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Antes de nos debruçarmos sobre a análise das entrevistas realizadas, gostaríamos de elucidar alguns questionamentos e inquietações que foram geradas nesse processo, in loco, antes mesmo de começarmos a realização das entrevistas.

A primeira apreensão que é bastante perceptível no CRAS é a ampla participação feminina e a parca ou inexistente participação masculina, seja nos grupos, programas ou acompanhamentos. Como já elucidado no capitulo anterior, a política de Assistência Social, tem desempenhado um contraditório papel tendo em vista a centralidade da família nesta política publica. Por um lado tem contribuído para mudar os padrões patriarcalistas quanto ao sustento das famílias, e possibilitado maior autonomia para as mulheres, mas, por outro lado, tem contribuído para fortalecer as desigualdades de gênero, pois, afere maior grau de responsabilização para as mulheres, entendendo-as como as responsáveis pela formação da casa e dos filhos.

A segunda tem forte relação com a terceira apreensão, é a cultura do medo, que persegue os usuários da política de Assistência Social e mais especificamente os beneficiários do programa Bolsa Família. Por um lado compreendemos que as entrevistas representa o

“novo” e causa realmente estranhamento, no caso dessas pessoas que sobrevivem com diversas vulnerabilidades isso torna-se ainda mais agravante. Por outro lado, a cultura da tutela e a própria historia da Assistência Social engendrou um profundo imaginário social dos programas sociais como “favor” e “benesse”, portanto, para a realização dessas entrevistas tivemos que contar com determinadas estratégias, como por exemplo, contar com agentes locais que já tem certa relação com os usuários, pois, o medo da perda, do corte da segurança

através da transferência de renda que o Programa Bolsa Família afere, sempre foi elucidado pelos interlocutores, seja pelas falas, seja pelas expressões.

É preciso então que o debate que enseja este campo social seja modificado, entendendo que a:

Análise do processo de reposição/ruptura com a condição subalterna passa assim não apenas pelo enfrentamento das dificuldades materiais objetivas das condições em que vivem os subalternos, mas pelo que pensam e consideram acerca desta realidade que vivenciam (YAZBECK, 2009, p.

182).

Nossa terceira apreensão também foi bastante “inquietante”, pois lida diretamente com questões subjetivas e de cotidiano dos usuários. - A “ausência da dimensão e da apreensão da categoria direito”, sendo que muitas vezes no processo da entrevista, esta categoria tornou-se ausente e desconhecida para estas mulheres, quer pela historia recente de rompimento com diversos padrões de precarização, quer pela própria ausência da formação de uma cultura do direito de forma universal, pois, ainda encontramos em muitas realidades uma forte cultura da obrigação, e a lógica do “baixar a cabeça” que se reproduz nas vivências dessas famílias e é explicitamente notada nas falas das entrevistadas. A categoria direito passou a ser usada como um “termo”, que na maioria das vezes fora usado pelas entrevistadas para demonstrar a possibilidade de adquirir algo material, ou de uso cotidiano. Segundo Couto et al (2012, p.241) “A transição das praticas de favor para uma política de direitos necessita de arcabouço, não só legal, mas também político para estabelecer relação e possibilitar um período adaptativo institucional”.

Nossas interlocutoras foram respectivamente a Luciana46, Ana, Rosa e Suellen, todas mulheres entre os 35 e 42 anos. Em relação à auto-declaração racial, ficaram entre pardas e negras. Quanto a religião, 3 são católicas e apenas 1 afirmou ser do candomblé. Quando questionadas47 sobre, desenvolvimento de alguma atividade de trabalho (formal ou informal), 2 delas afirmaram trabalhar: fazendo artesanato e/ou autônoma, e 2 estão desempregadas.

46 O nome das entrevistadas foi preservado, por diversas questões, que envolvem desde as possíveis

“perseguições” que ainda ocorrem nas realidades municipais, como pelo próprio compromisso assumido com nossas interlocutoras. Ao invés de colocar seus próprios nomes, sugerimos a elas, que elas próprias pudessem se renomear, no sentido de dotar-lhes de protagonismo no processo de elaboração desse trabalho, por se constituir das suas vivências, angustias e perspectivas. Portanto cada nome foi elaborado pelas próprias entrevistadas.

