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CAPÍTULO VII JULHO DE 1868

2. As causas da crise

Essa crise feroz, que abalou o Império e tem levado os his- toriadores a considerarem-na como o início da queda da monar- quia – de qualquer modo produziu o Manifesto Republicano e levou o conselheiro Lafayette a assinar o famoso documento, embora volvendo, mais tarde, ao lar paterno –, pode ser atribuída a duas causas: uma questão ideológica e uma questão militar.

Do ponto de vista doutrinário, a famosa questão, tão deba- tida, da referenda, vale dizer, da responsabilidade ministerial pelos atos do Poder Moderador. Era presidente do Conselho o austero senador Zacarias de Góis e Vasconcelos, o defensor dos bispos na

Questão Religiosa, um dos raros políticos do Império de ortodoxia

católica segura. Mas era um liberal moderado e não compreendia houvesse no quadro da monarquia constitucional um poder régio não incluído no poder executivo, ou, melhor, que um monarca pudesse decidir-se, por si, ex informata conscientia, a respeito de qualquer coisa – e escreveu todo um livro para provar sua tese.

Embora argumentando, com razão, que o regime do Brasil era par- lamentar, deduzia disso, contra notórios dispositivos constitucio- nais e uma doutrina geralmente admitida, que o imperador não podia exercer o Poder Moderador sem audiência dos ministros. Eis o que dizia Zacarias de Góis:

A frase delegado privativamente, que o artigo 98 aplica ao Poder Moderador, quer simplesmente dizer que, nesta parte da soberania nacional, diferentemente do que ficara assen- tado sobre o Poder Legislativo, a delegação é feita a um só, ao monarca, como as mais sãs noções de organização política e a experiência dos séculos exigiam, mas, ao monarca, está subentendido, aconselhado pelas luzes dos homens compe- tentes, porque ele não pode saber tudo, e servido por agentes responsáveis, porque é, e para que seja, inviolável e sagrado.38

E prossegue:

O advérbio – privativamente – é levado à altura de argu- mento irresponsável para dar ao Poder Moderador o caráter de um poder por assim dizer pessoal, com o qual nada 38 Da natureza e limites do Poder Moderador, Rio de Janeiro, 1862, p. 25.

tenham que ver os ministros de Estado, deve, decerto, por em sérios embaraços os que assim pensam, se quiserem explicar como, sendo esse poder puramente pessoal, a pró- pria Constituição determina em o artigo 142, que o impe- rador, todas as vezes que se proponha a exercer qualquer das atribuições de que se compõe, excetuando somente a do

§ 6º do artigo 101, ouça o Conselho de Estado, e, no artigo 143, que os conselheiros são responsáveis pelos conselhos que a tal respeito derem, como geralmente o são pelos que os mesmos proferem em negócios de pública administração, sendo opostos às leis e interesses públicos.

Se a delegação privativa do Poder Moderador ao monarca não impede a intervenção dos conselheiros de Estado com os seus conselhos e com a garantia de sua responsabilidade pelos conselhos que derem opostos à lei e aos interesses do Estado, manifestadamente deles, não é a circunstância de ser privativa a delegação que se há de achar motivo sufi- ciente para arredar os ministros de Estado não só do con- selho, senão da responsabilidade pela execução dos atos do Poder Moderador que forem ofensivos das leis ou dos inte- resses do país.39

E como das funções do Poder Moderador a mais importante politicamente era a escolha dos senadores, ele entra no assunto a defender a posição que mais tarde defenderia com o risco de pro- vocar uma crise de regime:

Na nomeação de senadores dificilmente poderá verificar-se o caso de responsabilidade legal, porque, enfim, trata-se de eleição, eleição em que, de listas tríplices oferecidas pelo corpo eleitoral, a Coroa escolhe o terço, salvo ainda ao Senado o seu direito de, na verificação dos poderes do nomeado, exa- minar e decidir se foi ou não regular a eleição respectiva.

Mas a responsabilidade moral em todo o caso existe, e dessa mesmo cumpre resguardar a Coroa, não havendo para isso outro meio senão lançar francamente a culpa à conta dos ministros, os quais, quando se desacreditam, não é coisa de grande consequência, porque, descendo do governo para pas- sá-lo a mãos dignas, não causam à sociedade maior abalo.40 39 Da natureza e limites do Poder Moderador, Rio de Janeiro, 1862, p. 25-26.

