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95 jardim. Para se ter uma noção, não tinham convidado ninguém, de modo que, graças à ilusão juvenil, Sr. de Guerl e Simone podiam, naquele momento, parecer íntimos.

No entanto, ela tinha momentos inexplicáveis, cuja frequência aumentava com a aproximação do retorno a Paris. Assim, quando a tinha entrelaçada em seus braços, sob os lilases penetrados pelo brilho das estrelas, ele lhe dizia as coisas mais doces, falando, com ternura, de uma criança que os uniria mais ainda, de momentos apaixonados, de uma existência prazerosa e simples. A bem-amada parecia distraída, olhava-o com uma espécie de olhar fixo e incomum, como se estivesse escondendo uma queixa. Uma batida de pé contradizia as lágrimas singulares com as quais às vezes seus cílios cintilavam, o que dava à sua emoção um caráter de contrariedade, quase de impaciência, ininteligível.

Ela parecia prestes a gritar alguma coisa a ele. Depois, desesperada e como se desistisse, ficava em silêncio.

Bruscamente, dizia-lhe várias vezes, naqueles momentos:

— Sabe, Geoffroy, se eu quisesse, eu poderia deixar você? Sem nem avisá-lo, de uma hora para outra. Com o meu diamante, sou livre: teria tempo de escolher, dentre os mais ricos, um amante do meu gosto. Sim, se eu quisesse, a partir desta noite, bem, você estaria sozinho.

Sem mais Simone. — E então? O quê? Isso não o irrita nem um pouco? Obrigada!

Os olhos brilhavam. Parecia que ela estava esperando por uma palavra, um sinal, que o Sr. de Guerl não sabia expressar. As respostas súbitas do jovem foram recebidas por Simone com desvios de cabeça, um beicinho e, por um tempo, até com um ligeiro erguer de ombros.

“O que há de errado com você, Simone?”. Ela respondia séria, olhando para o nada: “Você verá que, com toda sua educação, você será a causa da minha morte.” “Mas... o que você tem!”, ele exclamava. “Ah! Se você fosse só um pouco... diferente!” “Então, você não me ama mais?”

“Sim... mas... não tanto quanto eu gostaria! E é sua culpa.” Ele sorria com essa palavra, e Simone, franzindo a testa, corria para se trancar no quarto, onde seu amante, às vezes, a ouvia chorar durante uma hora. Voltando para ele, aparentava ter “esquecido” seu pequeno escândalo.

Assim, sem prestar mais atenção ao incidente, Sr. de Guerl, desentristecendo-se, concluía com um “Deus! as mulheres são bizarras!” cuja poderosa banalidade o tranquilizava.

96 Num fim de tarde magnífico, perto de cinco horas, quando os dois estavam no jardim, como forma de uma distração paradoxal e por falta de outras, atiravam na grama com uma antiga besta; a jovem muito peculiar, não tendo mais nenhum dardo para arremessar, exclamou, de repente, após um longo olhar para o vazio:

— Toma! Eu sou estúpida! ... E isso?

Com um puxão, tirando o diamante de seu dedo, colocou-o na ranhura da besta, que estava apontada para os galhos e para as poças d’água inertes do Loire.

— Então ... Se eu o atirasse fora? Então? ... disse ela.

E ela ria.

— Simone! Você é louca! ... exclamou ele.

Mas, como se cedesse a algum movimento irresistível de histeria perversa, chegando à crise aguda, ela friamente pressionou o gatilho. Uma faísca, uma gota de fogo afundou-se no crepúsculo.

Enquanto o sr. de Guerl observava a amante com espanto, ela, deixando cair a besta, arrancou um graveto espesso, em seguida, colocando o outro braço em volta do pescoço do amante, murmurou, com os olhos semi-fechados, uma voz rouca, tenra e de um timbre que ele não tinha ouvido ainda.

Ah, eu sei o que eu mereço, que seja! Mas, dessa vez, ao menos, eu acho que você vai... (Ela golpeava o ar com um tom jocoso) coragem! ... ou você não é um homem! Acha que não me custou caro minha primeira dança com você? Ora, ora, também! quando sufocamos!... Faz bem, é um alívio dizer as coisas finalmente! Aqui está você, meu mestre!

