte: elaboração própria.

De acordo o quadro acima, o nosso objetivo foi o de pesquisar se de fato há uma distribuição diferenciada das ocorrências das variantes nosso/da gente, motivada pela forma de referência pessoal.

Assim, sugerimos que os informantes que fazem mais uso da forma a gente, usam também a forma da gente, enquanto que os que usam mais a forma nós, utilizam mais as formas nosso e de nós.

4.5.3 Paralelismo discursivo

Entende-se por paralelismo discursivo um fenômeno linguístico que tem seu uso atraído pela forma precedente da mesma natureza. Dessa forma, espera-se que, nos casos de variação, quando o falante utiliza uma dada variante, ele a repita nos contextos subsequentes.

Esta variável é muito usada na literatura sociolinguística, conforme nos mostram as pesquisas feitas por Vieira (1997); Omena (1996); Scherre e Naro (1993), assegurando que há, nas línguas, a tendência de se repetir a variante utilizada no contexto anterior. E, Naro e Scherre (1993) confirmam a hipótese de o paralelismo linguístico ser possível em todas as línguas naturais.

Assim, resolvemos controlar essa variável na tentativa de sistematizar a variação focalizada neste estudo. Suponhamos que o uso da forma da gente deve ser favorecido quando o falante já tenha utilizado essa forma anteriormente no discurso; o que também ocorreria em relação às formas nós e variantes, levando à hipótese de que quando um texto apresenta uma forma determinada de indicação de posse, no início da sequência discursiva, a tendência é a de desencadear repetições na estrutura empregada anteriormente.

Portanto, é necessário que o pesquisador quando utilizar a variável paralelismo no

nível discursivo tenha alguns cuidados sobre os resultados para que não sejam confundidos por outros fatores envolvidos.No direcionamento de Machado (1995),

(1) o grau de distanciamento entre as formas seriadas – espera-se que quanto maior a distância entre elas, maior a tendência da escolha de outras formas; não se repetindo a forma já utilizada anteriormente;

(2) a mudança de referente – quando ocorre mudança do referente diminui a probabilidade de haver menção da forma precedente;

(3) o grau de coesão discursiva – quando menor o grau de coesão entre as orações, menor a possibilidade de ocorrer alterações em relação a forma anteriormente escolhida. (MACHADO, 1995, p. 17).

Desse modo, é pertinente levar em consideração a sequência discursiva referente a forma possessiva (o possuidor) na mesma ocorrência anterior; observar se a forma está separada por mais de dez cláusulas; e não considerar as séries discursivas quando a forma de indicação de posse se apresentar na fala do documentador. Os fatores deste grupo estão expostos no Quadro 9.

Quadro 9 – Variável Paralelismo discursivo

Grupo de fatores Descrição

Primeira menção O elemento indicador de posse é usado pela primeira vez na série discursiva.

Precedido por nosso e flexões

O elemento indicador de posse nosso e flexões está em contexto com a forma nosso e flexões precedente.

Precedido por da gente O elemento indicador de posse da gente está em contexto com a forma da gente precedente.

Precedido por de nós O elemento indicador de posse de nós está em contexto com a forma de nós precedente.

Fonte: Araujo (2005).

4.5.4 Tipo de posse

O tipo de posse diz respeito às questões semânticas, reiterando que algumas variáveis semântico-discursivas, a exemplo do contexto aplicado aos pronomes possessivos, vêm sendo aproveitadas em estudos sociolinguísticas com grande relevância na medida em que comprovam a consistência das relações entre grupos de fatores semânticos e as formas usadas como variantes, que envolvem questões de significado (GRYNER; OMENA, 2003, p.

89). Nesse sentido, Gryner e Omena (2003) fazem menção aos estudos realizados no âmbito

do Programa de Estudos Sobre o Uso da Língua - PEUL, nos quais a consideração da variável animacidade do referente foi fundamental para a sistematização das variáveis dependentes consideradas.

Sobre o traço de animacidade do referente possuído, resolvemos não controlar essa variável, pois as diferenças no uso das formas nosso(a)(os) (as)/ da gente seria muito mais decorrente do nível de referencialidade do possuído do que propriamente devido ao traço de animacidade. Percebemos, desta forma, que haveria uma diferenciação em relação ao uso das variantes, na medida em que as formas alternantes teriam níveis de transparência semântica diferenciados, sendo da gente mais transparente (em forma crescente de transparência semântica: nosso (a)(s)> da gente). Prevíamos que em posses mais concretas (a posse material) fossem mais utilizadas as formas da gente e nas mais abstratas, as formas nosso(a) (s). Para o controle dessa variável semântica, resolvemos seguir os grupo de fatores exposto no Quadro 10.

Quadro 10 – Variável Tipo de posse

Grupo de fatores Descrição

Posse material O possuído é algo que pode ser comprado.

Posse abstrata O possuído é algo que não pode ser comprado, mas, em alguns casos, pode ser adquirido ao longo do tempo. Pode ser de caráter moral, afetivo, social intelectual e espiritual.

Posse inalienável/ inerente O possuído é inerente ao possuidor; não pode ser adquirido ao longo do tempo.

Fonte: elaboração própria.