40 Ibidem, p. 55-56.

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Mas, como alegam os defensores do Poder Moderador, não seriam os ministros facciosos?

Responde ele:

Se as eleições são livres, é incompreensível como o Conselho e responsabilidade ministerial no exercício do direito, que tem a Coroa de nomear senadores, possam fazer acumular no Senado uma falange de aliados políticos de gabinete, quando tal eleição pode haver em que não venha um só dos amigos da administração [o que, aliás, acontecia...].

Se as eleições não são livres, e o governo influi eficazmente nelas, então o ministério, para fazer entrar gente só de seu lado no Senado, não há mister aconselhar o imperador na escolha, nem assumir-lhe a responsabilidade; basta que dê as suas providências para que na lista não venham senão amigos dedicados.

Demais releva não perder de vista que o direito de aconselhar a Coroa sobre a escolha de senadores e a responsabilidade ministerial nesta matéria não são títulos para o ministério impor a sua vontade ao imperador. A esse fica sempre livre a faculdade não só de afastar-se do voto do gabinete, mas até de demiti-lo, chamando ao poder quem não tenha o plano sinistro de fazer do Senado o castelo de seu partido, sendo, porém, certo que, em todo o caso, ou ministério se conserve ou se retire aquele ministro que referendar a carta imperial do senador, esse assumirá a responsabilidade do ato.41

Contra eles estavam Pimenta Bueno, Uruguai, Brás Floren- tino (que escreveu um livro imenso a respeito), e outros. O argu- mento dos conservadores era simples: a Constituição, inspiran- do-se em Benjamin Constant, criara um poder neutro, atribuído

“privativamente” ao imperador. A teoria desse poder neutro jus- tificava perfeitamente o texto adotado – aliás, a Constituição fora mais parcimoniosa do que Benjamin Constant, pois, enquanto o publicista incluía a nomeação de magistrados entre as funções do Poder Moderador, o que pareceu a muitos razoável, para evitar uma justiça facciosa, a Constituição incluiu essa atribuição entre as do Poder Executivo, dando ao Poder Moderador a função de suspender magistrados em caso de processo.

41 Da natureza e limites do Poder Moderador, Rio de Janeiro, 1862, pp. 59-60.

Ora, dirão todos os autores conservadores, o poder neutro somente poderia ser conferido a um magistrado neutro, o impe- rador. Um Poder Moderador sob o controle dos ministros seria um poder faccioso, e não realizaria o ideal da Constituição e dos tratadistas. Se nós nos colocarmos dentro do quadro intelectual dos redatores da Constituição e de seus principais comentaristas, a questão, era de fato, tranquila. Um poder neutro, incapaz de tomar iniciativas por si, não podendo governar por si, encarre- gado de fazer funcionar a Constituição e de manter a harmonia entre os Poderes, juiz entre as facções, um “poder suprapolítico”, como dirá Toynbee das monarquias do século XX, eis o que se pretendia. Hoje, aliás, sem que as constituições se manifestem a respeito, temos isso em todos os países de governo monárquico – e com êxito notório.

O importante é que o imperador D. Pedro II seguia a corrente que podemos considerar ortodoxa.

E como vagasse uma senatoria no Rio Grande do Norte, vindo na lista tríplice o visconde de Inhomirim, Francisco de Sales Torres Homem, financista de prestígio, outrora redator de um panfleto violentíssimo contra os Braganças e Bourbons, presentes, passados e futuros, mas afinal arrependido e hoje amigo de Sua Majestade, e mais dois políticos desconhecidos, o imperador preferiu Inhomirim. Zacarias quis um dos dois, pro- vavelmente amigo político seu (Amaro Bezerra). Diante da relu- tância imperial, Zacarias renuncia e recusa-se a colaborar, de acordo com as praxes parlamentares, nas conversações para a formação de novo governo. D. Pedro II, livre de chamar quem quisesse, convoca um conservador puro, o visconde de ltaboraí, para formar novo gabinete. Ora, a maioria da Câmara era liberal.

Depois de um debate terrível, que vamos transcrever, a Câmara votou desconfiança ao governo. Reunido o Conselho de Estado, numa sessão memorável, em que Nabuco dissera a D. Pedro II “o rei reina, mas não governa”, o imperador concede a Itaboraí a dissolução da Câmara.

