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Explana o artigo 1.204 do Código Civil, sobre a aquisição da posse, vinculando a mesma ao exercício dos poderes inerentes à propriedade, qual seja usar, gozar, dispor e reaver.

Onde, usar significa utilizar da coisa, tirar proveito, exerce este poder o possuidor direto; gozar, jus fruiendi, consiste na faculdade de colher os frutos advindos do objeto da posse, implica na necessidade de exercício concomitante do poder de usar; Dispor, jus abutendi, possibilidade de se desfazer, seja por alienação, doação, consumo, ou qualquer outra forma que acarrete a quebra do vínculo existente; Reaver, direito de buscar a coisa onde quer que ela se encontre, direito de sequela.87

Os modos de aquisição são classificados em originários e derivados, sendo que quando a posse é adquirida de forma originária é unilateral, sem anuência do possuidor precedente, o que diferencia essa espécie de posse da derivada, que como o próprio nome já insinua é proveniente de outra, portanto, bilateral, com ciência e anuência de ambos os envolvidos.88

O legislador, esquecendo-se do fato de haver adotado a teoria de Ihering, admitiu a aquisição da posse pela apreensão da coisa, bem como a sua perda pelo abandono e pela tradição, modos estes que melhor se coadunam com a teoria de Savigne, baseada na coexistência do corpus e do animus.89

A interpretação supra é proveniente da análise do artigo 1.204 do Código Civil, o qual dispõe: “Adquire-se a posse desde o momento em que se torna possível o exercício, em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade”.

1.7.1 Aquisição Originária

A ausência de vínculo entre o possuidor anterior e o atual configura aquisição originária. Impossível dessa forma que qualquer vício proveniente da

87 NADER, Paulo. Curso de Direito Civil: direito das coisas. v.4. Rio de Janeiro: Forense, 2008. p. 88.

88 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: direito das coisas. v.5. São Paulo: Saraiva, 2006. p.

88.

89 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: direito das coisas. v.5. São Paulo: Saraiva, 2006. p.

87.

posse anterior contamine a atual90, corrobora a afirmativa o art. 1.203 do Código Civil, o qual aduz: “Salvo prova em contrário, entende-se manter a posse o mesmo caráter com que foi adquirida.”

1.7.2 Apreensão da Coisa

Apreensão é a apropriação unilateral do objeto, em razão de abandono (res derelicta), quando inexistir dono (res nullius), ou ainda quando se retira sem anuência do proprietário a coisa de sua posse.91

1.7.3 Exercício do Direito

A apreensão não é a única forma unilateral de aquisição de posse, é possível obter o mesmo fim através do exercício do direito. Silvio Rodrigues emprega o seguinte exemplo, “se alguém constrói aqueduto em terreno alheio e o utiliza ostensivamente sem oposição do proprietário, está exercendo a posse de uma servidão. Transcorrido o prazo legal, há aquisição de referida posse, pelo exercício do direito, podendo o possuidor invocar interdito possessório, em defesa de sua situação.”92

1.7.4 Modos Derivados de Aquisição

Aquisição derivada, aquela em que se vislumbra uma relação de causalidade entre a posse precedente e a atual, bilateral. Nesse tipo de aquisição a transmissão é feita com a anuência daquele que transmite. Como exemplo típico o contrato de compra e venda, bem como os frutos da árvore do vizinho que passam a compor os objetos de posse do possuidor do terreno o qual o fruto caiu.93

1.7.5 Tradição

A Tradição se manifesta por ato bilateral, ato este de vontade mútua entre

90 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: direitos reais. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 76-77.

91 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: direito das coisas. v.5. São Paulo: Saraiva, 2006. p.

89.

92 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: direito das coisas. 28. ed. v.5. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 40.

93 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: direitos reais. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 75.

contratantes, tradente e adquirente, e se consolida com a entrega propriamente dita do objeto. Conquanto, nem toda a tradição se dá de forma tão simples, seja “porque o objeto, pelo seu volume ou pela fixação, não permite o deslocamento, seja porque não há necessidade da remoção.”94 Para facilitar a compreensão, a tradição é dividida em três modalidades: efetiva ou material, ficta ou simbólica, e consensual.

