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6.5 Vida sem atalho

6.7.2 Anatomia – A disciplina do corpo

Ora, agora é preciso emascular o homem.

[…]/ – Colocando-o de novo, pela última vez, na mesa de autópsia para refazer sua

anatomia./ [...] O homem está doente porque está mal construído.

(ARTAUD, 1974, t. XIII, p. 104).

A exploração anatômica do corpo é controvertida desde a sua fundamentação.

Até ela ser naturalizada como recurso pedagógico, o modelo e forma em torná-la moralmente aceitável, foi vigorosamente disputado desde a antiguidade. A hierarquia de ordem utilitarista que pressupunha que a dissecação se justificaria para descobrir segredos do interior do corpo, ou antes para comprovar o que sobre ele já havia sido escrito foi duelada por ordem intelectual

entre a filosofia e a medicina.

A dissecação nasce como prática legítima de pesquisa e na educação anatômica a partir da contribuição de circulação dos textos clássicos gregos e árabes, o desenvolvimento do ensino universitário e a prática da necropsia (Carlino 1999 apud, ORTEGA, 2008).

Amiúde o caráter que além da disputa intelectual se dava entre as entre as teorias, era também a supremacia de quem lia/instruía - o acadêmico, que aparece nas figuras renascentistas usando uma indumentária distinta do operário ou operador, sempre com a faca de corte na mão. Temos então dentro da própria medicina o paradigma

de um dos nossos eixos mais visitados, “opressões na universidade”.

A estudante fala sobre sua reprovação no primeiro período, diz da sua estranheza ao chegar no primeiro dia no laboratório anatômico, e só ter o corpo dela e o dos cadáveres, negro. Sua fala embargada se desvia, e reacende ao encontrar sua veterana negra na mesma sala virtual:

“Eu olhei para os lados, nenhum/a professora/o negra/o, nenhum/a aluna/o negra/o. Só nesse momento percebi que meu corpo ali era um estranho. Sai da aula para abraçar minha veterana, que bom ela estar nesse projeto também”. Em fevereiro de 2021, em outro encontro virtual com a turma, a estudante relata espontaneamente estar fazendo novamente a disciplina, agora na modalidade virtual....

É o fim, diz ela, agora coleciono as “fotos” das peças! Com tantas pessoas morrendo preciso ver corpos recortados e chamar de “peças”, odeio essa palavra...

O corpo é a matéria prima essencial do aprendizado nas graduações das ciências da saúde, o primeiro “objeto” de investigação e o meio pelo

entre o médico que cura e o que opera resolvido pelo modelo de Vesalius, que inaugura uma dupla função para a anatomia:

- a teórica e a prática.

O modelo clássico ilustrativo de Vesalius, considerado o pai da anatomia moderna, figura o caráter de interesse popular herdado de dois séculos anteriores.

Um decreto oficial ordenado ao Colégio de Médicos Cirurgiões de Veneza, definiu que fosse agendado regularmente pelo mesmo uma vez ao ano, uma dissecção pública. Durante o século XIV e o XV além da Itália, Inglaterra e França seguiram essa modalidade da anatomia entretenimento (Laín Entralgo, 1999, 1954, apud Talomani, 2014, p.34). Sua figura ilustrativa de maior circulação é a dissecação do útero de uma

mulher rodeada por homens.

O caráter social da anatomia acabou corroborando para organização de uma arquitetura apropriada, teatros construídos com especificidades capazes de dar ao público a “visibilidade do espetáculo”. Logo o padrão cultural foi adequado por consumidores que se dividiram; os aristocratas anglo-saxões construíram seus próprios teatros, para se reservarem dos que se ocupavam de suas grotescas interações misturadas ao efusivo período de carnaval, quando ocorriam os teatros anatômicos.

Para Le Breton (1993) a banalização da morte engendrada pelas teatralizadas dissecações públicas exerceu uma forte influência sobre as

qual o indivíduo se debruçará por toda sua carreira profissional. Considerando que o estudo de anatomia seja o primeiro contato da investigação técnico/científica do estudante/pesquisador seja dada a partir de um corpo morto, indigente e

majoritariamente negro, quais desdobramentos se dão em face desse encontro?

