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As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707)

Capítulo 1: O Sagrado Laço do Matrimônio e o Processo de Habilitação

1.4. As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707)

América portuguesa e, em Minas Gerais, como corolário, foram normatizadas pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, editadas em 1707. A existência coetânea de dois dispositivos legais – um civil e outro religioso – pode ser explicada pela simbiose entre Estado e Igreja que marcou o período.

Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia36 dispõem uma série de normas que se baseiam no Catecismo Romano, editado durante o Concílio de Trento, cujo propósito principal residia em combater as práticas “heréticas” vigentes no Brasil.

Inspiradas claramente nas constituições estabelecidas, poucos anos antes, para Lisboa e Évora, semelhantes às obras de caráter religioso, produzidas em âmbito católico, Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia seguem a tradição cristã, as sagradas escrituras, o direito canônico e a patrística.

Ao definir a finalidade do sacramento, as Constituições valem-se de termos semelhantes àqueles utilizados pelo texto de Trento. É o que se observa no seu parágrafo 260:

Foi o Matrimonio ordenado principalmente para tres fins, e são tres bens, que nelle se encerrão. O primeiro é o da propagação humana, ordenada para o culto, e honra de Deos. O segundo é a fé, e lealdade, que os casados devem guardar mutuamente. O terceiro é o da inseparabilidade dos mesmos casados, significativa da união de Christo Senhor nosso com a Igreja Calholica. Alem destes fins é também remedio da concupiscencia, e assim S. Paulo o aconselha como tal aos que não podem ser continentes [sic].37

Em termos práticos, pode-se afirmar que suas disposições, vigentes para o território sob a jurisdição do Arcebispado da Bahia, buscavam normatizar e aplicar as normas e os interditos estabelecidos em Trento. As Constituições Primeiras vigoraram até 1899/1900, quando o Concílio Latino-americano editou nova legislação canônica. Portanto, a sua importância reside tanto no seu conteúdo, quanto na extensa temporalidade e no vasto território no qual foi aplicada.

O sacramento do matrimônio é contemplado no Livro 1º, dos títulos LXII a LXXIV, que tratam de todos os seus pormenores, desde as condições para se realizar a cerimônia, passando por seus impedimentos, até a forma de se celebrar o rito e de se registrar o ato nos livros paroquiais.

É importante apontar que,

36 Constituições /Primeiras /do /Arcebispado da Bahia /feitas, e ordenadas /pelo Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor /D. Sebastião Monteiro da Vide, /5º Acerbispo do dito Acerbispado, e do Conselho /de Sua Magestade: /propostas, e aceitas /em o Synodo Diocesano, que o dito Senhor /celebrou em 12 de junho do anno de 1707. /Impressas em Lisboa no anno de 1719, e em Coimbra em /1720 com todas as Licenças necessárias, e ora /reimpressas nessa Capital. /São Paulo. /Na Typographia 2 de Dezembro /de /Antonio Louzada Antunes. /1853

37 Constituições Primeiras do Acerbispado da Bahia. Título LXIV §285, p.107

para seus casamentos constarem do rol dos registros matrimoniais católicos, com efeitos reconhecidos pelos tribunais civis, homens e mulheres, entre os séculos XVI ao XIX, precisaram minimamente de cumprir as exigências da Santa Madre Igreja, arcando com o ônus que isso importava. Ou criar artifícios engenhosos para burlar tais exigências.38

Da mesma forma, as populações que estavam regidas pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, universo onde se encaixa as famílias aqui analisadas, se ansiassem pela oficialização de suas uniões, deveriam seguir, cautelosamente, o disposto nessa legislação, ou então, como sugere Andreazza, do contrário, restava-lhes burlá-las de modo criativo, buscando não despertar a ira das autoridades locais.