1.7.5.1 Tradição Consensual

A tradição consensual se subdivide em constituto possessório e traditio breve manu. Na traditio brevi manu ocorre uma transferência na situação fática, onde o possuidor direto passa a ser o possuidor indireto, portanto, o proprietário.

Enquanto, no constituto possessório o possuidor passa a adquirir posse em nome de outrem, como é o caso daquele que aliena seu imóvel, todavia, continua ali residindo, perdendo o status de proprietário e assumindo de possuidor direto ou mediato95.

As hipóteses supracitadas demonstram que há aquisição sem exteriorização da entrega, no caso específico, com inversão do elemento subjetivo, animus.96 Alguns doutrinadores colocam o constituto possessório não como uma das subdivisões da tradição consensual, mas como uma terceira divisão da tradição.

1.7.5.2 Tradição Simbólica

Simbólica, pode ser chamada de representativa, por ter como marco um ato que evidencia que houve a alienação, clássico exemplo, a entrega das chaves do carro, embora, o objeto de posse não tenha sido entregue representa a disponibilidade do mesmo, ao adquirente.97

94 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: direito das coisas. v.5. São Paulo: Saraiva, 2006. p.

92.

95 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: direito das coisas. v.5. São Paulo: Saraiva, 2006. p.

92.

96 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: direitos reais. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 78.

97 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: direito das coisas. 28. ed. v.5. São Paulo: Saraiva, 2003. p.78-79.

1.7.5.3 Tradição Material

Posse que se consuma pela entrega real da coisa a ser adquirida, denominada como efetiva ou material, a compra e venda é um exemplo, pode-se dizer que dentre as modalidades é a mais frequente.98

Para se enquadrar em uma das espécies de tradição, deve a relação jurídica se consolidar com o preenchimento de um desses requisitos indispensáveis: “[...]

entrega da coisa; a intenção das partes em efetuar essa tradição [...]; [...] a justa causa, requisito este entendido como a presença de um negócio jurídico precedente, fundamentando-a”99.

1.7.6 Acessão na Posse

Acessão explica o porquê o sujeito que tem a posse de um terreno por um período de cinco anos, herança do de cujus que o tinha anteriormente por igual tempo, pode vir a intentar ação de usucapião ordinária, que tem como requisito primordial posse mansa e pacífica de no mínimo 10 anos.100

“Acessão na posse é gênero de qual são espécies a sucessão de posse e a união de posse.“101

Consoante, artigo 1.206 do Código Civil, “a posse transmite-se aos herdeiros ou legatários do possuidor com os mesmos caracteres”, completa o artigo 1.207 do mesmo diploma legal “o sucessor universal continua de direito a posse do seu antecessor; e ao sucessor singular é facultado unir sua posse à do antecessor, para efeitos legais.”

Mister distinguir sucessão e união de posse, onde sucessão de posse ocorre na aquisição a título universal, “quando o objeto da transferência é uma universalidade, como um patrimônio, ou parte alíquota de uma universalidade”, Por conseguinte união de posse ocorre na aquisição a título singular quando a coisa a

98 AQUINO. Àlvaro Antônio Sagulo Borges. A Posse e seus Efeitos. São Paulo: Atlas, 2000. p. 68.

99 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: direito das coisas. v.5. São Paulo: Saraiva, 2006. p.

92.

100 AQUINO. Àlvaro Antônio Sagulo Borges. A Posse e seus Efeitos. São Paulo: Atlas, 2000. p. 68.

101 AQUINO. Àlvaro Antônio Sagulo Borges. A Posse e seus Efeitos. São Paulo: Atlas, 2000. p. 72.

ser adquirida for certa e determinada.102 Corolário o legatário adquiri a título singular, já o herdeiro a título universal.

O sucessor universal dá continuidade, por assim dizer, a posse do seu antecessor, assim se eivada de vícios antes da aquisição a título universal continuará posteriormente. Como no exemplo citado no primeiro parágrafo deste item, onde em razão dessa continuidade o herdeiro se beneficia dos cinco anos de posse do de cujus.103

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