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A fim de compreender a efetivação do atendimento a crianças de até três anos no processo de conveniamento estabelecido com o poder público municipal, faz-se mister contextualizar as instituições que as crianças matriculadas pelo município frequentam.

Vale lembrar que, para fins de anonimato, as instituições serão denominadas com nomes de planetas, sendo: Creches Netuno, Urano, Saturno, Júpiter (unidades 1 e 2), Vênus e Mercúrio, respectivamente. Além disso, identificaremos todas as instituições como “creche”, tendo em vista que o processo de conveniamento se destina apenas às crianças de 0 (zero) a 3 (três) anos de idade.

No início deste estudo, havia nove instituições conveniadas com o poder público. Contudo, uma delas encerrou o contrato com a prefeitura, resultando em oito.

Além disso, em meados de 2020, os proprietários da Creche Júpiter compraram outras duas instituições conveniadas, resultando em três unidades com os mesmos nomes e proprietários, passando a ser denominadas de Júpiter unidades 1 e 2, já que a terceira unidade, situada na região central e inaugurada recentemente, não contempla vagas públicas.

Todas as instituições situam-se na área central do município, com exceção das Creches Júpiter, unidades 1 e 2, que se localizam no mesmo bairro. Em relação à estruturação física, com exceção da Creche Vênus, as demais possuem suas instalações em espaços que antes eram residenciais, algumas delas de dois andares, os quais foram reformados ou transformados em espaços institucionais, como veremos no relato das famílias nos próximos capítulos.

No quadro a seguir, com base em dados disponibilizados pelos representantes do CONSEME, cujas informações são do mês de novembro de 2021, elaboramos uma relação do quantitativo de crianças da rede pública que são atendidas nas instituições particulares conveniadas ao município e crianças que são atendidas propriamente na rede particular.

Quadro 5 - Quantitativo de atendimento via convênio e particular

Fonte: elaborado pela autora para fins de pesquisa.

A Creche Netuno caracteriza-se por ser a segunda instituição que mais possui vagas públicas, contando com 86 (oitenta e seis) crianças matriculadas. As Creches Urano e Saturno totalizam igualmente cerca de 40 (quarenta) matrículas do município.

Vênus e Mercúrio possuem em torno de 30 (trinta) e 50 (cinquenta) crianças do município, respectivamente, sendo esta última com atendimento exclusivo para crianças da rede pública. Em relação às Creches Júpiter, as duas unidades somam 161 (cento e sessenta e uma) vagas públicas, constituindo a instituição com maior número de venda de vagas e com atendimento para crianças do município, exclusivamente. Em outros termos, essa instituição abrange somente as vagas via conveniamento, o que indica a privatização do ensino, definida como a “transferência para o setor privado de propriedade de dado setor público com vistas a transformá-lo em uma instituição de e para o mercado” (BORGHI; BERTAGNA, 2016, p. 509).

Além disso, como podemos observar no quadro 5, com exceção da Creche Vênus, as instituições possuem matrículas em maior número da parceria com o município do que precisamente da rede particular, além daquelas que atendem exclusivamente crianças da rede pública. Em relação a isso, o site BC notícias26 afirma

26 Disponível em https://www.bcnoticias.com.br/balneario-camboriu-assina-convenio-para-compra-de- 271-vagas-nas-creches/. Acesso em 12 nov. 2021.

INSTITUIÇÃO CONVÊNIO PARTICULAR TOTAL

NETUNO 86 16 102

URANO 41 30 71

SATURNO 40 30 70

JÚPITER – UNID. 1 121 NÃO POSSUI 121

JÚPITER – UNID. 2 40 NÃO POSSUI 40

VÊNUS 32 102 134

MERCÚRIO 49 NÃO POSSUI 49

que “o edital de compra de vagas foi feito com base num levantamento realizado em parceria com a Associação de Micro e Pequenas Empresas e Empreendedores Individuais de Balneário Camboriú (AMPE) que possui 19 escolas associadas”. Em uma entrevista ao mesmo site, o atual presidente da AMPE relata que:

Desde 2013 a gente vem lutando para que esta conquista chegasse. E hoje conseguimos, graças ao prefeito que se sensibilizou. São empresas que talvez ano que vem não tivessem funcionando e graças a essa parceria vai dar um gás, vai conseguir manter emprego, vai ajudar os pais que estavam sem onde deixar as crianças, então ajuda todo mundo. (BC NOTÍCIAS, on- line)

Diante do fato, surge o questionamento: qual o objetivo da educação? “Salvar”

escolas privadas que seriam fechadas? Assim, depreende-se que a relação público- privada na educação “reconstitui a educação pública como uma indústria de serviços de educação a ser governada, como parte da construção de uma sociedade de mercado” (ROBERTSON; VERGER, 2012, p. 1135). Nesse levantamento, constatamos que, para além da ideia de “ajudar os pais que estavam sem onde deixar as crianças”, retrocedendo a Educação Infantil como sendo unicamente um espaço para guarda e cuidado da criança e sem mencionar a preocupação com a qualidade da oferta de ensino, em uma lógica mercadológica, as instituições geram lucros e empregos, formando assim, por meio da parceria, um “guarda-chuva perfeito”

(ROBERTSON; VERGER, 2012) para o município, para a família e para a economia local. Mas, e a criança?

Na próxima seção, apresentaremos as propostas pedagógicas que, embora conscientes que sozinhas não garantem qualidade tampouco efetividade na prática, constituem-se como um dos primeiros passos para uma educação de qualidade, elencado pelo Parâmetros Nacionais de Qualidade da Educação Infantil (2018). Por esse motivo, consideramos que o direito da criança a uma infância digna não se limita ao seu direito de ter uma vaga garantida, sendo importante também verificar em que condições esse direito se efetiva (BARDELA, et al, 2014). Para tanto, conhecer as propostas que as instituições oferecem para as crianças, seja na rede pública, seja na particular, assim como observar se elas estão em consonância com a proposta curricular municipal, é fundamental para um atendimento de qualidade.

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