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AS CARTAS DE LEITORAS

No documento Barbara Trindade Rocha.pdf - BDTD/UERJ (páginas 59-100)

2.1- Entre matérias e cartas: a circularidade dos temas na revista

Reivindicações, protestos, análises e comentários aparecem com freqüência num espaço reservado pelos jornais e pelas revistas para manifestações de seus leitores: o destinado à publicação das cartas. As revistas e os jornais assumem, desta forma, o papel de mediadores do debate público, possibilitando a encenação de um diálogo que não teria outro lugar para ocorrer.

(...) Encenar quer dizer levar à cena, colocar em cena, em evidência (Vaz, 1998, p.2).

Deve-se levar em conta que encenar também significa representar, interpretar, desempenhar um determinado papel. As revistas ao abordarem a educação infantil em suas reportagens e selecionarem cartas de leitores a esse respeito, colocam o tema em evidência, em cena, em discussão. Por outro lado, o processo de produção das reportagens e das cartas, resultado de uma série de filtros que envolvem a seleção do que é ou não é publicado, acaba por transformar o seu conteúdo em uma representação do real. As questões que aparecem nas cartas dos leitores resultam de um mundo que nos chega editado (Vaz, op.cit.).

As cartas inscrevem um tempo, uma história. Como objetos materiais, recheados de práticas culturais de uma época, as cartas são produtoras de sentido, pois segundo Cunha (2002), por não serem ficção, podem fornecer versões ficcionalizadas daquilo que querem dizer e, em seu rastreamento, pode vir à tona uma história de sujeitos se construindo, se inventando na e pela escrita

(p.187). Para a autora, desde a última década do século XX, vêm se intensificando os estudos sobre escrituras cotidianas e práticas epistolares das pessoas comuns, chamadas de escrituras ordinárias ou escritos sem qualidade, abrindo cada vez mais um rico campo para as pesquisas sobre práticas e funções culturais da escrita na sociedade letrada que se desenvolve a partir do século XIX. Como tema de estudo, as cartas são consideradas como objetos nos quais estão imbricadas práticas sociais e, como tal, passíveis de análise na perspectiva da história cultural, para a qual o principal objetivo é analisar o modo como, através das cartas, consideradas como práticas de escrita, uma realidade é construída, pensada e dada a ler (Chartier, 1990, apud Cunha, 2002, p.184).

Entendendo que as cartas da Revista Nova Escola são um conjunto de documentos históricos que, segundo Cunha (op.cit.), elabora representações sobre um dado capital de vivências da época e, dessa forma, se faz portador/

produtor de sentidos para a história, mergulhar nas cartas, envolve identificar os temas mais focalizados, bem como a forma de abordagem utilizada pelos autores, num momento de consolidação da educação infantil através da promulgação da lei n.º 9349/96, são algumas das propostas deste trabalho19.

Desde o fim da década de 80, a educação infantil é reivindicada por parte da sociedade; mas, somente em dezembro de 1996, com a promulgação da LDB, a educação infantil é afirmada como primeira etapa da educação básica, com o objetivo de desenvolvimento integral da criança. Com isso, seu papel específico passa a ser o de iniciar a formação básica para o exercício da cidadania. Desta

19 uma vez que a maioria das mudanças pretendidas atualmente na área da educação infantil resultam da elaboração, após sucessivas discussões, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação

forma, a LDB valoriza as atividades desempenhadas nas creches e escolas de educação infantil ressaltando a integração do cuidado com a educação. A LDB integra as instituições de educação infantil aos respectivos sistemas de ensino. A formação mínima admitida passa a ser a de nível médio, na modalidade Normal. A criança passa a ter direito a uma educação que complemente a recebida pela família, o que gera a necessidade de articulação entre a família e a escola para a construção do projeto político-pedagógico da creche ou pré-escola.

Dessa forma, as famílias e os alunos eram temas das cartas dos professores. Por meio de fragmentos do cotidiano escolar pinçados das cartas é possível pensar nas artes de viver/sobreviver como professor e buscar as diversas significações representadas através desses dispositivos narrativos e tipográficos.

Esses papéis mostram um lugar possível de diálogo entre distantes, na medida em que a carta é a fiel imagem de uma conversação transcrita ao papel. A diferença e a distância que a escritura mesma representa se dissipam ao máximo para criar a ilusão da imediatez da palavra oral (Sierra Blas, 2002, p.127). Se o produto epistolar se preocupa com a presença, é justamente porque é, mais que nenhum outro, produto da ausência.

