5.2 Conteúdo ambiental e jornais estaduais
5.2.1 Aquecimento global e imprensa baiana: proximidade, atualidade,
Nilson Lage (1989) discute acerca da qualidade técnica do conteúdo jornalístico e destaca os seguintes critérios de produção jornalística: atualidade, proximidade, identificação social, intensidade e ineditismo. Relativamente, o tema ambiental tem todas essas características. Otto Groth, citado por Melo (1994), já discutia a “totalidade jornalística” de forma semelhante aos critérios de produção jornalística de Lage (1989). Groth listou a periodicidade, universalidade, atualidade e a difusão como características do jornalismo. Ambos estão ligados. A periodicidade e a difusão que se refere à capacidade tecnológica de transmitir os fatos, tornando- os acessíveis à coletividade (difusão coletiva); a partir de então, a periodicidade torna-se possível, ou seja, “a capacidade da instituição jornalística de captar e reproduzir os fatos” (p. 16). A atualidade e a universalidade, por sua vez, respectivamente estão ligadas pela necessidade de a sociedade tomar conhecimento dos fatos do mundo (atualidade), para utilizar tais informações de forma prática na construção de um posicionamento ideológico ou auxiliar numa decisão para posterior ação e, dessa maneira, não se desvincula das expectativas da coletividade (universalidade) que se pretende atender/influenciar.
Ao distribuir os textos, reunindo os dados em seus respectivos grupos de palavras-chave, alcançamos os resultados presentes na Tabela 2.
Tabela 2 - Número de textos por grupos de palavras-chave coletados nos jornais Correio da Bahia e A Tarde no período de 01 a 28 de fevereiro de 2007
Com base na Tabela 2, observou-se que o tema “transposição do rio São Francisco” teve maior recorrência na imprensa baiana (29,05%), tomando como
Grupo de palavras-chave Total %
Aquecimento global – mudança climática - efeito estufa 29 19,59 Aquecimento global – mudança climática - efeito estufa – IPCC 9 6,08
Biodiesel - biocombustíveis – produção 20 13,51
São Francisco - enchente (cheia) 41 27,70
São Francisco – revitalização 2 1,35
São Francisco – transposição 43 29,05
Transposição - São Francisco – PAC 4 2,70
Total geral 148 100,00
imprensa baiana os maiores jornais baianos em circulação analisados na presente pesquisa. Tal recorrência se deu de certo por conta da proximidade do tema, as discussões polêmicas que ainda sucedem o assunto, além do anúncio do PAC - Plano de Aceleração do Crescimento - divulgando a transposição como um de seus pontos altos; também por sua atualidade, identificação e universalidade, critérios de produção jornalística levantados por Lage (1989) e Groth, citado por Melo (1994).
Houve também matérias que exploraram o tema comentando o posicionamento do governo estadual baiano dentre os demais governos de estados da bacia do São Francisco, pois este era o único que apoiava a execução do PAC. Os temas que se seguiram foram: enchente do rio São Francisco (27,70%), em segundo lugar, e aquecimento global (25,67 %), em terceiro. Os resultados apontam maior importância dada ao assunto transposição do rio São Francisco, contrariando as expectativas da pesquisa. Isso é possivelmente em decorrência de jornalistas/dirigentes dos jornais entenderem que a matéria aquecimento global não se configura como próxima do público leitor e, logo, não tem identificação social maior ou igual aos assuntos que o antecederam nesta avaliação. Mais a frente, é explorado também o ponto de vista político desse resultado.
5.3 Alguns aspectos comparativos do anúncio ambiental na imprensa baiana:
Correio da Bahia e A Tarde
5.3.1 Escala de importância dos temas
Observou-se nos dados apresentados na tabela 3, que o jornal Correio da Bahia privilegiou o tema transposição do rio São Francisco (42,19%), seguido pelo tema enchente do rio São Francisco (20,31%). O tema aquecimento global (18,75%) ocupou o terceiro lugar em escala de importância, seguido da temática biodiesel (14,06%), quando relacionados ao número de matérias publicadas no período estudado, bem como aos demais grupos de palavras-chave.
O jornal A Tarde concedeu a segunda posição, na escala de importância, ao tema aquecimento global, em comparação à dada pelo Correio da Bahia, representada na Tabela 3, pois este tema ocupou a segunda colocação (25,95%)
entre as temáticas analisadas, logo atrás do tema transposição do rio São Francisco (19,05%). E, em primeiro lugar, ficou a enchente/cheia do rio São Francisco (33,33%).
Tabela 3 - Número e percentagens de matérias jornalísticas relacionadas aos variados grupos de palavras-chave
Correio da Bahia A Tarde
Grupos de palavras-chave Total % Total %
Aquecimento global - mudança climática – efeito
estufa 8 12,50 21 25,00
Aquecimento global – mudança climática – efeito
estufa – IPCC 4 6,25 5 5.95
Biodiesel - biocombustíveis – produção 9 14,06 11 13,10
São Francisco - enchente/cheia 13 20,31 28 33,33
Transposição - São Francisco 27 42,19 16 19,05
Transposição - São Francisco – PAC 3 4,69 1 1,19
São Francisco – revitalização - - 2 2,38
Total geral 64 100,00 84 100,00
Baseando-se em características do jornalismo discutidas no tópico anterior, pode-se dizer que, dentre os demais temas, o aquecimento global não é considerado um assunto com proximidade maior ou igual às discussões acerca do rio São Francisco para ambos os jornais; acredita-se ser reflexo de uma percepção errônea disseminada na sociedade que acaba por ser considerado, na figura dos jornalistas/dirigentes e da própria coletividade, um tema de relevância social de proporções planetárias menos importante que polêmicas envolvendo o rio São Francisco, quem apresenta uma proximidade física dos consumidores e produtores da notícia. Embora o aquecimento global seja associado, com freqüência, a catástrofes naturais, a enchente do rio São Francisco, em nenhum momento, foi vinculada ao fenômeno, que também poderia ser reflexo do AG; assim, um especialista como fonte discutiria o campo das possibilidades, aumentando a variedade de pontos de vista, empobrecida por interesses políticos, que se comenta ainda nesta seção.