47 As falas foram colocadas de forma idêntica como relatadas pelas interlocutoras, por compreender a importância da captação dos sentimentos expressados na linguagem.

Nossa primeira interlocutora foi a Luciana, quando questionada sobre o por que procura a Assistência Social, ela relata: “Por causa de um curso, aqui a gente fez muito curso aqui, no CRAS mesmo, na outra gestão, aí nosso nome ficou aqui na ficha aí mandaram chamar a gente denovo”. Já Ana, quando questionada sobre a procura, é enfática: “Porque as vezes a barriga aperta. É porque as vezes a situação mesmo, é que não [...], como é que eu posso dizer, é que as vezes eu preciso mesmo, entendeu”? Rosa, nossa terceira interlocutora, em relação a mesma pergunta afirma: “(Risos)[...] a Assistência Social? Para dar atenção as pessoas né, as mais necessitadas”. Já Suellen, responde: “Não sei, aqui eu procuro por que eu venho trazer minha menina pra fonoaudióloga”.

Diante das repostas, que variaram entre: realização de cursos, atendimento aos mais necessitados e acompanhamento profissional, compreendemos que a nova concepção da política de Assistência Social, a de política de direitos e cidadania, ainda não está amplamente consolidada. É necessário verificar e buscar melhores estratégias para a desconstrução dessa histórica lógica do não direito no imaginário social, que foi construída na política de Assistência Social e perdura em muitas realidades municipais, desta forma “especificar área de atuação para a assistência social significa romper com a hegemônica concepção de que é uma política de atenção aos pobres, aos necessitados sociais, aos frágeis e carentes”

(SPOSATI, 2009, p.14).

As interlocutoras também foram questionadas sobre: para que serve a Assistência Social? Luciana com alegria nos relata: “Pra tudo, a pessoa tá preocupada, chega aqui conversa com uma pessoa, conversa com outro, quando a gente sai daqui, já sai bem aliviada bem relaxada, sem problema nenhum”. Ana discorre que para ela a Assistência Social:

Rapaz, eu acho que é pra dar uma sustabilidade pras pessoas mais necessitadas, eu acho”.

Rosa segue esta mesma linha e afirma que: “(Risos)[...] a Assistência Social? Para dar atenção as pessoas né, as mais necessitadas. Suellen, quando questionada, afirma: “Não sei”.

Apesar de a primeira resposta demonstrar certo grau de melhoramento da autoestima das usuárias, as outras ainda são preocupantes, essas respostas reafirmam ainda a baixa consolidação da cultura do direito que vem sendo fortalecida na política de Assistência Social e mais ainda, a ausência de conhecimento do para que realmente objetiva seus serviços.

Elas também foram questionadas se sentiam que faltava algo na Assistência Social.

Luciana nos afirmou que: “Por enquanto pra mim tá bom, numa parte tá bom, só falta assim, que nós não estamos ainda fazendo artesanato nesta parte, que na outra gestão começava

assim, culinária, depois artesanato, assim...”. Já Ana relatou: “Rapaz, assim, falta assim, como eu posso dizer, as vezes distribuição de cesta básica, porque aqui em Muritiba, tem muitas famílias necessitadas mesmo, entendeu? Aí poderia fazer isso”. Rosa nos afirmou que não falta nada na Assistência Social. E Suellen afirmou que: “Eu acho que não, tá bom, porque, o que eu vim procurar aqui eu achei e pra mim tá certo”.

Articulando a ultima pergunta com as anteriores e suas respectivas respostas, compreendemos que torna-se muito difícil mensurar a ausência de algo na Assistência Social por parte dos usuários, pois, ao não se ter a determinada dimensão sobre, as responsabilidades de atuação da política e consequentemente, em que casos procura-la fica também muito difícil delimitar o sentimento de que falta algo, desta forma, passando de uma demanda comum, para o campo das espontaneidades e particularidades.

No que se refere ao recebimento do Programa Bolsa Família, questionamos sobre o conhecimento de por que recebem e o que representava na vida delas e das suas famílias.

Luciana quando questionada se sabia o por que recebia nos diz:

Não sei responder essa pergunta, porque quando saiu esse projeto, aí disse que todo mundo tinha direito, aí eu fui procurar, agora quantos anos tem eu não sei nem responder, que eu comecei recebendo 7 reais, que era o vale gás, aí nisso aumentou, que agora é 102 reais.