Penetrando no mundo cotidiano das professoras de educação infantil, por intermédio dessas cartas, encontramos suas dificuldades, seus anseios, relatos de experiência; enfim, o posicionamento dos professores em relação às temáticas articuladas vinculava-se às suas próprias trajetórias profissionais.

A posição sócio-econômica influencia a aquisição de conhecimentos e a relação com o mundo do escrito. Por que escrevem esses professores?

Certamente para romper a distância que os separam. Os professores autores de

cartas eram interlocutores que queriam participar do debate, ajudando a formar a opinião pública e, ao mesmo tempo, registrando suas próprias opiniões sobre questões sociais e educacionais. Sierra Blas (op.cit.) comenta que a carta é produzida por uma ausência, por uma distância e contra as mesmas é capaz de impor a presença e a imediatez da palavra falada. A relação entre a escritura e a oralidade no gênero epistolar é evidente: expressões próprias da linguagem oral influenciam na hora da escrita, como se observa na carta abaixo:

Achei ótima a reportagem sobre o curso de Magistério (N.E. n.º 26), pois está na hora de todos nós, educadores, levantarmos nossa bandeira de luta em favor deste curso. Wilma Barbosa, Irupiranga, PA (Nova Escola, ano IV, n.º 30, maio 1989, p.4).

Procurando estabelecer uma relação mais íntima com seus leitores, a editora, algumas vezes, respondia suas cartas em poucas linhas, estabelecendo um diálogo e encurtando a distância, como no caso em que os professores da Escola Estadual de 1.º Grau Santo Antônio de Campina Grande, na Paraíba, escreveram à revista contestando os depoimentos dos professores citados no artigo Como se escreve (por linhas tortas) o fracasso escolar de uma criança na edição de n.º 17. A editora respondeu:

Como vocês, nós de Nova Escola também acreditamos na existência de muitos professores que evitam as profecias auto-realizadoras.

Entendemos, porém, que o artigo serviu de alerta para a tomada de consciência de inúmeros outros professores, como demonstram as cartas publicadas na edição de março. (Nova Escola, ano III, n.º 20, abril 1988, p.4).

Ao fazer a palavra escrita como palavra falada, se tenta consolidar a autoridade, enquanto autenticidade da cartas. Esta é, assim, uma forma de comunicação entre o aqui do lugar da emissão e o lá do lugar da recepção, entre o agora ou o presente da escritura e esse tempo distinto que é o da leitura (Sierra

Blas, op.cit., p.127-128). Há uma certa dispersão temporal e espacial nas cartas, visto que se escreve em um dia e o destinatário lê em outro.

Segundo Viñao (2001), a escrita desempenha umas funções de índole instrumental – transmissão de significados, armazenamento e recuperação do saber – e icónica – dimensão espacial do escrito. (p. 37). Tais funções variam segundo os contextos em que a escrita é produzida e utilizada. Desta forma, em uma tipologia das modalidades de contextos, usos e funções da escrita, estas cartas podem ser classificadas como escritas vulgares aquelas, totalmente opostas aos escritos de prestígio realizados com o intuito de fazer uma ‘obra’

autenticada (Viñao, 2001, p. 43-44). Para ele, associadas a momentos coletivos ou pessoais intensos, à rotina das atividades cotidianas ou a demonstrações de competência escrita, acabam por ser de natureza banal e diversa. Vocacionadas, como única finalidade comum, para deixar marcas, são, além disso, um objeto evanescente, sem contornos definidos. Produto de práticas difusas e diversificadas, irredutíveis a um conjunto de indicadores (idem).

O interesse crescente por esse tipo de material tem origem na convicção, cada vez mais alargada, de que apenas uma incursão fora do terreno escolar clarificaria a especificidade dos usos do escrito e das suas relações com os usos escolares (Viñao, 2001, p. 45). Em outras palavras, para entender o que ocorre na escola – relativamente à escrita – é preciso saber o que ocorre nos outros âmbitos sociais, quais são as práticas e representações sociais do escrito que se produzem fora da escola.

As cartas como escrituras ordinárias mostram em traços firmes e/ou inseguros uma relação pessoal com o universo da escrita. Segundo Antonio Castillo,

não há dúvidas da importância que têm os arquivos que guardam a memória institucional ou do poder, habituais espaços do historiador, mas tampouco deve-se duvidar da utilidade que oferecem as escrituras de pessoas comuns. Através delas, abre-se a possibilidade de (re)conhecer outras maneiras de viver e de narrar o vivido. Com elas, enfim,

‘devolvemos’ uma certa visibilidade a muitos protagonistas anônimos do acontecer coletivo (Castillo, 2000, p.11).