Certos valores fundamentais para a construção de uma boa relação profissional de saúde/usuário advêm de suas habilidades em lidar, tanto com seus dilemas éticos sociais, quanto dos relativos ao encontro. Uso a palavra usuário por falta de uma menos

“coisificada”. Do ponto de vista de pensarmos uma relação mais horizontalizada, até isso deve ser incorporado. Entender que somos pessoas corporais em processo de constante educação pode nos fazer praticantes de outros pontos de vista. A educação somática, por exemplo, é uma forma de aprender corpo pelo corpo. A relação, mesmo que seja de ordem assistencial por alguma queixa de disfunção, é tratada entre condutor e aluno.

bell hooks, ao dizer o quanto alunos que desejam ser vistos como seres humanos integrais, com vidas e experiências complexas e não como meros buscadores de

pedacinhos compartimentalizados de conhecimento perturbam professores de

sensibilidades coletivas, sobretudo no que se concernia às questões de vida e morte. É, porém no performado corpo morto,

minuciosamente fragmentado que se treina dominar e intervir do que é ainda vivo no corpo. Talvez seja essa forma

inconsciente, morta e fragmentada, um espetáculo que nos faz fazer do outro e

de nós mesmos, sujeitos indigentes.

A faca de Vesalius desconsiderou a fina estrutura que entrelaça por várias camadas em rede, a fáscia, que trouxe outra

compreensão sobre a unidade que unifica os sistemas e estruturas do corpo. Uma trama que sustenta as interconexões, modulada por uma inteligência topográfica, localizada no

próprio corpo. Foi acompanhando os terapeutas corporais, da educação somática que Myers achou um

caminho para provar que ao recortar as partes do corpo, se perdia as finas camadas que os entrelaçam, re- unindo todas as suas partes. Thomas W Myers estudou diretamente com os Drs Ilda Rolf, Moshe Feldenkrais, dois exponentes da Educação Somática criadores dos métodos Integração Estrutural ou Rolfing, e Consciência pelo Movimento e Integração

Funcional. Seu trabalho é influenciado por estudos do movimento craniano visceral e intrínseco que desenvolveu

qualquer tendência política (2013, p.27), parece estar falando de uma educação indigente, recortada e em necropsia. A fragmentação prevista pela educação intelectual impõe ao corpo certa objetificação, uma formação anatomicamente construída, onde para que se venha fazer algum sentido, é preciso aprender a suturar tecidos mortos por autólise ou apoptose produzidos como resposta à isquemia colonial.

Alguns artigos, relatam que uma prática de dissecação mais humana, pode ser o caminho para incluir na educação médica boas práticas em sua construção como futuros profissionais (KUMAR, 2019). Em sua revisão sistemática ele chama de currículo oculto, valores que podem ser agregados, por exemplo como aproximar os familiares do doador e organizar homenagens a eles, após a dissecação. Outros são dirigidos às questões éticas da prática e ensino do campo, inclusive discutindo que em termos de treinamento técnico o uso de modelos não humanos parece também ser eficaz, porém a tradicional dissecação, ainda é a predileta (CHYTAS, 2019).

Santos, em uma revisão integrativa de 2017, diz que o currículo oculto é resultado das relações interpessoais desenvolvidas em uma esfera acadêmica, uma espécie de pano de fundo do processo de aprendizagem. Se é a forma ou o resultado

nas escolas europeias de osteopatia. Seu principal produto teórico é o livro trilhos Anatômicos (2001):

... é uma obra de arte em uma metáfora científica. Este livro se antecipa à ciência para propor um ponto de vista, o qual ainda está sendo literalmente desenvolvido e refinado. Assumo com frequência essa tarefa [...] de afirmar de forma categórica minhas hipóteses, utilizando alguns dos adjetivos qualificativos que, embora necessários para o rigor científico, diminuem a força visceral de um argumento.

(MYERS, 2001, p. XII)

Guiado pelo sentido estrutural em que as forças do corpo se integram para mantê-lo inclusive por suas substâncias endógenas e exógenas, moduladas por percepções sensoriais, produziu outra forma da

anatomia topográfica. Sua hipótese pela dissecção minuciosa que preservasse a continuidade do tecido fascial, trilhou a concepção da medicina oriental, que se guia por um sistema de meridianos. Para ele a geografia e a geometria da

miofáscia, as geodésias da tensegridade móvel do corpo, são os meridianos que o cingem.

Seu primeiro artigo sobre o assunto foi publicado em 1997 no Journal of Bodywork and Movement Therapies.

Segundo o autor, o corpo pode ser inclusive incorporado ao ensino público através de uma alfabetização cinestésica, um programa preventivo de

conscientização estrutural.