E quanto ao que representa na sua vida e de sua família:

Pra mim, porque serve pra eu comprar um remédio, principalmente pra mim que eu tenho problema de pressão, algum alimentozinho que eu nem tô, que nem todas coisas eu posso comer, como mais coisa integral, é o único beneficio que eu tenho, é esse que eu tô com 61 anos e não consegui me aposentar.

Já Ana, quando questionada se sabe o por que recebe: “Porque eu sou uma família de baixa renda, eu acho, né, família de baixa renda”. E o que representa:

Ai meu Deus, muita coisa, porque eu tenho uma filha que ela é diabética, ela tem 12 anos, e quando eu descobri eu não recebia, tem mais ou menos 2 anos que eu comecei a receber né, dois anos e meio, e foi uma segurança pra mim, não tanto pra mim, mas, pela minha filha, porque ela tem uma dieta, e eu tava sem trabalhar, chegou numa boa hora, eu tenho 2 filhos, uma de 17 e outra de 12, e foi bom pra mim, principalmente pra minha filha, por que meu filho ainda faz os biscates dele, entendeu? Foi bom, porque já ajuda a pagar um gás, pagar água, luz, não vou dizer que dá pra passar um mês, mas, acho que, 40% já ajuda bastante.

Rosa, em relação as mesmas perguntas afirma: “Sei, pras pessoas de renda inferior né, que não tem possibilidade de fazer como outras pessoas, as vezes falta alguma coisa assim e já cobre, o dinheiro do bolsa família já cobre”. E o que representa: “Eu achei o programa muito bom, porque eu mesmo estou desempregada agora e esse dinheiro já me serve bastante”.

Suellen, questionada se sabia o por que recebe: “No começo era o bolsa escola, depois passou pra vale gás e a pessoa recebe por que é do fome zero né, alguma coisa assim”. E o que representa:

Pra mim no momento tá me ajudando, porque no momento eu to desempregada, tenho três filhos pequenos e não tenho com quem deixar, arrumar trabalho só em casa de família e paga pouco e eu fico com medo de colocar qualquer outra pessoa pra tomar conta da minha filha e maltratar e eu ganhar pouco e não ter como pagar uma pessoa.

Apesar de no questionamento do por que recebe o Bolsa Família, algumas das interlocutoras, não ter certa apropriação, deste programa social, como direito social conquistado, por outro lado na questão do que representa para elas e para as famílias, é consenso a perspectiva da segurança de algumas necessidades básicas como a alimentação e outras questões, desempenhando um importante e estratégico papel na quebra da reprodução da miséria. Este programa em articulação com os serviços da Assistência Social e um processo de estruturação de serviços públicos, pode potencializar a superação dos padrões de precarização que ainda possam perdurar.

As interlocutoras também foram questionadas sobre: se já se sentiram discriminadas na fila, quando da busca do dinheiro ou se já ouviram algum tipo de comentário preconceituoso sobre quem recebe? E, se elas acreditam que quem trabalha tem mais direitos do que quem não trabalha e sobrevive apenas com o Bolsa Família?

Luciana, quando questionada sobre se já foi discriminada:

Não, de jeito nenhum, que eu saiba por enquanto não, já ouvi dizer que algumas pessoas quando chegava pra retirar não tava na conta. Por que as crianças não tava indo pro colégio certo. Quem tem criança, tem que seguir o colégio certo, pra não ser cortado. E quem tem as crianças e não tá mais recebendo fica pra mãe”. Eu acho, porque as pessoas, nem tanto eu, porque eu preciso não vou dizer que não preciso, mas, tem mais gente aí, que precisa mais do que eu, porque se a criança não está indo no colégio, tudo

bem que eu acho que seja culpa dos país, mas, eu achava que não devia cortar o beneficio.

E na questão sobre quem trabalha ter mais direitos, ela afirma:

Eu acho que quem recebe o bolsa família tem mais direito, eu acho, porque quem trabalha, ou ruim ou bom tem o seu dinheiro, ou por mês ou por semana, depende do trabalho, porque eu acho assim, se eu mesmo fosse aposentada, eu mesma já tinha ido lá dizer que eu tava aposentada, pra já ir pra outra pessoa, porque ruim ou bom eu tenho aquele meu todo mês certinho.