Na medida em que os documentos dos arquivos conservados pelas instituições constituem elos que nos unem ao passado e informam os fundamentos de nosso presente, garantindo o legado a ser preservado para as gerações vindouras, cabe, ao pesquisador, revelar a existência desses documentos, para que novos estudos possam ser desenvolvidos, assim como é tarefa do pesquisador de, através da interpretação e da leitura crítica, fazer a documentação falar acerca do que fomos, do que fizemos, do que pensamos, reencontrando e presentificando as figuras significativas de nosso passado (Lima, 2000, p.241).

Lendo cartas e comentando visões, este estudo pretende compreender como a correspondência de pessoas comuns pode conter engenhosidades em seus assuntos, iluminar hábitos, práticas e valores partilhados e construir representações de escola.

Mas, o que significa trabalhar com cartas em periódicos? Quais são os aspectos que se colocam? As cartas publicadas concretizam-se, materializam-se, tornam-se acessíveis num livro, numa revista, configuram uma história tendo por personagens autor-escritor e destinatário-leitor. Camargo (2000), fundamentada

nos estudos de Chartier, lembra que as práticas de escrita não são dissociáveis dos objetos que lhe dão suporte, e nesta perspectiva assumem-se como fundamentais as noções de apropriação e representação. Neste sentido é possível supor que o professor se apropria da leitura da revista de forma que resolver encaminhar cartas para ela. Escrever uma carta para a revista é quase uma obrigação do professor que a lê e se indigna ou apóia as questões sociais, políticas ou educacionais.

Sendo a carta compreendida como gênero discursivo, um dos desafios é procurar entender o fundamento que define a carta na sua natureza comunicativa e a relação que estabelece entre linguagem e visão de mundo. Segundo Camargo (2002), a linguagem tem uma função comunicativa entre o locutor e o outro, na medida em que, sendo um discurso vivo, é prenhe de resposta, mesmo que silenciosa. A resposta, ou a espera de uma, faz da carta um enunciado (p.169).

Assim, as cartas presentes em Nova Escola, mesmo não respondidas, guardam a função comunicativa.

Em sua pesquisa sobre os valores femininos na seção de cartas em revistas femininas, Pereira (1980) ressalta que as cartas são respostas diretas aos estímulos lançados pela revista. É na seção de cartas que pode-se perceber que tipo de tema obteve maior impacto e qual a preocupação mais comum entre os leitores.

Por outro lado, o fato de uma leitora escrever para a revista significa que ela se identifica com o conjunto de leitoras que supostamente constitui o público da revista, formando um grupo que se comunica entre si (apesar da distância física) ao participar da vida da revista, respondendo a seus estímulos, adquirindo seus valores e usando sua linguagem (Pereira, 1980, p.30).

Desta forma, as cartas servem para traduzir níveis de receptividade das notícias veiculadas pela revista, bem como para testar as formas de estilo adotadas e o alcance do conteúdo, assim como para denotar tendências políticas, partidárias, éticas ou de cidadania. No entanto, não podem ser vistas como representativas da opinião do conjunto dos leitores de uma determinada revista, uma vez que nem todos se manifestam.

Portanto, as cartas não se revelam significativas para o real conhecimento do público porque, até certo ponto, quem se dispõe a escrevê-las não é representativo do leitor comum e, em geral, o gesto é motivado por interesses particulares. Por outro lado, Neves (2000) observa que a manifestação espontânea e, por vezes, anônima do público não deixa de oferecer vantagens para o trabalho diário nas redações:

Através delas, por exemplo, são reveladas, muitas vezes, informações, fatos e ocorrências que se transformam em notícias, até mesmo exclusivas. Em outras oportunidades, estes contatos fornecem pistas e indícios que podem virar alvos de investigação ou assuntos de pauta (Neves, 2000, p.49).

Ao analisar a encenação da educação na seção de cartas dos leitores publicadas entre os meses de janeiro a junho de 1996, nos jornais O Globo, Jornal do Brasil e O Dia, Vaz (1998) identifica uma relação direta entre o que os leitores escrevem e o que as reportagens priorizam. E acrescenta: as cartas produzem os jornais quanto por ele são produzidas (p.55), destacando que esta circularidade entre as cartas e o noticiário pode ser entendida não só como propósito de se manterem mais próximas de seus leitores, mas também por uma forma de legitimar aquilo que apresentam em seu noticiário, reforçando o papel de

mediadores do debate público e porta-voz dos anseios dos leitores que representa.