Nem mais um centavo! Pode me mandar embora! Como gosto de você, agora! Pode me destratar! E não fique incomodado. O quê? Você diz que me ama e, em seis meses, nem ao menos me deu um tapa? ... Como você que eu acredite em você? – Não importa, dessa vez, eu mereço apanhar! (Ela inclinava-se a ponto de sentir o odor penetrante, marcante, das unhas dele, de uma das mãos de seu amante, cujo casaco preto de veludo preto ela cheirava com as narinas dilatadas.) — Uma mulher precisa se sintir um pouco dominada, entende! ... E quem me dera se você soubessese que uns bons tapas valem mais que frases! – Vai deixar de lado a cortesia agora, imagino? Não é? ... (Seus dentes estalavam). Você está pálido, com raiva! Vai deixar marcas em meu corpo! ... Eu sabia que era homem!

Após essa explosão, de forma inesperada, sr. de Guerl, tendo, de fato, empalidecido, olhou-a como se a tivesse visto pela primeira vez. Soltando-se, após um silêncio, tranquilo disse:

97 — Um chicote será melhor na minha mão!

E, deixando-a ofegante em um banco, voltou para casa. Depois, por outra porta, saiu como se fugisse. Três horas depois, Simone, já muito inquieta, rasgava o lenço com os dentes em seu quarto, diante de uma vela, quando a criada lhe entregou a seguinte carta, trazida de Nantes, no correio expresso:

“Querida abandonada, eu devo a você seis meses de uma delirante ilusão, eu admito, mas, ao se revelar esta noite, você congelou para sempre os sentimentos que só esta ilusão me inspirava. Certamente que não ignoro que hoje, principalmente, parece essencial (aos olhos de muitas pessoas de seu sexo) ser um bruto para ser considerado “macho” e que os beijos pareçam mais sem sabor que as pancadas. Mas, por um lado, entre os prazeres violentos aos quais, por simples brincadeira, nossa sensualidade pode se prestar, vê-se que é próprio daqueles por quem, aparentemente, você se apaixona loucamente, destruir essa alegria que (apenas e acima de tudo!) deve consagrar a vida a dois entre uma companheira e seu companheiro e, por outro lado, se você não pode ficar sem ir a bailes para entender que me ama, posso muito bem, para ser feliz, ficar sem bater naquela que me é querida. Eu tive que fugir, mesmo sem chapéu, para nos poupar de trocas de explicações tão inúteis quanto jocosas.

Assim, criança caprichosa! quando eu a contemplava, durante as belas noites, sob os nossos longos pavilhões e que, levado pelo amor, murmurava em seus lábios o que meu coração me sugeria, você dizia para si mesma, pura e simplesmente, com um profundo suspiro, erguendo seus lindos olhos ao céu, que pareciam melancolicamente contar as estrelas: — Sim, mas não é tão bom levar uma surra? Pobre anjo! Tenha piedade de mim se, temendo uma inabilidade natural, não me considero perfeito o suficiente para ousar... nem que fosse para tentar satisfazê- la. Cada qual com os seus sentidos e desejos! Não discutirei os seus desejos, nem a origem deles, só lamento eu ser para você um incômodo. Então, adeus. Não se preocupe nem com o nosso coração nem com a cabana, que já está alugada. Dia 15 ela será ocupada por uma família de corajosos comerciantes que só estão à espera de sua partida. Amanhã de manhã, um empregado virá lhe entregar, num envelope, seis mil francos à vista (só para você), no meu tabelião em Paris. Eu... eu já estou longe.

Cumprimentos, desculpas e boa sorte! GEOFFROY."85

85 O autor deste conto não aprova de forma alguma o cunho desta carta, endereçada a uma doente. Ela seria, antes de tudo, de um ingrato, se não tivesse vindo de um jovem ignorante mundano, deveras distinto aqui.

98 Simone, depois de ler a carta, esticando os lábios com um sorriso irrepreensível de desdém, deixou-a cair dasmãos:

— Que pena que um rapaz tão belo só seja, no fundo, um sonhador! — murmurou ela.

— E que pena que os que sabem compreender uma mulher sejam tão...

Ela parou, sonhando sozinha, Simone Liantis, a pobre e delicada garota, infelizmente morta há muito pouco tempo (lamentável Humanidade!) no número 435, na ala 26 (ninfomaníacas), no Incuráveis, com a enfermidade sendo “essencial”, isto é, aquela que não se pode (sem Deus) QUERER curar.

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