As Constituições previam, nas entrelinhas, até mesmo as horas do dia nas quais poderiam ser celebradas as núpcias, ao recomendar no Título LXVIII que o ofício deveria ocorrer durante uma missa. Como outro artigo determinava que estas só poderiam ser realizadas na parte da manhã,39 a partir do nascer do sol, até o meio dia, infere-se que os casamentos eram celebrados nesse mesmo intervalo de tempo. O matrimônio exigia um ofício próprio, denominado pro sponso, et sponsa, que era composto por leituras e ritos específicos. Entretanto, é importante apontar que casamentos em horários diferentes não eram proibidos, mas necessitavam de

“especial licença”, concedida pelo bispo local. Estabelecia-se, ainda, que os noivos precisavam estar em “estado de Graça” para receberem as bênçãos nupciais, ou seja, deveriam previamente se confessar com o reverendo vigário. A forma do rito é determinada pelos parágrafo 287 e 288:

Constando ao Parocho, ou outro Sacerdote, que com licença sua, ou nossa houver de assistir ao Matrimonio, que estão feitas as denunciações, e não ha impedimento para se celebrar, estando presentes os noivos para ele os receber, e duas ou tres testemunhas, tomará sobrepeliz, e estola, e, havendo de dar logo as bênçãos, tomará tambem a capa de asperges, se a houver, e declarará ao povo que as denunciações se fizerão, e não sahio impedimento algum, ou que estão dispensados os noivos no impedimento que sahio, e que se alguma pessoa sabe de outro o diga, antes de se celebrar o Matrimonio. E logo lerá no Ritual o que nelle se ordena para sua administração, e perguntará aos noivos, se querem casar de suas livres vontades, e dizendo elles que sim, os receber, ajuntando-lhes as mãos direitas, como no Ritual se ordena,

38 ANDREAZZA, Maria Luiza. Cultura Familiar e Registros Paroquiais, p.143.

39 CAMPOS, Adalgisa Arantes. As irmandades de São Miguel e as Almas do Purgatório: culto e iconografia no setecentos mineiro. Belo Horizonte: Com Arte, 2013, p.130ss.

e fará que digão primeiramente a mulher, e successivamente o homem as palavras seguintes:

A MULHER.

Eu N. recebo a vós N. por meu marido, como manda a Santa Madre Igreja de Roma.

O HOMEM.

Eu N. recebo a vós N. por minha mulher, como manda a Santa Madre Igreja de Roma.

Por estas palavras se exprime o mutuo consentimento, e fica verdadeiramente contrahido o Matrimonio de presente, e logo o Parocho, ou Sacerdote que assistiu dirá:

Ego vos in Matrimonium conjugo, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen,

Havendo de dar as bençãos fóra da Missa continuará com ellas, como no Ritual se ordena. Porém encarregamos muito ao Parocho, ou Sacerdote, que houver de dar as bençãos, e aos noivos que as houverem de receber, procurem, quanto for possivel, que este oficio se faça na Missa, que a Igreja instituo PRO ESPONSO, ET SPONSA, na qual tem ordenadas as taes bênçãos [sic].40

O casamento deveria ocorrer, obrigatoriamente, na paróquia em que os nubentes habitavam e, segundo François Lebrun, quando um dos nubentes era oriundo de outra freguesia do mesmo bispado, eram necessários seis meses de residência no local escolhido para se tornar freguês e, assim, poder celebrar o casamento. Mas esse prazo se estendia para um ano, caso se tratasse de paróquia localizada em outro bispado.41 Como era muito comum os noivos não residirem no mesmo local, as Constituições Primeiras delegavam aos contraentes a decisão de em qual das duas paróquias ocorreria a celebração do consórcio. Entretanto, era hábito arraigado na sociedade brasílica, mais comumente, optar pela comunidade da noiva.

