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Analisando as séries e comparando suas realidades

No documento Revista-Escaleta-n01.pdf (páginas 154-160)

O USO DAS IMAGENS PARA CONTAR HISTÓRIAS

4. Analisando as séries e comparando suas realidades

Judy no lago em que a nave afundara, tentando salvar células de energia para que eles sobrevivessem à noite extremamente fria.

O episódio trabalha muito com flashbacks para nos apresentar o contexto da história: quem são essas pessoas, como chegaram até ali e porquê. Neles, podemos ver também o desenrolar de questões climáticas e ambientais na Terra, que teria se tornado “irrespirável”, assim como o processo de seleção da família para a viagem espacial, tendo passado por testes escritos, físicos e psicológicos.

Na missão de resgate de Judy, em busca de magnésio para atravessar o gelo, Will acaba se separando de seu pai e descobrindo uma nave aparentemente alienígena caída no meio da floresta, o que o leva a encontrar vida também extraterrestre. Trata-se um robô de origem orgânica que, após ser salvo por Will, acaba por criar uma conexão com o menino, salvando-o de um incêndio na floresta, Judy do gelo e, no fim, todos, ao evitar que eles congelassem até a morte no alto da geleira.

No último flashback, são apresentados os personagens Don West e Dr. Smith.

Nesse cenário, Don West não é o piloto da Júpiter 2, mas um mecânico na Resolute – uma estação espacial que carrega todas as Júpiters (nessa versão não são apenas os Robinsons os enviados para o espaço), e a Dr. Smith é uma mulher que a princípio parece estar perdida. Provavelmente, ela não deveria estar ali, no meio de um ataque à Resolute por um robô (sim, o mesmo robô que salva Will e os Robinsons), acaba por roubar a identidade de um homem que teria sofrido ferimentos sérios. Vemos várias Júpiters evacuando a Resolute enquanto o ataque ocorre e, no fim, tudo parece ser sugado para dentro de um buraco negro, acabando, então, o piloto da mais nova versão da clássica história de Perdidos no Espaço.

tempo, optei por analisar os pilotos da versão original e da versão de 2018 de Perdidos no Espaço porque estes revelam muito sobre estes aspectos específicos acima citados, podendo dar clareza sobre o tema central da pesquisa. São destacadas, aqui, quatro questões específicas a serem analisadas nas duas versões: a representação da família, o lugar das personagens femininas, a construção da personagem Dr. Smith e o Robô.

4.1. Os Robinson

Apesar da base de a história se manter e dos personagens serem os mesmos, observamos clara divergência na forma como assistimos à série de 1965 e a de 2018, tanto na parte narrativa quanto na parte estética. Podemos reparar, primeiramente, a diferente maneira como os episódios iniciam e apresentam seus personagens.

Em O Clandestino Teimoso (1965) temos um narrador explicitando verbalmente o contexto de forma linear, juntamente de uma explicação direta vinda de um personagem jornalista apresentando na televisão o porquê do projeto de exploração do espaço estar acontecendo (a superpopulação), junto com imagens dos Robinson prontos para embarcar, acenando felizes para as câmeras e claramente representando a clássica família americana, tão em voga nas décadas de 1950 e 1960.

Já em Impacto (2018), iniciamos a jornada dentro de uma nave (Júpiter 2) com uma família usando trajes modernos e jogando cartas, apenas para ver, em menos de cinco minutos, o desenrolar de eventos que acabam por derrubar os Robinson num planeta gélido e desconhecido, deixando-os à deriva sob circunstâncias extremas. Além da apresentação não ser linear, os motivos que os levaram a chegar até ali são apresentados ao longo do episódio em flashbacks, uma maneira muito mais fluida de seguir com a narrativa e que nos faz entender também detalhes como: neste remake os Robinson não são a única família a viajar para Alpha Centauri, a família não é tão perfeita assim e o motivo porque estavam indo estava

ligado a questões climáticas e ambientais que tornaram o planeta Terra praticamente irrespirável.

Enquanto em O Clandestino Teimoso o pai é apresentado como o líder, amado por todos, em Impacto o pai já é apresentado como “o cara com quem quase todos da família têm um problema”, especialmente a filha Judy, que faz questão de em certo momento do episódio pontuar que “talvez ele tenha se esquecido que ele não é o líder ali”.

Existe uma quebra de padrões, apesar da essência de a história se manter, além do aprofundamento de personagens numa visão mais real, com um background muito mais interessante para o Robô, uma mudança para Dr. Smith e uma maior visibilidade para as mulheres de um modo geral.