Já Ana em relação a já ter sido discriminada afirma:

Já, até mesmo fora da fila, a gente escuta, a gente vai tirar e ficam, e não é baixo não escuta alto,- tá lá tirando o dinheiro do governo, é por isso que tá gorda, é por isso que não quer trabalhar. Mas, a cidade é pequena não tem trabalho, se tivesse trabalho, acho que a maioria tava todo mundo trabalhando. Eu preferia trabalhar, eu acho que é uma garantia mais que o bolsa família, porque a qualquer momento eu posso perder, e o trabalho não, o trabalho a gente vai levando, a gente fica desempregada tem o seguro desemprego, a gente também pensa no seguro desemprego, mas, até o seguro desemprego acabar, a gente pode conseguir outro trabalho e o bolsa família não chega um momento a gente pode perder iai pronto”.

Sobre quem trabalhar ter mais direitos, nos diz:

Rapaz, essa pergunta eu nem sei responder, assim né. Eu acho que todos são iguais, pra mim né, mas, assim, as vezes eu também tenho preconceito né, porque tem muita gente que se escora só nesse dinheiro da bolsa família. As vezes tem gente que tá trabalhando e tá recebendo a bolsa família, mas como dizem assim, que quem trabalha não tem direito de receber o bolsa família, iai, eu já fiquei sabendo que tem o mesmo direito, pra mim tem o mesmo direito.

Rosa, em relação a discriminação nos afirmou que:

Não, não, nunca ouvi não, aliás, eu já ouvi assim, no caso que a pessoa tá engravidando pra receber o [...] mas, aí não é o bolsa família é o bolsa maternidade né, já é outra coisa [...] (risos), diz que tá engravidando só pra receber o bolsa família.

Na segunda pergunta, sobre quem trabalhar ter mais direitos, ela diz que:

Que eu acho assim, que o bolsa família também não é você ficar acomodado só com ele não, por que ele não dá pra muita coisa assim não, só pra algumas coisinhas que falta, é ruim com ele, pior sem ele, mas, também ali com ele não dá pra tanta coisa assim, porque o bolsa família é uma coisa

provisória, a pessoa não pode se acomodar só com o bolsa família, a pessoa tem que correr atrás de um emprego na verdade.

Suellen quanto à questão da discriminação afirmou que nunca se sentiu discriminada.

Na segunda questão ela afirmou que: “Eu acho que não, eu acho que o direito tem que ser igual, porque diz que o bolsa família é um beneficio pra quem mais precisa, e se você não recebe o bolsa família, é porque você trabalha e não precisa”.

Nas respostas acima podemos apreender vários determinantes, que perpassam desde a interiorização e reprodução dos preconceitos pelos próprios beneficiários, e que são gerados ideologicamente na sociedade que privilegia o “cidadão trabalhador”, e, mas, por outro lado, pelo próprio discurso das interlocutoras, podem-se desconstruir muitos desses preconceitos.

Por exemplo, nas perguntas abaixo, quando questionadas sobre a preferência de trabalhar ao invés de receber o dinheiro do programa, a maioria afirma que sim, preferia estar trabalhando, tanto porque é um dinheiro maior, por questões subjetivas ou porque seria mais “certo”, demonstrando a apreensão da carga de estigmas.

Apesar de algumas encararem o dinheiro do programa como um direito, mesmo que não tenham a dimensão do que seja categoria direito, muitas delas encaram o fato de receber o dinheiro do programa e não encontrar trabalho como um “fardo”, pois, são estereotipadas e consequentemente fazem parte de um subgrupo que tem uma identidade atribuída, como dependentes da histórica ajuda e da caridade.

Em uma das entrevistas o que também nos chamou a atenção é o aparecimento da contradição que as condicionalidades podem gerar. Por um lado, podemos enxerga-la como uma estratégia em longo prazo, para melhorar índices de saúde e educação, por outro lado, por ser obrigatório contribui para a não quebra do dever, do merecimento, da contrapartida, configurando-se como um “jogo de trocas”.