Essa legislação também versa sob a fórmula adequada que os vigários deveriam adotar para registrar os matrimônios nas atas paroquiais. O texto deveria apresentar o seguinte formato:

Aos tantos de tal mez, de tal anno pela manhã, ou de tarele em tal Igreja de tal Cidade, Villa, Lugar, ou Freguezia, feitas as denunciações na forma do Sagrado Concilio Tridentino, nesta Igreja, onde os contrahentes são naturaes, e moradores, ou nesta, e tal, e taes Igrejas, onde N. contrahente é natural, ou foi, ou é assistente, ou morador, sem se descubrir impedimento, ou tendo sentença de dipensação no impedimento, que lhes achão, como consta da certidão, ou certidões dos banhos, que ficão em meu poder, e

40 Constituições Primeiras do Acerbispado da Bahia. Título LXIV §285, p.119-20.

41 LEBRUN, François. A vida conjugal no Antigo Regime, p.48.

sentença que me apresentárão, ou sendo dispensados nas denunciações, ou differidas para depois do Matrimônio por licença do Senhor Arcebispo, em presença de mim N. Vigario, Capellão, ou Coadjuntor da dita Igreja, ou em presença de N. de licença minha, ou do Senhor Arcebispo, ou do Provisor N., e sendo presentes por testemunhas N, e N pessoas conhecidas, (nomeando duas, ou tres das que se acharão presentes) se casarão em face da Igreja solenemente por palavras N. filho de N. e de N., natural, e morador de tal parte, e freguez de tal Igreja, com N. filha de N. ou viuva que ficou de N. natural, e morador de tal parte, e Freguezia desta, ou de tal Parochia: (e se logo lhe der as bênçãos acrescentará) e logo lhe dei as bençãos conforme aos ritos, e ceremonias da Santa Madre Igreja, do que tudo fiz este assento no mesmo dia, que por verdade assignei [sic].42

Tal normatização revela a importância dada pela igreja ao rito e, por conseguinte, às atas paroquiais que sacramentavam o registro do mesmo. Ainda que, na América portuguesa, nem sempre tais registros tenham seguido estritamente o determinado nessa legislação, estes constituem, ainda hoje, vasto acervo documental, que possibilitam ao pesquisador traçar trajetórias e reconstituir redes de sociabilidades. Segundo Maria Luíza Andreazza, os registros paroquiais conformam um dos atos finais da política de modelagem da família ocidental, empreendida por Roma, segundo a doutrina cristã.43

A fórmula fixa dos registros paroquiais deveria ser iniciada pela data da celebração do sacramento. Aquilo que pode ser considerado uma banalidade, ao leitor desavisado, possuía, para a Igreja Tridentina, séria relevância, pois

formalizado juridicamente pelo direito canônico, o matrimônio consiste num contrato bilateral, cujos efeitos iniciam no momento da celebração. Desde o século XII, a questão matrimonial foi da alçada da Igreja e, dadas suas implicações civis, cabia não descuidar da data precisa do início do consórcio.44

Paralelamente ao valor contratual do matrimônio, havia ainda outra implicação que resultava da determinação exata do dia do sacramento: a idade dos nubentes, pois, seguindo o determinado em Trento, as Constituições Primeiras estipulam em 14 anos para os homens e 12 para as mulheres, sua idade mínima. Da mesma forma, determinam a obrigatoriedade da presença de testemunhas, pois a publicidade da cerimônia matrimonial era fundamental para sua legitimação frente à

42 Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Título LXXIII, p.130.

43 ANDREAZZA, Maria Luiza. Cultura Familiar e Registros Paroquiais, p.143.

44 ANDREAZZA, Maria Luiza. Cultura Familiar e Registros Paroquiais, p.144.

sociedade. O descumprimento destas prerrogativas implicava a não validação do ato enquanto sacramento.

Não menos importante era a exigência da abertura prévia de um processo de habilitação matrimonial, antes da cerimônia em si, no qual seriam esmiuçados os por menores da vida dos noivos e discriminados os impedimentos ao ato. Isso foi disposto nos títulos LXIV a LXVII e será esmiuçado a seguir.

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