4.2. Personagens femininas

Este aspecto aponta para uma grande diferença entre as duas versões. No remake de 2018, pode-se observar, sem dificuldades, a forma como as personagens femininas possuem mais diálogos, mais importância e mais destaque do que as de 1965 – mesmo tratando-se de uma comparação apenas entre pilotos –, fato que se dá pelo mudança na sociedade que, apenas para começar, abandonou o “american way of life”, em tradução literal “o modo de vida americano”, conceito atrelado a aspectos como gênero, consumo, beleza e regras do que se precisa ter e ser para ser bem-sucedido e feliz. “[...] o cinema de Hollywood da década de 1950 passou a ser visto como um dos meios ideais para propagar ideias e comportamentos de uma sociedade em ascendência (FERNANDES, 2018)”.

Claramente o ideal do “american way of life” não compactuava com o ideal feminista, que por sua vez começou a crescer gradativamente, tendo tido, por exemplo, em 1968, uma série de intervenções, incluindo a primeira manifestação organizada pelo grupo New York Radical Women, episódio que ficou famoso pela queima dos sutiãs; e nasceu ainda os Women’s Studies ou os centros de estudos da mulher em ambiente acadêmico. Foi também na década de 1970 que, como cita

Mello (2017), “a tentação de quebrar e subverter essa espécie de parque de diversões só para meninos, cutucar foguetes fálicos e o imperialismo intergaláctico”

foi praticamente irresistível para autoras como Joanna Russ, Ursula Le Guin, Octavia Butler, entre outras. Também na última década, o movimento feminista vem tomando proporções maiores com intervenções em passeatas, aumento de discussões on-line, na política, no trabalho e em aspectos, como, por exemplo, a representação da mulher dentro na literatura no audiovisual.

4.3. Dr. Smith

Isso influencia, ainda, outras mudanças entre as versões, como o lugar da personagem Dr. Smith. Além de ser interpretado por um homem na versão original, a personagem era inicialmente um agente do governo inimigo cujo principal objetivo era sabotar a nave espacial dos Estados Unidos, evitando assim que os americanos colonizassem o espaço.

Se levarmos em consideração o contexto histórico da época nos encontraremos diante da tensão entre Estados Unidos e União Soviética que, em meio à Guerra Fria, disputavam a corrida espacial. Concluímos, portanto, que uma das inspirações em Perdidos no Espaço se deve à idealização de que os EUA venceriam a corrida espacial e colonizaria o espaço, enquanto a União Soviética estaria ali para tentar impedir tal feito.

Por outro lado, o reboot nos traz Dr. Smith interpretado por uma mulher (Parker Posey), cujo objetivo era escapar do planeta Terra por motivos pessoais e se encontrava dentro da Resolute sem autorização para estar ali, tomando para si a identidade e a Júpiter do verdadeiro Dr. Smith quando a base é atacada. Se Jonathan Harris criou o personagem cômico-vilanesco, Posey cria uma personagem inspirada no original, mas, mesmo assim, completamente diferente.

4.4. O Robô

Podemos destacar, ainda, a forma como os robôs são apresentados em cada uma das narrativas, sendo um personagem importante para a história e estando fortemente ligado ao pequeno Will Robinson. Enquanto na versão original o Robô é construído por humanos e praticamente faz parte da nave, ou seja, os acompanha (aos Robinson) desde o planeta Terra, sua aparência física é simples e até mesmo tosca. Já no reboot de 2018, o Robô nos é apresentado como um alienígena que aparentemente também sofreu um acidente com sua nave e caiu naquele mesmo planeta, e que acaba se tornando emocionalmente ligado a Will após o menino salvar sua vida. Dessa vez, o Robô é extremamente moderno – até orgânico, possui habilidades como transformação do corpo (a princípio ele tem pernas parecidas com as de dinossauros e quatro braços, depois que analisa Will ele toma uma forma mais humanoide, com duas pernas e dois braços, sem garras) e demonstra o que nos parece com sentimentos humanos.

Observamos, ao comparar as famílias e toda a estrutura da história, que a versão original possui um tom mais leve, muitas vezes cômico (com exceção da primeira temporada), e até mesmo um toque fantasioso, com uma cabine para o sono autoinduzido em que ficam em pé sem nenhum tipo de apoio e trajes prateados brilhantes, porém claro baseamento contextual em acontecimento reais e atuais, especial e primeiramente na parte político-social do mundo e dos EUA como um todo. Já na versão de 2018, podemos observar uma maior seriedade na forma com que a obra é tratada, com um caminho bem mais focado nas especificidades da ficção científica em si e, portanto, na veracidade de questões científicas em geral, com trajes mais elaborados e modernos, até mesmo baseados em obras como Interestelar (2014), por exemplo, e objetos (nave, carros, dispositivos etc) muito mais adequados à ideia.

Figura 01 - Personagens da versão original de Perdidos no Espaço, 1965

Fonte: Perdidos no Espaço (1965)

Figura 02 - Família Robinson no remake do Netflix, 2018

Fonte: Perdidos no Espaço (2018)

Figura 03 - Cena de Interestelar, longa metragem, 2014

Fonte: Interestelar (NOLAN, 2014)

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