Nesse sentido, tais resultados vêm corroborar o que afirma o Center of Journalism Environmental sobre a necessidade de jornalistas mais bem informados, pois, embora os problemas ambientais tenham se tornado, a cada dia, questões mais complexas, mesmo assim as decisões referentes a esses temas têm de ser tomadas, tendo os meios de comunicação responsabilidade em como tais escolhas
serão entendidas pela coletividade. Assim, tais profissionais devem estar preparados para apresentar os fatos e suas variadas interpretações.
Observa-se a predominância da temática enchente do rio São Francisco na editoria “Poder”16, dos dados analisados no jornal Correio da Bahia, notadamente dedicada aos temas políticos; pode-se inferir que a recorrência a este tema voltou-se a demonstrar ao leitor a lentidão do governo do Estado em atender os desabrigados pela cheia. É sabido que, no período de análise das unidades, o maior adversário político do governo do estado era o senador Antonio Carlos Magalhães (ACM), sua família é proprietária do jornal Correio da Bahia e demais veículos de comunicação constituintes da Rede Bahia. Tal leitura corrobora o que Bosquetti (2006) comenta sobre o fato de o domínio da informação estar diretamente ligada ao poder de intervir e reorientar as atividades humanas e da sociedade com a natureza. Assim, a editoria “Poder” parece ter tentado demonstrar aos leitores que o governo estadual não estava preparado para atender às necessidades da população atingida pela cheia do rio São Francisco. Lembra-se aqui o que Peterson et al., citado por Bosquetti (2006), afirmaram: as comunicações têm sido usadas por governantes ou grupos mais poderosos para estabelecer o poder e o controle social, em todas as sociedades.
Bem assim, o nome da editoria que trata dos assuntos ligados à política no jornal Correio da Bahia, “poder”, tem uma relação íntima com o que parece ser o intuito do veículo: interferir e reorientar a opinião do leitor com base nos temas abordados em suas publicações. Essa realidade lembra que a mídia, em democracias liberais, assumiu um caráter econômico por se constituir como um negócio privado, ou seja, que visa aferir benefícios aos proprietários, submetendo-se a parâmetros comerciais (MOTTA et al., 2006). O ideal seria o contrário, o veículo trazer benefícios aos leitores, pois os negócios privados têm compromissos de outra ordem (BUENO, 2007).
A base dessa inferência citada – os dados quantitativos – também faria sentido se, no caso do jornal A Tarde, não fosse o elevado número de matérias ambientais (84) e sua distribuição, em certa medida, semelhante entre os temas AG (26), cheia do rio São Francisco (28) e transposição do rio São Francisco (17).
16 Editoria: Cada equipe ou seção que constituem a Redação do jornal. Cada editoria é responsável pela cobertura de campos temáticos pré-determinados (FOLHA, 2000).
Pode-se observar, a partir desses resultados, a importância relativa do tema rio São Francisco, no período em análise, tanto no que se refere às matérias sobre a transposição, quanto às catástrofes naturais como enchentes etc. São contribuições que podem ter influenciado essa prioridade do Correio da Bahia e uma relevância considerável no A Tarde o fato de o Rio São Francisco figurar como um tema mais próximo do imaginário coletivo dos produtores das notícias do que o aquecimento global; também o fato de o jornal Correio da Bahia ser, atualmente, um jornal de oposição ao governo estadual, de forte influência política no Estado, e por isso as matérias relacionadas ao Rio São Francisco figurarem predominantemente na editoria de política, e serem recorrentes durante todo o mês de fevereiro, procurando demonstrar a lentidão do governo estadual em atender os municípios atingidos pela enchente.
Perterson et al., citados por Bosquetti (2006), falam sobre controle social através das comunicações. Esse controle parece ganhar mais força na modernidade devido à mudança, característica preponderante da modernidade, esta mais influenciada pela reflexividade – que é a constante prática de examinar as ações sociais à luz de novas informações – e que se tornou mais radical na modernidade (GIDDENS, 1991). Tais informações, que se coadunam às reflexões sobre a fragmentação do sujeito sociológico (HALL, 2004), reunidas, levam a uma ponderação sobre a responsabilidade das comunicações, em especial o jornalismo (objeto desta pesquisa), nas necessárias mudanças institucionais da sociedade moderna, as quais os sociólogos ambientais defendem (SPAARGAREN; MOL, 2002;
2003). Assim, diante das influências dos sistemas culturais na formação do sujeito sociológico e, em avanço, essa característica de constante mudança do sujeito moderno (reflexividade), considera-se que ao sujeito moderno é creditado como uma celebração móvel. Nesse sentido, entende-se que os sistemas de comunicação têm responsabilidade nessa mudança por serem disseminadores dos sistemas culturais de que fala Hall (2004).