A autora conclui que, embora o espaço destinado à publicação das cartas seja controlado por jornalistas e editores, de acordo com critérios subjetivos, é nele que a possibilidade do debate se mostra mais presente. Não há nos jornais outro espaço que permita aos leitores participarem tão ativamente, opinando, sugerindo, reclamando, cobrando providências (Vaz, op.cit., p.83). Entretanto, ressalta que mesmo havendo um debate em torno da educação, ainda assim não há o desdobramento em ações efetivas que permitam mudar o quadro desenhado nas correspondências. Enfim, encena-se uma discussão que não resulta em ação efetiva para mudar, para transformar problemas em soluções (idem, p.87).

No caso da Revista Nova Escola, pode-se afirmar que também há uma alimentação permanente entre o conteúdo das revistas e o conteúdo das cartas.

Por ser um periódico que se propõe a ensinar como fazer, dar dicas, sugestões de prática para a leitora ou o leitor, como Costa e Silveira (1998) já observaram em seu estudo sobre a revista, ao selecionarem as cartas, fazem-no com o propósito de confirmar ou reforçar o que abordam em suas reportagens, pois grande parte das cartas trata da prática de sala de aula e/ou metodologia de ensino.

Explica-se, assim, o êxito da seção Sala dos Professores: um espaço aberto e único, às pequenas/ grandes questões vividas no cotidiano do professor, que se transforma de acordo com as inovações pedagógicas instituídas pelas políticas públicas. E, como conseqüência, a expansão do espaço e o estreitamento dos laços com os leitores, como alerta o editor João Vitor Strauss em agosto de 1995, pela carta ao leitor, que

Desde maio, você pode conversar ao vivo com nossos jornalistas pela linha 0800-11 2055. (...) Igualmente interativa estréia neste mês a seção

‘Com Certeza’, destinada a esclarecer dúvidas dos leitores. Mesmo a pioneira das seções interativas, ‘Sala dos Professores’, ganha reforço.

As cartas mais substanciosas, relatando experiências educativas marcantes, passam a contar agora com um espaço nobre, a nova rubrica ‘Depoimento’. Interatividade, como se vê, é a palavra de ordem.

Se você duvida, então escreva ou telefone (...) (Nova Escola, agosto 1995, p.3).

2.2- Cartas como gênero de escrita

O ato de escrever cartas consiste em confrontar-se com códigos estabelecidos e, a partir deles, inventar, construir um lugar para si, por meio das palavras (Cunha, 2002). Assim, escrever para alguém é um forma de se expor, de compartilhar experiências, tecer elos de amizade, porque, em geral se escreve cartas a alguém para explicar, justificar-se, informar, pedir, contestar, trocar sentimentos.

A carta como prática de escrita fala de quem a escreve, é um meio para alcançar uma representação estável de si (Hébrard, 2000). As cartas contêm o que o informante houve por bem oferecer para dar idéia do que ele queria que o outro soubesse de si, migalhas de identificação. A carta é uma forma de escritura pessoal e as escrituras pessoais tentam reconstruir a genealogia da preocupação consigo mesmo (idem); portanto, uma escritura pessoal ajuda a construir a identidade do escritor. Além disso, a escritura pessoal está centrada na sensibilidade em relação ao tempo que passa e nos esforços do escritor para dele

construir uma representação e uma memória (idem, p.30); portanto, escrever cartas permite, além de manter uma representação estável de si mesmo, construir uma memória oficial de si:

Através da correspondência, é possível também rastrear posicionamentos e surpreender momentos em que o remetente se desnuda para o outro, projetando o que estava escondido ou o que o preocupava no momento (Lima e Figueiredo Júnior, 2000, p.244).

Escrever cartas ou qualquer outro texto, é uma forma de propor ou expor alguma coisa ou algum sentimento, ou seja, é emitir enunciados (Camargo, 2002).

Trabalhando com os conceitos de Bakhtin, a autora afirma que os enunciados são concretos e únicos. Nessa perspectiva, cada enunciado é sempre diferente de outro, sendo que alguns, relativamente estáveis, podem ser classificados dentro do gênero discursivo primário ou secundário. Desta forma, quais são os elementos estáveis, que se repetem, que são comuns, mostram certa regularidade, definem e podem identificar a carta como gênero primário ou secundário?