A ultima pergunta que vamos elucidar, foi questionando se elas preferiam estar trabalhando ao invés de receber o Bolsa Família. Luciana em relação a essa questão afirmou:

Eu queria tá trabalhando, mas, só que minha idade não impede mais. Por que aí é outra coisa pra mim, eu ficava fora um pouco da casa, ficava um pouco mais pra cima, vendo mais gente, ia conhecer mais outras pessoas”. Já Ana quando questionada, coloca como uma opinião geral:

Eu acho que a maioria preferia tá trabalhando, porque eu vejo assim, muita mãe falando que o dinheiro não dá pra passar um mês, se tivesse trabalhando

seria bem melhor, as vezes junto com o bolsa família, até pra juntar os dois dinheiros entendeu? Porque assim, a gente fala um salário não dá pra passar um mês, mas, dá porque na minha casa tinha, eu, meu pai, minha mãe, meus dois filhos e minha mãe ainda ajudava meu irmão, que morava em santo amaro, era um salário, né apertando um pouquinho de um lado, apertando do outro mas, dá pra passar, a gente nunca passou fome. Se tinha um pão pra passar de manhã, a gente dividia pra três, quatro, cinco pessoas, ninguém morreu tá todo mundo vivo.

Rosa nesse quesito afirmou: “Eu preferia tá trabalhando, a porque o trabalho é mais certo, o salário é mais, o dinheiro é mais, quer dizer, bem melhor”. Tendo em vista o fluir da entrevista, a questionamos sobre se quem trabalha é mais bem visto na sociedade, ela completa: “É bem mais visto, por que ali a pessoa tá ganhando do próprio suor, e o bolsa família o povo acha que ta ganhando ali às custas do governo né”.

Já Suellen em relação a preferir estar trabalhando, nos diz: “Gostaria, porque eu acho que trabalhando eu ia ganhar mais, e eu ia poder ter minhas coisas melhor”.

Essas mulheres que tem em comum a vivência cotidiana com padrões de precarização e que podem contar com os serviços e benefícios da Assistência Social têm passado por algumas mudanças que são perceptíveis nas suas falas, mas, que ainda está longe de se configurar como um contexto de autonomia humana. A questão material, ou seja, a possibilidade de não passar mais privações como a de alimentação, é o primeiro passo para a garantia de uma mudança maior e o aprofundamento da justiça social. A experiência da histórica estigmatização por suas condições materiais, aliada a ausência das políticas publicas universais de incentivo ao direito de cidadania, somado com a cultura política enviesada, da tutelagem, do apadrinhamento, do clientelismo e do coronelismo, engendraram uma profunda concepção de inferioridade, não apenas material, mas, uma que extrapola o palpável, e que ainda perdurará por bastante tempo.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mediante ao estudo realizado para a concretização deste trabalho, que percorreu desde a formação e desenvolvimento do Sistema de Proteção Social brasileiro, incluindo a política de Assistência Social neste processo e também buscando desvelar a dinâmica, o perfil e as questões subjetivas que perpassam o cotidiano dos demandantes da Assistência Social, chegamos a algumas conclusões.

Nesta sociedade baseada em classes, em que uma se apropria das riquezas e imprime sua cultura e a outra vende e nega suas capacidades intelectuais, braçais e culturais, o desafio é potencialmente maior, quer pelo processo fundante que baseia esta sociedade, a contradição, quer pela ausência ou atraso da constituição de uma consciência coletiva.

Na primeira colocação, os processos de intervenção social como as formas de proteção social, as políticas publicas e o próprio Estado, são espaços contraditórios, hora engendram padrões de bem-estar, hora reproduzem as desigualdades. Na segunda, que é diretamente influenciada pela primeira, a consciência a que estamos nos remetendo, faz menção a um processo lento, reflexivo e de ação política pelos indivíduos que buscam a Assistência Social, seu entendimento enquanto classe e a tomada de consciência do seu potencial de superação. Neste quesito, estamos nos referindo ao incentivo à apropriação da sua própria historia e também o entendimento do “lugar” e das circunstancias que se ocupa na realidade social.

A parte da história que a Assistência Social se baseava na contramão dos direitos e seus resquícios, a cultura política e a construção de um imaginário social que reforça a opressão, seja com quem não detém de muitos níveis materiais, ou pela composição familiar, por raça, gênero, sexualidade, condições de moradia, escolaridade, ocupação no mercado de trabalho entre outros, potencializa e superdimensiona o “viver precário, o baixar a cabeça”, lógica a que muitos usuários da Assistência Social estão submetidos.

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