Demonstraremos os tipos de posse, através dos exemplos 26, 27, 28 e 29:

(26) Não...mas também. Pronto. Eu ter viajado com alguem de renome já falecido que Deus o tenha. Temos levado uma rua tenda, maior que esse nos acampamos logo ali. Não fomos na residência de ninguém ( ) através da nossa tenda é onde a gente vivia, chegamos em Portambui, a nossa tenda recolheu não sei o que chegamos a Pagabela remetemos a nossa tenda

(Inf.:U.I.D., H,1,M,C,F) (27) E conforme está a nossa sociedade, hoje nós temos conhecimento de….

(Inf.: U,I,G, H,1,B,C,F) (28) o meu namorado e o meu irmão a vir por ali, meu irmão, no é meu pai é menor no é mais velho.

(Inf.: U.M.D., W,1,C,M,F)

(29) Não, não danço. Normalmente, gosto de ler, é... gosto de fazer umas caminhadas... isso é o que ocupa meu tempo livre.

(Inf.: U.I.G., W,3,S,C,L)

Para a terceira pessoa do sistema de posse do português falado em Luanda. pensamos nas seguintes variações; generacidade do possuidor, forma de realização do possuídor, animacidade do possuídor, número de possuídor e número do possuído; porém, somente consideramos as variáveis linguísticas ou estruturais abaixo:

i) animacidade do possuído;

j) concordância de número;

k) presença de determinante antes do possessivo;

l) posição do possessivo em relação ao possuído.

4.5.5 Animacidade do possuído

Para a análise dos fatores de animacidade do possuído em relação à terceira pessoa, resolvemos controlar essa variável pois prevíamos que em posses mais concretas, como a posse material, fossem mais utilizadas as formas da gente e nas mais abstratas deles, se contrapondo a oposição entre dois traços elementares: inanimado versus humano.

A animacidade do possuído também engloba o grupo de natureza que pode referenciar a um conjunto mais amplo de elementos e coisas.

4.5.6 Concordância de número

A concordância nominal é entendida por uma relação de apoio entre elementos de um dado discurso com a inserção da marca de plural -s nos elementos que sofrem flexões em um sintagma. Para Dubois (1973, p. 136):

Concordância é o fenômeno sintático pelo qual um substantivo ou um pronome pode exercer pressão de alteração formal sobre os pronomes que o representam, os verbos de que ele é sujeito, e os adjetivos ou particípios que a ele se referem (DUBOIS, 1973, p. 136)

A concordância nominal para Bechara (2009) se verifica em gênero e número entre o adjetivo e o pronome (adjetivo), o artigo, o numeral ou o particípio (palavras determinantes) e o substantivo ou pronome (palavras determinadas) a que se referem.

Dessa forma e pelos conceitos apresentados acima, essa variável é importante no nosso

trabalho visando observar o nível de ajuste na língua em que os informantes fazem relações com à estrutura através do seu uso em funcionamento.

4.5.7 Presença de determinante antes do possessivo

A importância dessa variável se faz necessária por considerarmos que se encaixa no estudo da língua Portuguêsa, como defende Castro (2001; 2006), que afirma que no Português atual, isso incluindo o europeu (PE), e tradicionalmente é o que os angolanos utilizam e tem por norma; enquanto que o brasileiro existe apenas uma forma possessiva para cada combinação de pessoa-número, podendo ser combinado com o determinante, além de ocorrer isoladamente.

Na concepção de Castilho (2012, p. 501), “reconhece-se tradicionalmente que o possessivo é a classe que estabelece uma relação entre um possuidor e uma coisa possuída”.

Seguindo o pressuposto, os possessivos sempre se referem a uma coisa possuída, categoricamente de 3ª pessoa, vimos essa explicaão no capítulo 2, enquanto o possuidor tende a ser aplicado a todas as demais pessoas do discurso. Ocorrendo porque o pronome possessivo seleciona dois sentidos, sendo um referencial e o outro contextual às pessoas do discurso (CASTILHO, 2012).

A característica mais atribuída aos possessivos é a de estabelecer relações e Bittencourt (2003, p. 67) instrui que “os pronomes possessivos são palavras de natureza gramatical que servem para estabelecer relação das pessoas do discurso com alguma coisa do mundo bio-social”.

Seguindo esse pensamento, Longobardi (2001) expõe que alguns elementos são apontados por iniciarem a maioria de estruturas nominais por meio de um item e/ou mais de um, marcadas por classes de palavra que são os chamados determinantes.

Os determinantes podem fazer a função de um demonstrativo, artigo, possessivo, quantificador e número cardinal que são divididos por meio da categoria gramatical dos elementos na posição de especificador, não determinando um nome, e sim gerando especificações para esses nomes quantificando e caracterizando a locução.

4.5.8 Posição do possessivo em relação ao possuído

Observamos que na Língua portuguesa o que promove a posição do pronome possessivo é a definitude. Assim, o emprego do posicionamento de tal pronome em situação

de antes e depois pode ser interpretado como uma importante causa variável que se relaciona à função da posição do determinante como marcador.

Terminada a explanação acerca das principais características e hipóteses das variáveis linguísticas aqui selecionadas, discorreremos nas próximas subseções sobre as variáveis sócio-culturais consideradas nesta análise.

4.6 AS VARIÁVEIS EXPLANATÓRIAS SÓCIO-CULTURAIS: CARACTERÍSTICAS E