As cartas se estabelecem como gênero secundário, pois surgem através da comunicação escrita, absorvendo na sua formação os gêneros primários20, reelaborando-os: perdem sua relação mais imediata com a realidade e com os enunciados reais de outros participantes (sujeitos) (Camargo, 2002, p.166).

Portanto, a carta, no momento em que é redigida, transforma-se porque perde seu caráter de comunicação espontânea que constitui o gênero primário. Como escrita, perde em expressão gestual e interativa e ganha na sua capacidade de autonomia e de distanciamento (Calvino, 1996, apud Carvalho, 2002, p.167).

20 Segundo a autora, o gênero do discurso primário (simples) é constituído em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea, enquanto que o gênero do discurso secundário (complexo) é constituído pelo romance, teatro, discurso científico, discurso ideológico etc.

Distanciamento tanto espacial – entre o autor e o destinatário – quanto temporal, porque se remete a acontecimentos passados.

O autor da carta marca sua presença na totalidade da obra e não somente quando assina seu nome ao final, ou apenas no conteúdo.

A sua presença é marcada na realização da obra, naquele momento inseparável em que o conteúdo e a forma se fundem de uma maneira indissolúvel, no ato de realizar, de fazer (Bakhtin, 1985, apud Camargo, 2002, p.168).

Deste modo, na medida em que ele se expõe, as cartas ajudam a constituir uma imagem do sujeito que escreve, construindo para si mesmo uma identidade.

p. 14). A nossa própria identidade é conferida pela escrita, pois mal nascemos somos postos por escrito. Aí também a função é a mesma; inscrever o recém- nascido numa normalidade, garantir-lhe uma identidade (Artiéres, 1998, p. 15).

Isto demonstra o poder que a escrita adquiriu em nossa sociedade.

Levando-se em consideração a progressiva desvalorização do oral pelo escrito, já que vivemos numa sociedade letrada e que, além disso, a escrita aparece, desde a sua invenção, ligada ao poder (Viñao, 2001, p. 23), as cartas podem ser vistas como instrumentos que permitem a permanência (escrita) do oral e servem como instrumento(s) probatório(s) (idem. p. 25) – o que justifica seu poder. Artiéres também fala sobre o poder da escrita:

nas nossas sociedades ocidentais, desde o fim do século XVIII estabeleceu-se progressivamente um formidável poder da escrita que se estende progressivamente sobre o conjunto do nosso cotidiano; a escrita está em toda parte: para existir, é preciso inscrever-se: inscrever-se nos registros civis, nas fichas médicas, escolares, bancárias (Artiéres, 1998, p. 12).

Analisando a relação entre escrita e poder, Petrucci (1999) observa que durante séculos o principal uso da escrita foi o de reforçar o controle burocrático e

o poder militar. Em uma comunidade letrada, o poder constituído determina a função da escrita na sociedade, ou seja, sua execução tanto em relação ao tipo de produto escrito como ao tipo de mensagem confiado nele; determina também a amplitude e a natureza do uso social da escrita, ou seja, o grau e os modos de alfabetização dos súditos; usa a escrita, produzindo testemunhos gráficos encaminhados a dar mensagens aos seus súditos, a propagar a própria imagem e a perpetuar no tempo a memória de si. Os testemunhos gráficos produzidos pelo poder público sempre têm características exteriores de particular solenidade e são realizados com particular esmero; tais características tendem a conferir aos testemunhos a capacidade de exposição, ou seja, de transmitir uma determinada mensagem, relativa à natureza do poder emissor – documentos públicos –, também por via puramente visual; e para alcançar tais finalidades, os testemunhos gráficos emitidos pelo poder público são produzidos por categorias de técnicos especializados.

A carta, para ele, foi se convertendo em uma prática cotidiana de comunicação e, diante disso, surgiu a necessidade de ordenar este tipo de escrita, o que gerou o aparecimento de manuais que pretendiam homogeneizar a escrita das mesmas. Mas, segundo este mesmo autor, é somente na Idade Contemporânea que o uso da escrita se generaliza, pois esta era a única forma de salvar as distâncias impostas por acontecimentos históricos (como a imigração, o serviço militar, a guerra civil, o exílio) e de expressar idéias, opiniões e sentimentos que dificilmente podiam ser manifestados de forma oral ou através de outros meio de comunicação (devido à censura). Nesse sentido, o gênero epistolar aparece ligado a uma cultura histórica em evolução e a escrita, para garantir sua

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