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APRESENTAÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO

Quando se fala em material didático, tem-se por hábito pensar logo no livro, afinal este costuma ser o único recurso disponível, ou o mais utilizado pelos professores brasileiros. Um fato a ser observado é que as escolhas que chegam às salas de aula são resultado de uma seleção limitada às ofertas do PNLD, e escolas de comunidades rurais, como a José Rufino, muitas vezes não têm opção: recebem livros selecionados pelos professores das escolas de grande porte ou pela equipe da secretaria de educação da região. No entanto os profissionais que selecionam o material não vivenciam a realidade da sala de aula ou, no caso dos professores das grandes escolas, não convivem com as experiências dos alunos de comunidades rurais.

Desse modo, o conteúdo trabalhado nas aulas pode ficar limitado às possibilidades ofertadas pelo livro. Para isso não acontecer, é preciso criatividade e percepção ideológica do professor, ampliando as possibilidades do livro didático. Muitas vezes, quando vai além, não passa de material impresso e reproduzido em fotocópias de má qualidade, salvo algumas exceções em que professores, comumente com recursos próprios, inovam levando material audiovisual ou fotocópias coloridas e de melhor qualidade.

No entanto, embora a falta de recursos financeiros seja um fator decisivo, mas que pode ser contornado através de mobilização política na escola para a captação de recursos, o grande problema em relação ao material didático é a inadequação dos conteúdos e temas abordados, que não contemplam as diferentes realidades. Por mais que tenham uma proposta metodológica adequada à idade/série dos estudantes e variem os gêneros e os assuntos tratados, os materiais didáticos não dão conta de atender todas as demandas sociais e culturais. É necessário, portanto, sensibilidade e boa vontade do professor para criar ou adaptar instrumentos que sirvam de ferramenta pedagógica e atendam às demandas do público de cada escola; um material que satisfaça os processos de aprendizagem através de elementos e temáticas locais.

Sensível a essas necessidades, o Programa do Profletras inclui em sua proposta pedagógica a criação do material didático que será utilizado durante a intervenção. O objetivo é produzir uma ferramenta que atenda necessidades específicas, contemplando as particularidades da turma com temáticas locais e o gênero escolhido. Assim, foram pensados

critérios e recursos a serem explorados para atingir os objetivos do projeto de intervenção, sem perder o foco nas questões sociais da comunidade dos alunos.

Figura 8 – Kit didático

Fonte: Arquivo pessoal.

Esse material está formado por um kit didático (figura 8) composto de crachá de identificação, bolsa, camiseta, estojo – contendo lápis, borracha, apontador, caneta, clips, postit e marcador de texto – e uma pasta do aluno constituída de caderno de atividades modulares, diário de bordo, glossário e CD (coletânea de aboios e toadas), tudo personalizado com nome do aluno.

As atividades do caderno pedagógico foram organizadas em capítulos temáticos e distribuídas aos alunos a cada encontro, conforme o desenrolar da sequência didática. A opção de montar o caderno por partes deu-se com o propósito de manter o fator surpresa – a cada encontro, uma novidade –, e também para que as atividades de fato atendessem as demandas surgidas durante o percurso, pois poderiam ser adaptadas às necessidades percebidas.

Embora os capítulos fossem construídos buscando atender a constatações observadas durante o processo, um elemento novo era sempre encaixado nas seções fixas que compunham o caderno (Cf. apêndice E). Esses segmentos estavam divididos de acordo a atividade proposta e com finalidades específicas. A seção “Desmantelo pra cuca” aborda o tema de modo divertido, são jogos, quebra-cabeça, desafios, entre outros; já a seção

Conversa de pé de mourão” propõe uma análise com maior propriedade do tema do capítulo, levando o aluno a entrar em contato com informações que ampliarão a discussão proposta;

Abrindo a porteira” é um recurso de introdução à matéria; a seção “Matutando” instiga o

pensamento crítico ao propor uma reflexão sobre o tema e “Testado” encaminha práticas avaliativas.

O diário de bordo (Apêndice E) que compõe o caderno de atividades faz parte do material fixo recebido pelo aluno no início da intervenção. O objetivo deste componente era incentivar a produção textual, propondo uma escrita regular de registro dos encontros e dos sentimentos evocados pelas relações estabelecidas ao longo da intervenção. Os alunos poderiam usar também anotações referentes ao Oitão de leitura. Não havia intenção de corrigir os diários, portanto, quanto mais livre o sujeito se sentisse em relação ao ato de escrever, mais ele poderia produzir textos verdadeiros.

A proposta do glossário parte de uma construção do plano individual para o coletivo.

A orientação era os sujeitos anotarem palavras que julgassem própria do universo dos aboiadores e dos vaqueiros cujo significado fosse novo para eles. Ao final, socializamos tais termos em uma plataforma eletrônica, o blog3 “Tenda de pensar”, no qual todos puderam beneficiar-se com as letras das toadas e as palavras do glossário no momento de produção dos textos.

É importante salientar que o blog foi criado para ser uma construção colaborativa. A ideia era que os estudantes fossem alimentando o glossário na página virtual a partir das anotações no caderno didático, e as produções em sala deveriam ser disponibilizadas por eles próprios no blog. Mas não foi o que ocorreu. Os estudantes afirmaram na avaliação diagnóstica que tinham acesso à internet, entretanto pouco acessaram o blog durante a intervenção, alegando dificuldade de conexão.

A coletânea de aboios e toadas, organizada em uma mídia de CD, objetivou facilitar o contato do sujeito com o gênero musical. O CD reúne boa parte das toadas utilizadas nas atividades didáticas ao longo dos capítulos e facilitou o encaminhamento de tarefas para casa, em que a audição das toadas era necessário. Fez parte também desse material didático uma ficha de observação (Apêndice C) para uma visita guiada ao museu Casa do Sertão e um bloco para registro de notas durante o passeio.

O caderno de atividades encerra com uma avaliação final sistematizada em um questionário de 18 itens, envolvendo todos os temas tratados ao longo da intervenção. As questões visavam averiguar o nível de compreensão dos sujeitos em relação aos conteúdos trabalhados e o grau de envolvimento com as presenças dos convidados.

3 O blog Tenda de pensar pode ser acessado no endereço: tendadepensar.blogspot.com.br.

Ao longo da intervenção, itens complementares foram distribuídos com intuito de fomentar o gosto pela leitura. No módulo em que estudamos as narrativas, cada aluno recebeu uma revista HQ de super-heróis, também ganharam marcador de página e um aviso de porta para sinalizarem aos familiares quando estiverem concentrados em seus estudos.

Além destes, contamos com materiais extras, como aboios gravados em áudios, feitos exclusivamente para os sujeitos participantes da pesquisa, vídeos com seleção e compilação de imagens cedidas pela comunidade e vídeos com registro das rodas de conversa com os colaboradores do projeto.

Figura 9 – Distribuição de revistas HQ

Fonte: Dados da pesquisa.

A experiência relatada aqui sintetiza a pesquisa de intervenção realizada no Colégio Municipal José Rufino, conforme já mencionado. A proposta foi lançada durante o ano letivo de 2016 ao corpo gestor que, animado com a possibilidade de que isso pudesse contribuir com a aprendizagem dos alunos, apoiou todas as ações desde a ideia inicial até a culminância, buscando contribuir e facilitar as circunstâncias para realização de todas as etapas desta pesquisa.