Os liberais, revoltados, se omitiram. Os conservadores

garantiram-se por dez anos no poder, tranquilamente, e gover-

naram bem, convém lembrar. Um conservador de Itabira regozi-

ja-se e manda ao barão de Camargos, líder “saquarema” na terra

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montanhesa, uma carta eufórica, que transcrevemos para mostrar a reação popular:

Ilmo. Exmo. Sr. Comd. Manoel Teixeira de Sousa.

Dou a mim mesmo e a todo o Brasil sinceros parabéns pela acensão do Ministério Itaboraí, e com ele do Partido Con- servador puro e a nossa província pela escolha q. S. M. o Imperador fez de seu 1º-vice-presidente. E agora congra- tulo-me com V. Exa. pelos triunfos, q. o Exército Brasileiro tem obtido no Paraguai; e próxima e muito desejada termi- nação da guerra. Nunca pude comprehender consiliação em religião, e política, e sim seu contrário fui sempre avesso as diversas transações, que se apuraram desde que o Marques de Paraná dispontou essa ideia; por isso minhasexpressões de hoje são, de minha íntima convicção, puras, sinceras, e verdadeiras.

Por infermo procuro esquivar-me o muito possível da polí- tica, e vida ativa da sociedade, mas qualquerestado sempre as ordens de V. Exa. a quem desejo a muita saúde, e todas as felicidades e sou

De V. Exa.

Amo. velho, e obro. João Camilo de Oliveira Itabira

Girau 12 de agosto de 1868.

Mas havia um problema militar: o Brasil estava em guerra, na mais sangrenta das nossas guerras e, provavelmente, a mais mortí- fera e longa de todas as guerras travadas no Ocidente entre a queda de Napoleão e 1914. A guerra do Paraguai, provavelmente, foi a mais violenta luta armada da segunda metade do século XIX em todo o mundo. O Brasil, todavia, adotara um modo curioso de organizar o

front interno: não havia front interno. Não houve “união sagrada”;

as lutas partidárias continuavam do mesmo modo; não havia cen-

sura à imprensa; nenhuma providência se tomava para criar o clima

de união na luta. Somente o imperador e o povo das ruas pensavam

do mesmo modo: lutar e vencer. Os jornais conservadores de Minas,

por exemplo, acusavam ao governo Zacarias de mancomunado com

Lopes, e os liberais atribuíam aos conservadores as piores inten-

ções. Quando o imperador esteve no front de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, Ângelo Ferraz, seu ministro da Guerra, ameaçava demitir-se a todo pretexto, sabendo que, em plena campanha, D. Pedro II não tinha como arranjar novo ministro.

Mas Zacarias era liberal, e Caxias, o generalíssimo, conser- vador, dos puros. Mais ainda: detestavam-se cordialmente. Ora, as desavenças entre o chefe do governo e o chefe do exército num país em guerra conduzem, naturalmente, a crises sem fim. Da primeira vez que o assunto foi posto perante o Conselho de Estado, o famoso

“cérebro da monarquia” resolveu manter o status quo, nem demitir o comandante, nem o gabinete. A situação tornara-se afinal, insus- tentável – tanto que sempre houve quem admitisse que Zacarias criou uma crise artificial na escolha senatorial pelo Rio Grande do Norte para dar um pretexto para demitir-se em nome de um prin- cípio doutrinário, e não por motivo de guerra. Ele achava que seria humilhante para o governo ceder o passo ao general-chefe. Seria militarismo, fantasma que assombrava as noites dos homens libe- rais. Mas poderia alegar que salus populi suprema lex esto e, em caso de guerra, tudo deve ceder às necessidades de defesa.

Segundo se admite geralmente, com peso da autoridade de

Joaquim Nabuco, quem mais se alegrou com o caso foi D. Pedro

II, que poderia contar com seus auxiliares de maior confiança –

Caxias, para acabar a guerra; Itaboraí, para resolver os problemas

financeiros do conflito; Pimenta Bueno (marquês de São Vicente),

seu jurista predileto, para as reformas de base – abolição e reforma

eleitoral; o visconde do Rio Branco, seu diplomata preferido, para

enfrentar as questões de política externa, para organizar a paz. De

fato, todos esses homens governaram o Brasil no decênio conser-

vador. E tudo se resolveu a contento. E o que mais deve ter alegrado

ao imperador: sua filha maior, casada, podia ser a regente – e ele tirou

férias pela primeira vez e realizou o sonho de todo brasileiro – visitar

a Europa, como simples turista, tranquilo, conhecendo sábios,

falando pessoalmente com poetas, com algumas cenas meio ridí-

culas, mas quase feliz.

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